{"id":751,"date":"2008-12-21T23:35:54","date_gmt":"2008-12-22T02:35:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=751"},"modified":"2025-12-24T13:03:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:54","slug":"glauber-rocha-com-pipoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=751","title":{"rendered":"Glauber Rocha com pipoca?!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sim, inaugurou finalmente o <strong>Unibanco ArtePlex Salvador &#8211; Glauber Rocha<\/strong>. Com cinco anos de atraso, diga-se. CINCO anos! <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui ontem ver qual era e assistir ao <em>Drag\u00e3o da Maldade Contra o Santo Guerreiro<\/em>. Sess\u00e3o das 14h, chego \u00e0s 13h e 45min para comprar ingresso antes e tomar um caf\u00e9. Tudo trancado e o seguran\u00e7a me diz que s\u00f3 pode entrar duas horas. &#8220;Mas o filme \u00e9 duas horas da tarde. N\u00e3o posso comprar ingresso antes?&#8221; &#8220;N\u00e3o&#8221;. Depois de eu bradar que n\u00e3o era poss\u00edvel que com cinco anos de atraso, ainda se fizesse grosseria assim, me deixaram entrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caf\u00e9? &#8220;S\u00f3 abre duas horas&#8221;. Novamente: &#8220;Mas o filme \u00e9 duas!&#8221;. &#8220;Paci\u00eancia&#8230;&#8221;, foi a resposta. E eis que comprei uma pipoca enorme, dessas de multiplex, e fui assistir Glauber Rocha, no cinema que leva seu nome a tr\u00eas d\u00e9cadas, comendo pipoca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ver Glauber comendo pipoca (e sem conseguir tomar um espresso antes) \u00e9 uma meton\u00edmia da concep\u00e7\u00e3o de ArtePlex, e do efeito de um ArtePlex em Salvador. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema do cinema no mundo, e especialmente no Brasil pois neo-liberalismo e p\u00f3s-expans\u00e3o urbana desordenada, n\u00e3o \u00e9 de <em>cinema de arte X cinema de ind\u00fastria<\/em> (todo cinema \u00e9 ind\u00fastria, sem o que n\u00e3o pode ser arte, e \u00e9 arte, sem o que n\u00e3o pode ser ind\u00fastria &#8211; essa dupla face Walter Benjamin j\u00e1 tinha mostrado em <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_obra_de_arte_na_era_de_sua_reprodutibilidade_t\u00e9cnica\" target=\"_blank\">A Obra de Arte Na Era De Sua Reprodutibilidade Tecnol\u00f3gica<\/a>); ou uma oposi\u00e7\u00e3o semi-falsa de <em>cinema de autor X cinema de est\u00fadio<\/em> (h\u00e1 autor individual, mais merit\u00f3rio que a autoria coletiva da ind\u00fastria. Mas, por exemplo, os filmes pol\u00edticos da Warner dos anos 50, tem como autoria a Warner ou John Huston? o Est\u00fadio, ou seu ent\u00e3o gestor vision\u00e1rio Darryl Zanuck?). Ou ainda, uma parte articulada menor desta oposi\u00e7\u00e3o: o <em>cinema nacional ou brasileiro X cinema americano<\/em> (note-se que o cinema europeu nem entra na jogada, e n\u00e3o h\u00e1 pensar um cinema internacional em oposi\u00e7\u00e3o ao nacional. Por outro lado, ainda resta mostrar que haja um cinema brasileiro: h\u00e1 filmes brasileiros, e j\u00e1 houve duas vezes um cinema brasileiro. Hoje n\u00e3o). N\u00e3o obstante, a quest\u00e3o da nacionalidade f\u00edlmica \u00e9, antes de pol\u00edtica, est\u00e9tica &#8211; e n\u00e3o apenas para o terceiro-mundismo emergente nosso de-cada-dia-nos-dai-hoje.  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade o problema no cinema do Brasil, como bem disse <a href=\"http:\/\/setarosblog.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">Prof. Andr\u00e9 Setaro<\/a> em <a href=\"http:\/\/tacitelles.blogspot.com\/2007\/11\/cinema-download-e-dvd.html\" target=\"_blank\">Dos Sem Cinema<\/a>, \u00e9 de acessibilidade. H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, quase qualquer bairro ou cidade pequena tinha sala de exibi\u00e7\u00e3o a pre\u00e7os convidativos. Com as multi-salas, tudo se concentrou em capitais e grandes cidades, em zonas centrais, com pr\u00e9dios que concentram diversas salas, a pre\u00e7os altos (justificados pela sua suposta alta tecnologia em proje\u00e7\u00e3o). E, Setaro n\u00e3o diz mas digo eu, isto cria um problema: o cinema \u00e9 degustado como fast-food, n\u00e3o como iguaria. O sujeito vai ao cinema n\u00e3o pra ver este ou aquele filme, e sim pra ver o que der pra ver: como um refrigerante visual pra acompanhar o sandu\u00edche.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salvador, h\u00e1 quase uma d\u00e9cada, reverteu este processo em parte, e aos poucos, com o surgemento do <a href=\"http:\/\/www.saladearte.art.br\/\" target=\"_blank\">Circuito SalaDeArte<\/a>. J\u00e1 disse e repito que o m\u00e9rido da SalaDeArte n\u00e3o \u00e9 investir em cinema &#8220;de arte&#8221; ou &#8220;de autor&#8221;, apenas ou principalmente &#8211; \u00e9 reinserir o cinema no bairro, com acesso ao r\u00e9s da rua, pedestre, de modo que cada sala do circuito tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que nada tem a ver com outra sala. O Cinema do Museu, classudo e discreto com seu painel de Juarez Para\u00edso no Museu Geol\u00f3gico do Estado da Bahia; o do MAM Solar do Unh\u00e3o, com bancos de ripa na sala de espera, adolescente e levemente maconheiro; o Cine XIV, no Pelourinho, brejeiramente agringalhado; os v\u00e3os modernistas do Cine UFBA, no meio do Campus do Vale do Canela projetado pelo Magn\u00edfico Edgar Santos e por Di\u00f3genes Rebou\u00e7as; e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, mudou-se o h\u00e1bito de ir ao cinema em duas dire\u00e7\u00e3os: primeiro, ningu\u00e9m vai na SalaDeArte pra ver qualquer filme &#8211; este est\u00e1 previamente escolhido. E por vezes vai-se l\u00e1 n\u00e3o para ver filme, e sim para ler revistas (eu lia a Bravo! l\u00e1, quando a Bravo! prestava), ver gente, paquerar, tomar um caf\u00e9. Chega-se no cinema antes, ou fica-se depois, para um papo e um lanche; se n\u00e3o se fica, certamente se vai a outro lugar cool para um papo e uma bebida (vinho ou caf\u00e9). O cinema, l\u00e1, \u00e9 degustado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto, j\u00e1 disse, teve efeitos nos pr\u00f3prios multiplex da cidade (que se viram obrigados a fazer sess\u00f5es de filme de autor) e na estatal <em>Sala Walter da Silveira<\/em> (que revigorou a programa\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca em que a SalaDeArte surgiu, e passou a lotar). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>ArtePlex Glauber Rocha<\/em> jamais ter\u00e1 esse efeito. Ele \u00e9 um fast-food metido a cult. \u00c9 como se a <em>McDonald&#8217;s<\/em> lan\u00e7asse um &#8220;Mc Caviar&#8221;. Nem todo ArtePlex precisa ser assim: o da Rua Augusta, em Sampa, funciona muito mais como um cinema de bairro. Curioso \u00e9 que o idealizador do <em>Glauber Unibanco<\/em> \u00e9 Cl\u00e1udio Marques, editor do antigo jornal e hoje blog <a href=\"http:\/\/www.coisadecinema.com.br\/\" target=\"_blank\">Coisa de Cinema<\/a>, onde Setaro publicou o citado artigo (nos duros tempos em que s\u00f3 tinhamos a Sala Walter). Cl\u00e1udio sabe melhor do que eu que o cinema de bairro, descentralizado e de sala \u00fanica \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o &#8220;art\u00edstica&#8221; e, va l\u00e1, de esquerda &#8211; excelente cr\u00edtico de cinema que \u00e9. S\u00f3 que ele se apresenta como o Fernando Henrique Cardoso do cinema bahiano: pensa uma coisa, e executa seu exato oposto! <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, h\u00e1 meritos: as sacadas do <em>Unibanco Glauber<\/em>, com vista para a escarpa da ba\u00eda de todos os santos (na m\u00e3o do poeta Castro Alves, onde o sol se levanta e a lua se deita) e pra Igreja (reformada\u00e7a!) do Vale da Barroquinha e pro Alto de Nazar\u00e9, s\u00e3o de chorar de lindo! (reconhe\u00e7a-se: Salvador \u00e9 uma obra-de-arte.) Em uma delas haver\u00e1 (quando?) um bistr\u00f4 &#8211; s\u00f3 espera-se que n\u00e3o demore outros cinco anos para tal&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, inaugurou finalmente o Unibanco ArtePlex Salvador &#8211; Glauber Rocha. Com cinco anos de atraso, diga-se. CINCO anos! Fui ontem ver qual era e assistir ao Drag\u00e3o da Maldade Contra o Santo Guerreiro. 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