{"id":734,"date":"2008-12-19T08:46:46","date_gmt":"2008-12-19T11:46:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=734"},"modified":"2025-12-24T13:03:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:54","slug":"solteirismo-ideologico-monogamia-pragmatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=734","title":{"rendered":"Solteirismo ideol\u00f3gico &#038; monogamia pragm\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por uma Teoria Pol\u00edtica das Rela\u00e7\u00f5es Afetivas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00c9 preciso politizar tudo &#8211; fazer uma arqueologia at\u00e9 mesmo do mau-humor matinal.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Michel Foucault<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sofro de uma incompreens\u00e3o coletiva por parte dos conhecidos (mas n\u00e3o dos amigos), e individual (por parte de novos amantes, a princ\u00edpio, quando em in\u00edcio de relacionamento) por afirmar que n\u00e3o apenas n\u00e3o gosto de namorar, como me oponho pol\u00edtico-ideologicamente a concep\u00e7\u00e3o mesma de namoro e suas consequ\u00eancias. A maioria entende, a principio, que sou &#8216;galinha&#8217; &#8211; n\u00e3o sou; ou que prefiro &#8216;ficar&#8217; &#8211; n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o prefiro, como abominava o termo mesmo na \u00e9poca em que o conceito de namoro me interessava na pr\u00e1tica. Por incre\u00e7a que o par\u00edvel, este d\u00e2ndi que vos batuca nas teclas \u00e9 um monog\u00e2mico por inevitabilidade fisiol\u00f3gica: quando apaixonado, n\u00e3o h\u00e1 outra realidade no mundo; e quando apenas fortemente desejante, todos os outros poss\u00edveis objetos de desejo se evanecem. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que sou um libert\u00e1rio (n\u00e3o no sentido que a direita orkutiana usa): irrita-me a obrigatoriedade social, o imperativo, da monogamia, como irrita-me o imperativo da putaria. Adolescente, detestava a id\u00e9ia de que era preciso &#8216;garrar v\u00e1rias&#8217; &#8211; uma afirma\u00e7\u00e3o da masculinidade ao meu ver abor\u00edgene, sub-civilizat\u00f3ria. Sim, h\u00e1 noites em que beijo muit(os, as), por vezes mais de um(a) ao mesmo tempo. E sou de ter rela\u00e7\u00f5es longas, com manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de afeto, e paix\u00e3o ao limite do adoecimento. Ali\u00e1s, s\u00e3o as que mais gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recuso-me, no entanto, a cham\u00e1-las de &#8216;namoro&#8217;, e n\u00e3o \u00e9 mera quest\u00e3o de nomenclatura. O namoro corresponde quase sempre a uma demanda social, coletiva: namorad(o, a) serve pra levar em anivers\u00e1rio de bisav\u00f3, batizado de primo, etc. Para realizar tal fun\u00e7\u00e3o social, ele se estrutura como um kitsch: o sujeito v\u00ea-se a si pr\u00f3prio vendo-se sendo visto em p\u00fablico com o ser amado; v\u00ea-se ocupando o lugar social do ser amado; etc. Capturado por imagens que s\u00f3 satisfazem ao Outro (ou ao outro, ou aos outros), o sujeito fica alienado de sua liberdade subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sen\u00e3o, uma breve arqueologia do namoro. O conceito surge com o advento do Romantismo, isto \u00e9: da ordem burguesa. Constitui ele precipuamente um degrau do altar do casamento. Portanto, ilude-se na id\u00e9ia de eternidade mon\u00f3tona (ilus\u00e3o quase sempre desfeita por terminos assaz definitivos). Roland Barthes nos diz que a modernidade (isto \u00e9: para ele, desde o Romantismo) n\u00e3o cessa de excluir o discurso amoroso do seu meio social; o que Barthes n\u00e3o percebe \u00e9 que esta mesma modernidade n\u00e3o cessa de produzir discurso amoroso, apenas para o excluir! Dessa forma, o namoro \u00e9 o meio de produ\u00e7\u00e3o de um capital, alienado ao Outro, do qual o sujeito apaixonado fica como dejeto da mais-valia. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando me oponho ao conceito de namoro \u00e9 justamente a este efeito, digamos, neoliberal com ares de aparato de estado, em que ele consiste &#8211; minha oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 microfisicamente pol\u00edtica, no sentido marxista do termo. O que proponho \u00e9 subverter tal ordem: que o sujeito enamorado n\u00e3o fa\u00e7a de seu enamoramento uma resposta ao Outro, nem caia na produ\u00e7\u00e3o de mais-valia amorosa da qual ser\u00e1 excluido. H\u00e1 formas de rela\u00e7\u00f5es monog\u00e2micas que, por se negarem a serem captadas pela rede social, n\u00e3o podem por esta rede social serem excluidas (no sentido que Barthes nos diz): o romance, por exemplo, que implica numa fidelidade e numa const\u00e2ncia relativamente altas, mas exclui a conviv\u00eancia com meios sociais (amigos e familiares), o que aumenta a dedica\u00e7\u00e3o; e, sabendo-se ef\u00eamero, jamais termina de modo definitivo ou abrupto. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempo: romance parece caso, mas n\u00e3o \u00e9. O romance implica, sim, em estar apaixonado em algum grau (por vezes mais do que nas rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas &#8211; namoro, noivado, etc. &#8211; embora de um outro modo, menos ignorante e em que o sujeito fica mais senhor-de-si). O caso, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o implica sequer em identifica\u00e7\u00f5es m\u00fatuas. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma Teoria Pol\u00edtica das Rela\u00e7\u00f5es Afetivas \u00c9 preciso politizar tudo &#8211; fazer uma arqueologia at\u00e9 mesmo do mau-humor matinal. 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