{"id":671,"date":"2008-11-22T17:36:27","date_gmt":"2008-11-22T20:36:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=671"},"modified":"2025-12-24T13:03:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:54","slug":"vicky-vapor-up-aspirina-risperidona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=671","title":{"rendered":"Vicky-vapor-up Aspirina Risperidona"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O que pode ser pior que Woody Allen fazendo uma com\u00e9dia med\u00edocre? Woody Allen fazendo com\u00e9dia med\u00edocre supostamente influenciado pelo quase-p\u00e9ssimo Pedro Almod\u00f3var. E mais: numa dire\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa, com um <em>storyboard<\/em> tur\u00edstico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vicky Cristina Barcelona<\/strong> retrata uma Espanha que \u00e9 como o Rio de Janeiro de Carmem Miranda, para dizer o m\u00ednimo. S\u00f3 que o preocupante mesmo \u00e9 o endeusamento que este filme vem sofrendo por parte de pseudo-cin\u00e9filos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como devem saber, eu sou cin\u00e9filo no sentido jean-luc-godard do termo. Isto \u00e9: algu\u00e9m para quem o cinema n\u00e3o \u00e9 meramente uma arte, ou uma ci\u00eancia, e sim uma Religi\u00e3o. Religi\u00e3o at\u00e9ia, claro &#8211; e n\u00e3o menos dogm\u00e1tica por isso. Nela, alguns preceitos s\u00e3o sagrados. Por exemplo: todo filme que se preze \u00e9 mudo ou tende a s\u00ea-lo. N\u00e3o se trata de abominar filmes falados (na lista dos meus 10+ s\u00f3 h\u00e1 filmes sonoros, cujos di\u00e1logos s\u00e3o luminosamente imprescind\u00edveis); trata-se de priorizar a rela\u00e7\u00e3o de imagens entre si, e das imagens com os sons. O texto falado est\u00e1 para o cinema como o tipo gr\u00e1fico est\u00e1 para o livro, ou o figurino e o cen\u00e1rio para o teatro (numa concep\u00e7\u00e3o brechtiana). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 que Allen n\u00e3o saiba ser silencioso: ele sabe, nos seus excelentes dramas \u00edntimos (<em>Interiores<\/em> e os brilhantes e recentes <strong>Cassandra&#8217;s Dream<\/strong> e <strong>Match Point<\/strong>); sabe s\u00ea-lo nas com\u00e9dias se estas forem involunt\u00e1rias &#8211; digo, se for um filme pretensamente de suspense ou policial (ou drama \u00edntimo), em que o c\u00f4mico aparece como efeito disso. Por exemplo em <strong>Misterioso Assassinato Em Manhattan<\/strong>, ou em <strong>Poderosa Afrodite<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio do que Woody Allen cr\u00ea, nem seu humor \u00e9 inteligente (n\u00e3o \u00e9 um Machado de Assis das telas: esse t\u00edtulo s\u00f3 cabe a Robert Altman) nem \u00e9 ele herdeiro de Buster Keaton, Chaplin, Jacques Tati ou mesmo Mel Brooks. Brooks \u00e9 palavroso, de modo ao texto falado nele virar um paroxismo do sil\u00eancio: sua piada \u00e9 fundamentalmente muda (e n\u00e3o atoa dirigiu um filme completamente sem som, <strong>Silent Movie<\/strong>, em que o ponto alto do humor \u00e9 quando o m\u00edmico Marcel Marceau emite a \u00fanica fala do filme: um sonoro &#8220;N\u00e3o!&#8221;, recusando-se a fazer um filme mudo&#8230;). Allen, quando investe em sua verdadeira heran\u00e7a (o drama bergmaniano e o humor secund\u00e1rio a trama, de Hitchcock) se sai muit\u00edssimo melhor. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A com\u00e9dia \u00e9 justamente a forma do cinema em que o texto deve comparecer o m\u00ednimo, se poss\u00edvel nada. Poder-se-ia objetar que a maior com\u00e9dia da hist\u00f3ria, a quitess\u00eancia da porra-louquice politicamente (in)correta, o primeiro filme GLBTT-<em>dragqueen<\/em> do mundo (muito antes de virar moda), <strong>Quanto Mais Quente Melhor<\/strong>, de Billy Wilder, prima pelo texto. E prima sim, mas ele \u00e9 enxuto e depende fundamentalmente das rela\u00e7\u00f5es com a imagem (de Marylin b\u00eabada, do travestismo mal-feito de Ian Curtis e Jack Lemon, da cara de velho viado tarado de Osgood).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Allen acha que fazer com\u00e9dia \u00e9 fazer uma esp\u00e9cie de psican\u00e1lise em p\u00fablico; ou acha que psican\u00e1lise \u00e9 uma forma de com\u00e9dia \u00edntima. \u00c9 uma total falta de respeito para com a com\u00e9dia, o cinema, e a psican\u00e1lise (estas duas entidades prima-irm\u00e3s oriundas de e balizadoras do s\u00e9culo XX no que ele tem de melhor), al\u00e9m de com os cineastas (que o influenciaram e os que n\u00e3o influenciaram e ele acha que sim), e com seu p\u00fablico (os que leigamente acham bom, e os que cinefilicamente se decepcionam, como eu). Por fim, falta de respeito consigo mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De resto, todos os atores e atrizes do filme est\u00e3o sub-utilizados. Javier Barden se sai bem porque \u00e9 bom, mas est\u00e1 obviamente mal dirigido. Scarlet Johanson tem sua beleza incomum, irreal, banalizada a condi\u00e7\u00e3o de mais uma loira de olhos verdes. Penelope Cruz n\u00e3o merece coment\u00e1rios: \u00e9 t\u00e3o ruim que s\u00f3 um embuste como Almod\u00f3var ousaria trabalhar com ela. Allen tem um proverbial talento para dirigir atrizes, mesmo ruins, ao limite do g\u00eanio (e retirar mesmo das feias cenas plasticamente lindas e sexies). O \u00fanico laivo disso na atual pel\u00edcula \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o da (desconhecida at\u00e9 agora) atriz que faz Vicky.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, juro aqui p\u00fablica e solenemente: s\u00f3 volto a assistir Woody Allen quando ele voltar a fazer dramas dom\u00e9sticos s\u00e9rios. N\u00e3o dou meu dinheiro mais para ele alimentar sua pr\u00f3pria masturba\u00e7\u00e3o mental (desta vez de f\u00e9rias no Mediterr\u00e2neo) na qual, ali\u00e1s, prost\u00e1ticamente, ningu\u00e9m nunca ejacula. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que pode ser pior que Woody Allen fazendo uma com\u00e9dia med\u00edocre? Woody Allen fazendo com\u00e9dia med\u00edocre supostamente influenciado pelo quase-p\u00e9ssimo Pedro Almod\u00f3var. E mais: numa dire\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa, com um storyboard tur\u00edstico. 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