{"id":558,"date":"2008-10-29T10:35:21","date_gmt":"2008-10-29T13:35:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=558"},"modified":"2025-12-24T13:03:55","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:55","slug":"esse-cinemazinho-colonialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=558","title":{"rendered":"Esse cinemazinho colonialista&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Volto a carga contra o senhor Fernando Meirelles. Alhures, t\u00eam dito que <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=263\" target=\"_blank\">minhas criticas<\/a> a ele em sua filmagem de uma obra de Saramago s\u00e3o pedantes, elitistas e invejosas. Reconhe\u00e7o que talvez sejam, mas isso n\u00e3o as impede de serem verdadeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou tentar aqui ent\u00e3o ser mais did\u00e1tico. Meu problema com <em>Blindness<\/em> (recuso-me a chamar um filme feito em ingl\u00eas de Ensaio sobre a cegueira. Sen\u00e3o por mais nada, porque tenho o preceito religioso de referir-me a filmes pelos seus t\u00edtulos originais, mesmo que o t\u00edtulo seja em sueco) \u00e9 que \u00e9 uma leitura colonialista e colonizadora de uma obra e de um autor que \u00e9 anti-colonialista e p\u00f3s-colonial. O pr\u00f3prio Saramago j\u00e1 disse que seus pares s\u00e3o os escritores das ex-col\u00f4nias portuguesas na \u00c1frica: \u00c1gua-Lusa, Pepetela, Mia Couto. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que sentido h\u00e1 em filmar uma obra lus\u00f3fona, que tem rela\u00e7\u00f5es umbilicais com esta l\u00edngua, em ingl\u00eas? &#8211; num tempo em que Ang Lee filma em Hollywood <em>O Tigre E O Drag<\/em><em>\u00e3o<\/em> em chin\u00eas mandarim! Se a quest\u00e3o era a vendabilidade e o financiamento, era poss\u00edvel subverter os p\u00f3los e colocar como condi\u00e7\u00e3o para a ind\u00fastria americana que o filme fosse feito em portugu\u00eas com atores brasileiros (de resto j\u00e1 com algum tr\u00e2nsito em Los Angeles hoje em dia), ainda que dentro de uma est\u00e9tica americana, meio-Hollywood meio-Cinema Independente. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis a diferen\u00e7a de um cineasta rigoroso (Lee) para um feliz empregado da ind\u00fastria, pi\u00e3o ch\u00e3o de f\u00e1brica lambe-botas do patr\u00e3o (Meirelles). A diferen\u00e7a \u00e9 hist\u00f3rica: Billy Wilder sempre filmou em Hollywood, mas ao modo que escolhia, e tamb\u00e9m Hitchcock. Fernando Meirelles \u00e9 o equivalente, em filmes, \u00e0 subservi\u00eancia de um outro Meirelles ao capital banc\u00e1rio: Henrique Meirelles, presidente em exerc\u00edcio do Banco Central do Brasil. Ambos fazem mais do que seus patr\u00f5es (o Bank Boston no caso deste \u00faltimo) lhes pede para destruirem qualquer laivo de soberania nacional. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No limite, Meirelles (o Fernando) poderia ter escolhido uma est\u00e9tica filmica portuguesa. O decano cineasta Manoel de Oliveira, ali\u00e1s amigo de Jos\u00e9 Saramago de longa data, tem uma est\u00e9tica peculiar, e j\u00e1 com sintaxe saramaguiana mesmo filmando com atores franceses e americanos, como fez em <em>O Convento<\/em>, cujo enredo \u00e9 sobre a ficticia origem portuguesa de William Shakespeare e a n\u00e3o t\u00e3o ficticia origem portuguesa do maior pintor em telas que a humanidade j\u00e1 conheceu: Diego Velasquez Y Silva, cujo principal quadro tem t\u00edtulo em portunhol &#8211; &#8220;Las Meninas&#8221; (quando, castelhano fosse, seria &#8220;Las Ni\u00f1as&#8221;). O plot, de si, j\u00e1 \u00e9 Saramago puro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria escolha pela primeira obra do ciclo n\u00e3o-hist\u00f3rico de Saramago j\u00e1 \u00e9 duvidosa. E justo a obra em que a visualidade e a lusitanidade t\u00eam menor import\u00e2ncia. Porque n\u00e3o se escolheu o genial romance de \u00e9poca <em>Memorial do Convento<\/em> (que forneceria ali\u00e1s belissimas tomadas em Mafra e nos Jer\u00f4nimos), ou a fic\u00e7\u00e3o pseudo-hist\u00f3rica <em>O Ano Da Morte De Ricardo Reis<\/em> (idem para a paisagem de Lisboa e do Rio de Janeiro vistas em seus portos atrav\u00e9s do mar)?! O argumento da popularidade n\u00e3o me convece &#8211; salvo se for colocado como efeito previs\u00edvel do international stile que Meirelles adotou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meirelles prefere fazer filmes bons, a custa de n\u00e3o serem nem dele nem brasileiros. Lembra-me Glauber Rocha de sinal trocado, que queria fazer filmes brasileiros e dele, mesmo que fossem ruins (e nunca o eram). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais cr\u00edticas eu n\u00e3o fa\u00e7o sozinho. Fiquei feliz quando soube que <a href=\"http:\/\/terramagazine.terra.com.br\/interna\/0,,OI3270977-EI11347,00.html\" target=\"_blank\">Prof. Andr\u00e9 Setaro<\/a> tem opini\u00e3o similar a minha. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, sempre h\u00e1 os que objetam com o recurso aos afetos do autor: &#8220;Mas Saramago gostou! at\u00e9 chorou na estr\u00e9ia&#8230;&#8221;. Ora, qual escritor lus\u00f3fono, portador em si da gl\u00f3ria da l\u00edngua que deveria ter sido atribuida a outros 10 antes dele (de Cam\u00f5es a Pessoa e Jo\u00e3o Cabral, de Vieira a Guimar\u00e3es Rosa e Machado de Assis), n\u00e3o choraria? Ainda mais que ele se reconhece e justamente se autoproclamou assim, no seu discurso de recebimento do Pr\u00eamio Nobel em 1999. Usar deste argumento \u00e9 esquecer que \u00e9 poss\u00edvel mesmo aos g\u00eanios estarem t\u00e3o afetivamente fr\u00e1geis que podem sofrer um <strong>ataque pelo elogi<\/strong><strong>o<\/strong> e n\u00e3o se darem conta disso. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volto a carga contra o senhor Fernando Meirelles. Alhures, t\u00eam dito que minhas criticas a ele em sua filmagem de uma obra de Saramago s\u00e3o pedantes, elitistas e invejosas. Reconhe\u00e7o que talvez sejam, mas isso n\u00e3o as impede de serem verdadeiros. Vou tentar aqui ent\u00e3o ser mais did\u00e1tico. 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