{"id":484,"date":"2008-10-19T08:01:03","date_gmt":"2008-10-19T11:01:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=484"},"modified":"2025-12-24T13:03:55","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:55","slug":"o-fantasma-do-cacete-armado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=484","title":{"rendered":"O fantasma do &#8220;cacete-armado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, nos anos de maior mediocridade Salvador vivia um &#8220;culto ao cacete-armado&#8221;. Cacete-armado, em bahian\u00eas, quer dizer estabelecimento comercial com p\u00e9ssimo servi\u00e7o (e provavelmente sem alvar\u00e1 de funcionamento), evento tosco e capenga, entre outros cong\u00eaneres. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1, quando eramos Capital Mundial da Mediocridade, dificilmente se achava um lugar realmente bom para ir comer ou beber; quase todos os eventos culturais acabavam por ter defeitos de produ\u00e7\u00e3o elementares, e atrasos de horas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira quebra nesta mentalidade, foi, justi\u00e7a fa\u00e7a-se, a reinaugura\u00e7\u00e3o do TCA, no auge do carlismo. O TCA sempre come\u00e7a seus eventos com uma pontualidade brit\u00e2nica; uma vez come\u00e7ado, voc\u00ea pode ser o Papa e ter ingresso de convite para a fila A (o TCA n\u00e3o tem camarote), voc\u00ea n\u00e3o entra. E a bilheteria fecha, impreterivelmente, 15 minutos antes de o espet\u00e1culo come\u00e7ar (a n\u00e3o ser a Concha Ac\u00fastica). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 na d\u00e9cada de noventa, a princ\u00edpio houve chiadeira. Mas o h\u00e1bito se propagou para outros teatros da cidade, como o Vila Velha e o Espa\u00e7o Xis (da Biblioteca P\u00fablica dos Barris). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, com o grupo Sala de Arte de Cinema, a qualidade deu outro salto. Se por um lado o Sala de Arte criou um gosto, um h\u00e1bito e um p\u00fablico capaz de lotar a estatal Sala Walter da Silveira, por outro sua excel\u00eancia for\u00e7ou a melhoria dos servi\u00e7os da Walter &#8211; que, antes, eram pouco mais do que amadores (apesar da excelente sele\u00e7\u00e3o de filmes). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra pe\u00e7a chave nisso foi o advento do Mercado Cultural Latino-Americano, que depois virou Mercado Cultural Mundial, toda primeira semana de dezembro em Salvador, produzido pela Casa Via Magia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cacete-armado se mantinha muito porque, de um lado, n\u00e3o tinhamos op\u00e7\u00f5es profissionalizadas a recorrer; de outro, n\u00e3o havia um p\u00fablico grande, afeito ao bom-gosto, e com dinheiro e tempo suficiente para gastar em entretenimento de qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos fatos do fim dessa mediocridade passa por essa m\u00e3o dupla: por um lado, Salvador passa por uma das mais r\u00e1pidas redistribui\u00e7\u00f5es de renda do pa\u00eds (embora ainda p\u00edfia diante do fato de que \u00e9 a cidade com maior desigualdade s\u00f3cio-econ\u00f4mica do planeta!), e com crescimento econ\u00f4mico vigoroso, o que trouxe para o consumo dos bens culturais, digamos, centrais, uma popula\u00e7\u00e3o que antes n\u00e3o consumia. N\u00e3o \u00e9 incomum ver no <em>Baile Esquema Novo<\/em>, gente indo de buz\u00fa com mochila nas costas, e pelo tipo f\u00edsico \u00e9 f\u00e1cil deduzir que v\u00eam de bairros perif\u00e9ricos, talvez do sub\u00farbio mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fator \u00e9 que uma das vias (talvez aleatorias e assistem\u00e1tica) desta retomada de crescimento foi a profissionaliza\u00e7\u00e3o do metier noturno. Temos hoje uma boate com uma visada vasta (em largura) e de longo alcance do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o e fomento, a <em>Boomerangue<\/em>; alguns bares com servi\u00e7o de excel\u00eancia, da cozinha a mesa (sem aquele misto de &#8220;estou perdido&#8221; com &#8220;estou com pregui\u00e7a&#8221; dos gar\u00e7ons de 10 anos atr\u00e1s), por exemplo o <em>Botequim Bart\u00f4<\/em>, no Rio Vermelho, o <em>Botequim S\u00e3o Jorge<\/em>, todo o <em>complexo Pir\u00e2mide<\/em>, etc. Ou como disseram os produtores do <em>Baile<\/em>: Salvador virou uma cidade gente-grande o suficiente para sustentar no mesmo dia um show do <em>Retrofoguetes<\/em> no <a href=\"http:\/\/www.boombahia.com.br\" target=\"_blank\">Boom Bahia<\/a>, e um <em>Baile Esquema Novo<\/em>, ambos lotados (porque altamente profissionais), na mesma noite!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, n\u00e3o quer dizer que o fantasma do cacete-armado j\u00e1 foi embora. Se por um lado temos o luxo ir\u00f4nico do <em>Bar Marqu\u00eas<\/em>, h\u00e1 o guetismo mequetrefe do p\u00e9ssimo e algo interesseiro <em>Babalotim<\/em>. O problema \u00e9 que boas iniciativas acabam se perdendo por n\u00e3o pegarem esse salto qualitativo em produ\u00e7\u00e3o e profissionalismo. Ontem tive experi\u00eancia direta disso: show de Lia de Itamarac\u00e1 no SESC-Pelourinho. Marcado para as 9h da noite, j\u00e1 era quinze para as dez e o show n\u00e3o come\u00e7ava (ali\u00e1s: os instrumentos sequer no palco estavam). Fui reclamar e primeiro a produ\u00e7\u00e3o me informa &#8220;o show \u00e9 \u00e0s 9h&#8221;, como se 9h da noite n\u00e3o fossem j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. Depois, justificativas esfarrapadas: &#8220;estava havendo outro evento dentro do teatro (interno)&#8221; (o show seria na \u00e1rea externa, no anfiteatro). E nenhum pedido de desculpas! Pedi para devolverem meu dinheiro e fui embora, sem ver a Ciranda de Lia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 fundamentalmente n\u00e3o cumprir o que se marca. Tivessem avisado que o show iria atrasar eu teria chegado mais cedo, ou ido para Biquini Cavad\u00e3o na Concha, ou ido primeiro a Biquini e depois para Lia &#8211; porque se come\u00e7asse 10h da noite, de fato haveria tempo. S\u00f3 que isso n\u00e3o ocorre: \u00e9 um misto de atabalhoamento com informa\u00e7\u00f5es imprecisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois grupos bahianos, musicalmente excelentes, est\u00e3o se perdendo por isso. Um \u00e9 o <em>Samba das Mo\u00e7as<\/em>: insistem em n\u00e3o sair do gueto gay, cuja qualidade (salvo em uma radicalidade auto-ir\u00f4nica como a do <em>Marqu\u00eas<\/em>) \u00e9 quase sempre no r\u00e9s do ch\u00e3o. J\u00e1 por duas vezes deram barrigada: numa, informaram-me pessoalmente que elas &#8220;abririam o primeiro ensaio do <em>Cortejo Afro<\/em> no <em>Sant\u00edssima Bahia<\/em>&#8220;. Nem show do <em>Cortejo<\/em> l\u00e1 houve&#8230; Outra, na mani\u00e7oba delas, aqui divulgada: marcada para as 2h da tarde, \u00e0s 5h elas sequer estavam prontas para come\u00e7ar a tocar &#8211; o p\u00fablico, claro, ostensiva e intragavelmente l\u00e9sbico (e eu perguntei antes se teria o m\u00ednimo de varia\u00e7\u00e3o n\u00e3o-guetista, j\u00e1 que por exemplo minha m\u00e3e queria ir conhecer).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo \u00e9 a excelente banda de samba-rock dos alunos da FACOM-UFBA, <em>Clube da Malandragem<\/em>. Muito melhor que seus colegas do <a href=\"http:\/\/www.pirigulinobabilake.com.br\/novo_site\/\" target=\"_blank\">Pirigulino Babilake<\/a>, eles n\u00e3o deslacham, enquanto estes sim. O <em>Clube<\/em> tem dois sambas de autoria pr\u00f3pria, pelo menos: <em>Bon Vivant<\/em> e <em>Chiclete Com Banana N\u00e3o Existe Mais<\/em> (ao seu modo, um hino do p\u00f3s\/anti-axezismo), al\u00e9m de tocarem p\u00e9rolas esquecidas do samba moderno dos anos 1960, como Elizete Cardoso e Z\u00e9 Keti. E o vocalista, Thiago Kalu, tem um charme recifense despojado que nem a produ\u00e7\u00e3o do <em>Pirigulino<\/em> consegue chegar perto. Mas, os meninos da <em>Malandragem<\/em> ficam dentro do gueto maconh\u00edstico-alco\u00f3lico do p\u00e9ssimo <em>World Bar<\/em>. O <em>World<\/em> \u00e9 o equivalente hetero do B\u00eaco dos Artistas, no Garcia. N\u00e3o atoa fica em frente a n\u00e3o menos ruim (embora arquitetonicamente impec\u00e1vel) <em>Off Club<\/em>. O <em>World<\/em> \u00e9 um por\u00e3o insalubre e sem ventila\u00e7\u00e3o, n\u00e3o obstante tenha uma programa\u00e7\u00e3o boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vantagem de hoje em dia \u00e9 que o cacete-armado n\u00e3o \u00e9 mais a regra; e se o era at\u00e9 bem pouco tempo, as exce\u00e7\u00f5es se avolumaram. A sa\u00edda \u00e9 n\u00e3o toler\u00e1-los mais. Se se vai a um evento promissor mas mal produzido, saia e v\u00e1 pra um dos v\u00e1rios lugares da cidade que vai estar funcionando &#8220;feito gente grande&#8221;. Adoro o <em>Clube da Malandragem<\/em>, por exemplo, mas recuso-me a frequentar o World Bar. Quando eles quiserem sair do gueto provinciano, e abra\u00e7ar o mundouniverso barroco-diasp\u00f3rico, estarei l\u00e1, tietando, sempre. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historicamente, nos anos de maior mediocridade Salvador vivia um &#8220;culto ao cacete-armado&#8221;. 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