{"id":4161,"date":"2018-05-02T12:02:07","date_gmt":"2018-05-02T15:02:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4161"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"os-galos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4161","title":{"rendered":"Os Galos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei porque, n\u00e3o tinha colocado aqui meu conto, ao modo dos <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4116\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Di\u00e1logos com Leuc\u00f3 de Cesare Pavese<\/a>, j\u00e1 publicado por <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2038\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">men\u00e7\u00e3o honrosa no Pr\u00eamio do Estado do Paran\u00e1 em 2009<\/a>. Extemporaneamente, aqui vai hoje, nesse interregno entre a P\u00e1scoa e o Corpus Christie.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os Galos <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>para a Leucot\u00e9ia de Pavese<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Judas Iscariotes e Sim\u00e3o Pedro compartilham entre si duas peculiaridades do destino: ambos ter\u00e3o de trair o Salvador, para que a Salva\u00e7\u00e3o possa ocorrer; nenhum dos dois ser\u00e1 conhecido por seus nomes originais. Conquanto um cometa o ato intencionalmente, e outro n\u00e3o \u2013 aquele antes da cruz, este logo depois \u2013 n\u00e3o \u00e9 implaus\u00edvel supor que o tema foi t\u00f3pico de palestra entre ambos. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Pretendes mesmo tra\u00ed-lo ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Que dizes? Nunca intentei tal coisa. Est\u00e3o a\u00ed o p\u00e3o, e o peixe que eu mesmo pesquei, e o vinho que trouxe. Estive ao seu lado quando andou sobre as \u00e1guas, e antes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Sobre as \u00e1guas&#8230; e j\u00e1 l\u00e1 o tra\u00eda&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Duvidava, Judas; que n\u00e3o \u00e9 trair. Antes, duvidar \u00e9 uma forma de fidelidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Iscariotes<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 um modo de ser fiel, Pedro, trair-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>N\u00e3o me chames assim; sabes que n\u00e3o gosto&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Que n\u00e3o gostas&#8230;? \u00c9 assim que ele te chama!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>E s\u00f3 ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Temes, de fato, ser a pedra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o temo. Apenas n\u00e3o creio que haja templo a ser erguido, em que eu seja pedra, cal, liga, ou mestre de obras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Iscariotes<\/p>\n<p>V\u00ea? Duvidas de novo. J\u00e1 \u00e9 a segunda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sim\u00e3o<\/p>\n<p>J\u00e1 te disse: duvidar \u00e9 minha forma de ser fiel. Por ele, em sua infinita certeza, o mundo estaria mudado mais r\u00e1pido do que foi feito. Sou eu a rocha, a terra dura e seca, de onde brota pouco \u2013 mas o que brota fica, e n\u00e3o morre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>N\u00e3o te preocupes: todos n\u00f3s teremos de tra\u00ed-lo. Est\u00e1 nos seus planos \u2013 e de alguma forma no nosso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Por que se demora tanto nas oliveiras? J\u00e1 n\u00e3o v\u00ea que h\u00e1 azeite bastante? Que quer ele longe?, quando todos j\u00e1 est\u00e3o chegando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>N\u00e3o todos, alguns ainda demorar\u00e3o de vir. Dizia: n\u00e3o h\u00e1 vergonha em trair. Um filho precisa trair a m\u00e3e para que cres\u00e7a, e n\u00e3o \u00e9 a semente menos uma dura trai\u00e7\u00e3o do fruto doce, e este da flor outrora bela. Tamb\u00e9m \u00e9 a flor a prostitui\u00e7\u00e3o da folha, devassada por insetos alheios, que nada querem dela sen\u00e3o o prazer de seu mel. E no entanto, emprenham-se \u2013 traem-se. Assim \u00e9 a vida. E as folhas, os galhos, s\u00e3o a trai\u00e7\u00e3o da raiz. O que h\u00e1, Sim\u00e3o, \u00e9 formas de faz\u00ea-lo: uns, por vontade pr\u00f3pria, outros, involuntariamente. Que acha que se comemora hoje? a Travessia? Antes, a disc\u00f3rdia e a tempestade, e n\u00e3o o amor ou a devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Intentas tra\u00ed-lo ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Sim, e ele o sabe. Diria mesmo que me incitou, sen\u00e3o pediu com palavras, pediu com olhos, com gestos \u2013 como se eu pudesse neg\u00e1-lo; como se negando, n\u00e3o viesse a faz\u00ea-lo involuntariamente. N\u00e3o! Se o punhal a atravessar as costas tiver de usar minhas m\u00e3os, ser\u00e1 com altivez. N\u00e3o ter\u00e1 Brutus dado a C\u00e9sar justamente sua derradeira prova de amor filial? Matou-o, mas garantiu-lhe um Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>E como?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Com um crime.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Mas que crimes cometeu? Nenhum, at\u00e9 agora. N\u00e3o h\u00e1 do que o acusar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Cometerei eu, e n\u00e3o qualquer um. Um no qual eu seja meu pr\u00f3prio, e maior, tribuno. Fingir vender uma amizade para, na venda, consumar o que um amigo quer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Vais delat\u00e1-lo?! N\u00e3o deixarei!<\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u><\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Pedro, nada podes fazer quanto a isso. Ouso dizer que mesmo invejar\u00e1, e querer\u00e1 ter sido tu a delata-lo. Mas \u00e9s as rocha, o firme basti\u00e3o, que n\u00e3o se curva nem faz brotar, mesmo no mais ameno clima. J\u00e1 eu sou o junco, que se dobra para que o barco passe e acena na corrente do rio. Ao fim, tu tamb\u00e9m o trair\u00e1s quando for in\u00fatil e tarde demais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Se eu duvido, ainda posso crer. Por\u00e9m tu, em nada cr\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o creio. N\u00e3o em fatos. N\u00e3o vislumbro um Reino de Justi\u00e7a, neste ou noutro mundo. E no entanto creio que ele o deseja mais do que tudo, que viveu para isso. Se duvido das conseq\u00fc\u00eancias, creio no seu anelo, mais real que as realidades que ele pudesse moldar; seguramente mais real que esta noite, que uma cruz, que este p\u00e3o. E crer nisso n\u00e3o me deixa d\u00favidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sei do seu projeto, e o sustento no que posso. Talvez ningu\u00e9m o ame tanto quanto eu. E sei de seus efeitos: vi cegos falarem, templos serem varridos, e refei\u00e7\u00f5es renderem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Entretanto, duvidas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Duvido de que ele realmente saiba o que faz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Tampouco sabemos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Ou de que realmente saiba o que deseja \u2013 al\u00e9m de n\u00e3o fazer id\u00e9ia de como chegar onde deseja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, Pedro: ele o sabe. Tamb\u00e9m sua d\u00favida \u00e9 parte do plano. Nada lhe escapa, justo quando parece escapar. O que quer \u00e9 condenar todos a salva\u00e7\u00e3o; e n\u00e3o tanto salvar a todos de serem condenados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o sabe bem o que deseja&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Isso tampouco sabemos n\u00f3s. E \u00e9 nisso que \u00e9 muito humano. Nem por isso nos impedimos de desejarmos, e desejando sermos tra\u00eddos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Amo-o!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Sem d\u00favida: e bem para si.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Que dizes, Judas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Que todos o querem para si, sempre vivo, e belo, e alegre. \u00c9 assim que ele \u00e9 melhor. Mas eu n\u00e3o o quero para mim \u2013 amo-o, e am\u00e1-lo \u00e9 secund\u00e1rio ao meu amor: amo-o para que ele fa\u00e7a o que deve. Mesmo que o que deve nos abandone.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Sil\u00eancio&#8230; Parece que vem vindo, abatido. Ser\u00e1 que chora?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Chora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o o v\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Nem preciso, chora. Sei que sabe o que lhe aguarda. Escute, Pedro, antes que ele chegue&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Sim\u00e3o<\/u><\/p>\n<p>Seja breve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>Iscariotes<\/u><\/p>\n<p>Sinto n\u00e3o estar aqui para consolar-te quando perceberes que o traiu, traindo-te a ti mesmo contra e a um s\u00f3 tempo a favor de tua vontade pr\u00f3pria. Que fique este beijo que agora dou em tua face como consolo futuro. O p\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 na mesa? E o sal? E o vinho?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei porque, n\u00e3o tinha colocado aqui meu conto, ao modo dos Di\u00e1logos com Leuc\u00f3 de Cesare Pavese, j\u00e1 publicado por men\u00e7\u00e3o honrosa no Pr\u00eamio do Estado do Paran\u00e1 em 2009. 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