{"id":4134,"date":"2016-10-20T15:34:30","date_gmt":"2016-10-20T18:34:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4134"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"premio-nobel-de-oralitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4134","title":{"rendered":"Pr\u00eamio Nobel de Oralitura"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>para Reverendo Walter Ong, S. J., <\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Paul Zumthor &amp; Milman Parry<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;shading of one more layer of skin,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>keeping one step ahead of the persecuter within<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>the Book of Leviticus and Deuteronomy,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>the laws of the jungle and the seas,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>are all but his teatchers.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Nightsticks, water cannons, tear gas, padlocks<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>molotov cocktails and rocks behind every curtain&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Jokerman<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atribui\u00e7\u00e3o do <strong>Pr\u00eamio Nobel de Literatura<\/strong>, pela Academia Sueca, a <strong>Bob Dylan<\/strong> semana passada com raz\u00e3o gera sentimentos contradit\u00f3rios em todos &#8211; qui\u00e7\u00e1 at\u00e9 no pr\u00f3prio Dylan, que n\u00e3o se manifestou a respeito at\u00e9 agora nem mesmo para receber a premia\u00e7\u00e3o. Por um lado, parece t\u00e3o \u00f3bvio que ofusca como isso n\u00e3o aconteceu antes; e, ao mesmo tempo, \u00e9 uma enorme quebra de paradigma, incomum para um pr\u00eamio t\u00e3o conservador que evita premiar Haruki Murakami por consider\u00e1-lo <em>pop<\/em> demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A justificativa oficial da comenda enfatiza o quanto a l\u00edrica de Dylan aproxima a tradi\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o radiof\u00f4nica americana da tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica angl\u00f3fona &#8211; digamos, at\u00e9 lan\u00e7ar ra\u00edzes em Geofrey Chaucer. E em entrevista, a secretaria da Academia Sueca mostra ainda como a poesia declamat\u00f3ria musicada est\u00e1 nas origens, equiparando Dylan a Safo e Homero. Os detratores desta escolha dizem justamente que ele \u00e9 &#8220;apenas um compositor&#8221;, mas a ambival\u00eancia de sua obra est\u00e1 nisso: letras extens\u00edssimas e complexas, sem deixar de serem altamente cant\u00e1veis e populares (por vezes com uma melodia simples): se seus poemas (sim, poemas!) requerem a performance musicada, eles n\u00e3o s\u00e3o meramente orais sen\u00e3o uma oralidade posterior a grafa\u00e7\u00e3o erudita &#8211; no que ele se aproxima ainda de Plat\u00e3o (cuja escrita emula uma fala que n\u00e3o s\u00f3 nunca existiu como n\u00e3o existiria) e de S\u00f3focles (cuja fala emula elocubar\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas t\u00e3o sofisticadas que s\u00f3 poderiam existir numa escrita que beirasse a matem\u00e1tica e a geometria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe lembrar que em outros registros musicais que n\u00e3o a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 houve obras de valor liter\u00e1rio em si: a tetralogia de Richard Wagner, <em>O Anel dos Nibelungos<\/em>, \u00e9 como tal reconhecida por gente que vai de Goethe e Nietzsche a J. R. R. Tolkien; e uma parte significativa da obra de Bertold Brecht flutua, dependente da melodia de Kurt Weil, entre a \u00f3pera, o r\u00e1dio e o teatro de revista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que isso, a natureza n\u00f4made de Dylan ratifica seu car\u00e1ter de bardo rapsodo tanto quanto seu engajamento pol\u00edtico e capacidade de relato (<em>Huricane<\/em> \u00e9 reportagem em forma de verso tanto quanto <em>Maus<\/em>, de Art Spiegelman, \u00e9 reportagem em forma de quadrinhos &#8211; e foi n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o a categoria que lhe deu o Pulitzer), por vezes antevendo quest\u00f5es ainda n\u00e3o colocadas, o associa a outras tradi\u00e7\u00f5es da poesia n\u00e3o-hel\u00eanica, entre o cosmog\u00f4nico e o denunciador: os Profetas Judaicos (sobretudo Isaias e Jeremias), os evangelhistas (Mateus pela m\u00edstica, Lucas pelo historicismo, Jo\u00e3o pela est\u00e9tica), os Vedas e os Sutras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta \u00e9, ainda, a banda conservadora de tal escolha do Nobel: do ponto de vista da sem\u00e2ntica e do paradigma, Dylan \u00e9 um poeta conservador, rom\u00e2ntico at\u00e9 &#8211; seus pares no mundo angl\u00f3fono s\u00e3o Alexander Pope e William Blake, no m\u00e1ximo Walt Whitman. O lado modernizante da premia\u00e7\u00e3o este ano est\u00e1 em admitir que existe literatura enquanto fruto de uma escrita cujo suporte n\u00e3o seja o papel grafado, e outro meio de recep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja s\u00f3 o olho letrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Nobel de Literatura \u00e9 um pr\u00eamio vago em seu g\u00eanero: prefere autores de romance mas j\u00e1 premiou memorialistas, oradores (Churchill), e comumente premia autores de teatro (forma liter\u00e1ria tamb\u00e9m perform\u00e1tica, em que a obra tamb\u00e9m depende da voz, em que a letra se aproxima da oralidade ou acha nela ve\u00edculo &#8211; portanto nisso Dylan n\u00e3o \u00e9 uma grande ruptura). Poetas puros s\u00e3o pouco premiados, e os que s\u00e3o tendem ao mofado. \u00c9 um pr\u00eamio refrat\u00e1rio a inova\u00e7\u00f5es formais, \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda (Borges ou cummings nunca rebeceram a honraria) &#8211; num s\u00e9culo em que os Estados Unidos estabeleceu o Pr\u00eamio Neustadt, no dizer que Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto (um de seus laureados): &#8220;um pr\u00eamio de poesia que premia anti-poetas&#8221; (isto \u00e9, poetas que rejeitam a tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica ou rom\u00e2ntica e se usam de dispositivos hodiernos: ele pr\u00f3prio, cummings, Francis Ponge, Mariane Moore &#8211; esta jamais levaria um Nobel porque nunca estabeleceu obra em livro sen\u00e3o em folhas de jornal, tanto quanto o di\u00e1cono John Donne, indisputavelmente o maior l\u00edrico do idioma ingl\u00eas, fez poesia em cartas que circulavam de m\u00e3o em m\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer ainda que o Nobel, com sua vis\u00e3o nefelibata de literatura (parece que agora rompida ao menos temporariamente), \u00e9 uma premia\u00e7\u00e3o refrat\u00e1ria ao seu pr\u00f3prio tempo, francamente passadista. S\u00f3 isso explica o maior escritor de todos os tempos, patriarca de todo e qualquer romance poss\u00edvel, vivo ainda quando o Nobel come\u00e7ou a ser atribuido, nunca ter sido laureado &#8211; me refiro ao Conde Liev de Tolstoi. Evidentemente que a obra de Tolstoi n\u00e3o tem qualquer inova\u00e7\u00e3o formal ou de conte\u00fado em rela\u00e7\u00e3o ao Realismo do s\u00e9culo XIX, e que pessoalmente ele foi se tornando mais religioso e reacion\u00e1rio com a idade &#8211; mas at\u00e9 mesmo sua escolha por um ativismo crist\u00e3o-primitivista o levou a se tornar um fen\u00f4meno midi\u00e1tico: sua morte na Esta\u00e7\u00e3o de Astapovo foi o primeiro evento <em>paparazzi<\/em> de todos os tempos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo explica a refratariedade em rela\u00e7\u00e3o a Proust, que teria todos os atributos para levar um Nobel (romance tradicional, memorialista, e ensaista): o <em>Em Busca do Tempo Perdido<\/em> \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno <em>pop<\/em>, o colunismo social, a condi\u00e7\u00e3o de vitral g\u00f3tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das poucas vezes que o Nobel tentou quebrar esse paradigma e se contemporaneizar com quest\u00f5es inclusive da periferia do mundo, foi caricato: Kipling como primeiro representante da \u00cdndia, Gabriel Garcia Marques e Mario Vargas Llosa como representantes de uma Am\u00e9rica Latina que deu ao mundo Juan Rulfo e J\u00falio Cort\u00e1zar (pra deixar de fora Borges, que j\u00e1 citamos); uma esquerda militante, se escolhe Neruda, e pra dar alguma vez a \u00faltima flor do L\u00e1cio, Jos\u00e9 Saramago &#8211; que merecia por si s\u00f3, mas como bem diz no seu discurso de recebimento: &#8220;est\u00e1 recebendo em nome de Machado de Assis, E\u00e7a de Queiroz, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Miguel Torga e Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto&#8221;. Sem falar claro de Herman Hesse: med\u00edocre e ao fim e ao cabo nazista (ponha-se em parte na conta do empenho do j\u00e1 ent\u00e3o laureado, e este sim gigantesco e um her\u00f3i da \u00e9tica, para que isso acontecesse: Thomas da Silva Bruhns Mann).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessa menos no entanto colocar em causa o que levou a Academia Sueca a eleger Bob Dylan, e mais tirar disso efeitos. Os que torceram o nariz sobretudo alegam que uma das fun\u00e7\u00f5es do Nobel \u00e9 tornar conhecido do grande p\u00fablico, e mais lido, autores de outra forma obscuros &#8211; n\u00e3o v\u00eaem com isso que premiar algu\u00e9m cuja obra est\u00e1 originalmente em outro registro fora do formato liter\u00e1rio can\u00f4nico pode, justamente, atrair novos leitores, e a obra de Bob Dylan sempre foi uma b\u00e1scula entre a cantiga popular agr\u00e1ria e a literatura mais urbana e erudita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este destravamento da Academia Sueca pode ter consequ\u00eancias mim\u00e9ticas. Nada impede que Chico Buarque de Holanda, em quem todas as correntes do modernismo desaguaram (seu pai Sergio, Oscar Niemeyer, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Vinicius de Moraes, e outros tantos) merecidamente receba um Pr\u00eamio Cam\u00f5es (embora n\u00e3o se possa reduzir Dylan a um Chico americano: ele \u00e9 Chico, Raul Seixas, S\u00e1 &amp; Guarabira e Geraldo Vandr\u00e9 a um s\u00f3 tempo) ou ingresse na Academia Brasileira de Letras (que, lembremos, j\u00e1 abriu as portas a Paulo Coelho&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo dentro do pr\u00f3prio Nobel passam a figurar na fila doravante autores de obras liter\u00e1rias em prosa dependentes da ilustra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o creio que algo radical como o recente (e excelente!) <em><a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/search?q=here+richard+mcguire&amp;espv=2&amp;biw=1024&amp;bih=638&amp;source=lnms&amp;tbm=isch&amp;sa=X&amp;ved=0ahUKEwicooujgerPAhWFkpAKHX7AB5MQ_AUIBigB\" target=\"_blank\">Here<\/a><\/em>, em que a narrativa se d\u00e1 no espa\u00e7o e n\u00e3o no tempo e na verdade \u00e9 a palavra escrita que auxilia a imagem, e n\u00e3o o contr\u00e1rio; algo como a obra de DeMateis, que j\u00e1 de si em <em>Moonshadow<\/em> porta diversas refer\u00eancias expl\u00edcitas \u00e0 literatura erudita nas ep\u00edgrafes de cada cap\u00edtulo desta novela, como Becket e Lewis Carroll, mas cujo enredo bebe no romanceiro beat e na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pulp &#8211; e seguramente Neil Gaiman, algu\u00e9m que o pr\u00f3prio Harold Bloom j\u00e1 chamou de g\u00eanio e que, embora figura crucial nos quadrinhos \u00e9 tamb\u00e9m um autor em prosa pura tradicional plenamente auto-suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou ainda, que o Nobel e outros pr\u00eamios se abram ao que Ursula LeGuin chama de &#8220;realistas de outras realidades&#8221;: a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a fantasia &#8211; jamais premiadas neste ou em outros pr\u00eamios convencionais, sen\u00e3o os setoriais, a n\u00e3o ser na figura de Doris Lessing (e neste caso, quase apesar de ela fazer tamb\u00e9m fic\u00e7\u00e3o espacial &#8211; o Nobel lhe foi dado claramente por sua obra realista anterior).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que se pode apontar sempre um legado negativo desta virada: uma ratifica\u00e7\u00e3o dos audiolivros como substitutos legitimos da leitura silenciosa ou em voz alta presencial (dom\u00e9stica ou teatral) &#8211; embora isso seja reduzir Bob Dylan a um autor de discos, apenas, e n\u00e3o de performatividades (inclusive o ar <em>blas\u00e9<\/em> com o qual nada disse ainda a respeito de ter recebido um Nobel), e seja \u00ednfimo diante do salto qualitativo que este evento representa desde j\u00e1 e doravante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para Reverendo Walter Ong, S. 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