{"id":4121,"date":"2016-09-26T12:07:13","date_gmt":"2016-09-26T15:07:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4121"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"peixes-no-aquario-ou-nada-sem-chegar-a-canto-algum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4121","title":{"rendered":"Peixes no Aqu\u00e1rio (ou: Nada, sem chegar a canto algum)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Muito frisson se tem feito em torno do segundo longa metragem de Kleber Mendon\u00e7a Filho, <strong>Aqu\u00e1rius<\/strong> &#8211; sobretudo por causa da manifesta\u00e7\u00e3o do seu elenco no Festival de Cannes contra o impeachment da ex-Presidente Dilma Roussef, de tal forma que o filme virou um \u00edcone do &#8220;Fora Temer&#8221;, o que inviabiliza sua real discuss\u00e3o (no sentido de que qualquer cr\u00edtica a ele \u00e9 automaticamente tomada como de direita, golpista ou neoliberal).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que o filme \u00e9 med\u00edocre, embora n\u00e3o seja cinematograficamente ruim &#8211; mas que, sobretudo, a discuss\u00e3o urban\u00edstica que prop\u00f5e \u00e9 simplista, enviesada, e tem um horizonte de classe muit\u00edssimo estreito (muito aqu\u00e9m, inclusive, do seu primeiro longa). O roteiro \u00e9 envolvente, a dire\u00e7\u00e3o de atores \u00e9 bem acima da m\u00e9dia, e as solu\u00e7\u00f5es tanto de deslocamento de c\u00e2mera quanto de corte e edi\u00e7\u00e3o s\u00e3o de algu\u00e9m que domina a gram\u00e1tica do cinema &#8211; como se sabe de Kleber desde seu curta metragem <em>Recife Frio<\/em>. No entanto, a capita\u00e7\u00e3o de som direto \u00e9 ruim e por vezes inaud\u00edvel &#8211; o que \u00e9 de se estranhar de algu\u00e9m cuja estr\u00e9ia no longa-metragem foi<em> O Som Ao Redor<\/em>, cuja sonoplastia por DJ Dolores \u00e9 o trunfo do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, do ponto de vista urban\u00edstico, a defesa quixotesca, por parte da personagem Clara, de um pr\u00e9dio de 3 andares e ocupa\u00e7\u00e3o extensiva do lote, j\u00e1 vazio, contra uma empreiteira verticalizante de condom\u00ednio fechado, \u00e9 lido equivocadamente como se um defendesse o direito \u00e0 cidade e o outro n\u00e3o. Ou como se apontar isso fosse defender a empreiteira. <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/samuelpessoa\/2016\/09\/1816631-conjunto-de-distorcoes-explica-poder-de-barganha-de-clara-de-aquarius.shtml\" target=\"_blank\">Trata-se, no entanto, do embate entre duas formas de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/a>, cada uma a seu modo contra o direito \u00e0 cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clara \u00e9 lida por &#8220;<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3839\" target=\"_blank\">esta esquerda que ignora o espec\u00edfico o espa\u00e7o<\/a>&#8221; (obrigado, Yves Lacoste, Henri Lefebvre &amp; Milton Santos) como uma esp\u00e9cie de Jane Jacobs tropical &#8211; sem se dar conta, \u00e9 claro, de que a <a href=\"http:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2016\/09\/26\/jane-jacobs-street-smarts\" target=\"_blank\">Dona de Casa do Village s\u00f3 barrou Robert Moses por seu extremo senso de comunidade<\/a>, e Clara \u00e9 uma individualista radical (inclusive indo contra os interesses de seus pares, filhos, etc)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Para al\u00e9m do <a href=\"http:\/\/www.fau.usp.br\/depprojeto\/labhab\/biblioteca\/textos\/maricato_analfabetismourbano.pdf\" target=\"_blank\">analfabetismo urban\u00edstico<\/a>, isto revela uma dificuldade de nossa esquerda em formular uma teoria do sujeito em a\u00e7\u00e3o social: para ela, ou ele se evanece em movimentos grupais, ou \u00e9 solit\u00e1rio: tudo \u00e9 bidimensional, ou horizontal ou vertical, n\u00e3o comparece o terceiro eixo da pragm\u00e1tica e do vern\u00e1culo &#8211; falta, enfim, o fractal.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aqu\u00e1rius<\/em> se pretende assim um filme que aborde temas similares ao do <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/30\/opinion\/1448840154_656256.html\" target=\"_blank\">Movimento Ocupe Estelita<\/a>\u00a0&#8211; quando tal movimento est\u00e1 muit\u00edssimo al\u00e9m das quest\u00f5es levantadas pelo filme. Por exemplo, ele n\u00e3o se limita a posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 verticaliza\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s, reconhece a necessidade de verticaliza\u00e7\u00e3o se se quer aumentar a densidade e a diversidade do uso de um determinado bairro. Outra: foca na reocupa\u00e7\u00e3o do Centro, onde a infraestrutura j\u00e1 existe e \u00e9 ostensiva e qualificada. Mais ainda, n\u00e3o defende apenas habita\u00e7\u00e3o popular: se \u00e9 contra o Projeto Novo Recife \u00e9 por ele ser exclusivamente para uma classe social mais abastada &#8211; reconhecendo que um bairro, para ser vivo e din\u00e2mico, precisa tanto de ricos quanto de pobres circulando por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso que os movimentos urbanos contra verticaliza\u00e7\u00f5es usem como principal argumento o sombreamento das praias (Salvador, Recife) ou a perda da frequ\u00eancia tradicional do bairro (Vila Madalena, em S\u00e3o Paulo &#8211; o que, vindo da esquerda, nada difere do horror ultra-direitista do Jardim Europa em rela\u00e7\u00e3o a sua verticaliza\u00e7\u00e3o): estes ou n\u00e3o s\u00e3o problemas principais, ou s\u00e3o inclusive vantagens. A Vila Madalena tem tudo a ganhar se deixar de ser um bairro apenas de hostels e brech\u00f3s e prever sua verticaliza\u00e7\u00e3o paulatina (pr\u00e9dios de at\u00e9 6 andares, com escada ao inv\u00e9s de elevadores, etc.); pr\u00e9dios de 20 andares em Piat\u00e3 s\u00e3o sobretudo problematicos por gerarem moradia onde n\u00e3o h\u00e1 habita\u00e7\u00e3o (n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos: habita\u00e7\u00e3o \u00e9 a vida cotidiana do entorno: a padaria da esquina, a quitanda, etc) e assim acirrar a carrodepend\u00eancia (individual ou coletiva, esta atrav\u00e9s de linhas de \u00f4nibus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos leva a um ponto vantajoso de <em>Aqu\u00e1rius<\/em> jamais aproveitado:<a href=\"http:\/\/caosplanejado.com\/cidades-brasileiras-a-pior-verticalizacao-do-mundo\/\" target=\"_blank\"> uma arqueologia dos modos residenciais das metr\u00f3poles brasileiras comparativamente a outras metr\u00f3poles coet\u00e2neas do mundo ocidental<\/a>, sobretudo da Am\u00e9rica Latina. O Brasil evitou a moradia em apartamentos mesmo depois de diversas reformas urbanas do s\u00e9culo XIX e XX: o hausmannismo de Pereira Passos favelizou o Rio de Janeiro sobretudo por n\u00e3o verticalizar moradias &#8211; quando em Buenos Aires se encontram edif\u00edcios residenciais multifamiliares de mais de 4 pavimentos com mais de 100 anos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed, com o fim da Rep\u00fablica Velha, o Brasil passa a ver surgirem arranha-c\u00e9us residenciais, dependentes de elevadores, mas em geral com relativo luxo, e distantes do Centro (Copacabana, por exemplo) &#8211; e por outro lado, conjuntos habitacionais de sub\u00farbios ou vila oper\u00e1rias. Isto deveria nos servir de li\u00e7\u00e3o: ser contra a verticalidade n\u00e3o impede que ela aconte\u00e7a, mas sim garante que ela aconte\u00e7a tardiamente, do pior modo poss\u00edvel, catastroficamente. De tal forma que os nossos pr\u00e9dios residenciais modernistas, bauhaus e art-decor que eu pessoalmente tanto elogio pela sua rela\u00e7\u00e3o franca com a rua e a evita\u00e7\u00e3o de &#8220;\u00edtens de lazer&#8221; no t\u00e9rreo (o lazer se faz na rua, no clube, na pra\u00e7a, na praia) s\u00e3o os antepassados dos &#8220;condom\u00ednios com 50 \u00edtens de lazer&#8221; da atualidade &#8211; e n\u00e3o, como em outras metr\u00f3poles, antagonistas anteriores a eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto s\u00f3 foi poss\u00edvel, diga-se de passagem, pela aboli\u00e7\u00e3o da escravatura ter sido tardia: enquanto houve bra\u00e7os negros, a habita\u00e7\u00e3o em ch\u00e1cara de arrabalde era vi\u00e1vel; quando deixa de existir a a classe trabalhadora se organiza, o deslocamento vertical se faz premente mas s\u00f3 realiz\u00e1vel se o bra\u00e7o negro for substitu\u00eddo por uma m\u00e1quina, e nunca autonomamente por casa sujeito, como Gilberto Freyre j\u00e1 mostrava em <em>Sobrados &amp; Mocambos<\/em>, especificamente no cap\u00edtulo &#8220;Escravo, animal e m\u00e1quina&#8221;. (E \u00e9 curioso que Kleber Mendon\u00e7a Filho tenha abdicado de sua heran\u00e7a freyriana neste filme, quando foi um dos tra\u00e7os positivos do seu anterior).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda, \u00e9 not\u00e1vel que toda a discuss\u00e3o urban\u00edstica de Aqu\u00e1rius gire em torno do destino de um lote privado, e n\u00e3o de seus espa\u00e7os p\u00fablicos lindeiros &#8211; o que \u00e9 correlato do fato de que se foca pouco na revis\u00e3o dos C\u00f3digos de Obras das metr\u00f3poles brasileiras (a exce\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo), que exigem vagas de garagem mas que poderiam ao contr\u00e1rio estimular o uso comercial do t\u00e9rreo (o que inclusive torna as moradias mais baratas), enquanto se fala muito em PDDU e LOUOS, que neste quesito n\u00e3o s\u00e3o de mesma import\u00e2ncia. Sobre isso, o melhor filme brasileiro deste ano, verdadeiro herdeiro de \u00a0Robert Bresson, enfoca bem embora n\u00e3o seja seu tema central: <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=j5EFtDbbKxY\" target=\"_blank\">Para Minha Amada Morta<\/a><\/em>, com seus espa\u00e7os p\u00fablicos curitibanamente ou v\u00e1zios ou meramente funcionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Aqu\u00e1rius<\/em><\/strong>\u00a0est\u00e1 assim, na pr\u00e1tica, muito mais a direita do que gostaria, do que sup\u00f5e ou do que enxergam seus f\u00e3s. Que ele seja o \u00edcone contra &#8220;O Golpe Temer\u00e1rio&#8221;, mostra como estamos mal parados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito frisson se tem feito em torno do segundo longa metragem de Kleber Mendon\u00e7a Filho, Aqu\u00e1rius &#8211; sobretudo por causa da manifesta\u00e7\u00e3o do seu elenco no Festival de Cannes contra o impeachment da ex-Presidente Dilma Roussef, de tal forma que o filme virou um \u00edcone do &#8220;Fora Temer&#8221;, o que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,12],"tags":[26,1374,970],"class_list":["post-4121","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01ver","tag-cinema","tag-direito-a-cidade","tag-urbanismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4121","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4121"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4121\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4132,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4121\/revisions\/4132"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}