{"id":4116,"date":"2016-07-25T10:00:50","date_gmt":"2016-07-25T13:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4116"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"as-plumas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4116","title":{"rendered":"As Plumas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um dos meus dois contos, ambos j\u00e1 premiados e publicados, escritos ao modo dos <a href=\"http:\/\/areas.fba.ul.pt\/fh\/dialogoscomleuco.pdf\" target=\"_blank\"><em>Di\u00e1logos com Leuc\u00f3<\/em><\/a>, obra-testamento de <strong>C\u00e9sare Pavese<\/strong> (encontrada na cabeceira de sua cama quando se suicidou). Este, um di\u00e1logo entre Ossanha e Oxum a respeito dos amores de Ox\u00f3ssi e sua bissexualidade; o outro, que pretendo postar em breve, um di\u00e1logo entre Sim\u00e3o Pedro e Judas Iscariotes enquanto arrumam a mesa para a \u00daltima C\u00e9ia \u00a0no Montes das Oliveiras, chama-se <em>Os Galos<\/em>, a respeito do tema da trai\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria ou involunt\u00e1ria. Intento escrever um terceiro, <em>\u00d3rbitas<\/em>, um di\u00e1logo entre o sat\u00e9lite de J\u00fapiter, Ganym\u00e9des, e a estrela Antinoo, sobre o amor de e por homens mais velhos e urbanos com meninos campesinos.<\/p>\n<blockquote><p><b>As Plumas\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>para Em\u00edlio Rodrigu\u00e9, Mestre Didi e Pierre Verger<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>Dois deuses seduziram o Ca\u00e7ador Solit\u00e1rio, com algum sucesso: o tiveram, se deitaram com ele, amaram e foram amados; dois deuses: um homem, uma mulher; um, senhor das brisas, dos insetos e das folhas; outra, das \u00e1guas doces e l\u00edmpidas. Ambos os deuses perderam-no brevemente, que n\u00e3o pode ser de ningu\u00e9m; ao tentar mud\u00e1-lo, cont\u00ea-lo, foram o deus e a deusa contidos, mudados, por ele. <\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>(Ox\u00f3ssi, uma Diana homem \u2013 homem feminino, \u00e9 verdade, l\u00e1 onde Diana \u00e9 um Ox\u00f3ssi mulher, uma mulher m\u00e1scula: a cor\u00e7a, o alce campeiro). <\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>Tudo o que lembro dele \u00e9 que era belo, e meigo de um modo displicente; que cheirava a homem sadio, levemente suado de um suor que n\u00e3o fedia; e que dan\u00e7ava, como embriagado de esp\u00edritos. Eu era triste e todo meu corpo um rio de l\u00e1grimas \u2013 ele se banhou em meu corpo, curando sua ressaca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Guardo ainda hoje seu travesseiro de arrudas e alecrins secos \u2013 j\u00e1 n\u00e3o cheiram nem t\u00eam a maciez de sua pele, contudo me lembram dele cochilando, exausto e contente, sorriso de crian\u00e7a sem m\u00e3e, enquanto eu cozinhava suas ca\u00e7as: caitutus, fais\u00f5es, inhame-de-umb\u00fa&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>Alu\u00e1, e c\u00e2nhamo&#8230;!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Gostava de alu\u00e1, que bebia contido como um reizinho de seu pr\u00f3prio reino no qual se julgava o \u00fanico s\u00fadito (todos n\u00f3s est\u00e1vamos a pedir ex\u00edlio para dentro de seus dom\u00ednios, por\u00e9m s\u00f3 nos era dado visit\u00e1-los, passear por eles, nunca tomar-lhe parte. Seu pequeno reino era o Mundo). De c\u00e2nhamo n\u00e3o gostava, s\u00f3 uma vez o tragou a pedido, e de outra dei-lhe sem que o soubesse: era b\u00eabado que ficava mais belo, dan\u00e7ando como os p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o precisava de tais expedientes. \u00c9 certo que \u00e9brio de sentidos, incapaz de ser certeiro com suas flechas, ficava magn\u00edfico \u2013 no entanto, minha beleza e minhas puras \u00e1guas bastavam para inebri\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Eis que te enganas! Foi muito senhor de si que ele comigo se deitou, com sua flecha em riste, seu arco em punho. Foi porque quis, porque me desejou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>No entanto, nunca nos amou, nunca amou a nada nem a ningu\u00e9m \u2013 s\u00f3 a si mesmo e a suas matas, impenetr\u00e1vel na sua liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>A ti, ele amava, confessou-me tr\u00f4pego um dia. Quando te emprenhou, apenas fingia n\u00e3o saber, posto que te conhecia: tu querias ser dona de si e de teu ventre; ele, soberano, o consentiu. E no ber\u00e7o de l\u00edrios dep\u00f4s suas armas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>O fruto do meu ventre, t\u00e3o logo come\u00e7ou a andar, seguiu o rastro do pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Coberto de teus ouros, e \u00e9 a teu leito de rainha que tua crian\u00e7a sempre volta. J\u00e1 para mim, o arqueiro tamb\u00e9m retorna: dorme nos meus galhos, se protegendo das on\u00e7as e guepardos; rouba-me bagas e drupas (caj\u00e1s, cajaranas, abios, ing\u00e1s); bebe a \u00e1gua fresca de meus cip\u00f3s. \u00c0s vezes, at\u00e9, conversa longamente comigo sobre os pesares do mundo, as colheitas, o tempo de suas chuvas.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>E n\u00e3o te ama?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Ama, \u00e9 certo, meu amor por ele; como ama vosso filho mais que a v\u00f3s (talvez at\u00e9 o desposasse, travestido de f\u00eamea como anda). \u00c9 por isso que o embriago: \u00e9 vendo-o dormir ou bailar, e n\u00e3o deitando-me com ele, que mais me encanto; \u00e9 por isso que se deixa talvez embebedar: ele quer ser mais amado, sendo ao mesmo tempo mais livre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o mais o vi, nunca mais. Em sonhos, tenho a impress\u00e3o de que se lava nas cascatas de meus cabelos enquanto pastoreia uma vara de queixadas e porcos do mato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>A mim tamb\u00e9m vem em sonho \u2013 redemoinha minhas folhas ca\u00eddas, e sei que foi ele por no dia seguinte tudo estar florido, com abelhas fazendo o mel que ele tanto cobi\u00e7a e despreza. Espera, ouve! Ouve?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>Um farfalhar, sim. O que \u00e9?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Um tropel de veados, uns tamandu\u00e1s em fuga \u2013 at\u00e9 tatus cavando tocas, urgentes, nas minhas ra\u00edzes. \u00c9 ele que l\u00e1 vem!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>\u00c9 ele?! Tem certeza?!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Jamais me enganaria com esta alfazema, esta lavanda, estes assovios no ar. \u00c9 ele&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>E finalmente, estou acordada! Que saudades: desta vez o verei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Acordado, ele n\u00e3o nos chega. Tem seus ardis, sua timidez de moleque ao roubar mangas. Durmamos&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Oxum<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o quero! E nem conseguiria. Sinto sua falta, preciso dele em meu seio de mina.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Ossain<\/span><\/p>\n<p>Anda, toma um gole de aru\u00e1; fuma este c\u00e2nhamo. \u00c9 preciso sonharmos para que pare\u00e7a ser nosso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos meus dois contos, ambos j\u00e1 premiados e publicados, escritos ao modo dos Di\u00e1logos com Leuc\u00f3, obra-testamento de C\u00e9sare Pavese (encontrada na cabeceira de sua cama quando se suicidou). 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