{"id":4051,"date":"2016-01-28T16:58:36","date_gmt":"2016-01-28T19:58:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4051"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"despertar-antes-do-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=4051","title":{"rendered":"Despertar antes do Sonho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Com<strong><em> Carol<\/em><\/strong>, Todd Haynes achou finalmente voz pr\u00f3pria &#8211; e cometeu uma obra-prima, um dos melhores filmes j\u00e1 feitos, que senta a mesa por um lado com <em>Morte em Veneza<\/em>, de Luchino Visconti, e por outro com o d\u00edptico <em>Ice Storm \/ Brokeback Mountain<\/em>, de Ang Lee, acrescentando algo de novo e outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu pen\u00faltimo filme, <em>Longe do Para\u00edso<\/em>, Haynes j\u00e1 dominava com perfei\u00e7\u00e3o a gram\u00e1tica f\u00edlmica, s\u00f3 que ainda emulando um de seus mestres: Douglas Sirk. Ali\u00e1s, desde sempre Haynes desenvolve sua linguagem por decalque: em <em>Veneno<\/em>, seu primeiro longa, copiava Jean Genet, Jean Cocteau, Pasolini e Fassbinder (e, portanto, Fran\u00e7ois Ozon).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outrossim, o filme de \u00e9poca sempre foi seu campo tanto quanto o filme de desvio sexual: l\u00e1 onde ele n\u00e3o existe, Haynes o inocula &#8211; ao fazer por exemplo Bob Dylan ser interpretado por uma mulher, Kate Blanchet (com quem ali\u00e1s ele mantem uma rela\u00e7\u00e3o de cumplicidade autoral similar a de George Cuckor com Katherine Hepburn, a quem ela tamb\u00e9m j\u00e1 interpretou). <em>Velvet Goldmine<\/em> \u00e9 exemplar neste sentido, particularmente nestes dias posteriores a morte de David Bowie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do decalcamento de diretores e autores anteriores, seus filmes tendiam (embora fossem se esvaziando paulatinamente disso) a um discurso ideol\u00f3gico militante: a liberta\u00e7\u00e3o de se estar no lugar de dejeto (bicha, presidi\u00e1rio, etc), o rock como inst\u00e2ncia bissexual por excel\u00eancia (para n\u00e3o dizer andr\u00f3gina e transg\u00eanero), etc. Desta vez, ao contr\u00e1rio, sua visada \u00e9 sobretudo anal\u00edtica e menos panflet\u00e1ria (o que j\u00e1 vinha surgindo desde <em>Far From Heaven<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente em <em><strong>Carol<\/strong><\/em>\u00a0a influ\u00eancia de Sirk \u00e9 n\u00edtida, mas foi reduzida a isto: uma influ\u00eancia, n\u00e3o mais um caminho a trilhar. O que lhe concede espa\u00e7o para que seja influenciado por outras artes (&#8220;S\u00e3o as outras artes que me ensinaram a escrever&#8221;, diz Robert Bresson citando Stendhal ao encerrar sua \u00faltima entrevista): <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/search?q=edward+hopper&amp;espv=2&amp;biw=1024&amp;bih=643&amp;source=lnms&amp;tbm=isch&amp;sa=X&amp;ved=0ahUKEwj02pH8ts3KAhXMjSwKHYxKDKsQ_AUIBigB\" target=\"_blank\">Edward Hopper<\/a>, a arquitetura Art-Decor anterior ou paralela a Praire School e ao Arts &amp; Crafts Movement, e mesmo Johanes Vermeer e Diego Velasquez s\u00e3o mais importantes do que qualquer outro cineasta para a forma\u00e7\u00e3o deste cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fotografia embassada, a luz lateral, os personagens de corpo inteiro sempre atuando de costas para a c\u00e2mera (e quando os rostos s\u00e3o mostrados, s\u00e3o sempre em close-up), ou ocultos por um m\u00f3vel ou parede, ou dialogando desde c\u00f4modos diferentes, e o uso de superf\u00edcies reflexivas de modo a conjugar duas cenas simult\u00e2neas &#8211; para n\u00e3o dizer as cenas que ocorrem mutuamente perif\u00e9ricas umas as outras, como na abertura e no fechamento da trama, que s\u00e3o a \u00fanica e mesma cena, filmada ao direito e ao avesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m a import\u00e2ncia dos h\u00e1bitos cotidianos dom\u00e9sticos, e a op\u00e7\u00e3o por cen\u00e1rios fechados \u00edntimos (casas, apartamentos, autom\u00f3veis, quartos de hotel) &#8211; Carol Aird cozinhando n\u00e3o \u00e9 menos do que a <a href=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/2\/20\/Johannes_Vermeer_-_Het_melkmeisje_-_Google_Art_Project.jpg\" target=\"_blank\">Mo\u00e7a Servindo Leite<\/a>; o uso da cabine telef\u00f4nica n\u00e3o difere da<a href=\"http:\/\/stmedia.startribune.com\/images\/mnmusicfan_1421423382_Vermeer_Woman+sReading+a+Letter.jpg\" target=\"_blank\"> Gr\u00e1vida Recebendo Carta<\/a>.<\/p>\n<p>E ainda as ins\u00edgnias exteriores, maneiristas: broches, chap\u00e9us, penteados, tipos de n\u00f3s de gravata; as paredes se nuas ou se repletas de fotos, os utens\u00edlios.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tom anal\u00edtico, e n\u00e3o mais denunciador, nesta fita reside numa escolha epocal: somos o tempo inteiro informados de que <strong>ainda n\u00e3o<\/strong> estamos na vig\u00eancia do American Dream &#8211; o namorado de Therese vai peg\u00e1-la para passear, em uma nova-york ainda com poqu\u00edssimos carros inclusive pequenos, de bicicleta; apenas uma TV aparece em todo o filme, e apenas numa casa rica, com Dwight Eisenhower discursando como Presidente Eleito, discurso no qual marca explicitamente que se est\u00e1 no exato meio do s\u00e9culo; a dificuldade de empregabilidade e os baixos sal\u00e1rios, e vale lembrar que s\u00f3 no final a personagem-t\u00edtulo, para sua pr\u00f3pria surpresa, se v\u00ea obrigada a trabalhar fora de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um Estados Unidos da Am\u00e9rica pouco antes da Guerra da Cor\u00e9ia &#8211; bem antes portanto da crise de valores que ser\u00e1 deflagrada pela Guerra do Vietn\u00e3, mais de uma d\u00e9cada depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante localizar a trama a\u00ed pois os personagens vagueiam num limbo de valores e pr\u00e1ticas: o que restava de uma sociedade de g\u00eanero (ainda que reduzida ao patriarcado e do outro lado ao trabalho sombrio) j\u00e1 est\u00e1 se esvaindo (a aristocracia da Nova Inglaterra do qual Harge e Carol fazem parte), mas uma classe m\u00e9dia robusta, educada, urbana e ao seu modo revoltada (que ser\u00e1 Therese em poucos anos) ainda n\u00e3o surgiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa acontece portanto comprimida entre o que foi o mundo de Henry James e sobretudo de Edith Wharton e o mundo que viria a ser de Elizabeth Bishop, Silvya Plath e Susan Sontag (antecipado neste limbo pela poetisa Marianne Moore &#8211; n\u00e3o por acaso todas mulheres que rejeitaram o casamento e s\u00e3o l\u00e9sbicas ou ao menos n\u00e3o-heterossexuais, para n\u00e3o dizer anti-heterossexuais) &#8211; e Jane Jacobs (uma Nova York ainda n\u00e3o vitimada pelo rodoviarismo de Robert Moses). Ainda se sente a \u00faltima ressaca da Grande Depress\u00e3o, mas j\u00e1 aparece o raiar do sol do American Way of Life &#8211; e.e.cummings, ainda vivo, n\u00e3o canta mais o mundo que deixou de ser cabotino e tem a riqueza da fal\u00eancia mambembe, mas Robert Frost n\u00e3o surgiu ainda para gritar o perigo da seguran\u00e7a extrema e meditar sobre a emerg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O romance entre Therese e Carol seria resolv\u00edvel, ainda que com dificuldade, numa l\u00f3gica vitoriana de antes, ou na modernidade de logo depois. A\u00ed onde est\u00e1, \u00e9 preciso esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobretudo, a culpa n\u00e3o \u00e9 &#8220;dos homens&#8221;: Harge \u00e9 menos ressentido do que cego, n\u00e3o dominando as regras do mundo que vai surgir, e dominando as regras do mundo que j\u00e1 morreu e que n\u00e3o valem mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trunfo de Hopper em se querer herdeiro de Vermeer est\u00e1 menos na t\u00e9cnica ou tem\u00e1tica, e mais na capita\u00e7\u00e3o do que Reverendo Ivan Illich chamava de &#8220;a triste perda do g\u00eanero&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saindo tardiamente de uma Idade M\u00e9dia que ela n\u00e3o bem entrou, e entrando tamb\u00e9m tarde no com\u00e9rcio internacional das Grandes Navega\u00e7\u00f5es (mais como entreposto, banco e beneficiador de comodities do que possuidor de col\u00f4nias), Flandres &amp; Holanda do s\u00e9culo XVII ao mesmo tempo mant\u00e9m e diluem a divis\u00e3o vern\u00e1cula do trabalho dom\u00e9stico &#8211; como no quadro da<a href=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/3\/2914\/14121947181_03f0c5254c_b.jpg\" target=\"_blank\"> Tecel\u00e3<\/a>, a atividade dom\u00e9stico \u00e9 feminina mas ainda n\u00e3o sombria, econ\u00f4mica mas ainda n\u00e3o sexizada. O g\u00eanero ainda resiste atrav\u00e9s da m\u00faltipla fun\u00e7\u00e3o do lar que \u00e9 mais do que mera resid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hopper, s\u00e9culos depois, retrata o vazio de quando o g\u00eanero j\u00e1 desapareceu, e h\u00e1 apenas a solid\u00e3o sexual: homens e mulheres s\u00e3o sujeitos iguais, e portanto em disputa; sua linguagem, agora pretensamente neutra, \u00e9 ainda mais inintelig\u00edvel. E j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 atividades dom\u00e9sticas a fazer, sen\u00e3o a desola\u00e7\u00e3o do t\u00e9dio, j\u00e1 que toda a vida cotidiana est\u00e1, ou se torna, automatizada: o tempo \u00e9 finalmente livre, mas esvaziado de desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Menos do que a opress\u00e3o feminina, ou homossexual, o que <em><strong>Carol<\/strong><\/em> mostra \u00e9 o fim deste hiato de 400 anos, onde o sexismo est\u00e1 pleno mas ainda n\u00e3o foi notado e criticado. N\u00e3o bem um pesadelo, \u00e9 uma \u00e9poca do sono sem sonho &#8211; que, no final dos anos 1960, come\u00e7ar\u00e1 a fazer \u00e1gua, a ser questionado e virado do avesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Therese e Carol est\u00e3o tentando despertar antes que o Sonho de um mundo de an\u00f3dina igualdade e liberdade compr\u00e1vel as engolfe (\u00e9 n\u00edtido que o que Carol deseja em Therese \u00e9 evitar que ela cometa os erros &#8211; casamento, por exemplo &#8211; dos quais ela est\u00e1 tentando se livrar). Um amor que j\u00e1 n\u00e3o tem tempo na ordem de g\u00eanero, mas ainda n\u00e3o tem tempo numa ordem que questione a ordena\u00e7\u00e3o sexual industrial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 isto que tal filme traz de novo: se Rooney Mara \u00e9 o equivalente l\u00e9sbico de Bjorn Andersen como o Tadzio da f\u00e1bula de Thomas Mann (e \u00e9 de se notar que a can\u00e7\u00e3o final \u00e9 uma sonata de Chopin, a que se ap\u00f4s uma letra, cujo tema mel\u00f3dico \u00e9 o mesmo do Adagietto da 5\u00aa Sinfonia de Gustav Mahler), n\u00e3o se trata mais de uma impossibilidade, um pecado, uma doen\u00e7a ou um crime; por outro lado, a import\u00e2ncia de <em><strong>Carol<\/strong><\/em> n\u00e3o est\u00e1 no impacto que pode ter no p\u00fablico n\u00e3o-urbano, como foi o d\u00edptico de Ang Lee &#8211; antes, ele surge num mundo em que a visibilidade feminina e homossexual j\u00e1 est\u00e1 consumada, restando compreender como, mais do que despertar antes do sonho, fizemos por gera\u00e7\u00f5es tal realidade vir a ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E est\u00e1 tamb\u00e9m no deslocamento temporal (a cidade de Nova York \u00e9 prop\u00edcia para um amor s\u00e1fico, mas n\u00e3o ainda naquele momento, ou n\u00e3o mais), l\u00e1 onde <em>Tempestade de Gelo<\/em> e <em>Brokeback Mountain<\/em> j\u00e1 acharam seu tempo, mas n\u00e3o seu espa\u00e7o: nem o sub\u00farbio de Nova Jersey (agora medioclassista, e fruto do endividamento do Sonho Americano, onde em Todd Haynes ele \u00e9 aristocr\u00e1tico) para liberalidade sexual nem o meio-oeste contraparte deste sub\u00farbio (ainda quase feudal, pr\u00e9-prolet\u00e1rio) como lugar para a homossexualidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com Carol, Todd Haynes achou finalmente voz pr\u00f3pria &#8211; e cometeu uma obra-prima, um dos melhores filmes j\u00e1 feitos, que senta a mesa por um lado com Morte em Veneza, de Luchino Visconti, e por outro com o d\u00edptico Ice Storm \/ Brokeback Mountain, de Ang Lee, acrescentando algo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[26,1934,1935,1868,1932,457,1931,1933],"class_list":["post-4051","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01ver","tag-cinema","tag-edward-hopper","tag-genero","tag-homossexualidade","tag-kate-blanchet","tag-sexo","tag-todd-haynes","tag-vermeer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4051","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4051"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4051\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4063,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4051\/revisions\/4063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}