{"id":3998,"date":"2015-03-14T09:26:47","date_gmt":"2015-03-14T12:26:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3998"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"a-eternidade-preterita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3998","title":{"rendered":"a Eternidade pret\u00e9rita"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O recente longa metragem pernambucano <a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-230022\/trailer-19539433\/\" target=\"_blank\"><strong>Hist\u00f3ria da Eternidade<\/strong><\/a>\u00a0tem causado certo frisson e interesse, al\u00e9m de elogios rasgados, em certa galera modernete, deleuziana (eu sou anti-!), meio queer, perform\u00e1tica enfim. N\u00e3o posso encontrar justificativa para tal, uma vez que a excel\u00eancia da fita est\u00e1 no seu conservadorismo radical (tanto fabular quanto nas op\u00e7\u00f5es de filmagem), salvo a superficialidade interpretativa intr\u00ednseca dessa galera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conservadorismo aparece j\u00e1 na t\u00e9cnica desde a abertura: a primeira dezena de minutos n\u00e3o inclui qualquer di\u00e1logo, n\u00e3o h\u00e1 foco da c\u00e2mera em personagens espec\u00edficos, o comportamento destes n\u00e3o \u00e9 psicologizado, a fotografia n\u00e3o tem filtros. Trata-se de um cinema objetal, que antes de ter atores tem modelos funcionando como objeto de cena: mais do que bressoniano, toda a gram\u00e1tica de Camilo Cavalcante se insere no, e n\u00e3o meramente emula o, realismo po\u00e9tico da Path\u00e9 pr\u00e9-guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal est\u00e9tica aparece ainda na escolha por cen\u00e1rios reais, o uso de n\u00e3o-atores (contudo a interpreta\u00e7\u00e3o sempre mai\u00fascula de Marc\u00e9lia Cartaxo &#8211; talvez nossa maior atriz puramente de cinema &#8211; e de meu ex-colega de Antonio Vieira, Leonardo Fran\u00e7a, chamem aten\u00e7\u00e3o), a quase aus\u00eancia de narrativa com a proemin\u00eancia da capta\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, os nichos narrativos diversos que se entrecruzam se modificando: estas coisas me fazem pensar num Marcel Carn\u00e9 agreste, um <em>Boulevard du Crime \/ Les Enfant do Paradis<\/em> de aposentados rurais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo as cenas que hipnotizam (com raz\u00e3o) estes adolescentes tardios p\u00f3s-contempor\u00e2neos de que falei no in\u00edcio, que se poderiam encaixar isoladamente no conceito (deus nos defenda!) de video-arte, s\u00e3o reacion\u00e1rias no melhor sentido do termo. Por exemplo, o j\u00e1 cl\u00e1ssico plano-sequ\u00eancia em que Irandhir Santos dubla o Secos &amp; Molhados (nota: uma das melhores bandas de rock de todos os tempos &#8211; se voc\u00ea n\u00e3o concorda, voc\u00ea n\u00e3o entendeu ainda o que \u00e9 rock!): h\u00e1 nela muito do anti-cinema (teatro filmado) de Sacha Guitry (al\u00e9m, \u00e9 claro, de ecos oper\u00edsticos de um Jacques Prevert ou Marcel Pagnol nos roteiros com Carn\u00e9 &#8211; o personagem de Irandhir Santos \u00e9 meio uma Garrance drag-queen mas tamb\u00e9m um Poi-le-carrot que cresceu no sert\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto posto, a est\u00f3ria contada \u00e9 mais conservadora ainda, se inserindo num cinema devocional que vai do catolicismo penitente de Carl Theodor Dreyer ao pan-espiritualismo do hodierno Ang Lee (n\u00e3o chega a surpreender que, com deleuzices, <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1871\" target=\"_blank\">uma galera hoje elogie Lars von Trier como libert\u00e1rio: herdeiro declarado de Dreyer e Bresson, com a diferen\u00e7a de que seu conservadorismo tem desprezo pela condi\u00e7\u00e3o humana e \u00e9 de um niilismo militante, beirando o facismo<\/a> &#8211; ao avesso dos outros autores que citei ou citarei aqui), diria que seu roteiro \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o de tese. Tal tese se manifesta no fato de que, dos tr\u00eas n\u00facleos narrativos do longa, o \u00fanico com final feliz \u00e9 o que n\u00e3o se contamina pelo mundo industrial, urbano e trans-humano externo a cidadezinha sertaneja. Ali\u00e1s, toda vez que a bolha est\u00e1tica no tempo (a eternidade \u00e9 o presente ininterrupto &#8211; a defini\u00e7\u00e3o \u00e9 de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, e vale para o Para\u00edso como para o Inferno: s\u00f3 o Purgat\u00f3rio \u00e9 temporal) \u00e9 invadida pelo \u00eaxtase do futuro (o artista perform\u00e1tico do personagem de Irandhir Santos, o neto que regressa da Paulic\u00e9ia Desvairada tatuado, com cabelo descolorido, e com claro &#8220;<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3646\" target=\"_blank\">uso recreativo de entorpecentes<\/a>&#8220;) a barreira contra o incesto se esgar\u00e7a: a av\u00f3 passa a ter fantasias sexuais com o neto ao tomar conhecimento de uma revista pornogr\u00e1fica francamente bissexual que porta na mala; a sobrinha adolescente se engaja num estupro reverso do tio, insinuadamente homossexual, ap\u00f3s uma crise epil\u00e9ptica (nem de longe a primeira&#8230;) deste. S\u00f3 ao cego sanfoneiro e sua paciente conquista de uma vi\u00fava ressequida \u00e9 garantida a felicidade, modesta, convivial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o posso deixar de ver a\u00ed tamb\u00e9m um certo eco do conceito de vern\u00e1culo da esquerda jesu\u00edtica do p\u00f3s-guerra: Walter Ong, Michel de Certeau, Teilhard de Chardin, e sobretudo Ivan Illich &#8211; a id\u00e9ia de que \u00e9 a modernidade t\u00e9cnica, mais do que o capitalismo ele mesmo, que produz a pobreza industrializada por aleijar os meios de subsist\u00eancia tradicionais e inserir ali desejos que n\u00e3o se encontrariam na capacidade aut\u00f4noma de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda um trunfo narrativo (apesar de alguns excessos de explicitude que Robert Bresson condernaria, e que se nota que o diretor tentou em v\u00e3o evitar): o presente continuo que forma a eternidade do t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 atual, mas passado. Um presente que foi, que era, que se continua a ser \u00e9 como f\u00f3ssil: tudo aponta para a estagna\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada perdida de 1980 &#8211; a televis\u00e3o na pra\u00e7a, as l\u00e2mpadas incandescentes, o orelh\u00e3o de posto telef\u00f4nico usado comunitariamente (e a aus\u00eancia de telefonia celular mesmo para o neto que retorna de S\u00e3o Paulo), o uso de LPs (mas n\u00e3o de CDs) nas performances. A eternidade \u00e9 a d\u00e9cada em que o socialismo como ger\u00eancia de desejos pelo estado naufragou, mas em que a industrializa\u00e7\u00e3o capitalista tamb\u00e9m mordeu o pr\u00f3prio rabado; que as ditaduras acabaram mas que Tancredo n\u00e3o tomou posse &#8211; este dec\u00eanio sarneyzista que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se concluir porque n\u00e3o cessa de n\u00e3o come\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recente longa metragem pernambucano Hist\u00f3ria da Eternidade\u00a0tem causado certo frisson e interesse, al\u00e9m de elogios rasgados, em certa galera modernete, deleuziana (eu sou anti-!), meio queer, perform\u00e1tica enfim. 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