{"id":3991,"date":"2015-01-04T10:42:39","date_gmt":"2015-01-04T13:42:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3991"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"por-uma-outra-heterossexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3991","title":{"rendered":"Por uma Outra heterossexualidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Para R\u00f4mulo &amp; nossos outros amores<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os tioz\u00f5es conservadores e meio fam\u00edlia, aos pastores neopentecostais e a uma certa playboyzada heteronormativa que &#8220;pega geral&#8221;, os homens heterossexuais sentem-se amea\u00e7ados pelas novas liberdades sexuais, mormente das mulheres e e dos homens que desejam outros homens. Tal fobia n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o &#8211; mas dela poder-se-ia tirar melhor proveito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o est\u00e1 no fato de que supor, ou impor, ou propor, a igualdade entre os sexos \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 factualmente limitada (as distin\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas e fisiol\u00f3gicas s\u00e3o, gostem ou n\u00e3o, irredut\u00edveis) como desvantajosa (a divis\u00e3o de g\u00eaneros sempre foi uma forma de articular uma complementariedade a partir de uma desigualdade) e inviabilizante do erotismo entre homens e mulheres: se se\u00a0 quer uma rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica com igualdade, sup\u00f5e-se que o sujeito busque uma rela\u00e7\u00e3o homossexual (tradicionalmente sempre foi assim &#8211; antes e fora do advento da ordem burguesa, \u00e9 claro). A tentativa de estabelecer uma equidade entre homens e mulheres, e entre as formas de rela\u00e7\u00e3o e afetos heterossexuais e homossexuais, introduz ainda mais disparidades de poder &#8211; embora a gra\u00e7a de qualquer rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica esteja no manejo das diferen\u00e7as: de idade, gera\u00e7\u00e3o, classe social, origem geogr\u00e1fica, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a raz\u00e3o reside tamb\u00e9m na perda de sentido vetorial do Feminismo &#8211; se \u00e9 que ele algum dia teve um. Pensando com Ivan Illich, o feminismo foi, mais do que uma rea\u00e7\u00e3o, uma reatividade pouco anal\u00edtica ao surgimento do <a href=\"http:\/\/logica.ugent.be\/philosophica\/fulltexts\/26-2.pdf\" target=\"_blank\">trabalho sombrio<\/a>: anteriormente a exist\u00eancia do trabalho assalariado, o trabalho do homem e da mulher em torno de um lar era complementar e ambos contribuiam com a renda e a subsist\u00eancia daquela inst\u00e2ncia; uma vez que o trabalho masculino se torna alienado, voltado apenas para a produ\u00e7\u00e3o e a recep\u00e7\u00e3o de um sal\u00e1rio, o trabalho dom\u00e9stico, que se torna ent\u00e3o totalmente feminino, passa a ser de mero consumo &#8211; o fato de ele n\u00e3o ser remunerado \u00e9 um efeito colateral mas n\u00e3o o real problema. O real problema est\u00e1 no fato de que ambos os trabalhos se tornam alienados, sem sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta ordena\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o do trabalho familiar anterior ao capitalismo n\u00e3o havia poderes iguais entre homens e mulheres, mas sim correlatos; o g\u00eanero era uma consequ\u00eancia social da anatomia, mas n\u00e3o linear, e sim constru\u00eddo vernacularmente. O destino do casal n\u00e3o era compulsoriamente o matrim\u00f4nio, nem o da mulher o bin\u00f4mio m\u00e3e e dona-de-casa (como o do homem n\u00e3o era o de provedor): nem que fosse pela exist\u00eancia de conventos e c\u00f4rtes, as mulheres poderiam se tornar de freiras a alcoviteiras &#8211; o lugar de esposa era o mais comum mas n\u00e3o o \u00fanico e seguramente n\u00e3o tinha por fun\u00e7\u00e3o principal o bin\u00f4mio reprodu\u00e7\u00e3o &amp; consumo, sen\u00e3o o compartilhamento da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja l\u00e1 como for, o Feminismo foi bem sucedido na quest\u00e3o de equidade laboral e civil, ainda que no sentido contr\u00e1rio ao desej\u00e1vel: transformou as mulheres em t\u00e3o assalariadas quanto os homens, e profissionalizou o trabalho sombrio transformando o vern\u00e1culo em gram\u00e1tica industrial de servi\u00e7os. Agora, dobrou o cabo da boa esperan\u00e7a, seja pela opress\u00e3o aos homens (quando deveria ser uma re-divis\u00e3o de direitos) que o <a href=\"http:\/\/masculinismo.org\/\" target=\"_blank\">Masculinismo<\/a> t\u00e3o bem denuncia, seja porque as pr\u00f3prias mulheres se colocaram numa posi\u00e7\u00e3o muito mal-parada em rela\u00e7\u00e3o a seus pr\u00f3prios desejos sexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Feminismo, no tocante a rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica heterossexual, gerou um <em>double-bind<\/em>: ou bem a intera\u00e7\u00e3o er\u00f3tica entre homens e mulheres \u00e9 potencialmente agressiva, e deve ser evitada; ou bem ela \u00e9 aceit\u00e1vel se os homens forem menos ativos, mas as mulheres se recusam a sair de sua posi\u00e7\u00e3o de passividade e aceita\u00e7\u00e3o. Cara eu ganho, coroa voc\u00ea perde &#8211; ou preso por ter e por n\u00e3o ter c\u00e3o. Se anteriormente ao advento do Feminismo as mulheres estavam confinada a posi\u00e7\u00e3o ou de dona-de-casa ou de puta, agora j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam estas mas n\u00e3o ganharam outros lugares a estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caberia talvez uma mudan\u00e7a de sem\u00e2ntica: os problemas n\u00e3o s\u00e3o (talvez nunca tenham sido) das mulheres, ou da feminilidade, mas da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos &#8211; e em lugar do Feminismo deveria advir um <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3951\" target=\"_blank\">Movimento Heterossexual, similar por antropofagia (e por isso mesmo oposto por supera\u00e7\u00e3o) ao que se chamou de Movimento Homossexual<\/a>. Enquanto a Viadagem Institucional se autorizou, e mesmo se obrigou, a cagar regra nas \u00faltimas d\u00e9cadas (mesmo que pela via da Transexualiza\u00e7\u00e3o Universal, dos Queer, que nada mais \u00e9 do que uma redu\u00e7\u00e3o ainda mais dr\u00e1stica das capacidades vern\u00e1culas dos sujeitos engendrarem seus g\u00eaneros, e um aumento da aliena\u00e7\u00e3o industrial dos sexos), um Movimento Heterossexual consistiria em colocar problemas vern\u00e1culos: o que um homem e uma mulher, a partir de sua desigualdade articulada, podem desejar entre si e um do outro? que tipos de prazeres podem descobrir? que novos saberes podem inventar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Problemas que poderiam ter sido, e um dia foram mas deixaram de ser, da <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3886\" target=\"_blank\">homossexualidade quando ela n\u00e3o era um tipo sociocl\u00ednico mas uma pr\u00e1tica difusa no advento da masculinidade<\/a>. Apesar de junguiano, <a href=\"http:\/\/ijusp.org.br\/analistatrainee\/gustavo-barcellos\/\" target=\"_blank\">Gustavo Barcellos <\/a>aponta bem algo transversal a este problema: a redu\u00e7\u00e3o, cl\u00ednica inclusive, dos mitologemas da homossexualidade a varia\u00e7\u00f5es do Arqu\u00e9tipo do Andr\u00f3geno &#8211; quando nada seria mais falso, e seria importante buscar os mitos realmente homossexuais, que tratam da masculinidade pura por\u00e9m desigual: Zeus e Ganim\u00e9des, Adriano e Antinoo, Ete\u00f3cles e Polinices, Castor e Polux, Davi e J\u00f4natas, Gilgamesh e Eikindu, etc., muito mais ligados a id\u00e9ia de Substituto Paterno &amp; Filho ou incesto entre irm\u00e3os. Diz Barcellos, e eu concordo, que mesmo antes do advento da Ordem Burguesa a mitologia homossexual era infrequente &#8211; mas eu contrariaria em um aspecto: era mais variada em sua infrequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mitologia da heterossexualidade se revezava entre o sexo casual e for\u00e7ado com mo\u00e7as em s\u00e9rie a quem se emprenha (Zeus, Apollo, e suas ninfas e amantes mortais &#8211; a que poder\u00edamos chamar Arqu\u00e9tipo do Estupro), ou o matrim\u00f4nio como fardo (Zeus e Juno, Saturno e Reia, etc) &#8211; em nenhum dos casos h\u00e1 a riqueza de negocia\u00e7\u00e3o e engendramento de desejos no par mais fr\u00e1gil, tema crucial de toda a erastia hel\u00eanica: n\u00e3o caberia a mulher desejar, nem ao homem faz\u00ea-la desejar ou fazer-se desejado por ela, quando isso era justamente o cerne da rela\u00e7\u00e3o com o eromeno homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo esta mitologia heterossexual sofreu uma redu\u00e7\u00e3o abrupta com a reifica\u00e7\u00e3o de Trist\u00e3o &amp; Isolda (o amor que acaba no momento mesmo em que se consuma, talvez o mitologema de base do bin\u00f4mio trabalho empregado X trabalho sombrio) no Romantismo &#8211; n\u00e3o sem antes, com Shakespeare (e o di\u00e1cono John Donne, vale lembrar), a heterossexualidade ter ganhado uma prolifera\u00e7\u00e3o e uma pluralidade (e uma equidade interna) benignas e nunca antes vista! E n\u00e3o sem minimizar o fato de que, diante da riqueza (embora numericamente esca\u00e7a) dos mitologemas da homossexualidade (e da masculinidade), os GLBTTWZ-KY preferiram a rasteirice das divas, drags e travecas &#8211; corroborando de modo caricato com a reifica\u00e7\u00e3o do mito do andr\u00f3gino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja l\u00e1 como for, \u00e9 hora de uma Heterossexualidade que n\u00e3o busque igualdade, nem a repeti\u00e7\u00e3o do mesmo &#8211; mas que seja capaz de recriar seus mitos de desigualdade, de um modo carnavalescamente shakespeareano (l\u00e1 onde as mulheres que querem ocupar o lugar dos homens se d\u00e3o mal &#8211; McBeth, Mercador de Veneza &#8211; mas tamb\u00e9m elas t\u00eam uma profus\u00e3o de poderes e liberdades correlatas &#8211; Medida por Medida, Muito Barulho por Nada, a Tit\u00e2nia de Sonho de Uma Noite de Ver\u00e3o ou a Miranda, filha de Pr\u00f3spero, que descobre e cria o admir\u00e1vel mundo novo dessas gentes assim&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, contudo, ser\u00e1 preciso que as mulheres estejam aptas a admitir nos homens tamb\u00e9m uma maior variabilidade sexual &#8211; n\u00e3o ver as pr\u00e1ticas homossexuais deles (mais frequentes do que declaram) nem como impecilho nem como signo de exclus\u00e3o &#8211; antes admitir que todas as escolhas sexuadas s\u00e3o contigentes e pass\u00edveis de mudan\u00e7as e ocila\u00e7\u00f5es. Uma tal Heterossexualidade renovada precisaria usar a Homossexualidade como t\u00e1tica &#8211; nada muito diferente do que se fez na Roma do s\u00e9culo II, por exemplo &#8211; com as mo\u00e7as vendo como uma vantagem os rapazes que admitem ter tido experi\u00eancias er\u00f3ticas com outros rapazes, sem no entanto tomar isso como fetiche. Homens e mulheres estariam ent\u00e3o juntos, em pares, n\u00e3o buscando ajudar um ao outro a &#8220;resolverem seus problemas&#8221;, mas antes a viv\u00ea-los de modo, v\u00e1 l\u00e1!, n\u00f4made, radical, po\u00e9tico no sentido seminal do termo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para R\u00f4mulo &amp; nossos outros amores Desde os tioz\u00f5es conservadores e meio fam\u00edlia, aos pastores neopentecostais e a uma certa playboyzada heteronormativa que &#8220;pega geral&#8221;, os homens heterossexuais sentem-se amea\u00e7ados pelas novas liberdades sexuais, mormente das mulheres e e dos homens que desejam outros homens. 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