{"id":3986,"date":"2014-11-22T12:22:16","date_gmt":"2014-11-22T15:22:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3986"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"alterbiografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3986","title":{"rendered":"Alterbiografia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><b>a heterobiografia de si (ou a autobiografia do Outro)<\/b><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu pequeno op\u00fasculo <strong><a href=\"http:\/\/editora.cosacnaify.com.br\/ObraSinopse\/11668\/O-africano---port%C3%A1til-5-.aspx\" target=\"_blank\">O Africano<\/a><\/strong>, ora publicado na bel\u00edssima e eficiente <a href=\"http:\/\/editora.cosacnaify.com.br\/Loja\/HomeSecao\/19\/Port%C3%A1til.aspx\" target=\"_blank\">Cole\u00e7\u00e3o Port\u00e1til da Cosac &amp; Naif<\/a>, <strong>Jean-Marie Gustave Le Cl\u00e9zio<\/strong> se prop\u00f5e a uma tarefa peculiar: descobrir, ao passo em que inventa, a hist\u00f3ria de seu pr\u00f3prio pai nos anos anteriores a t\u00ea-lo conhecido, embora posteriores a seu pr\u00f3prio nascimento. Seu pai, branco, anglo-franc\u00eas, descendente de colonos das Ilhas Maur\u00edcio, que renegou a possibilidade de cursar resid\u00eancia m\u00e9dica na Gr\u00e3-Bretanha e ainda rec\u00e9m-formado se embrenhou pelo desmundo selv\u00e1tico das Guianas e da \u00c1frica Central, para nunca mais voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afligem Le Cl\u00e9zio duas quest\u00f5es: como seu pai tornou-se africano e como tornou-se amargo &#8211; estas duas quest\u00f5es se op\u00f5em convexamente, sem chegar a serem mutuamente excludentes. O evidente amor dele pela \u00c1frica, sua sincera identifica\u00e7\u00e3o e introje\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos bantos, iorub\u00e1s, ngongos e fons mesmo no cotidiano de sua aposentadoria no sul da Fran\u00e7a parecem contradizer a amargura que a mesma \u00c1frica lhe infringiu &#8211; ou pareceria, n\u00e3o fosse um fato temporal preciso: seu pai vive tr\u00eas momentos diferentes da \u00c1frica &#8211; o do entre guerras, o da Segunda Guerra Mundial, e o do p\u00f3s-guerra descolonizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o tr\u00eas tempos distintos: no primeiro, a alegria um tanto ing\u00eanua, mas sem d\u00favida canibal, de se imiscuir neste mundo arcaico e novo, acompanhado de sua jovem mulher &#8211; \u00e9poca de amor, quase de lux\u00faria, tel\u00farica, no bel\u00edssimo e opulento planalto oeste dos Camar\u00f5es, em particular nas vilas de Banso e Bamenda; o in\u00edcio da Guerra afastando-o da esposa, agora gr\u00e1vida do pr\u00f3prio Jean-Marie, e isolando-o nas entranhas do continente, lugar onde a guerra praticamente n\u00e3o existia e a vida n\u00f4made e tribal seguia adiante ignorando fronteiras coloniais e a proximidade do apocalipse; a descoloniza\u00e7\u00e3o, momento em que seus filhos, criados com os av\u00f3s (inclusive no sentido pejorativo do termo), v\u00e3o morar com ele numa regi\u00e3o da \u00c1frica que ele pr\u00f3prio n\u00e3o aprecia &#8211; Ogoja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decerto que o pai de Jean-Marie Le Cl\u00e9zio \u00e9 um personagem interessant\u00edssimo, que parece pulado para fora das p\u00e1ginas de um Joseph Conrad ou de um Rudyard Kipling. Por isso mesmo, n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed o trunfo desta pequena semi-novela. A mestria de Le Cl\u00e9zio aparece metalinguisticamente, ao criar, ou consolidar, um novo g\u00eanero liter\u00e1rio que eu chamaria de &#8220;autobiografia do Outro&#8221; ou da &#8220;heterobiografia de si&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 apenas reconstruindo a africaniza\u00e7\u00e3o de seu pai, seu percurso dial\u00e9tico de colono para colonizador para colonizado para descolonizado para recolonizado e p\u00f3s-colonizado, que Le Cl\u00e9zio pode entender o que h\u00e1 nele mesmo de africano, de descolonizado, de neo-colonial, de p\u00f3s-colonial. A hist\u00f3ria do outro \u00e9 tamb\u00e9m a minha hist\u00f3ria at\u00e9 no que ela me exclui &#8211; e tal hist\u00f3ria, inven\u00e7\u00e3o e descoberta, \u00e9 sobretudo um fato corporal, anat\u00f4mico. \u00c9 na \u00c1frica que o narrador descobre que tem um corpo &#8211; que se \u00e9 sobretudo, e antes de tudo mais, um corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro a\u00ed n\u00e3o apenas nem principalmente o pai, sen\u00e3o o Outro, mai\u00fasculo, do continente africano &#8211; o retorno do recalcado do eurocentrismo: a terra maci\u00e7a e ininterrupta que, se comporta fomes geracionais fruto de guerras tribais fratricidas e o maior deserto do mundo, abarca tamb\u00e9m amplas paragens f\u00e9rteis e pr\u00f3speras onde trocas econ\u00f4micas multi-\u00e9tnicas se d\u00e3o a mil\u00eanios de modo sofisticado e complexo sem que o pequeno velho continente mais ao norte se d\u00ea conta ou interfira. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kQd_VcJmekc\" target=\"_blank\">Dentro da \u00c1frica h\u00e1 outras \u00c1fricas, e l\u00e1 ainda outras \u00c1fricas<\/a>: a das pseudo-metr\u00f3poles coloniais litor\u00e2neas, das megal\u00f3poles petrol\u00edferas faveladas, mas tamb\u00e9m das boiadas com enormes chifres de meia-lua que parecem sustentar o c\u00e9u, e dos arranha-c\u00e9us de maquete feito por milhares de cupins completamente cegos, cidadelas de barro cru.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a alterbiografia de Le Cl\u00e9zio fosse uma den\u00fancia de como as \u00c1fricas reais s\u00e3o dizimadas pelo poder das metr\u00f3poles, ou por outra de como resistem, seria um clich\u00ea; ele contudo vai al\u00e9m: trata-se de propor um devir-\u00c1frica ainda que imagin\u00e1rio e atrav\u00e9s do corpo e da hist\u00f3ria de um Outro, antropofagizar o antrop\u00f3fago, enquanto colonizador se permitir ser colonizado por aquele que pretendemos colonizar &#8211; escrever-se com a m\u00e3o dos outros enquanto escrevemos os outros com nossa pr\u00f3pria m\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>a heterobiografia de si (ou a autobiografia do Outro) No seu pequeno op\u00fasculo O Africano, ora publicado na bel\u00edssima e eficiente Cole\u00e7\u00e3o Port\u00e1til da Cosac &amp; Naif, Jean-Marie Gustave Le Cl\u00e9zio se prop\u00f5e a uma tarefa peculiar: descobrir, ao passo em que inventa, a hist\u00f3ria de seu pr\u00f3prio pai nos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[1125,1918,1126],"class_list":["post-3986","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01ler","tag-africa","tag-le-clezio","tag-pos-colonial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3986"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3986\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4034,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3986\/revisions\/4034"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}