{"id":3951,"date":"2014-07-13T11:32:29","date_gmt":"2014-07-13T14:32:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3951"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"uma-ontologia-do-armario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3951","title":{"rendered":"Uma Ontologia do Arm\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>(para R\u00f4mulo Henrique, ainda e sempre)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem \u00f3bice de ter sido uma aproxima\u00e7\u00e3o fundadora da detest\u00e1vel Teoria Queer, a id\u00e9ia de uma <a href=\"http:\/\/www2.warwick.ac.uk\/fac\/arts\/history\/research\/seminars_readinggroups\/gender_and_feminist_theory_group\/14_eve_sedgwick_introduction_to_epistemology_of_the_closet_1990.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">epistemologia do arm\u00e1rio<\/a> n\u00e3o deixa de ser interessante &#8211; padece contudo de um problema de princ\u00edpio l\u00f3gico: uma epistemologia que n\u00e3o se reporte a uma ontologia ter\u00e1 at\u00e9 mesmo uma fenomenologia parcial e t\u00edbia. Ao investigar que saberes e pr\u00e1ticas sustentam e articulam\u00a0 a encuba\u00e7\u00e3o, partindo do senso comum da encuba\u00e7\u00e3o como axioma que dispensa maior reflex\u00e3o e rigor, se resvala para um mentalismo como, digamos, o de William James ao propor a mente como um fato evidente (quando sabemos que, ao contr\u00e1rio, ela \u00e9 ou subproduto dos comportamentos, ou uma gram\u00e1tica perfeitamente inconsciente: o pulo do gato de Freud, de Skinner e de Vigotsky foi propor uma ontologia dos fen\u00f4menos mentais &#8211; a falta do que, justamente, leva a crise da Escola de Berlim e seus herdeiros, o g\u00eanio de Piaget incluso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arm\u00e1rio \u00e9 tomado, quer pelos GLBTTWZ-KY quer pelos Pregadores da Transexualidade Cir\u00fargica Universal, como um fato sem\u00e2ntico simpl\u00f3rio: admitir ou negar, mais ou menos publicamente, uma escolha de objeto sexual desviante. Nada mais falso, contudo: a admiss\u00e3o p\u00fablica pode ser uma boa forma de n\u00e3o destrancar gaveta alguma, do sujeito abdicar de elaborar-se (&#8220;eu n\u00e3o falei descobrir-se&#8221;, parafraseando Foucault) na solid\u00e3o de sua singularidade e entregar tal tarefa a uma institui\u00e7\u00e3o, uma m\u00e1quina de produzir subjetividades empacotadas (<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3574\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e n\u00e3o \u00e9 demais lembrar que as formas de amor do s\u00e9culo XX perdem a pedestrabilidade do s\u00e9culo XIX e se motorizam<\/a>). Na melhor das hip\u00f3teses, o arm\u00e1rio ou o sair dele \u00e9 tomado como uma pros\u00f3dia, um recurso tonal da ret\u00f3rica, uma curiosidade fon\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, para se fazer uma teoria pol\u00edtica dos desejos (em tempo: n\u00e3o sou deleuziano, sou anti-), \u00e9 preciso estabelecer dela uma economia gramatical. Assim, proponho pensar <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLfdTRGLBVyCe2p1sUl_HG1jwSL_xxFOg3&amp;action_edit=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o arm\u00e1rio como uma sintaxe<\/a>: esvaziado de significa\u00e7\u00e3o em si, \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o entre os significantes que abre ou fecha sentidos, trancando e destrancando frases e ora\u00e7\u00f5es; e, a partir disso, pensar o arm\u00e1rio a partir de outros similares utens\u00edlios dom\u00e9sticos (prateleiras) ou nem tanto (cofres banc\u00e1rios): o arm\u00e1rio como o lugar onde os valores de uso podem estar a m\u00e3o, mas tamb\u00e9m onde os valores de troca se tornam fetichizados e especulativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arm\u00e1rio seria assim um sucumbimento do sujeito a uma institucionalidade de suas vontades, a um Outro que lhe guia nos seus afetos alienados, e mais recentemente a uma m\u00e1quina industrial difusa do capitalismo cognitivo. Da\u00ed que se pode falar por exemplo de um &#8220;assumir ser gay&#8221; (friso o verbo ser e friso a categoria mercadol\u00f3gica gay) como uma forma de estar no arm\u00e1rio relativamente a impulsos heterossexuais que habitam aquele sujeito; e por outra, se pode falar de uma &#8220;heterossexualidade encubada&#8221; mesmo em sujeitos que s\u00f3 tenham rela\u00e7\u00e3o, e ali\u00e1s muitas!, com o sexo oposto: <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3886\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a heterossexualidade compuls\u00f3ria, ao obrigar os heterossexuais a serem heterossexuais, cria um <em>double-bind<\/em> que impede justamente os heterossexuais de exercerem sua heterossexualidade espontaneamente<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nestas pr\u00e1ticas que podemos falar do arm\u00e1rio como prateleira e como cofre banc\u00e1rio. Por prateleira, me refiro a uma g\u00edria um tanto antiga que significava uma certa lista de pessoas que se teria a m\u00e3o para transar, mas com quem n\u00e3o se mantem qualquer la\u00e7o afetivo ou mesmo de amizade. N\u00e3o vai aqui nenhum moralismo quanto a esta pr\u00e1tica, mas o fato de que na contemporaneidade, e particularmente ligados a meios heteronormativos ou por outro lado fortemente marcados pela ideologia gay, ela chega a n\u00edveis especulativos tornando os sujeitos engrenagens de gozo enquanto desertos de desejo &#8211; isto \u00e9: as trocas de prazer, que deveriam ser a princ\u00edpio dadivosas, se tornam endividadas atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de escassez a partir de um excedente. <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3716\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No capitalismo, sem qualquer surpresa (salvo o fato de ainda ser surpreendente para os incautos), os sujeitos capitalizam sobre seu sexo, e aprendem a amar especulativamente<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a compulsoriedade do arm\u00e1rio como local de forma\u00e7\u00e3o de escassez, especula\u00e7\u00e3o e instrumentaliza\u00e7\u00e3o das vontades \u00e9 opressora, o imperativo do <em>outting<\/em>, advindo do Feminismo e da Viadagem Institucional (e apenas acirrada pelos Queer, que prop\u00f5e solu\u00e7\u00f5es industriais para problemas pol\u00edtico-subjetivos e sup\u00f5em uma transexualidade universal), n\u00e3o o \u00e9 menos. Note-se como o &#8220;sair do arm\u00e1rio&#8221; neste sentido vem de culturas sax\u00f5es protestantes: sua ritual\u00edstica \u00e9 similar da confiss\u00e3o p\u00fablica dos Metodistas e Batistas, uma expia\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da culpa infinita, ao contr\u00e1rio da Confiss\u00e3o Cat\u00f3lica, em que de alguma forma a d\u00edvida \u00e9 suspensa e se cria espa\u00e7os para o sujeito elabore sua singularidade. Mais uma vez, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a sint\u00e1tica entre a homofobia evang\u00e9lica e desvairismo queer: ambas buscam um apagamento do sujeito numa massa discursiva simplificat\u00f3ria &#8211; para azar de ambos, contudo, n\u00e3o existem duas (homo, hetero)sexualidades iguais: cada qual faz o sintoma que lhe cabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se quer dizer \u00e9 que o arm\u00e1rio pode muito bem ser uma <a href=\"http:\/\/asterisko.blogspot.com.br\/2006\/01\/sem-fim.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">banda de Moebius<\/a>: ambos os lados s\u00e3o dentro e fora ao mesmo tempo, de modo que sair de um arm\u00e1rio \u00e9 entrar em outro. Se por um lado isso significa que manter a encuba\u00e7\u00e3o pode ser libertador (toda a liberdade de Sade vem do fato de ele estar preso &#8211; isso os meninos-que-fazem em chats de pega\u00e7\u00e3o sabem sem nunca ter lido o Marqu\u00eas) e sair dele pode ser um aprisionamento e uma aliena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se est\u00e1 aqui pregando o &#8220;don&#8217;t ask, don&#8217;t tell&#8221; &#8211; apenas reafirmando que o &#8220;tell&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 uma coer\u00e7\u00e3o do poder. E se estamos <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3846\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tomando Escher como exemplo imag\u00e9tico<\/a>, nunca \u00e9 demais lembrar o<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/escher-belvedere.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Belvedere em que o prisioneiro n\u00e3o se d\u00e1 conta de que j\u00e1 est\u00e1 do lado de fora<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema sint\u00e1tico do assumir-se talvez seja de qualquer tentativa moderna (isto \u00e9: posterior \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es burguesas) de amenizar a opress\u00e3o pelo capital: um sindicato pode ser t\u00e3o alienante quanto o pr\u00f3prio trabalho fabril que ele representa e a explora\u00e7\u00e3o capitalista que ele pretende (tamb\u00e9m no sentido de fingir) combater. Isto porque tanto sindicato quanto f\u00e1brica s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es alienantes que escapam ao vern\u00e1culo. Ou, para exemplificar melhor: <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2966\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">transporte de massa coletivo e autom\u00f3vel individual s\u00e3o ambos ruins<\/a> porque formas de alienar o sujeito das for\u00e7as de sua pr\u00f3pria perna &#8211; <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3854\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">seria necess\u00e1rio buscar uma (homo, hetero)sexualidade desmotorizada, que pedale<\/a>. Lembrando sempre que se pode fazer uso vern\u00e1culo e convivial de uma ferramenta a princ\u00edpio alienante e sobrehumana: usar \u00f4nibus e t\u00e1xis quando se precisa, mas n\u00e3o porque se \u00e9 obrigado, \u00e9 libertador, e ter de pedalar sempre pode ser uma opress\u00e3o. Trata-se de que as pr\u00e1ticas sexuais sejam constru\u00eddas artesanalmente pelos sujeitos e seus pares, e n\u00e3o entregues como uma benesse de uma Associa\u00e7\u00e3o, Estado ou Empresa; que <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3412\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mais do que estar fora ou dentro do arm\u00e1rio, ele tenha uma porta de vai-e-vem sem trancas<\/a>, e seja usado em seu valor de uso mais do que o arm\u00e1rio usar os sujeitos em seu valor de troca e de ac\u00famulo &#8211; uma vez que, a Psican\u00e1lise nos ensina, a sa\u00edda para o paradoxo do desejo n\u00e3o \u00e9 ser isto ou aquilo, mas sobretudo des-ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(\u00c9 nesse ponto cego da Viadagem Institucional que os gOy\/g0y\/g-zero-y acertam em cheio: suas pr\u00e1ticas homossexuais n\u00e3o precisam sequer configurar um desejo homossexual, e se configuram por um lado elas s\u00e3o mais um caminho do que um bloqueio aos afetos, e por outro n\u00e3o geram a princ\u00edpio uma identidade. Os gOy s\u00f3 pecam num segundo momento, ao confundir uma nega\u00e7\u00e3o do imperativo da feminilidade com um imperativo da nega\u00e7\u00e3o da feminilidade, e ao insistirem no horror ao sexo anal viram t\u00e3o fiscais do cu alheio quanto a insist\u00eancia no sexo anal que vem tanto da heteronormatividade quanto da ideologia gay &#8211; e ali\u00e1s, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sem tempo saber que feminiliza\u00e7\u00e3o e analidade nada t\u00eam a ver com homoerotismo em si, salvo numa fantasia masoquista que flutua por a\u00ed entre negada e afirmada, objeto e objetivo sexual s\u00e3o coisas d\u00edspares, isso at\u00e9 Kraft-Ebbing j\u00e1 sabia &#8211; e ao fim e ao cabo resvalam novamente para a afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade. Melhor seria que tal movimento n\u00e3o tivesse sequer nome e nem mesmo fosse um movimento).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(para R\u00f4mulo Henrique, ainda e sempre) Sem \u00f3bice de ter sido uma aproxima\u00e7\u00e3o fundadora da detest\u00e1vel Teoria Queer, a id\u00e9ia de uma epistemologia do arm\u00e1rio n\u00e3o deixa de ser interessante &#8211; padece contudo de um problema de princ\u00edpio l\u00f3gico: uma epistemologia que n\u00e3o se reporte a uma ontologia ter\u00e1 at\u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,9],"tags":[1868,1890],"class_list":["post-3951","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01viver","tag-homossexualidade","tag-masculinidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3951"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3951\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4177,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3951\/revisions\/4177"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3951"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}