{"id":3931,"date":"2014-04-26T08:44:54","date_gmt":"2014-04-26T11:44:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3931"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"antoine-doinel-as-cegas-ou-lacombe-lucien-no-escuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3931","title":{"rendered":"Antoine Doinel \u00e0s cegas (ou Lacombe Lucien no escuro)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Com muito frisson nas viadagens institucionais, adquiridas &amp; cong\u00eanitas, estreou faz duas semanas o primeiro longa metragem de Daniel Ribeiro, <strong><em>Hoje Eu Quero Voltar Sozinho<\/em><\/strong>; h\u00e1 nisso, como soe de sempre ser, dois enganos: o filme n\u00e3o \u00e9 irreproch\u00e1vel, e por outro lado n\u00e3o pode nem consegue (ainda bem!) resvalar para a cacofonia da est\u00e9tica-gay.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/lpHKXyko358\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que toda a (curta mas esmerada e promissora) obra de Daniel Ribeiro at\u00e9 agora tem na centralidade de sua f\u00e1bula rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 homoer\u00f3ticas como homoafetivas, e perfeitamente dentro dos padr\u00f5es esperados e aceit\u00e1veis &#8211; digo: s\u00e3o, sob todos os aspectos, rela\u00e7\u00f5es compreensivas na ordem burguesa como &#8220;gays&#8221; (isto \u00e9: incapazes de colocar em xeque o desejo heterossexual e a identidade masculina de parte da plateia &#8211; \u00e9 uma homossexualidade palat\u00e1vel e aceit\u00e1vel porque nem histri\u00f4nica nem amea\u00e7adora); contudo, se este tra\u00e7o sem\u00e2ntico \u00e9 fundamental na constela\u00e7\u00e3o de significantes que ele mobiliza, n\u00e3o \u00e9 central em sua sintaxe, nem \u00e9 mesmo a moral da f\u00e1bula. Quero dizer: a homossexualidade (e mais ainda: as rela\u00e7\u00f5es homoafetivas dos protagonistas) \u00e9 meio, e n\u00e3o fim, para falar de outra coisa, outro tema, este sim crucial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os temas, e a sintaxe, de Daniel Ribeiro em tudo parecem, at\u00e9 agora, com a face mais popular e linear da Nouvelle Vague: as descobertas juvenis e a transi\u00e7\u00e3o para a adultez (e afinal, mesmo um cineasta mais \u00e1spero da Vague como Godard nos lembra: a verdade \u00e9 que n\u00e3o existem adultos!); e articulando f\u00e1bula com a est\u00f3ria (o<em> modus narrandi<\/em>, a narra\u00e7\u00e3o pela c\u00e2mera), est\u00e1 a id\u00e9ia, tamb\u00e9m nouvelle-vaguista (e que remonta a Jean Vigo), de que o cinema \u00e9 capaz de salvar a inf\u00e2ncia perdida, a adolesc\u00eancia que se esvai com a dureza do adultecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 apenas na concep\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica e f\u00edlmica que Ribeiro se aproxima da Vague, mas tamb\u00e9m na sua pros\u00f3dia: a cena inicial de seu primeiro curta metragem, <em>Caf\u00e9 Com Leite<\/em>, contem um di\u00e1logo que poderia estar nos filmes de amor de Louis Malle (<em>Os Amantes<\/em>, <em>Trinta Anos Essa Noite<\/em>, <em>Ascensor para o Cadafalso<\/em>, mesmo<em> Sopro no Cora\u00e7\u00e3o<\/em>) t\u00e3o bem marca os desencontros linguageiros do amor: &#8220;- Quer morar comigo? &#8211; Uhm&#8230;?! &#8211; Perguntei se voc\u00ea quer morar comigo&#8230; &#8211; Eu quero dormir!&#8221;. Ali\u00e1s, todo esse curta tem um tema que se assemelha ao <em>Atalante<\/em>: as dificuldades de um jovem casal quando a rela\u00e7\u00e3o amorosa passa, mais ou menos bruscamente, do id\u00edlio para a realidade prosaica do cotidiano.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/VjSVkcAWaA0\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que um jovem diretor contempor\u00e2neo (e homossexual) se apropria do arsenal da Nouvelle Vague, subvertendo-o para fora de sua heterossexualidade original &#8211; a come\u00e7ar, d\u00e9cadas atr\u00e1s, por Andr\u00e9 Techin\u00e9, sem d\u00favida uma refer\u00eancia de Ribeiro; mais recentemente no Canad\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2889\" target=\"_blank\">Xavier Dolan<\/a> tem feito percurso similar, s\u00f3 que por vezes obtendo<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3459\" target=\"_blank\"> resultados ao mesmo tempo hist\u00e9ricos e deserotizados<\/a>. A diferen\u00e7a de Daniel Ribeiro est\u00e1 n\u00e3o apenas numa firmeza e sobriedade maior, como numa capacidade t\u00edpica do cinema franc\u00eas (desde Carn\u00e9, Vigo, Claire e Renoir) que contaminou at\u00e9 mesmo Steven Spielberg (em muitos aspectos, um herdeiro de Trufaut): a habilidade com que dirige crian\u00e7as, e de fazer filmes a partir do olhar delas. Mesmo <em>Caf\u00e9 com Leite<\/em>, um filme relativamente sensual sobre um jovem casal de jovens adultos, \u00e9 narrado pela \u00f3tica de uma crian\u00e7a para quem as regras do jogo amoroso e mesmo as distin\u00e7\u00f5es entre os sexos ainda n\u00e3o est\u00e3o claras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo pode ser dito do atual longa e do curta que o precedeu, <em>N\u00e3o Quero Voltar Sozinho<\/em>: seriam filmes sobre a descoberta da homossexualidade na adolesc\u00eancia, n\u00e3o fosse o fato de que n\u00e3o se pode falar claramente de escolha de objeto definitiva nesta fase da vida &#8211; supor adolescentes homossexuais \u00e9 t\u00e3o opressor quanto supor adolescentes heterossexuais. Ribeiro parece n\u00e3o se esquecer jamais que, n\u00e3o exatamente confusa, esta fase \u00e9 ambivalente: freudianamente, a polimorfia sexual da primeira inf\u00e2ncia tem finalmente condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e anat\u00f4micas de ser exercida e se experimentar &#8211; &#8220;mais tarde \u00e9 agora!&#8221; Antes de ser um longa sobre a homossexualidade na adolesc\u00eancia, ele \u00e9 sobre a ambissexualidade que se esvai a partir da adolesc\u00eancia &#8211; com o trunfo de que a \u00f3tica em quest\u00e3o \u00e9 aquela que pode ignorar a visualidade do corpo: seu personagem principal \u00e9 cego (vai nisso tamb\u00e9m uma certa teoria do cinema: uma visualidade sobre o erotismo do n\u00e3o-visto e do n\u00e3o-vis\u00edvel &#8211; o cinema, afinal, nos lembra Bresson, pode tamb\u00e9m ser feito de sons sem imagens tanto quanto de imagens sem sons).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/1Wav5KjBHbI\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O adolescente cego Leonardo pode inclusive se tornar um personagem de ciclo do diretor, como o foi Jean-Pierre L\u00e9aud &#8211; para isso, Daniel Ribeiro precisa evitar o equ\u00edvoco que se inseriu entre seu longa e seu curta: um n\u00e3o \u00e9 nem a extens\u00e3o nem a continuidade do outro; s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es paralelas e realidades mutuamente excludentes para a mesma trama. Inclusive a\u00ed est\u00e1 um defeito de seu longa: passagens did\u00e1ticas e solu\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica f\u00e1cil, enquanto a do curta foi muito mais sofisticada e surpreendente. Mesmo assim, h\u00e1 enquadramentos primorosos, como na cena em que Leonardo toma banho e a c\u00e2mera acompanha peda\u00e7os do seu corpo, em close, atrav\u00e9s do vidro emba\u00e7ado do box; ou algumas conversas no p\u00e1tio do col\u00e9gio, em que se colocam planos pict\u00f3ricos em distintos n\u00edveis de profundidade atrav\u00e9s do uso inteligente da arquitetura do cen\u00e1rio (janelas, portas, gradis, sombras, etc).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em tempo:<\/strong> quando aponto que a homossexualidade em Daniel Ribeiro \u00e9 aceit\u00e1vel a um n\u00edvel novelas da tarde da TV Globo, n\u00e3o vai a\u00ed um reprocho &#8211; talvez este recuo t\u00e1tico seja um trunfo para inocular outras quest\u00f5es, estas sim relevantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com muito frisson nas viadagens institucionais, adquiridas &amp; cong\u00eanitas, estreou faz duas semanas o primeiro longa metragem de Daniel Ribeiro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho; h\u00e1 nisso, como soe de sempre ser, dois enganos: o filme n\u00e3o \u00e9 irreproch\u00e1vel, e por outro lado n\u00e3o pode nem consegue (ainda bem!) resvalar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[26,1907],"class_list":["post-3931","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01ver","tag-cinema","tag-daniel-ribeiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3931"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3931\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3941,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3931\/revisions\/3941"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}