{"id":3903,"date":"2014-02-01T12:02:01","date_gmt":"2014-02-01T15:02:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3903"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"3903","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3903","title":{"rendered":"O Neoliberalismo de Si"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Ao lerem o que se segue, tenham em mente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>que s\u00f3 um conservador rigoroso pode ser um grande libertino<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>uma vez que, no dizer de Karl Kraus, o libertino n\u00e3o \u00e9 um hedonista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>mas &#8220;<em>Algu\u00e9m que ainda tem o esp\u00edrito<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>onde todos os outros s\u00f3 t\u00eam um corpo<\/em>&#8220;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um certo paradigma atual me incomoda muito &#8211; marcado por um hedonismo f\u00fatil que teria por marcas o uso recreativo de entorpecentes, a sexualidade sem ang\u00fastia e em geral a fantasia da liberdade sem esfor\u00e7o. \u00c9 evidente que desde que existe civiliza\u00e7\u00e3o parte da divers\u00e3o, e de suas outras ritual\u00edsticas, passam pelo uso de drogas (bebe-se durante processos de luto, por exemplo); que o erotismo \u00e9 uma forma de estabelecer uma confian\u00e7a s\u00f3lida e de colocar os envolvidos (geralmente um casal) num hiato do mundo, no qual se possa descansar dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m nega que boa parte destas tecnologias serve para negar a realidade em nome do princ\u00edpio do prazer, e a pr\u00f3pria pr\u00e1tica de liberdade mira este efeito. A diferen\u00e7a na contemporaneidade est\u00e1 na id\u00e9ia de que estes resultados s\u00e3o gratuitos, e n\u00e3o fruto de um esfor\u00e7o mais ou menos sofrido &#8211; sintomas do que<a href=\"http:\/\/www3.gobiernodecanarias.org\/medusa\/ecoescuela\/clubdelectura\/files\/2013\/08\/La+Civilizacion+Del+Espectaculo.pdf\" target=\"_blank\"> Mario Vargas Llosa recentemente chamou de &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o da divers\u00e3o&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, estes efeitos invadem o campo da cultura como um todo: o que s\u00e3o as performances sen\u00e3o uma forma f\u00e1cil e pregui\u00e7osa do que um dia teve a dignidade de se chamar teatro? O que \u00e9 essa idolatria juvenil por Clarice Lispector sen\u00e3o mera letargia fisiol\u00f3gica de encarar cl\u00e1ssicos volumosos e que requerem tempo e trabalho mental e afetivo esmerado? A cultura sempre foi prazerosa secundariamente aos esfor\u00e7os que exige; hoje, ela se coloca como aquilo que nos leva a n\u00e3o ter de fazer qualquer esfor\u00e7o. No limite, seria como alcan\u00e7ar um orgasmo autom\u00e1tico e pr\u00e9-fabricado, sem todas as exig\u00eancias de tempo e trabalho na aus\u00eancia das quais o coito sexual n\u00e3o ocorre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chamo de &#8220;neoliberalismo de si&#8221; esse paradigma mais amplo, porque ele est\u00e1 contaminado de ide\u00e1rios pol\u00edticos, mormente de uma esquerda anti-neoliberal (ou anti-neoconservadora) que joga fora o melhor que o conservadorismo, a parcim\u00f4nia e o liberalismo cl\u00e1ssico tinham, e a\u00ed se iguala a seu advers\u00e1rio. Por exemplo, nos discursos pela legaliza\u00e7\u00e3o da maconha e descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, a que obviamente sou a favor: em geral os defensores s\u00e3o usu\u00e1rios contumazes, e n\u00e3o se colocam o problema de que legalizar a maconha passa tamb\u00e9m por criar uma ecologia subjetiva de seu uso &#8211; ecologia essa que implica em engendrar sujeitos t\u00e3o soberanos que em geral se recusem a este prazer f\u00e1cil em nome de outros ganhos maiores, mais penosos. Com Freud, estou falando de Sublima\u00e7\u00e3o: o melhor de todos os mecanismos de defesa, o \u00fanico em que o Eu est\u00e1 completamente senhor de si (no chiste ele divide o blefe com o Isso, o que j\u00e1 \u00e9 alguma coisa), \u00e9 hoje uma arte t\u00e3o antiga quanto escrever cartas, construir um la\u00e7o amoroso n\u00e3o s\u00f3 apesar mas sobretudo a partir das dificuldades do outro e das suas pr\u00f3prias. E n\u00e3o h\u00e1 civiliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel sem sujeitos paulatinamente mais capazes de sublima\u00e7\u00e3o &#8211; e de auto-governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colocando em termos illichianos, pode-se dizer que os neoliberais-de-si, ao passo que querem menos Estado (no sentido comunista de querer menos estado), ainda t\u00eam fantasias heteron\u00f4micas &#8211; nem que seja a id\u00e9ia de que um outro, a bebida alc\u00f3olica por exemplo, \u00e9 que trar\u00e1 prazer em si. Ora, ela \u00e9 parte da fonte de prazer, e pode tamb\u00e9m ser parte da fonte de desprazer &#8211; e pode tamb\u00e9m se ausentar de um prazer que ainda assim seria t\u00e3o ou mais grandioso. N\u00e3o h\u00e1, a rigor, uma busca de autonomia &#8211; o que fica bem representado, no limite, pela grita dos Queer em nome da transexualiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou certo de que a transexualidade sempre existiu &#8211; para mim, ela tem tudo de uma &#8220;doen\u00e7a causada pela oferta tecnol\u00f3gica&#8221;; que em outras civiliza\u00e7\u00f5es e outros tempos houvesse sujeitos que ocupassem um g\u00eanero (v\u00e1 l\u00e1&#8230;) dissidente em rela\u00e7\u00e3o ao seu sexo anat\u00f4mico, isso nada tem a ver com cirurgias de mudan\u00e7a de sexo; bem ao contr\u00e1rio, nestes outros contextos havia desenvolvimento de tecnologias subjetivas singulares de cada sujeito em sua comunidade para lidar com isso. Antes de devirem-mulher no corpo, devinham-mulher apesar do corpo e a despeito dele &#8211; o que \u00e9 muit\u00edssimo mais sofisticado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cascata, isso afeta toda<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3412\" target=\"_blank\"> a cadeia do &#8220;n\u00e3o escolhi, tenha d\u00f3 de mim&#8221; das Viadagens Institucionais<\/a>. Meus caros, na cl\u00ednica psicanal\u00edtica at\u00e9 uma esquizofrenia paran\u00f3ide \u00e9 uma escolha edipiana do sujeito &#8211; se n\u00e3o se aposta que tudo que ocorre na vida ps\u00edquica \u00e9 uma decis\u00e3o aut\u00f4noma de cada indiv\u00edduo (muitas vezes for\u00e7ada, contra si mesmo, e nunca livre ou no v\u00e1cuo), se est\u00e1 infantilizando os mesmos e atribuindo a um Outro institucional\/industrial o dom\u00ednio destes corpos e destes esp\u00edritos e o poder sobre os mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que, como o pr\u00f3prio Ivan Illich j\u00e1 mostrou, o neoliberalismo-de-si (a fantasia de que &#8220;algu\u00e9m pode vestir um idiota melhor do que um idiota se veste a si mesmo&#8221; &#8211; na c\u00e9lebre met\u00e1fora de Lewis Mumford que Jane Jacobs adorava) vem do <em>welfare-state<\/em> &#8211; Grande Pai Estado do Bem que, oferecendo servi\u00e7os e benesses e sendo (aparentemente) pouco punitivo produz uma massa infinita de aleijados subjetivos (<a href=\"http:\/\/descurvo.blogspot.com.br\/2012\/05\/dilma-e-divida-infinita.html\" target=\"_blank\">al\u00e9m da d\u00edvida, \u00e9 claro<\/a>). Mesmo os anarco-sindicalistas e suas id\u00e9ias autogestion\u00e1rias caem nesse engodo: um coletivo horizontal \u00e9 uma aliena\u00e7\u00e3o dos eus individuais num eu coletivo, tornando os eus individuais menos Imperadores de Si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por outro lado, <a href=\"http:\/\/leitura_do_dia.blogspot.com.br\/2014\/01\/a-importancia-de-homens-europeus-mortos.html#links\" target=\"_blank\">\u00e9 nos cl\u00e1ssicos que se pode achar as ferramentas de constru\u00e7\u00e3o interior de sujeitos soberanos de si contra o mundo que nos rodeia<\/a>. Mas a\u00ed este meu ensaio mordeu o pr\u00f3prio rabo: quem quer tal esfor\u00e7o em tempo de divers\u00e3o f\u00fatil ub\u00edqua? Por outra, voltando aos exemplos do in\u00edcio, n\u00e3o se trata de que a experimenta\u00e7\u00e3o psicotr\u00f3pica, sexo plural e amor livre, n\u00e3o possam ser formas atrav\u00e9s das quais um sujeito construa sua Soberania de Si &#8211; s\u00e3o meras ferramentas, que podem ser usadas de modo convivial ou alienante. A quest\u00e3o \u00e9 como: se h\u00e1 parcim\u00f4nia mental, austeridade, e sobretudo inquiri\u00e7\u00e3o, questionamento, constru\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria de resposta (a partir, \u00e9 claro, do contato \u00edntimo com os outros); ou se, ao contr\u00e1rio, se est\u00e1 buscando no mero prazer a resposta em si, e n\u00e3o h\u00e1 subvers\u00e3o \u00edntima feita com esfor\u00e7o, no amor um conforto congelado pr\u00e9-cozido de microondas, e n\u00e3o um trabalho de cultivo de horta, de esmero e de paci\u00eancia. <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3876\" target=\"_blank\">Tanto quanto os cl\u00e1ssicos podem ser um ref\u00fagio em si do mundo torpe que nos rodeia, e n\u00e3o uma forma de enfrent\u00e1-lo por dentro dele<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3646\" target=\"_blank\">D\u00e1diva, afinal, n\u00e3o \u00e9 dom<\/a>: n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de trabalho, mas um trabalho convivial n\u00e3o-alienado. A liberdade \u00e9, enfim, um exerc\u00edcio penoso e ininterrupto, <em>work-in-progress<\/em> intermin\u00e1vel (e n\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o dada desde fora) &#8211; e enquanto tal, n\u00e3o ser\u00e1 jamais de todos ou qualquer um: apenas daqueles que, como S\u00edsifo, a fazem por merecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao lerem o que se segue, tenham em mente que s\u00f3 um conservador rigoroso pode ser um grande libertino uma vez que, no dizer de Karl Kraus, o libertino n\u00e3o \u00e9 um hedonista mas &#8220;Algu\u00e9m que ainda tem o esp\u00edrito onde todos os outros s\u00f3 t\u00eam um corpo&#8220; Um certo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,919,9],"tags":[396,1894,1896,1897,1895,1893],"class_list":["post-3903","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01beber","category-01flanar","category-01viver","tag-amor","tag-autonomia","tag-classicos","tag-drogas","tag-erotismo","tag-soberania-subjetiva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3903"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3968,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3903\/revisions\/3968"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}