{"id":3879,"date":"2013-11-19T22:26:53","date_gmt":"2013-11-20T01:26:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3879"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"acertando-no-buraco-errado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3879","title":{"rendered":"Acertando no buraco errado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Confesso que fui assistir hoje a <a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-185974\/criticas-adorocinema\/\" target=\"_blank\"><strong>Bloody Money<\/strong> (aquele filme anti-abortista americano com ares de <em>Grand Old Party<\/em>)<\/a>, numa posi\u00e7\u00e3o estrategicamente de me submeter a uma experi\u00eancia democr\u00e1tica radical (abrir-se ao convencimento de argumentos antag\u00f4nicos) e taticamente com a mesma postura que tenho em rela\u00e7\u00e3o a maconha: detesto-a, e por isso quero-a legalizada (acho o aborto a pr\u00e1tica mais abjeta poss\u00edvel, e por isso quero-a submetida a todas a transpar\u00eancia e escrut\u00ednio poss\u00edvel).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto posto, cabe dizer que o filme tem argumentos bastante s\u00f3lidos, que as esquerdas, as feministas, os queer, os libertinos e todos quantos marginais libert\u00e1rios deveriam levar seriamente em conta &#8211; embora, claro, toda a pros\u00f3dia do document\u00e1rio (embora n\u00e3o sua sintaxe, bem mais cient\u00edfica do que se possa supor) seja cafona, emotiva e indisfar\u00e7adamente religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Focarei em um argumento, ao meu ver bastante contundente porque toca num ponto em que sempre insisto: a ingenuidade da &#8220;auto-gest\u00e3o&#8221; sem levar em conta a superestrutura, a aliena\u00e7\u00e3o e a exist\u00eancia do inconsciente freudiano (os termos, marxizantes, s\u00e3o meus, claro, e n\u00e3o da obra em tela). No caso da interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de gravidez, se trata do seguinte: quem disse que a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto garantiria \u00e0s mulheres o &#8220;direito de escolher&#8221;? Quem garante que esta escolha (como de resto qualquer outra) \u00e9 livre? E ainda que livre sendo, quem garante que ela n\u00e3o tem boas doses de puls\u00e3o de morte, ato falho, mau passo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada, em rigor. Ali\u00e1s, tudo leva a crer que, em n\u00e3o mudando-se nada mais, as mulheres brasileiras com acesso ao aborto legalizado n\u00e3o seriam menos oprimidas do que as que t\u00eam gravidezes compuls\u00f3rias hoje; a emancipa\u00e7\u00e3o das mo\u00e7as (que passa menos pelo desempoderamento dos homens do que as feministas sup\u00f5em, e muito mais pelo empoderamento de ambos) s\u00f3 se dar\u00e1 com a extin\u00e7\u00e3o material (e n\u00e3o meramente ideol\u00f3gica) da servid\u00e3o volunt\u00e1ria &#8211; e esta servid\u00e3o volunt\u00e1ria est\u00e1 dada mesmo antes, no ato da c\u00f3pula, quer em neg\u00e1-la (em respeito ao Pai, ao Pastor, etc.), quer em dar a perseguida (em respeito a ideais Pussy Power \/ Marcha das Vadias, ou ao bofinho que lhe as vai comer &#8211; ou a ambos, j\u00e1 que sua exclus\u00e3o m\u00fatua como fatores \u00e9 meramente aparente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, o filme acerta no buraco errado ao atribuir o maior problema do aborto legalizado \u00e0 plutocracia que o rege. Ora, isso \u00e9 da ordem da medicina (e se leva a ind\u00fastria do aborto, leva tamb\u00e9m \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.orenascimentodoparto.com.br\/\" target=\"_blank\">ind\u00fastria do parto artificial<\/a>), e em \u00faltima inst\u00e2ncia do capitalismo. Claro que a legaliza\u00e7\u00e3o paulatina do aborto com aus\u00eancia de um Estado que vigie tais procedimentos, e de um sistema de sa\u00fade capaz de realiz\u00e1-lo sem \u00f4nus ou b\u00f4nus, \u00e9 um problema ainda maior; ocorre que os Republicanos que se op\u00f5em a legaliza\u00e7\u00e3o da interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez (e h\u00e1 entre estes conservadores de boa cepa, que remetem a Lincoln e Luther King &#8211; n\u00e3o estou falando, portanto, de brucut\u00fas neoliberais) tamb\u00e9m se op\u00f5em a um sistema de sa\u00fade p\u00fablica universal!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para-al\u00e9m de uma contradi\u00e7\u00e3o discursiva, h\u00e1 certa raz\u00e3o nisso sem sequer recorrer aos argumentos de Ivan Ilich (para quem, ao cabo, um sistema de sa\u00fade estatal ou privado d\u00e3o na mesma merda, e ele afirma isso com propriedade: o problema \u00e9 a tecnologia heteron\u00f4mica que sempre reduz a autonomia e engendra desejos imposs\u00edveis, como viver eternamente sem sofrimento): um sistema p\u00fablico de sa\u00fade americano redundaria, num primeiro momento, em compra de servi\u00e7os privados pelo estado. N\u00e3o \u00e9 sequer aquilo que o SUS brasileiro faz hoje, em determinados setores &#8211; \u00e9 muito mais algo como a sa\u00fade previdenci\u00e1ria do fim da Ditadura Militar. O horror, o horror!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, os Estados Unidos da Am\u00e9rica sequer regulam sua sa\u00fade suplementar &#8211; enquanto um dos trunfos do Brasil \u00e9 ter um sistema misto bastante regulado: os planos de sa\u00fade passam por redea curta da Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade, paulatinamente mais exigente, e o Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u00e9 mais caudat\u00e1rio da sa\u00fade coletiva que da p\u00fablica &#8211; com um coringa na manga: os hospitais filantr\u00f3picos, capazes de inova\u00e7\u00e3o como o setor privado, mas perfeitamente dentro da l\u00f3gica universal e transparente da Reforma Sanit\u00e1ria Brasileira, e com uma experi\u00eancia secular sobre como articular na pr\u00e1tica sa\u00fade, pobreza e exclus\u00e3o social. (Evidentemente, h\u00e1 um problema de fundo e de longo prazo num sistema misto: o setor privado gera demandas e desejos que o sistema p\u00fablico, coletivo e universal n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar &#8211; e a rigor nem deveria, nem precisaria, mas fica instado a tal. Sobre isso, nunca \u00e9 demais ler os professores Carmem Teixeira e Jairnilson Paim &#8211; este \u00faltimo, dos homens mais elegantes com quem j\u00e1 dialoguei, portador da simplicidade dos sofisticados).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso se aplica, \u00e9 verdade, a realidade brasileira: se por um lado temos o SUS e a ANS, o grande irm\u00e3o do norte tem uma popula\u00e7\u00e3o menos pobre, com distribui\u00e7\u00e3o de renda menos discrepante, e com muito mais empoderamento em geral (particularmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, negros e popula\u00e7\u00f5es marginais). De modo que, por ricochete, esta pel\u00edcula nos serve de contraponto, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia dizer, a t\u00edtulo de piada, como <a href=\"http:\/\/julianacunha.com\/blog\/\" target=\"_blank\">Juliana Cunha<\/a> um dia disse no seu <a href=\"http:\/\/mateipormenos.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">antigo blog<\/a>: que se o aborto for legalizado, \u00e9 preciso legalizar tamb\u00e9m o estupro &#8211; de mau-gosto como seja, esta afirma\u00e7\u00e3o revela algo: todo o processo reprodutivo humano, do flerte ao parto (ou ao aborto) requer uma ecologia do desejo. N\u00e3o se trata de que sob o capitalismo uma tal ecologia do desejo n\u00e3o exista &#8211; ela existe instrumentalmente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 d\u00edvida, portanto \u00e9 entr\u00f3pica; trata-se de construir uma ecologia tauteg\u00f3rica e dadivosa, como de outrora e ainda completamente nova, em que o parto natural n\u00e3o seja uma d\u00favida porque um fato consumado, e o aborto n\u00e3o seja uma querela porque virtualmente desnecess\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso que fui assistir hoje a Bloody Money (aquele filme anti-abortista americano com ares de Grand Old Party), numa posi\u00e7\u00e3o estrategicamente de me submeter a uma experi\u00eancia democr\u00e1tica radical (abrir-se ao convencimento de argumentos antag\u00f4nicos) e taticamente com a mesma postura que tenho em rela\u00e7\u00e3o a maconha: detesto-a, e por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[563,1888,1889,1887,1886],"class_list":["post-3879","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01viver","tag-aborto","tag-cesariana","tag-ecologia-politica","tag-feminismo","tag-parto-natural"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3879"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3880,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3879\/revisions\/3880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}