{"id":3876,"date":"2013-11-08T00:14:24","date_gmt":"2013-11-08T03:14:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3876"},"modified":"2025-12-24T13:02:53","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:53","slug":"deglutindo-bressane","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3876","title":{"rendered":"Deglutindo Bressane"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>para <a href=\"http:\/\/www.quadradodosloucos.com.br\/\" target=\"_blank\">Bruno Cava<\/a><\/strong><\/p>\n<p align=\"right\"><strong><i>\u00a0<\/i><\/strong><\/p>\n<p align=\"right\"><strong><i>\u201cO cinema \u00e9 um breve hiato de 100 anos <\/i><\/strong><\/p>\n<p align=\"right\"><strong><i>entre o daguerre\u00f3tipo e o digital\u201d <\/i><\/strong><\/p>\n<p align=\"right\"><a href=\"http:\/\/depoisdaquelefilme.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\"><strong>Roberto Wagner<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\"><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quarta-feira \u00e0 noite, em dois passos, cheguei a dar uma volta em espiral dial\u00e9tica completa: ao entrar numa sess\u00e3o da mostra competitiva nacional do <a href=\"http:\/\/www.coisadecinema.com.br\/panorama\/\" target=\"_blank\">Panorama Coisa de Cinema<\/a>, para assistir ao curta de um amigo, eu apenas suportaria o longa de J\u00falio Bressane que ocorreria na seq\u00fc\u00eancia \u2013 talvez, como muitos, nem isso e simplesmente sairia da sala no meio da sess\u00e3o para voltar depois ao debate com os realizadores. Bem ao contr\u00e1rio, fiquei, ao longo da sess\u00e3o, num estado de sublimidade e gra\u00e7a que me fez finalmente n\u00e3o s\u00f3 deixar de detestar o mestre, como tamb\u00e9m passar a am\u00e1-lo. Tal admira\u00e7\u00e3o cresceu no debate, com suas respostas pausadas e complexas, dadas com suavidade, quase homilias jesu\u00edtas, algo entre Santo Agostinho e Jacques Lacan \u2013 para, justo neste debate, eu voltar a detest\u00e1-lo agora por motivos opostos (e contudo id\u00eanticos) ao que me injuriava antes: o grande cineasta dial\u00e9tico se mostrava, ao fim e ao cabo, na melhor das hip\u00f3teses, um idealista hegeliano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que sempre me incomodou em Bressane era sua pomposidade eruditista, meio metida a Visconti e Antonioni (ou, por outra, Walter Hugo Khouri) sem chegar a ser mais do que um pastiche destes. Claro, isto n\u00e3o se aplica a Matou A Fam\u00edlia E Foi Ao Cinema; para dizer mais simplesmente: n\u00e3o via nele algu\u00e9m do <i>udigrudi<\/i> e da boca-do-lixo, diferentemente de seu parceiro Sganzerla que via enormes pot\u00eancias no chorume da cultura de massas, Bressane parecia uma Escola de Frankfurt extempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao assistir <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lD1BeIGVF4Q\" target=\"_blank\"><strong><em>Educa\u00e7\u00e3o Sentimental<\/em><\/strong><\/a>, contudo, algo se revelou: sua refer\u00eancia \u00e9 menos Visconti e mais Resnais e, enquanto teoria, Godard \u2013 isto \u00e9: um cinema ostensivamente liter\u00e1rio n\u00e3o porque oper\u00edstico, ou adaptador de romances (n\u00e3o ficando, portanto, subalterno \u00e0 literatura) e sim porque ensa\u00edstico; um cinema capaz de construir pensamento l\u00f3gico rigoroso, e n\u00e3o apenas reproduzir narrativas, atrav\u00e9s de imagens. E, desta forma, Bressane fazia o cinema, essa arte ef\u00eamera porque ilusoriamente eterna no instant\u00e2neo, se aproximar da fun\u00e7\u00e3o que a filosofia alcan\u00e7a no intervalo em que o tomismo j\u00e1 n\u00e3o era e o cartesianismo ainda n\u00e3o viera a ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explico: durante a Renascen\u00e7a e o Barroco, posterior j\u00e1 a descoberta galilaica e a revolu\u00e7\u00e3o copernicana mas anterior ainda a s\u00famula que Newton far\u00e1 de ambos, a filosofia j\u00e1 n\u00e3o portava seus temas cl\u00e1ssicos (que ou abandonara como tralha teologal, ou come\u00e7ara a perder para a ci\u00eancia experimental) mas ainda n\u00e3o tinha alcan\u00e7ado seus temas hodiernos; j\u00e1 n\u00e3o era a <i>ancilae teol\u00f3gica<\/i> de Santo Anselmo de Cantu\u00e1ria, mas ainda n\u00e3o era a <i>ancilae cient\u00edfica<\/i> de Kant a Piaget. Livre de toda carga, a filosofia p\u00f4de se tornar um manual pr\u00e1tico da vida di\u00e1ria (contempor\u00e2nea da populariza\u00e7\u00e3o da leitura com o advento da prensa de Gutenberg), apropriando-se de temas comezinhos como a c\u00f4rte amorosa (e n\u00e3o mais o amor como conceito), a amizade, a boa mesa, os bons modos, as descobertas de outros povos. \u00c9 o mundo de La Boetie, Montaigne, Baltazar Gracian, mas tamb\u00e9m de Giambattista Vico, David Hume, Erasmo, e de outro lado da literatura galante do Antigo Regime, de Sade, Diderot e Laclos portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Momento tamb\u00e9m em que os g\u00eaneros da literatura ainda n\u00e3o se distinguiam: o romance continha o ensaio, o ensaio era escrito como cr\u00f4nica, a cr\u00f4nica dava a refletir, a poesia n\u00e3o era s\u00f3 l\u00edrica (e p\u00f4de ter na \u00e9pica, como \u00e9 o caso do Para\u00edso Perdido, apenas um pretexto para ser filos\u00f3fica no melhor sentido do termo). Isso ainda se repetir\u00e1 nas outras artes: a pintura, por exemplo, do g\u00f3tico tardio alem\u00e3o torna indistintos o <a href=\"http:\/\/daystarvisions.com\/Pix\/Masters\/Full\/Jan_Vermeer_van_Delft-Woman_in_Blue_Reading_a_Letter-c1664-012-edited_DC_lvl10.jpg\" target=\"_blank\">retrato da vida cotidiana<\/a>, a <a href=\"http:\/\/www.terminartors.com\/files\/artworks\/1\/3\/7\/13782\/Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Census_at_Bethlehem.jpg\" target=\"_blank\">cena b\u00edblica<\/a> e a <a href=\"http:\/\/londoncalling.com\/images\/uploads\/event_images\/3538\/albrecht_durer,_a_rhinoceros,_1515__gallery_image.jpg\" target=\"_blank\">gravura explanativa sobre viagens expedicion\u00e1rias<\/a>; em Bach, o minueto dom\u00e9stico, a missa solene e o exerc\u00edcio de aprendizado para cravo se imiscuem (no limite de ele n\u00e3o definir a voz instrumental que quer para uma composi\u00e7\u00e3o, como nas Varia\u00e7\u00f5es Goldberg, ou de fazer intencionalmente as vozes se permutarem, como nos Quartetos para Cordas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste contexto que Bressane \u00e9 admir\u00e1vel: um filme em que a narrativa e o ensaio se indistinguem tanto quanto a m\u00fasica \u00e9 uma continuidade da gravura do <i>storyboard<\/i>, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed mesmo vem sua queda: a lenda viva da Belair insiste em dizer que sua obra tem um destino, e uma inten\u00e7\u00e3o, transcendental, recusando sua utilidade (que \u00e9 extrema e \u00f3bvia como de um poema de John Donne), enfim negando a materialidade da obra de arte como parte da vida. Se ele insiste no car\u00e1ter medieval da r\u00edtmica de sua obra (penso por contraste no sentido em que LeGoff elogia a cidade medieval como a cidade que liberta o comum da servid\u00e3o agr\u00e1ria, as ordens mendicantes como os primeiros subversivos socialistas, etc.), trata-se ao contr\u00e1rio de um medievalismo, mais do que encastelado em pal\u00e1cios, de monast\u00e9rio nefelibata \u2013 e ao inv\u00e9s de usar esta marcha-a-r\u00e9 como um ponto de apoio anti-capitalista, na verdade acaba constituindo um capitalismo de castas, totalmente platonizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, bem ao contr\u00e1rio, <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3842\" target=\"_blank\">o cinema precisa fazer parte da vida \u2013 ser \u00fatil<\/a> como <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3705\" target=\"_blank\">Marianne Moore insiste que a poesia s\u00f3 \u00e9 boa porque ela \u00e9 \u00fatil<\/a> (e foi isso que garantiu que a poesia angl\u00f3fona n\u00e3o sucumbisse \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o do lirismo sob o capitalismo, e mantivesse for\u00e7a: ao oferecer-se como produto utilit\u00e1rio dentro dele o supera). Ao incorrer num discurso enviezadamente moralista, de que o mundo capitalista \u00e9 materialista e por isso devemos buscar ideais, Bressane se equivoca gravemente: o Capital \u00e9 um ideal puro, uma pura abstra\u00e7\u00e3o que leva os homens a buscarem alcan\u00e7\u00e1-lo; \u00e9 o trabalho, que o capital nega e aliena, que \u00e9 material justamente porque pr\u00e1tico e di\u00e1rio, bem como o comum, a festa, etc. \u2013 o exerc\u00edcio subversivo real \u00e9, sobretudo, fazer os ideais ca\u00edrem um a um, para focarmos a \u00fanica vida que existe: aquela material e feita por m\u00e3os humanas. E ali\u00e1s, a arte medieval justamente se indistinguia dos utens\u00edlios cotidianos (como n\u00e3o bem separava o trabalho da festividade): vale para uma espada, uma tape\u00e7aria, ou uma iluminura mon\u00e1stica \u2013 todas serviam para algo pr\u00e1tico antes de qualquer outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se J\u00falio Bressane n\u00e3o suportasse a revolu\u00e7\u00e3o que dispara, um tanto como parte da burguesia francesa de 1789 que, diante do Diret\u00f3rio, vai pedir arrego a Viena e a Santa S\u00e9; e, se insere uma iman\u00eancia dial\u00e9tica no fazer-f\u00edlmico\/fruir-f\u00edlmico (o filme s\u00f3 se faz ao ser projetado e visto), \u00e9 para em seguida ir em busca do Absoluto. Falta-lhe antropofagia \u2013 e, bem, azar o dele! Ser marxiano \u00e9 antes de mais nada marxizar tudo, a come\u00e7ar por Hegel: sab\u00ea-lo crucial para o retorno a Her\u00e1clito e a derrocada do eleatismo est\u00e1tico, mas sab\u00ea-lo tamb\u00e9m insuficiente e sab(or)e(a)r quando e como mat\u00e1-lo e devor\u00e1-lo: cru &amp; cozido, pela frente e pelo verso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para Bruno Cava \u00a0 \u201cO cinema \u00e9 um breve hiato de 100 anos entre o daguerre\u00f3tipo e o digital\u201d Roberto Wagner \u00a0 Quarta-feira \u00e0 noite, em dois passos, cheguei a dar uma volta em espiral dial\u00e9tica completa: ao entrar numa sess\u00e3o da mostra competitiva nacional do Panorama Coisa de Cinema, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[1885,1884],"class_list":["post-3876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01ver","tag-julio-bressane","tag-panorama-coisa-de-cinema"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3876"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3876\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3943,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3876\/revisions\/3943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}