{"id":3854,"date":"2013-09-30T16:01:29","date_gmt":"2013-09-30T19:01:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3854"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"o-resgate-da-masculinidade-negada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3854","title":{"rendered":"O resgate da masculinidade negada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ontem, na exposi\u00e7\u00e3o de orqu\u00eddeas do Palacete das Artes (ex-Rodin), avisto um menino, bem bichinha mauricinho da Gra\u00e7a (o que \u00e9 quase guri de playground de condom\u00ednio no Itaigara), que me atrai desde quando ele era mais feminino e jovem &#8211; e agora, adulto e m\u00e1sculo, mais ainda; desta vez h\u00e1, contudo, um punctum de atratividade: um skate debaixo do bra\u00e7o e a face leventemente suada. Me aproximo:<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Voc\u00ea usa skate como transporte?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; N\u00e3o, uso pra brincar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Mas voc\u00ea veio pra c\u00e1 de skate&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Sim, mas moro perto.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Ent\u00e3o, usa sim como transporte. Bicicleta tamb\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; N\u00e3o como transporte&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Voc\u00ea pode me ensinar a andar de skate?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Eu n\u00e3o saberia ensinar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que pe\u00e7o skate-anjo a algu\u00e9m (sempre negado, diga-se), embora desta isso foi pretexto e n\u00e3o texto &#8211; n\u00e3o me fiz de rogado, e antes de me retirar pedi que um gar\u00e7on entregasse a ele um bilhete em que explicitava isso, deixava meu nome e telefone e oferecia-lhe bike-anjo.<\/p>\n<p>Semanas atr\u00e1s, num <em>blind-date<\/em>, encontro com um rapaz que n\u00e3o me atrai mas tem uma curiosidade que transversalmente me agrada: assumidamente homossexual, e at\u00e9 um tanto afeminado, \u00e9 faixa-preta de karat\u00ea-d\u00f4 e j\u00e1 deu aulas desta arte marcial, competiu em viagens interestaduais, etc. Por outro lado, ele n\u00e3o estranhou nem se admirou eu ter ido encontr\u00e1-lo de bicicleta e passearmos a p\u00e9 de noite pela Gra\u00e7a enquanto convers\u00e1vamos.<\/p>\n<p>O que noto nesse anedot\u00e1rio \u00e9 que, agora, h\u00e1 um processo (sutil e nada majorit\u00e1rio, mas em importante devir) de recupera\u00e7\u00e3o de uma masculinidade n\u00e3o bem perdida e sim negada, por parte de sujeitos homossexuais em centros de metr\u00f3poles &#8211; e que nada tem a ver com uma &#8220;emula\u00e7\u00e3o de macheza&#8221; das barbies e sarad\u00f5es de academia\u00a0ou do culto do &#8220;n\u00e3o curto afeminados&#8221;. Se trata de que, apesar de se preferir rapazes, apesar de certa delicadeza feminil de gostos e tratos, se usar\u00e1 o espa\u00e7o urbano molecamente, numa virilidade leve, flutuante e plural que n\u00e3o nega seu oposto nem l\u00e1 est\u00e1 para obliter\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Em agonismo a este vetor est\u00e1, claro, o <em>reclaim-the-streets<\/em> involunt\u00e1rio, por vezes irrefletido, das classes m\u00e9dias altas de centro de metr\u00f3pole no Brasil pelo retorno do uso livre das ruas. Pode-se dizer que, <em>lato senso<\/em>, me incluo em ambos, embora n\u00e3o <em>strictu senso<\/em>: minha prefer\u00eancia pelo balet cl\u00e1ssico \u00e9 justamente quase machista num ambiente aviadado; remo ol\u00edmpico, meu esporte de predile\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito mais feminino e gay do que se imagina (inclusive porque trabalha muito mais a musculatura da perna &#8211; n\u00e3o \u00e9 canoagem, \u00e9 uma bicicleta aqu\u00e1tica praticamente); &#8211; e claro, meu interesse pela mobilidade desmotorizada est\u00e1 aqu\u00e9m disso (meu amor intenso, er\u00f3tico, pelas cidades desde sempre) e al\u00e9m disso (n\u00e3o tenho fetiche esportivo com bicicletas), e some-se o fato de que, sintaticamente, sou um\u00a0hetero que prefere os rapazes\u00a0(mas n\u00e3o no sentido vulgar e prolet\u00e1rio, e da\u00ed que minha erudi\u00e7\u00e3o e sensibilidade est\u00e9tica s\u00e3o muito mais tra\u00e7os masculinos herdados de minha familia materna. O que h\u00e1 de viadagem em\u00a0mim \u00e9 muito mais uma grosseria libidinosa da Ribeira, herdada de meu pai, lida ordinariamente como masculinidade de pov\u00e3o: a xibietagem da pipoca de carnaval).<\/p>\n<p>Do outro lado da moeda disso, outra anedota: depois da Bicicletada deste m\u00eas, encontro, por acaso, amigos n\u00e3o muito pr\u00f3ximos no bar Mocambinho do Largo Dois de Julho. \u00c9 anivers\u00e1rio de um deles: bel\u00edssimo, e com uma involunt\u00e1ria feminilidade por ser designer, \u00e9 tamb\u00e9m muito hetero e \u00e0s vezes quase troglodita macho brucut\u00fa (bem dentro do paradigma familista pequeno-burgu\u00eas do eixo Pituba-Brotas). Este amigo, mais tarde, meio bebado reclama: &#8220;E voc\u00ea nem pegou na minha bunda hoje&#8221;:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Eu nunca peguei na sua bunda, na verdade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Devia, \u00e9 macia, pegue a\u00ed que eu gosto.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; \u00c9 mesmo! Agora quero um beijo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Beijo na boca n\u00e3o dou n\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Eu dou um bitoque &#8211; diz o irm\u00e3o mais novo dele, muito mais macho (e machista), muito menos dado a disson\u00e2ncias sexuais. E me sapeca um selinho&#8230;<\/p>\n<p>Para-al\u00e9m da sorte que tenho de os meios em que convivo, embora largamente heterossexuais,\u00a0serem compostos por sujeitos que n\u00e3o v\u00eaem na heterossexualidade um destino natural da puls\u00e3o, mas um acaso fortuito da escolha embora recorrente, e de nestes a demonstra\u00e7\u00e3o de afeto f\u00edsico entre homens ser estimulada (o que ali\u00e1s \u00e9 comum em v\u00e1rios nichos da Reconvexa), e a agressividade f\u00edsica desestimulada (a intelectual \u00e9 bem vista),\u00a0estas s\u00e3o liberdades muito positivas (e n\u00e3o, eu n\u00e3o sou Queer &#8211; eu continuo achando os Queer uns rematados oligofr\u00eanicos). Embora, claro, um colega de trabalho que tamb\u00e9m mora no Dois de Julho\u00a0tenha j\u00e1 me perguntado\u00a0se o Mocambinho \u00e9 gay porque &#8220;d\u00e1 muito viado l\u00e1&#8221; &#8211; por \u00f3bvio que n\u00e3o: \u00e9 um boteco de rua com uma cozinha esmerada, boa cerveja, ampla toler\u00e2ncia com a diversidade, sutil politiza\u00e7\u00e3o e interesse por fomentos culturais microf\u00edsicos.<\/p>\n<p>Nenhum destes tr\u00eas impulsos s\u00e3o majorit\u00e1rios, mas s\u00e3o for\u00e7as muito mais importantes de democratiza\u00e7\u00e3o material do Brasil (ao menos de Salvador e da Bahia &#8211; em Cachoeira o clima parece estar seguindo este rumo, tamb\u00e9m, e ainda alhures sert\u00e3o adentro) do que se possa imaginar, gerando um ciclo virtuoso: fragiliza\u00e7\u00e3o das barreiras de g\u00eanero (v\u00e1 l\u00e1!) ampliando a inventividade e intensidade do uso de espa\u00e7os p\u00fablicos, intensifica\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o do uso dos espa\u00e7os p\u00fablicos fragilizando as barreiras (v\u00e1 l\u00e1) de g\u00eanero.<\/p>\n<p>O vatic\u00ednio que fiz, mais como manifesto, anos atr\u00e1s por twitcam parece estar se realizando como profecia: os viados precisam pedalar (e andar de skate) tanto quanto os usu\u00e1rios de bicicleta precisam se aviadar (nem que seja pela via do <em>CycleChic<\/em> como v\u00e1-de-retro no ciclismo-como-esporte).<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, na exposi\u00e7\u00e3o de orqu\u00eddeas do Palacete das Artes (ex-Rodin), avisto um menino, bem bichinha mauricinho da Gra\u00e7a (o que \u00e9 quase guri de playground de condom\u00ednio no Itaigara), que me atrai desde quando ele era mais feminino e jovem &#8211; e agora, adulto e m\u00e1sculo, mais ainda; desta vez [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,9],"tags":[20,889,1374,51,1867,1868,1870,15,1869],"class_list":["post-3854","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01viver","tag-bahia","tag-bicicleta","tag-direito-a-cidade","tag-gay","tag-hetero","tag-homossexualidade","tag-queer","tag-salvador","tag-skate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3854"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3854\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3855,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3854\/revisions\/3855"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}