{"id":3839,"date":"2013-08-11T11:42:41","date_gmt":"2013-08-11T14:42:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3839"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"o-mito-da-densidade-e-a-densidade-do-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3839","title":{"rendered":"O Mito da Densidade (e a densidade do mito)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica fundamental que Jane Jacobs fez, 50 anos atr\u00e1s, ao urbanismo (idealista) fundando o que chamo de urbanologia (factual), parece n\u00e3o ter sido totalmente absorvida at\u00e9 hoje nem mesmo pelas esquerdas. Aceita-se a id\u00e9ia de diversidade comercial do uso do solo, por exemplo, e da import\u00e2ncia de im\u00f3veis antigos; ignora-se o desenho urbano e a necessidade de quadras curtas (h\u00e1 casos em que elas s\u00e3o dispens\u00e1veis e Jacobs n\u00e3o previu, \u00e9 verdade) como se fosse uma futilidade burguesa; e segue-se usando conceitos opressores e sem significado, como <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b>, quando a terrorista-urbana e dona-de-casa da Nova Inglaterra j\u00e1 havia demonstrado, quase num teorema, que se deve abdicar da rela\u00e7\u00e3o popula\u00e7\u00e3o\/\u00e1rea, que nada tem a dizer, e se adotar duas medi\u00e7\u00f5es distintas e complementares: a <b>densidade <i>habitacional<\/i><\/b> (moradias\/lote) e a de superpopula\u00e7\u00e3o (pessoas\/c\u00f4modos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nisso, ela involuntariamente vai apontar para o que Henri Lefebvre na mesma \u00e9poca come\u00e7a a dizer: a rela\u00e7\u00e3o biun\u00edvoca entre moradia e habita\u00e7\u00e3o (n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos!) &#8211; operando a esquizofrenia entre estes pares (moradia X habita\u00e7\u00e3o; densidade <i>habitacional<\/i>, e n\u00e3o <i>demogr\u00e1fica<\/i> X superpopula\u00e7\u00e3o) o esparsamento urbano rodoviarista ao gosto de Robert Moses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i> seria assim aquilo que Yves Lacoste chamaria de conceito vazio, que serve a um s\u00f3 tempo como &#8220;geografia de curiosidades&#8221; alienante e como justificador da &#8220;geografia de guerra&#8221; dos Estados Maiores (bancos, empreiteiras, petrol\u00edferas, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A distin\u00e7\u00e3o entre <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b> (pessoas por \u00e1rea), <b>densidade <i>habitacional<\/i><\/b> (moradias por distrito) e popula\u00e7\u00e3o domiciliar (pessoas por c\u00f4modo) pode parecer purismo conceitual. N\u00e3o \u00e9. Jane Jacobs acaba por ser foucaultiana sem dar-se conta ao apontar que os conceitos n\u00e3o s\u00e3o apenas equ\u00edvocos, como intencionalmente equ\u00edvocos, sua confus\u00e3o sendo o cavalo onde monta o poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos o exemplo de Salvador, nem que seja porque a\u00ed teremos um terceiro ou quarto te\u00f3rico (que naquele momento n\u00e3o conhecia nem Lefebvre, nem Jacobs, nem Lacoste, nem era conhecido por estes tanto quanto estes n\u00e3o se conheciam entre si): Milton Santos. Diz-se, apressadamente, que Salvador \u00e9 &#8220;a cidade mais densa do pa\u00eds&#8221;, como se isso fosse um problema. S\u00f3 que:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i> nada quer dizer, na pr\u00e1tica. \u00c9 poss\u00edvel ter cidades mais densas em popula\u00e7\u00e3o do que Salvador, como Buenos Aires, e muito mais eficientes e confort\u00e1veis &#8211; porque a densidade populacional a\u00ed \u00e9 na verdade <i>habitacional<\/i> (muitas moradias por distrito) e em Salvador ela \u00e9 superpopulacional-domiciliar (muita gente por c\u00f4modo, mas com poucos im\u00f3veis ocupados) como o preto-doutor j\u00e1 havia mostrado em sua tese de doutoramento em 1958;<\/li>\n<li>\u00c9 poss\u00edvel ter cidades com menos <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b> e mais excludentes e problem\u00e1ticas que a Reconvexa, porque isso coincide com baixa <b>densidade <i>habitacional<\/i><\/b> &#8211; Bras\u00edlia \u00e9 um exemplo, e seu esparsamento motorcr\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia;<\/li>\n<li>Contabiliza-se, no Rio de Janeiro (cuja \u00e1rea de maior densidade demogr\u00e1fica \u00e9 tamb\u00e9m de maior densidade habitacional: o intenso e verticalizado bairro de Copacabana &#8211; e n\u00e3o os morros, vejam s\u00f3!), a Floresta da Tijuca como \u00e1rea habitada. A\u00ed, \u00e9 mole pro Vasco&#8230;;<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que este terceiro item mostra \u00e9 que o conceito de densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i> \u00e9 de t\u00e3o larga escala que perde precis\u00e3o. Salvador, por exemplo, tem densidade <em>habitacional<\/em> na Gra\u00e7a (um bairro nobre de centro, com boa mas n\u00e3o excessiva verticaliza\u00e7\u00e3o e relativamente poucos im\u00f3veis vazios, al\u00e9m de haver im\u00f3veis para diversas faixas de renda), superpopula\u00e7\u00e3o domiciliar sem densidade <i>habitacional<\/i> em seus bairros pobres de ocupa\u00e7\u00e3o irregular mas centrais (que n\u00e3o chegam a ter tr\u00eas ou quatro andares por lote), e \u00e1reas centrais com total infraestrutura mas vazias de habita\u00e7\u00e3o (o bairro do Com\u00e9rcio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, os conceitos de densidade <i>habitacional<\/i> e de popula\u00e7\u00e3o domiciliar alcan\u00e7am a vida real: quanto de potencial econ\u00f4mico um bairro tem pela presen\u00e7a de transeuntes e sua rela\u00e7\u00e3o com o com\u00e9rcio local, e qual a qualidade de moradia a partir do quanto de privacidade ela gera (de novo, Jacobs: passou de 1,5 pessoas por c\u00f4modo, n\u00e3o h\u00e1 como ter conforto). Como se v\u00ea, s\u00e3o tr\u00eas medidas escalares distintas &#8211; tanto quanto velocidade, dist\u00e2ncia, tempo e acelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos em cinem\u00e1tica (ou comprimento, \u00e1rea e volume em geometria)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A confus\u00e3o entre <b>densidade <i>habitacional<\/i><\/b> e <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b> nunca foi inocente, e se Jacobs a denuncia \u00e9 porque o argumento de que uma \u00e1rea era densa demograficamente (na pr\u00e1tica, isso queria dizer superpopulosa internamente a seus domic\u00edlios, mas com poucos domic\u00edlios por \u00e1rea &#8211; isto \u00e9: corti\u00e7os) era usado para esparsar a cidade, abrir rodovias urbanas, mandar os imigrantes para a outra margem do Rio Hudson fora ilha de Manhattan &#8211; num momento da hist\u00f3ria econ\u00f4mica norte-america em tudo simular ao do Brasil atual. Isso, como ela demonstrou, n\u00e3o apenas n\u00e3o resolvia a superpopula\u00e7\u00e3o domiciliar, como a piorava: mais esparsado, a possibilidade de as fam\u00edlias se dividirem e ocuparem outros im\u00f3veis adjacentes centrais era quase nenhuma. Fora todas as outras conseq\u00fc\u00eancias de seguran\u00e7a p\u00fablica, microeconomia e vida s\u00f3cio-cultural que isso trazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ent\u00e3o se resolve o problema da qualidade da moradia e da superpopula\u00e7\u00e3o domiciliar? Jane Jacobs \u00e9 enf\u00e1tica: aumentando a <b>densidade <i>habitacional<\/i><\/b>, uma vez que se alcan\u00e7ou uma clareza zen de que ela n\u00e3o se confunde com a ilus\u00f3ria <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b>. Na pr\u00e1tica, isso significa manter as fam\u00edlias onde est\u00e3o e lev\u00e1-las a ter incremento de renda. O que faz um morador de favela quando ganha dinheiro mas gosta do bairro? Bate uma laje! Onde havia uma resid\u00eancia com mais de 1,5 pessoas\/c\u00f4modo, passa a haver duas, talvez no total com at\u00e9 mais gente, mas seguramente com menos habitantes\/quartos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma palavra, o fetiche da <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b> (ignorando as grandezas reais da <b>densidade <i>habitacional<\/i><\/b> e da popula\u00e7\u00e3o domiciliar) \u00e9 uma das formas de justificar os Minhas Casas Minhas D\u00edvidas e outras solu\u00e7\u00f5es de &#8220;dar moradia suprimindo a habita\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; para usar a brilhante f\u00f3rmula de Lefebvre. A esquerda urban\u00edstica brasileira segue sendo pr\u00e9-Jacobsiana n\u00e3o por nunca t\u00ea-la lido, e sim por nunca t\u00ea-la tomado radicalmente (a cidade \u00e9 um problema grande demais para ficar nas m\u00e3os de arquitetos), e seguirem pensando com cabe\u00e7a de engenheiro (e portanto encarando as cidades como m\u00e1quinas, e n\u00e3o como organismos vivos). E a\u00ed adv\u00e9m uma serie de temores disparatados: por exemplo, de que a densidade habitacional aumenta demanda por transportes, quando Jacobs j\u00e1 demonstrara que na verdade diminui quando surge junto um aumento do uso comercial do solo, etc.; al\u00e9m do malogro de suas pr\u00f3prias cr\u00edticas, que ficam assim gagas &amp; tartamudas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Densidade <i>habitacional<\/i><\/b> \u00e9 antes uma solu\u00e7\u00e3o do que um problema, bradou ela a vida toda; o problema \u00e9 a superpopula\u00e7\u00e3o domiciliar e a falta de acesso a renda; e a <b>densidade <i>demogr\u00e1fica<\/i><\/b> n\u00e3o \u00e9 nem problema nem solu\u00e7\u00e3o: \u00e9 uma mistifica\u00e7\u00e3o no sentido marxista do termo. Um retorno a Jane Jacobs se faz assim necess\u00e1rio tanto quanto Lacan propunha o eterno retorno a Freud: n\u00e3o por dogmatismo, e sim porque at\u00e9 mesmo quando se faz uma descoberta que concorde com estes, a descoberta \u00e9 tomada na melhor das hip\u00f3teses como novidade curiosa (seja, no caso de Freud, pelos primatologistas ao descobrirem que nos s\u00edmios a sexualidade n\u00e3o serve para reprodu\u00e7\u00e3o; seja nos queer e suas bizarras teorias ignorando a fisiologia inclusive dos bonobos), e apenas muito raramente na sua pot\u00eancia subversiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cr\u00edtica fundamental que Jane Jacobs fez, 50 anos atr\u00e1s, ao urbanismo (idealista) fundando o que chamo de urbanologia (factual), parece n\u00e3o ter sido totalmente absorvida at\u00e9 hoje nem mesmo pelas esquerdas. Aceita-se a id\u00e9ia de diversidade comercial do uso do solo, por exemplo, e da import\u00e2ncia de im\u00f3veis antigos; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,9],"tags":[1374,1863,1861,1860,1865,1307,1864,1862],"class_list":["post-3839","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01viver","tag-direito-a-cidade","tag-habitacao","tag-henri-lefebvre","tag-jane-jacobs","tag-metropoles","tag-milton-santos","tag-moradia","tag-yves-lacoste"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3839"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3839\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3840,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3839\/revisions\/3840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}