{"id":3834,"date":"2013-07-28T11:22:57","date_gmt":"2013-07-28T14:22:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3834"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"brevidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3834","title":{"rendered":"Brevidades"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3245\" target=\"_blank\">Sertan\u00edlia<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/marisaono.com\/delicia\/?p=2189\" target=\"_blank\">H\u00e1 um quitute, um biscoito caseiro ou bolinho (em franc\u00eas dir-se-ia patissier), feito no Planalto Conquistence e em outras \u00e1reas do Sert\u00e3o Hist\u00f3rico, que leva este nome: brevidade<\/a>. Trata-se de um colch\u00e3o-de-freira, lusitano, adaptado aos tr\u00f3picos por fortes substitui\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas: polvilho de mandioca ou tapioca ao inv\u00e9s da farinha de trigo peneirada; mel de furo ao inv\u00e9s de a\u00e7\u00facar de confeiteiro; os ovos ainda est\u00e3o l\u00e1, idem a manteiga (o pr\u00f3prio colch\u00e3o-do-c\u00e9u \u00e9 mo\u00e7\u00e1rabe &#8211; variante \u00f3bvia do falafel, assim como o travesseiro-de-cintra \u00e9 um bel\u00e9wa que usa fios d&#8217;ovos ao inv\u00e9s de am\u00eandoas. Nisso, \u00e9 um primo muslim do bolo-de-rolo &#8211; n\u00e3o confundir com rocambole! &#8211; \u00a0recifense, cuja massa \u00e1zima \u00e9 claramente judaica e Gilberto Freyre j\u00e1 mostrara ser uma variante do len\u00e7ol-de-noiva). Suas caracter\u00edsticas: durar tanto quanto um p\u00e3o-de-l\u00f3, mas ser de confec\u00e7\u00e3o \u00e1gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por acidente fui parar numa feira de economia solid\u00e1ria e agricultura familiar (das pol\u00edticas mais interessantes e bem-sucedidas &#8211; e menos divulgadas &#8211; do Governo Jacques Wagner, tendo como ponto alto a <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3432\" target=\"_blank\">F\u00e1brica de Chocolate de Ibicara\u00ed<\/a>) na Pra\u00e7a Municipal de Salvador. Num estande de Livramento (n\u00e3o sei se de Nossa Senhora ou de Brumado), tive de pedir para a mocinha que me atendia repetir mais de uma vez o nome da iguaria, t\u00e3o incr\u00e9dulo estava eu: &#8220;Brevidades!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele termo, num sotaque sertanejo do sudoeste, quase mineiro do Jequitinhonha, era h\u00e1 muito conhecido meu e estava h\u00e1 muito perdido na minha rec\u00f4ndita mem\u00f3ria, n\u00e3o por t\u00ea-lo esquecido, e sim por jamais t\u00ea-lo tomado como nome de uma coisa, sen\u00e3o como met\u00e1fora. Rapidamente me vieram versos inteiros da can\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=uEQ18d-Tp9c\" target=\"_blank\">O Pedido<\/a>, passagem prof\u00e9tica em <a href=\"http:\/\/www.vagalume.com.br\/elomar-figueira-de-melo\/o-auto-da-catingueira.html\" target=\"_blank\">O Auto Da Caatingueira<\/a>, de Elomar:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8220;Traz pra mim umas brevidades<\/p>\n<p>que eu quero matar saudades<\/p>\n<p>faz tempo que fui na feira&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre compreendi &#8220;brevidades&#8221; a\u00ed como miudezas &#8211; uma forma de a personagem, vaticinada a jamais sair de casa, reunir num coletivo <em>bric-a-brac<\/em> todo aquele cabedal de ninharias que constitu\u00edam os estilha\u00e7os de mundo n\u00e3o-dom\u00e9stico a que tinha acesso e cuja compra suplicava ao vaqueiro passante: \u00e1gua da ful\u00f4 que cheira, um novelo, rouge &amp; carmim, um pacote de miss, recados do cego cantador de adro de igrejinha matriz, not\u00edcias do menino-lobisomem do areal do riacho da aldeia, dois metros de xita, trancelim, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso: brevidade \u00e9 algo que se come, com caf\u00e9 e queijo de coalho ou qui\u00e7\u00e1 canastra; \u00e9 algo que se assa e depois se transporta em lombo de mula ou jegue; era assim um peda\u00e7o profundo no tempo e no espa\u00e7o daquilo que constitui a Metr\u00f3pole Reconvexa s\u00f3 porque ela o nega: o sert\u00e3o &#8211; ib\u00e9rico, luso, mourisco, errante, caet\u00e9-tapuia. Toda uma realidade \u00edntima se abria para mim naquele instante, uma verdade de copa e cozinha, para se servir \u00e0 mesa na merenda dos moleques e na prosa de compadres, no bastidor de bordados das vi\u00favas e nos enxovais de crisma das meninas-mo\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhos brilhando, tive de pedir para experimentar como menino que pede esmola para comprar balas e queimados; e comi sofregamente, sem nem agradecer, como se fora um alimento sagrado roubado, uma h\u00f3stia (ou uma taboca que \u00e0 guisa de brinquedo fazemos de h\u00f3stia), um beijinho-de-coco que se pegou da mesa de anivers\u00e1rio antes de se bater os parab\u00e9ns-a-voc\u00ea, ou por outra um naco de rapadura tomado da bacia de sete-meninos num carur\u00fa de Cosme&amp;Dami\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele sabor doce excessivamente potente e r\u00e1pido, seguido do amargo e do azedinho do polvilho, sempre seco como farinha-de-guerra e com odor perene de canela-em-pau, estava toda uma inf\u00e2ncia n\u00e3o vivida por dist\u00e2ncia de d\u00e9cadas ou l\u00e9guas. Al\u00e9m de que, doravante, esta coincid\u00eancia de eterno e efem\u00earo (que, segundo Dr. Walter da Silveira, \u00e9 a coisa mesma que chamamos cinema) ganhava para mim sabor, cor, cheiro, textura, hist\u00f3ria, acento lingu\u00edstico. De certa forma, brevidades s\u00e3o a contra-parte de outro biscoito popular bahiano: paci\u00eancias (que, quando feitos muito finos, sequilhos, podem ser chamados de belgas ou, acrescidos de baunilha, fidalgos &#8211; perdendo assim seu car\u00e1ter de feira, aristocratizando-se).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podia ent\u00e3o compreender que a Cassandra p\u00f3s-colonial criada pelo compositor da Fazenda das Barrancas queria matar suas saudades ingerindo e degustando peda\u00e7os apetitosos deste mundo relic\u00e1rio em fuga, evanescente em poucos segundos de s\u00e9culos: brevidades. Sentido que a partir de ent\u00e3o me pareceu \u00f3bvio, uma vez que tais versos sobre brevidades est\u00e3o ao fim da estrofe em que ela fala de comidas de feira em geral: da barraca da mulher benzeira onde se almo\u00e7a paca, panelada, frigideira &#8211; e sobre a qual se diz uma loa, gabando a b\u00f3ia boa: das casas da cidade, aquela era a primeira&#8230;!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Brevidades ficaram sendo minhas madeleines tardias; O Pedido, minha can\u00e7\u00e3o de Siruiz; o tocador de Vit\u00f3ria da Conquista, meu Vinteuil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o Sertan\u00edlia H\u00e1 um quitute, um biscoito caseiro ou bolinho (em franc\u00eas dir-se-ia patissier), feito no Planalto Conquistence e em outras \u00e1reas do Sert\u00e3o Hist\u00f3rico, que leva este nome: brevidade. 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