{"id":3825,"date":"2013-04-06T19:57:32","date_gmt":"2013-04-06T22:57:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3825"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"telemaquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3825","title":{"rendered":"Telemaquia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>A Arte de ir bem longe para se chegar onde j\u00e1 se estava<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>(para Vera L\u00facia Rocha, arquetipicamente)<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o road-movie surge como est\u00e9tica entre os anos 1960 e 1970, est\u00e1 claramente ligado a contracultura, sendo o efeito do beatnik no cinema, o rock&#8217;n roll de Woodstock 24 quadros-por-segundo. No limite, o road-movie quintessencial que \u00e9 <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0064276\/\" target=\"_blank\">Easy Rider<\/a> busca a ruptura radical, inclusive com a vida: descendo o Mississipi em motocicletas Wyatt e Billy saem dos Estados Unidos rico, mas agr\u00e1rio, e tomando o Deep South como go-west, v\u00e3o para a paup\u00e9rrima mas cosmopolita New Orleans em busca de um puteiro, para morrerem quase num suic\u00eddio involunt\u00e1rio. At\u00e9 seus nomes s\u00e3o uma refer\u00eancia \u00e0s avessas aos cl\u00e1ssicos do conservadorismo (ou antes, da subvers\u00e3o a favor do conservadorismo) que s\u00e3o os westerns cl\u00e1ssicos, se referindo aos her\u00f3is recorrentes Earp e The Kid, ali\u00e1s advers\u00e1rios entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais adiante, n\u00e3o deixou de contribuir com a libera\u00e7\u00e3o feminina (<em>Thelma &amp; Louise<\/em>) e das in\u00fameras formas de viadagem, travestismo e transg\u00eanero no mais go-west dos pa\u00edses orientais, e no mais northern do sul do mundo, a Austr\u00e1lia (<em>Priscila, a Rainha do Deserto<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil n\u00e3o deixou de usar do road-movie no seu chamado Cinema de Retomada, e talvez a\u00ed esteja sua superioridade ao per\u00edodo cl\u00e1ssico da Atl\u00e2ntica\/Cin\u00e9dia\/VeraCruz, ao cinema-novo e a porn\u00f4-chanchada: todos eram sedent\u00e1rios, Glauber Rocha inclusive, e eminentemente urbanos n\u00e3o no bom sentido (embora <a href=\"http:\/\/diariodeumcinefilo.blogspot.com.br\/2012\/02\/lira-do-delirio.html\" target=\"_blank\">A Lira do Del\u00edrio<\/a> seja um &#8220;road movie sem sair do lugar&#8221; ou um &#8220;road movie ao redor da esquina&#8221;); a retomada n\u00e3o: \u00e9 uma viagem de interioriza\u00e7\u00e3o material j\u00e1 de seu primeiro filme (n\u00e3o seria <em>Carlota Joaquina<\/em> um road-movie naval?!) tendo seu apogeu sem d\u00favida em <em>Central do Brasil<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Central do Brasil<\/em> que marca, paralelamente a outros roadies internacionais (<em>Um Gosto de Cereja<\/em>, de\u00a0 Abbas Kiarostami, e seguramente <em>IceStorm<\/em>, do excelente reacion\u00e1rio que \u00e9 Ang Lee): em vez de uma busca de rupturas, o Road Movie passa a buscar concilia\u00e7\u00e3o; em vez de subvers\u00e3o, trata-se de uma est\u00e9tica conservadora no melhor sentido do termo &#8211; talvez no sentido do \u00faltimo Tolstoi, ali\u00e1s proto-revolucion\u00e1rio, do \u00faltimo E\u00e7a de Queiroz, que se \u00e9 neocolonial tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico do colonialismo luso de outrora e absorveu bem Karl Marx para al\u00e9m do moralismo flaubertiano ou zoliano\u00a0que emulava anteriormente. Em tempo: cabe sempre lembrar o apre\u00e7o que o mais conservador de todos os cineastas, Ang Lee, tem pelo road-movie: se <em>IceStorm<\/em> \u00e9 o road-movie \u00e0s avessas, sobre trilhos e a respeito da volta para casa num sub\u00farbio onde a revolu\u00e7\u00e3o sexual (ma)logra, tamb\u00e9m <em>O Casamento de Muriel<\/em> tem qualquer coisa de roadie; <em>O Tigre &amp; O Drag\u00e3o<\/em>, um road-movie de dimens\u00f5es imperiais chinesas; <em>Brokeback Mountain<\/em>, apontado erradamente como western, s\u00f3 tem de western a invers\u00e3o de valores que o road-movie promove no faroeste desde Sem Destino; e <em>A Vida de Pi<\/em> \u00e9 um grande road-movie transatl\u00e2ntico, jesu\u00edta e franciscano, quase uma hagiografia dos mart\u00edrios em tr\u00e2nsito. Lee que ali\u00e1s dirigiu o \u00faltimo (e mais reacion\u00e1rio) dos grandes westerns: <em>Cavalgada Com O Diabo<\/em>, l\u00e1 onde John Ford acaba (re)encontrando D.W. Grifiths no que esse tem de pior (o racismo) e de melhor (a n\u00e3o-linearidade das id\u00e9ias).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste panorama que o excelente, e recente, <a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-200603\/\" target=\"_blank\"><strong>A Busca<\/strong><\/a>, brasileir\u00edssimo, se insere: um filho \u00fanico\u00a0relegado a segundo plano, salvo como\u00a0objeto de barganha, numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia alta paulistana, atravessar o litoral do sudeste (num devir-nordeste) para encontrar o av\u00f4, a quem n\u00e3o conhece mas tudo indica ser um grande designer de m\u00f3veis modernistas (inclusive no que isso tem de retr\u00f4, de eras passadas); no seu encal\u00e7o, vai seu pai, interpretado pelo maior ator do mundo em sua gera\u00e7\u00e3o, meu conterr\u00e2neo Wagner Moura, despindo-se pouco a pouco das h\u00e1bitos (de vestir e fazer) de profissional liberal paulistano para reencontrar, e mesmo (re)inventar, a paternidade &#8211; essa institui\u00e7\u00e3o conservadora, mas o irredut\u00edvel da transmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve-se ainda lembrar que os road-movies t\u00eam sempre algo de Odiss\u00e9ia, fato que ficou bem ressaltado em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0190590\/\" target=\"_blank\">Oh Brother Where Art Thou?<\/a>, dos Irm\u00e3os Cohen &#8211; e \u00e9 tamb\u00e9m neste sentido que James Joyce acaba por ser o Here-Comes-Everybody do s\u00e9culo XX: toda viagem n\u00e3o \u00e9 mais do que uma volta para casa, numa busca religiosa imanente e tel\u00farica.\u00a0<strong>A Busca<\/strong>\u00a0n\u00e3o fica alheio a isso: a op\u00e7\u00e3o do nome do personagem principal ser Theo (Deus, mas tamb\u00e9m de alguma forma evoca Te\u00f3filo, o interlocutor suposto do Evangelho de S\u00e3o Lucas e, mais importante, do Livro dos Atos Apost\u00f3licos), da m\u00e3e chamar-se Branca (como uma Pen\u00e9lope incapaz de bordados, numa casa ao mesmo tempo j\u00e1 despossu\u00edda e inconclusamente em constru\u00e7\u00e3o), e do menino que desaparece chamar-se Pedro &#8211; um Tel\u00eamaco identificado ao contr\u00e1rio com Ulysses: ao inv\u00e9s de ser ele que identifica o rosto do pai modificado (por se ter despido de ilus\u00f5es), \u00e9 Theo que busca no seu rastro tudo aquilo que vagamente possa identificar seu filho como quem de fato \u00e9, mas tamb\u00e9m como o em quem ele (ambos) vir\u00e3o a se transformar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Arte de ir bem longe para se chegar onde j\u00e1 se estava (para Vera L\u00facia Rocha, arquetipicamente) Quando o road-movie surge como est\u00e9tica entre os anos 1960 e 1970, est\u00e1 claramente ligado a contracultura, sendo o efeito do beatnik no cinema, o rock&#8217;n roll de Woodstock 24 quadros-por-segundo. 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