{"id":3811,"date":"2013-01-31T11:31:19","date_gmt":"2013-01-31T14:31:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3811"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"pedrinha-miudinha-e-lagedo-tao-grande-de-aruandae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3811","title":{"rendered":"Pedra miudinha (lagedo t\u00e3o grande) de Aruanda\u00ea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Longe de ser uma coincid\u00eancia, na mesma semana em que o Estado de S\u00e3o Paulo come\u00e7a a adotar as mal-ditas &#8220;interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias&#8221; para sacizeiros (n\u00e3o me venham dizer que \u00e9 para usu\u00e1rios problem\u00e1ticos de drogas, que ningu\u00e9m vai internar a pulso a playboyzada cheiradora de p\u00f3), o <a href=\"http:\/\/descurvo.blogspot.com.br\/2013\/01\/as-prisoes-privadas-mercantilizacao-da.html\" target=\"_blank\">Estado de Minas Gerais inaugura a primeira pris\u00e3o privada do Brasil<\/a>. Eu poderia mostrar aqui como tecnicamente interna\u00e7\u00f5es s\u00e3o ineficientes e onerosas (sejam elas eletivas, de urg\u00eancia, a mandato de um juiz, ou porque o sujeito assim o quis &#8211; como se &#8220;interna\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria&#8221; fosse menos ruim que a &#8220;compuls\u00f3ria&#8221;), o quanto isso seria uma distor\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no minguado por\u00e9m rigoroso or\u00e7amento do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, como se depriva do Direito \u00e0 Cidade aqueles que n\u00e3o t\u00eam nenhum direito sen\u00e3o o direito \u00e0 rua, etc. Tudo isso, no entanto, seria chover no molhado, repetir e fazer eco a gente que muito melhor do que eu pode dizer isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessa-me antes entender como e porque a dita milit\u00e2ncia anti-manicomial, e todos aqueles que estamos de alguma forma envolvidos desde sempre na Reforma Psiqui\u00e1trica Brasileira, n\u00e3o consegue (nunca conseguiu, sequer clinicamente) articular bem a quest\u00e3o do uso e abuso de drogas, l\u00edticas ou il\u00edcitas; porque \u00e9 que gaguejamos, onde \u00e9 que esse ativismo fica tartamudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, gostaria de lembrar aquilo que foi tema da tese de doutoramento, pelo Instituto de Sa\u00fade Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC-UFBA), de Dalva Monteiro (e sobre o que discutiamos frequentemente quando trabalh\u00e1vamos na Coordena\u00e7\u00e3o de Sa\u00fade Mental da Secretaria Municipal de Sa\u00fade de Salvador nos idos de 2005): com todos os avan\u00e7os de redu\u00e7\u00e3o\u00a0nas dura\u00e7\u00e3o e frequ\u00eancia de interna\u00e7\u00f5es para portadores de transtornos mentais maiores (mormente psicoses) e de amplia\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os territ\u00f3riais atrav\u00e9s dos Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial, os rebentos tropicais de Franco\u00a0Basaglia nada fizeram pelos neur\u00f3ticos, e francamente abandonaram os ambulat\u00f3rios (e com ele a \u00fanica forma at\u00e9 hoje conhecida de reforma subjetiva e subvers\u00e3o do sujeito atrav\u00e9s de seu sintoma: as psicoterapias individuais, que seguem sendo no Brasil um luxo de classe).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempo: n\u00e3o se trata de elogiar os ambulat\u00f3rios psiqui\u00e1tricos (ou de especialidades m\u00e9dicas com psiquiatras) como o SUS os herdou do INAMPS; antes, trata-se de admitir que eles s\u00e3o t\u00e3o manicomiais quanto um hosp\u00edcio, que o advers\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o muro e a camisa de for\u00e7a mas a concentra\u00e7\u00e3o de poder na classe m\u00e9dica (e na id\u00e9ia de um corpo sem sujeito). E n\u00e3o me venham dizer que CAPS s\u00e3o servi\u00e7os ambulatoriais: n\u00e3o s\u00e3o, nem devem ser; seu car\u00e1ter \u00e9 muito mais similar a de um hospital-dia para pacientes cr\u00f4nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste erro de princ\u00edpio, a Reforma Psiqui\u00e1trica derivou outros: n\u00e3o s\u00f3 os pobres do Brasil ganharam o direito de ser doidos (o que \u00e9 bom) mas jamais de desejarem, e a\u00ed as hist\u00e9ricas das classes sem nome n\u00e3o t\u00eam aonde ir se queixar a um profissional sobre sua vida subjetiva, salvo talvez com um pastor pentecostal, e s\u00f3 encontram assist\u00eancia psicol\u00f3gica se fizerem uma crise conversiva t\u00e3o forte que v\u00e3o parar numa emerg\u00eancia de hospital-geral com suspeita de derrame encef\u00e1lico (e meus seis anos trabalhando no Hospital Roberto Santos me mostram bem isso); n\u00e3o s\u00f3 a Reforma Psiqui\u00e1trica se limitou a autorizar a hoje Classe C a ser maluca, mas n\u00e3o a desejar, como inventou que seria bom internar doido em hospital-geral. Porque, claro, hospital-geral tem olarias, oficina de pintura e artesanato, e \u00e1reas abertas n\u00e3o \u00e9? Por \u00f3bvio que n\u00e3o, e no entanto se sabe que s\u00e3o as oficinas de terapia ocupacional em grupo, mais do que os neurol\u00e9pticos, que ajudam a tirar da crise aguda de desorganiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica em interna\u00e7\u00f5es breves. Assim, melhor do que destruir o manic\u00f4mio, seria desconstru\u00ed-lo: manter tanto hospitais psiqui\u00e1tricos quanto ambulat\u00f3rios de sa\u00fade mental em funcionamento, mas sob uma outra l\u00f3gica complementar aos CAPS &#8211; e n\u00e3o cair no canto da sereia do hospital-geral com leito psiqui\u00e1trico, uma vez que o problema \u00e9 ser hospital, seja ele de que\u00a0tipo for, essa m\u00e1quina de alienar corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se para os Anti-Manicomiais o pobre pode ser esquizofr\u00eanico, mas nunca hist\u00e9rico, tamb\u00e9m a eles \u00e9 vedado o direito de ser maconheiro e bebum. N\u00e3o \u00e9 tanto que os militantes da Reforma Psiqui\u00e1trica n\u00e3o tenham nunca se aproximado dos militantes pela descriminaliza\u00e7\u00e3o e legaliza\u00e7\u00e3o de entorpecentes &#8211; tanto se aproximaram que surgiram CAPS espec\u00edficos para usu\u00e1rios problem\u00e1ticos de \u00e1lcool e outras drogas. Ocorre que esta aproxima\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa do pr\u00f3logo: tanto quanto a dondoca rica pode ter um psicanalista, mas a dom\u00e9stica n\u00e3o pode, o mauricinho pode tomar todos os doces do mundo numa balada e n\u00e3o ser taxado de doente, mas \u00e1i do neguinho de favela que fizer o mesmo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lado bom contudo da &#8220;Interna\u00e7\u00e3o Compuls\u00f3ria&#8221; de crackeiros est\u00e1 no ponto em que isso pode dar a eles o mesmo status e pot\u00eancia de revolta que os psic\u00f3ticos tiveram vinte anos atr\u00e1s; uma vez que o Movimento Anti-Manicomial nunca tomou o drogadito como objeto de sua defesa, o pr\u00f3prio drogadito caiu na servid\u00e3o volunt\u00e1ria e ao inv\u00e9s de buscar servi\u00e7os de sa\u00fade de modo a aprender como conviver com sua droga e continuar a us\u00e1-la (como os doidos procuram para continuar delirando), buscam vitimizados e eivados de culpa como algu\u00e9m que precisa parar de usar (ou ao menos usar outra, mais leve e &#8220;natural&#8221;). Agora, sendo tratados pior do que os malucos anteriormente \u00e0s Reformas Psiqui\u00e1tricas, pode ser que se revoltem. E digo pior porque, ao menos, quando o manic\u00f4mio surgiu com Pinel havia a separa\u00e7\u00e3o entre crime, religi\u00e3o e sa\u00fade: ningu\u00e9m \u00e9 doido por obra de deus ou do diabo, e sendo doido n\u00e3o pode jamais ser criminoso; para o drogadito, nada disso: ele \u00e9 a um s\u00f3 tempo doente, criminoso e endemoniado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 guisa de ep\u00edlogo, gostaria de voltar <a href=\"http:\/\/descurvo.blogspot.com.br\/2013\/01\/as-prisoes-privadas-mercantilizacao-da.html\" target=\"_blank\">ao texto de Hugo Albuquerque sobre as pris\u00f5es privadas no Brasil<\/a>, num ponto que ele parece ter ignorado e que eu chamaria de freyriano. Se em qualquer pa\u00eds do mundo as pris\u00f5es privadas s\u00e3o algo que faz o crime compensar muito bem para quem pune, no Brasil isso se encavalaria na heran\u00e7a da escravid\u00e3o; n\u00e3o apenas porque a maioria dos presos (e crackeiros) s\u00e3o negros e francamente ex-escravos, o que Hugo apontou bem. Penso mesmo na quest\u00e3o econ\u00f4mica da escravid\u00e3o, e na patologia especulativa que surgiu como efeito colateral do longo processo de aboli\u00e7\u00e3o: entre a Lei dos Sexagen\u00e1rios e a \u00c1urea, o pre\u00e7o de venda do escravo no Brasil se tornou t\u00e3o alto que era mais lucrativo ter escravos que nada produzissem, para revend\u00ea-los, do que produzir algo com eles. N\u00e3o por acaso \u00e9 a mesma l\u00f3gica do latinf\u00fandio moderno sem plantation e da especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria urbana: \u00e9 mais lucrativo ter im\u00f3veis vazios, para vend\u00ea-los a pre\u00e7o alt\u00edssimo no futuro, do que ocup\u00e1-los presentemente com alugu\u00e9is constantes. Se ao inv\u00e9s de autonomizados, os ex-escravos foram abandonados a pr\u00f3pria sorte (e seus propriet\u00e1rios foram indenizados, com \u00f4nus alt\u00edssimo para o ent\u00e3o Imp\u00e9rio), pris\u00f5es privadas e interna\u00e7\u00f5es (compuls\u00f3rias ou voluntariamente servis) s\u00e3o um processo de comoditiza\u00e7\u00e3o dos miser\u00e1veis, tornando essa massa humana lucrativa na sua posse a custo de n\u00e3o s\u00ea-lo em seu fazer, ao passo que aumentam seu abandono e reduzem sua j\u00e1 reduzida autonomia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Longe de ser uma coincid\u00eancia, na mesma semana em que o Estado de S\u00e3o Paulo come\u00e7a a adotar as mal-ditas &#8220;interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias&#8221; para sacizeiros (n\u00e3o me venham dizer que \u00e9 para usu\u00e1rios problem\u00e1ticos de drogas, que ningu\u00e9m vai internar a pulso a playboyzada cheiradora de p\u00f3), o Estado de Minas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,9],"tags":[1841,1374,1676,1842],"class_list":["post-3811","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01viver","tag-crack","tag-direito-a-cidade","tag-reforma-psiquiatrica","tag-toxicomania"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3811"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4209,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3811\/revisions\/4209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}