{"id":3784,"date":"2012-11-24T17:54:27","date_gmt":"2012-11-24T20:54:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3784"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"dos-sem-prefeito-ao-semi-prefeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3784","title":{"rendered":"Dos Sem-Prefeito ao Semi-Prefeito"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\"><strong><em>Aforismos a partir das elei\u00e7\u00f5es municipais de Salvador<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se este ano, diferentemente de 2008, eu n\u00e3o me manifestei sobre o pleito municipal em Salvador, isto se deve ao fato de que em 2012 a campanha pelo Pal\u00e1cio Tom\u00e9 de Souza discutiu tudo, menos cidade &#8211; enquanto 2008, da direita (<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=245\" target=\"_blank\">Antonio Imbassahy<\/a>) \u00e0 esquerda (Walter Pinheiro) n\u00e3o se discutiu sen\u00e3o cidade. Mesmo o PSOL em 2008, na figura de Hilton Coelho, falava o tempo inteiro em IPTU-progressivo e em PDDU; este ano, se contentou em macaquear o neoliberalismo e falar em &#8220;choque de gest\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ano, o grande derrotado nas elei\u00e7\u00f5es da capital bahiana foi o governador do estado, Jacques Wagner. E n\u00e3o digo isso porque o candidato de seu partido, Nelson Pelegrino, perdeu (ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de Serra do PT: \u00e9 bom porque perde) &#8211; antes, pelo fato de que o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=330\" target=\"_blank\">Galego n\u00e3o teve nenhum candidato a prefeito da capital em 2012; enquanto em 2008, ele teve tr\u00eas<\/a>!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro anos atr\u00e1s, <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1972\" target=\"_blank\">o PSDB estava ainda na base de Jacques Wagner<\/a>; tanto que o primeiro candidato de sua base a ser lan\u00e7ado, evento no qual compareceu, foi Antonio Imbassahy. Contava ele ainda com Walter Pinheiro e o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Henrique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que Jo\u00e3o Henrique j\u00e1 era ent\u00e3o a \u00faltima op\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas, e j\u00e1 havia se tornado no cavalo-de-tr\u00f3ia dos Irm\u00e3os Vieira Lima. Ocorre que se em 2008 Wagner perdeu pra Geddel atrav\u00e9s de um candidato que julgava ser tamb\u00e9m seu, em 2012 Wagner perde para si mesmo! (Em que pese sua tentativa, h\u00e1 2 anos atr\u00e1s, de dissuadir o PSDB bahiano da sandice mediocrizante que era se contentar com o candidato a vice na chapa de Paulo Souto). Judeu, que sempre disse n\u00e3o crer em sorte mas em senso de oportunidade, e nunca se enganar com a perecibilidade e transitoriedade do poder, caiu no mito da onipot\u00eancia &#8211; e n\u00e3o sairia vitorioso dessa nem mesmo se Nelson Pelegrino tivesse sido eleito.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o me venham falar em &#8220;volta do Carlismo&#8221;. Grampinho, o novo (semi-)prefeito, faz de um tudo para esconder qualquer heran\u00e7a carlista, at\u00e9 mesmo o nome do av\u00f4 que ele tamb\u00e9m porta, desde 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A campanha de ACM, O Neto (apud Hilton 50, &#8220;na capital da resist\u00eancia&#8221;), esse ano sai vitoriosa tamb\u00e9m por ter tido a frente algu\u00e9m que, sozinho, for\u00e7ou uma ruptura interna no carlismo &#8211; fratura sem a qual o pr\u00f3prio carlismo n\u00e3o deixaria de existir. Me refiro ao ex-governador e ex-senador Paulo Souto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A evita\u00e7\u00e3o da trucul\u00eancia, declara\u00e7\u00f5es de apre\u00e7o aos servidores p\u00fablicos, rigor fiscal, e discretas mas eficientes tentativas diplom\u00e1ticas de di\u00e1logo &#8211; tudo isso que marcou o novo prefeito de Salvador desde o final de sua campanha, em nada soa a Toinho Malvadeza; e em tudo lembra o Paulo Souto que, derrotado de surpresa por Jacques Wagner, ordenou a mais democr\u00e1tica transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do estado da Bahia em 40 anos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, a cobra mordeu o rabo: <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2199\" target=\"_blank\">se o Carlismo foi uma mimesis do Juracizismo que depois destruiu esse; e se o Juracisismo, menos do que um anti-Mangabeirismo foi um Mangabeirismo guinado a direita<\/a>, heis que demos uma volta completa.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante a falta de op\u00e7\u00f5es no pleito deste ano ser causada pela in\u00e9pcia partid\u00e1ria (at\u00e9 porque em 2008 n\u00e3o foi assim), os caminhos tomados nessas elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto do desejo das pessoas que comp\u00f5em esta cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me venha <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=538\" target=\"_blank\">a medioclasse que votou no PFL a t\u00edtulo de ser contra Jo\u00e3o Henrique me dizer que n\u00e3o sabia que Jo\u00e3o Henrique apoiava Grampinho sub\u00farbio a dentro e a fora<\/a>; a mesma medioclasse que passou o primeiro turno de 2008 querendo o pesco\u00e7o de Jo\u00e3o Henrique (e o seu primeiro mandato nem foi t\u00e3o ruim quanto o segundo&#8230;), para no segundo turno votar justamente nele por medo de Walter Pinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte da popula\u00e7\u00e3o de Salvador escolheu o populismo e uma mem\u00f3ria do lanho e da tirania; mais: escolheu justo aquilo que piora Salvador h\u00e1 d\u00e9cadas: que a fez perder sua fun\u00e7\u00e3o de capital, com o CAB (Centro Administrativo da Bahia); que espraiou as avenidas de vale ao norte do Rio Vermelho, desvirtuando suas fun\u00e7\u00f5es; que, com especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, fez da Pituba aos Le Parcs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de uma urbanofobia ou uma des-urbanofilia ativa e intencional: n\u00e3o \u00e9 que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o saiba o que esta cidade j\u00e1 foi (na Avant-Gard), ou poderia ser (vide o Rio de Janeiro) ou deveria ser (New Orleans, San Francisco), e no entanto n\u00e3o queira isso. N\u00e3o \u00e9 de \u00f3dio que se trata, mas de outra paix\u00e3o mais fundamental: as gentes em geral ignoram o que seja uma metr\u00f3pole &#8211; n\u00e3o apenas n\u00e3o sabem, como n\u00e3o querem saber. Qui\u00e7\u00e1 tenham raiva de quem sabe. E n\u00e3o se pode desejar (ou rejeitar) o que se desconhece, quanto mais o que se ignora.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nisso, Salvador pode ser, por hip\u00e9rbole (\u00e9 sua sina), um exemplo do resto do pa\u00eds: de tudo que <a href=\"http:\/\/descurvo.blogspot.com.br\/2012\/09\/a-ascensao-selvagem-da-classe-sem-nome.html\" target=\"_blank\">a classe sem nome que ascende selv\u00e1tica<\/a> foi autorizada a desejar, no card\u00e1pio pornogr\u00e1fico e c\u00fapido deste desejo ningu\u00e9m lhes ofereceu cidades. N\u00e3o podem os pobres, ex-pobres, Classe C, escolher entre autom\u00f3veis ou cidades; n\u00e3o porque eles n\u00e3o saibam que autom\u00f3veis destroem cidades (embora provavelmente n\u00e3o saibam), e sim porque eles n\u00e3o t\u00eam nenhum motivo para desejarem cidades. N\u00e3o v\u00eaem eles o que h\u00e1 de prazer, e de interesse, na padaria da esquina, na paquera todo dia indo e voltando pro trabalho, no sair de noite a p\u00e9 e voltar a p\u00e9 para quase qualquer festa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que fazer com que o <a href=\"http:\/\/www.quadradodosloucos.com.br\/1934\/consumitariado\/\" target=\"_blank\">Consumitariado<\/a> deseje bicicleta e pedestrabilidade ao inv\u00e9s de carros, \u00e9 preciso lev\u00e1-los a desejar habita\u00e7\u00e3o (e habitat) em lugar da mera moradia (na putaquepariu, gerando d\u00edvida com o sonho da casa pr\u00f3pria). Porque sabemos desde Haussman que o problema do morar em metr\u00f3poles n\u00e3o se resolve com a posse de im\u00f3veis, mas com a queda do pre\u00e7o dos alugu\u00e9is via regula\u00e7\u00e3o estatal do mercado (quer for\u00e7ando ocupa\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis vazios, quer concorrendo com o setor privado n\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, mas no acesso a eles); e desde Henri Lefebvre que o aumento do direito a moradia n\u00e3o apenas n\u00e3o resolve a habita\u00e7\u00e3o, como piora o problema da habita\u00e7\u00e3o. Habitar n\u00e3o \u00e9, afinal, residir ou morar; mais do que um teto, \u00e9 preciso a farm\u00e1cia na rua, o vizinho a que se pede a\u00e7\u00facar quando falta, e o vendedor de picol\u00e9 ao fim da tarde, trabalhadores enchendo restaurantes e botecos numa esquina, e na outra a molecada indo e voltando da escola (como miticamente j\u00e1 descreveu Jane Jacobs), e cinema de bairro, para que haja habita\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mera moradia.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, o desprezo brasileiro pelo Direito \u00e0 Cidade tem ra\u00edzes profundas na escravid\u00e3o negra; n\u00e3o meramente no sentido da prioridade da casa diante da rua, do privado sobre o p\u00fablico, do patriarcalismo patrimonialista e da cordialidade buarqueana; nem meramente porque, havendo escravos ainda no s\u00e9culo XIX, tardou-se o desenvolvimento de tecnologias urbanas (pra que esgoto, se o negrinho pode despejar minha bosta ao mar? pra que bonde, se ando de liteira?)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falo de marcas profundas, e mentais, n\u00e3o apenas nos herdeiros dos ex-senhores, mas nos herdeiros dos escravos. Se no fim da Idade M\u00e9dia o surgimento das cidades burguesas eram um vetor de liberta\u00e7\u00e3o dos servos, no Brasil a moderniza\u00e7\u00e3o de suas metr\u00f3poles no Segundo Reinado e na Rep\u00fablica n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o representou a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos (embora tenha surgido com ela, e em parte por conta dela), como representou antes seu abandono \u00e0 pr\u00f3pria sorte &#8211; meio como Josu\u00e9 Montello mostra, ainda que de modo meio caricatural, no seu romance Tambores De S\u00e3o Lu\u00eds (e neste caso a metr\u00f3pole maranhense, que foi sem chegar a ter sido, \u00e9 apenas uma sinedoque do que no resto do pa\u00eds ocorreu mais ou menos eufemicamente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O direito \u00e0 cidade \u00e9 sobretudo o direito de andar a p\u00e9 &#8211; o direito \u00e0 autonomia. Talvez os pobres e ex-pobres no Brasil n\u00e3o achem mais interessante serem senhores de sua pr\u00f3pria vida em transito, e prefiram exigir do estado mais \u00f4nibus, mais avenidas e mais metr\u00f4, e n\u00e3o mais densidade habitacional, diversidade comercial e vida pedestre intensa &#8211; e com raz\u00e3o, j\u00e1 que autonomiza\u00e7\u00e3o por aqui quase sempre soou como abandono \u00e0 pr\u00f3pria sorte (sem no entanto retirar o car\u00e1ter tutelar e punitivo do Estado), a \u00fanica aboli\u00e7\u00e3o da escravatura (ou do servilismo) que n\u00e3o se deu concomitantemente com uma reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De novo, n\u00e3o se trata de culpar os pobres e ex-pobres: n\u00e3o \u00e9 de culpa que se trata, mas de cupidez. N\u00e3o \u00e9 puni-los moralmente por desejarem algo que n\u00e3o os autonomiza e piora a vida de todos; mas faz\u00ea-los desejar outra coisa al\u00e9m (e talvez contr\u00e1ria) ao que j\u00e1 t\u00eam desejado. O que, claro, \u00e9 muito mais dif\u00edcil &#8211; em particular para uma esquerda que tem horror a persuas\u00e3o e \u00e9 ela pr\u00f3pria tutelar e punitivista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aforismos a partir das elei\u00e7\u00f5es municipais de Salvador Se este ano, diferentemente de 2008, eu n\u00e3o me manifestei sobre o pleito municipal em Salvador, isto se deve ao fato de que em 2012 a campanha pelo Pal\u00e1cio Tom\u00e9 de Souza discutiu tudo, menos cidade &#8211; enquanto 2008, da direita (Antonio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919],"tags":[1837,20,1832,1836,1835,1833,97,88,124,353,1834,15],"class_list":["post-3784","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","tag-acm-o-neto","tag-bahia","tag-classe-c","tag-classe-sem-nome","tag-consumitariado","tag-eleicao","tag-eleicoes-municipais","tag-grampinho","tag-jacques-wagner","tag-joao-henrique-barradas-carneiro","tag-municipal","tag-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3784"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3786,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3784\/revisions\/3786"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}