{"id":3759,"date":"2012-10-05T13:14:08","date_gmt":"2012-10-05T16:14:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3759"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"artefatos-vitorianos-para-uso-das-cidades-v-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3759","title":{"rendered":"Artefatos Vitorianos para uso das Cidades \u2013 V"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Pic-nics, sandu\u00edches, queimados e p\u00ea-\u00e9fes<\/strong> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surgimento da metr\u00f3pole haussmanniana muda os h\u00e1bitos alimentares de seus habitantes. Se o Bar\u00e3o queria livrar Paris de seu aspecto imundo de feira medieval, por outro lado a inven\u00e7\u00e3o da esquina (e do caf\u00e9 de esquina, da padaria de esquina, da mercearia de esquina, da quitanda) torna ub\u00edquo justamente os h\u00e1bitos de feira: as compras de v\u00edveres podem ser di\u00e1rias, a presen\u00e7a de arte na rua se torna mais discreta por\u00e9m mais constante, e o h\u00e1bito de comer fora de casa (inclusive em vendedores ambulantes), comum apenas nso feriados (\u201cdias de feira\u201d), passam a ocorrer com frequ\u00eancia em dias \u00fateis. O prefeito de Paris sob a Restaura\u00e7\u00e3o de Napole\u00e3o, se ao inventar o boulevard colateralmente inventou a favela, o sub\u00farbio e o corti\u00e7o, tamb\u00e9m inventou o camel\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a tecnologia log\u00edstica do comer na rua n\u00e3o se deve apenas aos h\u00e1bitos plebeus das feiras-livres, sen\u00e3o tamb\u00e9m e como sempre da aristocracia rococ\u00f3 do despotismo-esclarecido mezzo-Iluminista de pouco antes das Revolu\u00e7\u00f5es Burguesas. Aquilo que o proletariado e a burguesia do auge do capitalismo far\u00e3o em suas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias adv\u00e9m das solu\u00e7\u00f5es l\u00fadicas da nobreza pr\u00e9-vitoriana. Como a <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3102\" target=\"_blank\">bicicleta<\/a>, a <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2896\" target=\"_blank\">sombrinha<\/a> e o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3574\" target=\"_blank\">amor<\/a>, o sandu\u00edche e o pic-nic foram brinquedos palacianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dias de in\u00edcio de ver\u00e3o, podiam os nobres planejar refei\u00e7\u00f5es em seus enormes jardins ou no bosque ou floresta mais pr\u00f3ximos; h\u00e1bito que, com o surgimento de parques p\u00fablicos, fontes e pra\u00e7as como concebidas a partir da democratiza\u00e7\u00e3o da cidade burguesa, pode ser realizado por qualquer classe social, a um custo bem mais baixo. N\u00e3o \u00e9 outra coisa o churrasco na lage e a farofada na praia, que a negrada de hoje em dia exerce; mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 diferente da refei\u00e7\u00e3o feita, em dia \u00fatil, a sombra de uma \u00e1rvore no intervalo do trabalho, onde depois se deita para uma sesta, como os pedreiros e garis de hoje tanto fazem em qualquer metr\u00f3pole terceiro-mundista, e a medioclasse europeia idem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, tamb\u00e9m era preciso desenvolver a habilidade de comer consistentemente enquanto se desloca, se anda a p\u00e9, e da\u00ed o advento do sandu\u00edche. Criado pelo Conde de mesmo nome, para que pudesse segurar as cartas de bridge numa m\u00e3o enquanto se alimentava com a outra, tal tecnologia se tornou proletaria e ganhou matizes locais bastante p\u00f3s-coloniais: os temakis japoneses s\u00e3o uma simplifica\u00e7\u00e3o grosseira dos sushis, podendo ser comidos de m\u00e3o; \u00e9 desta \u00e9poca os po\u2019boys da Lousiana e seu mar de camar\u00f5es num p\u00e3o ciabata, culin\u00e1ria ali\u00e1s tipicamente portu\u00e1ria de uma cidade caribenha de platantions escravocratas; na Bahia, acaraj\u00e9s e abar\u00e1s. Vale frisar que, como no Brasil a urbaniza\u00e7\u00e3o se deu paralelamente ao processo de aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o (ambas como efeito imediato da vit\u00f3ria na Guerra do Paraguai), os quitutes aparecem nas grandes cidades do pa\u00eds junto com os bondes e com o sumi\u00e7o paulatino das liteiras e carros de arruar (e n\u00e3o acidentalmente, \u00e9 da\u00ed que os cantos de trabalho do eito de lavoura ganham as cidades como canto de pregoeiro, tamb\u00e9m chamados tamb\u00e9m sem acaso de corta-jacas &#8211; raiz profunda do samba urbano que vai dar em Caimmy, Dongo, Jo\u00e3o da Bahiana e Xisto Bahia). Creio que isto se deu em outras cidades do Atl\u00e2ntico Negro \u2013 por exemplo, se a guloseima cajun afrancesada conhecida como beignet surge na Nova Orle\u00e3s da arquitetura em ferro-fundido, \u00e9 tamb\u00e9m desta \u00e9poca o gospel, os jazz funerals, o sapateado (que requer cachotes de palet de madeira descartados) \u2013 n\u00e3o por acaso, um cl\u00e1ssico do cancioneiro bayiou faz refer\u00eancia a um convescote entre os ciprestes do Mississipi, e seu t\u00edtulo \u00e9 uma comida t\u00edpica: <a href=\"http:\/\/www.lyricsfreak.com\/c\/carpenters\/jambalaya_20027545.html\" target=\"_blank\">Jambalaya<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do sandu\u00edche (cuja forma \u00e9 art-nouveau inclusive na imita\u00e7\u00e3o da praticidade de certas formas de frutas, a que n\u00e3o se precisa retirar a casca para comer, como as ma\u00e7\u00e3s, ou cuja casca se retira com os dedos, como a tangerina), a alimenta\u00e7\u00e3o enquanto se caminha p\u00f4de sofrer outras modifica\u00e7\u00f5es. Primeiro, ser l\u00edquida: o tucupi com tacac\u00e1 e jamb\u00fa, paraense, e tamb\u00e9m os mingaus de tapioca e mungunz\u00e1s em carrinhos de qualquer capital do Nordeste franco (Salvador inclusa). Outra, diminui\u00e7\u00e3o de tamanho com aumento de potencial cal\u00f3rico: doces, balas, chicletes, jujubas, queimados enfim \u2013 com a crise do pre\u00e7o do a\u00e7\u00facar, e a necessidade de manter o oper\u00e1rio em trabalho ininterrupto, surgem estes suprimentos externos de glicose que, al\u00e9m do mais, ajudam a reduzir o sono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De mais a mais, somente \u00e1reas urbanas densas, intensas e diversas podem gerar alimenta\u00e7\u00e3o realmente barata \u2013 \u00e9 da\u00ed que surgem os pratos-feitos de centro de cidade a pre\u00e7os escandalosamente baixos, os bandej\u00f5es self-service (cuja similitude com os balc\u00f5es dos banquetes de garden-party n\u00e3o passam despercebido), e outras apropria\u00e7\u00f5es de dispositivos da elite pela est\u00e9tica-da-fome devir-pobre do proletariado urbano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pic-nics, sandu\u00edches, queimados e p\u00ea-\u00e9fes O surgimento da metr\u00f3pole haussmanniana muda os h\u00e1bitos alimentares de seus habitantes. 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