{"id":3742,"date":"2012-08-30T20:55:00","date_gmt":"2012-08-30T23:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3742"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"engasga-gatos-gororobas-e-requentados-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3742","title":{"rendered":"Engasga-gatos, gororobas e requentados II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em mar\u00e7o deste ano, <a href=\"http:\/\/www.festivalvivadanca.com.br\/2012\/en\/observatorio\/206-tinta-nao-devia-falar\" target=\"_blank\">escrevi para o observat\u00f3rio do Festival Viva Dan\u00e7a uma cr\u00edtica<\/a> a montagem de Hamlet Machine pelo <a href=\"http:\/\/www.taanteatro.com\/\" target=\"_blank\">Taanteatre<\/a> de S\u00e3o Paulo. H\u00e1 algumas semanas, <a href=\"http:\/\/www.festivalvivadanca.com.br\/2012\/en\/observatorio\/209-a-tinta-canta\" target=\"_blank\">eles escreveram no mesmo espa\u00e7o a r\u00e9plica<\/a>. Creio que vale ler, copiado abaixo, a pol\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que mera cr\u00edtica de dan\u00e7a, tanto a minha opini\u00e3o quanto a resposta deles revela uma divis\u00e3o pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e program\u00e1tica que vem acontecendo no Brasil p\u00f3s-Lula, ou Dilmista, entre abaixo e acima do Tr\u00f3pico de Capric\u00f3rnio.<\/p>\n<blockquote>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"100%\">\n<h3>Tinta n\u00e3o devia falar<\/h3>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\">\n<h4>Lucas Jerzy Portela<em><br \/>\n<\/em><\/h4>\n<p><em>&#8220;O m\u00ednimo que se espera de uma escultura \u00e9 que ela n\u00e3o se mova.&#8221; Salvador Dal\u00ed (ou \u00c1vida Dolars, segundo Andr\u00e9 Breton), a respeito dos m\u00f3biles<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.festivalvivadanca.com.br\/2012\/images\/taanteatro_joao_milet_meirelles.jpg\" alt=\"taanteatro joao_milet_meirelles\" width=\"300\" height=\"499\" \/>Era com essa tirada sobre o fato de que tinta n\u00e3o emite som (e core\u00f3grafo \u00e9 um pintor) que Gilmar, bailarino da velha guarda do BTCA, interrompia ensaios quando fazia montagem para as escolas de bal\u00e9 da cidade do Salvador. &#8220;N\u00e3o consigo pensar com tanta tinta falando, e voc\u00eas s\u00e3o mera tinta&#8221; &#8211; dizia, numa atitude soto-zen, para meninas bem-nascidas de 12 anos de idade, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o primeiro problema de\u00a0<em>Hamlet M\u00e1quina fisted<\/em>, e de tudo isso que se prop\u00f5e a esse hibridismo metido a neutro de Fourier mas que n\u00e3o passa de impot\u00eancia, e que se chamou de &#8220;teatro coreogr\u00e1fico&#8221; ou &#8220;dan\u00e7a-teatro&#8221;. Tenho o princ\u00edpio de que tudo que requer adjetivos, \u00e9 ruim: o substantivo deveria ser suficiente para descrever uma obra &#8211; vale at\u00e9 para card\u00e1pio de restaurantes e caf\u00e9s. Se uma salada \u00e9 com &#8220;alfaces crocantes&#8221; e n\u00e3o meramente &#8220;alface&#8221;, n\u00e3o pe\u00e7a! Ou bem se \u00e9 bailarino, e seu corpo est\u00e1 submetido aos des\u00edgnios de um core\u00f3grafo (coisa que at\u00e9 Pina Bausch, de quem n\u00e3o gosto, fazia e sabia fazer), ou bem se \u00e9 ator e se fala e fala.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o texto de Heiner Muller n\u00e3o se preste a virar coreografia. Talvez seja o que mais se presta: curto, impreciso, e com indica\u00e7\u00f5es quase que meramente vetoriais, tem mais cara de marca\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica do que de pe\u00e7a de teatro.<\/p>\n<p>S\u00f3 que os problemas da montagem dos paulistanos da Taanteatre apenas come\u00e7am a\u00ed. Para dar cara de teatro, inxertam um palavr\u00f3rio at\u00e9 correto do ponto de vista do conte\u00fado, que no entanto sintaticamente vira um contra-tudo-isso-que-est\u00e1-a\u00ed com odor de massa cheirosa do movimento cansei em marcha contra corrup\u00e7\u00e3o (quem ali\u00e1s, al\u00e9m de mim &#8211; e mesmo assim s\u00f3 pra chocar &#8211; seria a favor dela?).<\/p>\n<p>N\u00e3o se pense com isso que a montagem em quest\u00e3o \u00e9 tucana, ou de direita &#8211; sequer da direita lulista. \u00c9 pior: trata-se de um discurso p\u00f3s-lulista neur\u00f3tico e cheio de impasses, adubado no ressentimento antidilmista. Claro que eu acho a Geisel de Cal\u00e7ol\u00e3o a ocupar o Alvorada uma hecatombe, e claro que eu votei nela. Mas como nunca fui petista (eu sou de esquerda, mas sou antes n\u00e3o-idiota), n\u00e3o tenho nada do que me decepcionar (embora tenha muito a combater em Dilma Roussef, e tenho feito desde antes de ela se eleger): n\u00e3o \u00e9 nada diferente do que eu esperasse, nada que chegue a surpreender ou pasmar.<\/p>\n<p>Essa decep\u00e7\u00e3o sem dial\u00e9tica, ao tentar se colocar mais a esquerda do que a esquerda hoje no poder, faz um caminho em ferradura e come\u00e7a a cheirar a a antijanguismo primitivo. Sorte nossa, tais impasses parecem se colocar para a popula\u00e7\u00e3o, pol\u00edticos (e artistas) de S\u00e3o Paulo para baixo. De S\u00e3o Paulo pra cima, onde fizemos e fazemos a Reforma Cultural Brasileira, h\u00e1 decep\u00e7\u00e3o e queixas, mas nada que nos paralise no gozo da m\u00e1-fala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pra n\u00e3o dizer que tudo est\u00e1 perdido (e ali\u00e1s, o fisted do t\u00edtulo \u00e9 pura propaganda enganosa&#8230;), fa\u00e7o dois ou tr\u00eas elogios. Mais da metade do elenco, embora n\u00e3o sejam bailarinos de forma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tenham corpo para tal, dominam bem a t\u00e9cnica cl\u00e1ssica: p\u00e9s firmes e altos, boa abertura de pernas, etc &#8211; e usam tais recurssos quando precisam: bons, embora raros, courrous e develop\u00e9s. Outro elogio \u00e9 que, se por um lado resvalam nesse p\u00f3s-lulismo que n\u00e3o sabe o que fazer com os pobres que agora descobriram que desejam, tamb\u00e9m n\u00e3o parte pra esse deleuzianismo difuso que tem por a\u00ed do quanto pior melhor, de que toda desterritorializa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa porque faz rizoma, etc &#8211; bem ao contr\u00e1rio: tecem longo, e agudo e desabrido sarcasmo escrachado sobre essas crias anenc\u00e9falas dos Guatari que nos enxem o saco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"100%\">\n<h3>A tinta canta<\/h3>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\">\n<h4>Wolfgang Pannek*<\/h4>\n<h4>Resposta ao artigo de Lucas Jerzy Portela (<a href=\"http:\/\/www.festivalvivadanca.com.br\/2012\/en\/observatorio\/206-tinta-nao-devia-falar\" target=\"_blank\">leia aqui<\/a>)<\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.festivalvivadanca.com.br\/2012\/images\/maquina_hamlet_site.jpg\" alt=\"maquina hamlet_site\" width=\"500\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com algum atraso, encontrei hoje e por acaso o texto\u00a0<em>Tinta n\u00e3o devia falar<\/em>\u00a0de Lucas Jerzy Portela, veiculado no Observat\u00f3rio do website do\u00a0<strong>VIVADAN\u00c7A Festival Internacional<\/strong>. Portela critica o espet\u00e1culo<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted,<\/em>\u00a0apresentado pela Taanteatro Companhia por ocasi\u00e3o da 6a edi\u00e7\u00e3o do festival, em Salvador.<\/p>\n<p>Repleto de demonstra\u00e7\u00f5es de (des)gosto, mas carente de sustenta\u00e7\u00e3o argumentativa, o texto de Portela merece aten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, n\u00e3o somente em fun\u00e7\u00e3o de sua exposi\u00e7\u00e3o superficial e de seu regionalismo conservador, mas principalmente por causa dos equ\u00edvocos de seu discurso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s artes (c\u00eanicas) contempor\u00e2neas em geral.<\/p>\n<p>Portela critica, sobretudo:<\/p>\n<p>1. um &#8220;hibridismo metido a neutro&#8221; que n\u00e3o passa &#8220;de impot\u00eancia&#8221;;<\/p>\n<p>2. a tematiza\u00e7\u00e3o c\u00eanica da corrup\u00e7\u00e3o por a) ser um aspecto da realidade brasileira que n\u00e3o surpreende e por b) ser expressa por meio de &#8220;um palavr\u00f3rio at\u00e9 correto&#8221; mas que &#8220;vira um contra-tudo-isso-que-est\u00e1-a\u00ed&#8221;;<\/p>\n<p>3. um &#8220;discurso p\u00f3s-lulista neur\u00f3tico e cheio de impasses, &#8220;adubado no ressentimento antidilmista&#8221; que se pretende &#8220;mais a esquerda do que a esquerda hoje no poder&#8221;;<\/p>\n<p>e observa<\/p>\n<p>4. que &#8220;tais impasses parecem se colocar para a popula\u00e7\u00e3o, pol\u00edticos (e artistas) de S\u00e3o Paulo para baixo&#8221;.<\/p>\n<h3>Sobre a primeira cr\u00edtica<\/h3>\n<p>A primeira cr\u00edtica se refere ao complexo &#8216;pureza versus hibridismo de linguagens&#8217;. Para desqualificar o &#8220;hibridismo&#8221;, invoca a autoridade do pintor Salvador Dal\u00ed e do core\u00f3grafo baiano Gilmar. De acordo com Portela, Dal\u00ed, ao observar m\u00f3biles, disse: &#8220;<em>O m\u00ednimo que se espera de uma escultura \u00e9 que ela n\u00e3o se mova.<\/em>&#8221; Desconhe\u00e7o o contexto dessa afirma\u00e7\u00e3o mas por defini\u00e7\u00e3o m\u00f3biles s\u00e3o m\u00f3veis. Ou &#8216;m\u00f3bile&#8217; n\u00e3o se encaixava na defini\u00e7\u00e3o de &#8216;escultura&#8217; de Dal\u00ed, ou Dal\u00ed se referia a uma determinada expectativa diante do conceito &#8220;escultura&#8221;. De fato, Dal\u00ed criou esculturas m\u00f3veis, corpos dotados de gavetas e manequins-aqu\u00e1rios.<\/p>\n<p>A segunda autoridade citada, o core\u00f3grafo Gilmar, interrompia os ensaios de &#8220;meninas bem nascidas&#8221;, &#8220;quando fazia montagem para as escolas de bal\u00e9 da cidade do Salvador&#8221;, dizendo: &#8220;n\u00e3o consigo pensar com tanta tinta falando, e voc\u00eas s\u00e3o mera tinta&#8221;. O que Gilmar queria dizer com &#8220;mera tinta&#8221;? Ser\u00e1 que via o bailarino \u2013 assim como Portela &#8211; como instrumento ou material (tinta) &#8220;submetido aos des\u00edgnios de um core\u00f3grafo&#8221;?<\/p>\n<p>Portela utiliza o termo &#8220;tinta&#8221; de duas maneiras distintas:<\/p>\n<p>a) Em &#8220;tinta n\u00e3o devia falar&#8221;, tinta \u00e9 uma linguagem que n\u00e3o deve assumir a fun\u00e7\u00e3o da fala.<\/p>\n<p>b) Em &#8220;meninas bem nascidas&#8221; como &#8220;mera tinta&#8221;, o termo remete \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do bailarino como instrumento dentro de uma vis\u00e3o hier\u00e1rquica do trabalho coreogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que uma defini\u00e7\u00e3o de escultura que n\u00e3o acompanhou a transforma\u00e7\u00e3o dessa modalidade art\u00edstica desde o princ\u00edpio do s\u00e9culo 20 e que n\u00e3o contempla obras como os Penetr\u00e1veis, de Oiticica, ou as m\u00e1quinas de Tingely, fornece um argumento consistente contra o hibridismo?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que problemas cognitivos como a &#8220;dificuldade de pensar&#8221; atribu\u00eddos a Gilmar justificam uma divis\u00e3o r\u00edgida entre criadores e executores no campo das artes c\u00eanicas? Portela n\u00e3o cria argumentos, apenas cita opini\u00f5es cuja verdade estaria fundada na suposta autoridade de dois artistas. A exig\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o e pureza \u2013 de linguagens e fun\u00e7\u00f5es \u2013 nas artes (mas tamb\u00e9m nas ci\u00eancias, na religi\u00e3o, na filosofia e nas condutas sociais em geral) \u00e9 frequentemente vinculada a moralismos autorit\u00e1rios. O discurso imperativo de Portela demonstra isso com clareza: &#8220;a tinta n\u00e3o devia falar&#8221;, &#8220;ou bem se \u00e9 bailarino (&#8230;) ou bem se \u00e9 ator&#8221;. Portela pressup\u00f5e um\u00a0<em>ser<\/em>\u00a0e\u00a0<em>dever<\/em>\u00a0art\u00edstico, sem explicar em que esse\u00a0<em>ser<\/em>\u00a0consiste e porque ele determina um\u00a0<em>dever<\/em>, isto \u00e9, o da separa\u00e7\u00e3o de linguagens. Confia na autoevid\u00eancia de suas cren\u00e7as. Sua insist\u00eancia na distin\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre teatro e dan\u00e7a ignora a polifonia de c\u00f3digos intr\u00ednseca \u00e0s artes c\u00eanicas e revela um tradicionalismo conservador preso a ideais modernistas ultrapassados. Recordo Artur Rimbaud, sua po\u00e9tica associava tons musicais \u00e0 cores e vogais, fen\u00f4meno hoje estudado como sinestesia pela neuro-psicologia:\u00a0<em>A tinta n\u00e3o somente fala, a tinta canta<\/em>.<\/p>\n<h3>Sobre a segunda cr\u00edtica<\/h3>\n<p>\u00c9 preciso esclarecer um equivoco: Portela apresenta\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>\u00a0(ele escreve erroneamente &#8220;<em>Hamlet M\u00e1quina Fisted<\/em>&#8220;) como se fosse a encena\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Hamletmaschine<\/em>\u00a0de Heiner M\u00fcller. Acontece que o espet\u00e1culo apresentado no\u00a0<strong>VIVADAN\u00c7A<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 da autoria de M\u00fcller, mas de Wolfgang Pannek. A pe\u00e7a de Pannek, escrita em 2011, dialoga a partir de \u00e2ngulos atuais com a pe\u00e7a de M\u00fcller, escrita em 1977. Ao fazer isso, n\u00e3o traz um &#8220;palavr\u00f3rio&#8221;, mas textos cuidadosamente elaborados. O tema maior de<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>\u00a0&#8211; como de\u00a0<em>Hamletmaschine<\/em>, como de\u00a0<em>Hamlet<\/em>\u00a0&#8211; \u00e9 o tema do poder e do relacionamento humano com o poder. Em\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>,\u00a0essa quest\u00e3o se desdobra sob os pontos de vista pol\u00edtico-hist\u00f3rico, sexual e art\u00edstico. Somente na cena de abertura, a pe\u00e7a discute explicitamente a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Concordo com Portela nesse ponto: corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novidade no cen\u00e1rio sociopol\u00edtico brasileiro. A corrup\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o surpreende a ningu\u00e9m. E \u00e9 justamente esse esc\u00e2ndalo da normalidade da corrup\u00e7\u00e3o que mobiliza Hamlet e que a pe\u00e7a faz quest\u00e3o de mostrar: a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 no cerne da coloniza\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas. A falta de surpresa, de indigna\u00e7\u00e3o, de disposi\u00e7\u00e3o de confronto da corrup\u00e7\u00e3o e de seus agentes constitui o caso normal do cen\u00e1rio macropol\u00edtico e das microrrela\u00e7\u00f5es sociais, em todas as esferas, n\u00e3o somente entre os &#8220;bem nascidos&#8221;, mas tamb\u00e9m entre &#8220;os pobres que agora descobriram que desejam&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0 pergunta ret\u00f3rica de Portela &#8220;quem ali\u00e1s \u00e9 favor da corrup\u00e7\u00e3o?&#8221;, Hamlet poderia responder: a esmagadora maioria! Ao mostrar coniv\u00eancia com as manobras e mentiras de seus governantes, colegas, familiares e de si mesma, ao aceitar governos corruptos por talvez sentir que atuaria de forma igualmente corrupta e oportunista se estivesse no lugar dos governantes.<\/p>\n<p>Tudo isso deve provar que\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>, de maneira alguma, \u00e9 um espet\u00e1culo &#8220;<em>neutro<\/em>&#8220;, como alega Portela. Insisto ainda sobre o seguinte: a suposta obviedade e recorr\u00eancia de importantes fatos sociais &#8211; corrup\u00e7\u00e3o, assimetria social, discrimina\u00e7\u00f5es, caos urbano, entre outros \u2013 n\u00e3o torna menos urgente sua abordagem art\u00edstica.<\/p>\n<h3>Sobre a terceira e quarta cr\u00edtica<\/h3>\n<p>Os motivos elencados demonstram por que a Taanteatro Companhia n\u00e3o pode aceitar uma abordagem simpl\u00f3ria da hibridez de linguagem e do atravessamento m\u00fatuo de c\u00f3digos nas artes c\u00eanicas contempor\u00e2neas. Da mesma maneira n\u00e3o pode aceitar que as indaga\u00e7\u00f5es expostas em\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>\u00a0sejam reduzidas \u00e0 express\u00e3o de neuroses e ressentimento de seu autor ou da popula\u00e7\u00e3o que vive &#8220;de S\u00e3o Paulo para baixo&#8221;.<\/p>\n<p>Desqualificar um argumento ou uma obra, atribuindo caracter\u00edsticas patol\u00f3gicas ou moralmente question\u00e1veis ao seu autor, \u00e9 uma estrat\u00e9gia pobre e conhecida que figura na l\u00f3gica como\u00a0<em>argumento ad hominem<\/em>. Na aus\u00eancia de bons argumentos, o cr\u00edtico p\u00f5e em d\u00favida a integridade mental ou moral do autor da obra criticada.<\/p>\n<p>Os questionamentos explicitados na pe\u00e7a n\u00e3o se resumem nem excluem o governo atual. A pe\u00e7a debate uma tradi\u00e7\u00e3o de poder sem reduzir o problema a simplifica\u00e7\u00f5es dicot\u00f4micas entre partidos, entre pessoas &#8220;bem nascidas&#8221; e &#8220;pobres que agora descobriram que desejam&#8221; ou por meio de divis\u00f5es demogr\u00e1ficas ou de valor cultural entre &#8216;pessoas acima e abaixo de S\u00e3o Paulo&#8217;.<\/p>\n<p>O texto apressado e inconsistente de Lucas Jerzy Portela, demonstra, por meu ponto de vista, n\u00e3o um problema do hibridismo nas artes atuais, nem na cria\u00e7\u00e3o teatro-coreogr\u00e1fica da Taanteatro Companhia e do espet\u00e1culo\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>, mas reflete acima de tudo os preconceitos, ressentimentos e as concep\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas datadas de seu autor, al\u00e9m de sublinhar a crise moral e pragm\u00e1tica da atual esquerda brasileira:<\/p>\n<p>&#8220;(&#8230;)\u00a0<em>sou de esquerda, mas sou antes n\u00e3o-idiota, n\u00e3o tenho nada do que me decepcionar (embora tenha muito a combater em Dilma Roussef, e tenho feito desde antes de ela se eleger): n\u00e3o \u00e9 nada diferente do que eu esperasse, nada que chegue a surpreender ou pasmar.<\/em>&#8221; diz Portela<\/p>\n<p>Se o espet\u00e1culo\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>\u00a0foi capaz de evidenciar esse impasse, j\u00e1 contribuiu para um pequeno e substancial avan\u00e7o.<\/p>\n<h4>(*) Wolfgang Pannek \u00e9 codiretor da Taanteatro Companhia. Autor e diretor do espet\u00e1culo\u00a0<em>M\u00e1quina Hamlet Fisted<\/em>.<\/h4>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mar\u00e7o deste ano, escrevi para o observat\u00f3rio do Festival Viva Dan\u00e7a uma cr\u00edtica a montagem de Hamlet Machine pelo Taanteatre de S\u00e3o Paulo. H\u00e1 algumas semanas, eles escreveram no mesmo espa\u00e7o a r\u00e9plica. Creio que vale ler, copiado abaixo, a pol\u00eamica. Mais do que mera cr\u00edtica de dan\u00e7a, tanto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[938,13,12,9],"tags":[1811,27,172,1810,1814,1812,1813,1809,165],"class_list":["post-3742","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-bailes","category-01ler","category-01ver","category-01viver","tag-cristina-castro","tag-critica","tag-danca","tag-festival-viva-danca","tag-fisted","tag-hamlet-machine","tag-maquina","tag-taanteatro","tag-teatro-vila-velha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3742"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4216,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3742\/revisions\/4216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}