{"id":3716,"date":"2012-07-25T11:55:33","date_gmt":"2012-07-25T14:55:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3716"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"uma-economia-politica-do-ciume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3716","title":{"rendered":"Uma Economia Pol\u00edtica do Ci\u00fame"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Depois de ter investigado o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=734\" target=\"_blank\">componente superestrutural do amor (a ideologia burguesa mas tamb\u00e9m a anti-burguesa<\/a> que v\u00ea erradamente na monogamia um problema, e n\u00e3o um efeito colateral natural do enamoramento) e suas <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3574\" target=\"_blank\">condi\u00e7\u00f5es log\u00edsticas e tecnol\u00f3gicas<\/a> (uma das h\u00e9lices da infraestrutura), chegamos agora a sua condi\u00e7\u00e3o digamos de financiamento (que \u00e9 infraestrutural no sentido de cr\u00e9dito e portanto de d\u00edvida).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembramos de in\u00edcio que Proust chega a radicalmente dizer que o amor adv\u00e9m do ci\u00fame (s\u00f3 se ama na emin\u00eancia da perda), e n\u00e3o o contr\u00e1rio como quer o senso comum. Freud, por outro lado, fez a cl\u00e1ssica divis\u00e3o entre o ci\u00fame normal (cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 proteger o objeto amado e garantir a dura\u00e7\u00e3o mais longa do desejo), o ci\u00fame neur\u00f3tico (projetivo e fruto de uma fantasia) e o ci\u00fame paran\u00f3ico (delirante, mas que pode acontecer tamb\u00e9m em drogaditos, mormente alcoolistas, ainda que sem estrutura de personalidade psic\u00f3tica). \u00c9 ali\u00e1s o fato de que o ci\u00fame paran\u00f3ico n\u00e3o \u00e9 previl\u00e9gio dos transtornos mentais maiores que garante uma porta de vai-e-vem entre este, mais grave, e os anteriores (diferente por exemplo da rela\u00e7\u00e3o entre os del\u00edrios de emascula\u00e7\u00e3o, dos esquizofr\u00eanicos, e a fantasia de castra\u00e7\u00e3o, dos obsessivos: entre uma cousa e oitra h\u00e1 um hiato).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, se pode dizer, cruzando Freud e Proust, que uma dose baixa e consciente de ci\u00fame \u00e9 o fiador da rela\u00e7\u00e3o amorosa: embora pare\u00e7a duvidar da lealdade do objeto amado, s\u00f3 o faz a t\u00edtulo de encena\u00e7\u00e3o de sua confian\u00e7a, e n\u00e3o lhe pede mais juras ao passo que estabelece condi\u00e7\u00f5es claras de contrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o ci\u00fame patol\u00f3gico dos neur\u00f3ticos funciona como um sistema banc\u00e1rio cujas condi\u00e7\u00f5es de financiamento s\u00e3o elevadas: se requer uma s\u00e9rie de comprova\u00e7\u00f5es documentais sem fim, e se entra numa escalada de juros na rolagem da d\u00edvida ao passo que pede juras de amor. O ciumento doentio se torna, assim, um especulador fundi\u00e1rio &#8211; tanto mais porque, nos momentos em que n\u00e3o tem ci\u00fames, n\u00e3o dedica ele amor (produtivo) ao objeto amado, mas sim um desinteresse t\u00e3o grande que o faz terra devoluta (como bem mostra Proust no seu volume A Prisioneira).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, o ciumento grave representa a virada de posi\u00e7\u00e3o de que fala Marx: da burguesia como for\u00e7a de mudan\u00e7a para a burguesia como for\u00e7a acumulativa. Interessado primeiro em amar, a medida que o ciume se torna maior do que o amor que ele deveria proteger, o ciumento passa a ser mais interessado em acumular capital amoroso do que em viv\u00ea-lo e gast\u00e1-lo. Ao produzir abund\u00e2ncia, administra-a atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de escassez; ao empr\u00e9stimo fiduci\u00e1rio, passa a ter mais lucro pela po\u00e7a de d\u00edvida, d\u00favida e juros que cria do que pelo que este empr\u00e9stimo, se de maior liquidez, seria capaz de produzir em objetos, obras e mercadorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, e se se pensa que a banqueiriza\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 ao mesmo tempo o \u00e1pice do capitalismo e sua sabotagem (porque a produ\u00e7\u00e3o e consumo ficam menos interessantes do que o pr\u00f3prio mecanismo da d\u00edvida), o ci\u00fame \u00e9 o ponto alto do amor, no sentido que o ponto alto de uma trag\u00e9dia \u00e9 seu fim tr\u00e1gico &#8211; se ao ci\u00fame protetivo cabia garantir uma dura\u00e7\u00e3o maior e mais est\u00e1vel do relacionamento, o ci\u00fame projetivo acelera sua degrada\u00e7\u00e3o e instabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pense com isso que a solu\u00e7\u00e3o para o ci\u00fame doentio \u00e9 sua invers\u00e3o, um liberou-geral de &#8220;rela\u00e7\u00f5es abertas&#8221;. Pensar isso \u00e9 como supor que a contra\u00e7\u00e3o de d\u00edvida sem cr\u00edterio \u00e9 menos banc\u00e1ria do que o juros aviltante &#8211; e quem assistiu a crise de sub-prime de 2008 sabe que \u00e9 justo o contr\u00e1rio: cr\u00e9dito f\u00e1cil demais e juros altos demais s\u00e3o duas faces da mesma moeda, uma s\u00f3 e mesma coisa. N\u00e3o \u00e9 por invers\u00e3o de uma gram\u00e1tica que se sai dela, e sim por subvers\u00e3o e mudan\u00e7a de eixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dizer que se a moral sexual burguesa \u00e9 uma teologia pol\u00edtica, a dita teoria queer, com sua imposi\u00e7\u00e3o normativa da anormalidade, n\u00e3o o \u00e9 menos: ambas mant\u00e9m o sujeito alienado a uma cren\u00e7a salvacionista que nada tem a ver com a realidade material da vida &#8211; se Freud elogia Marx por este ter partido de &#8220;fatos reais verific\u00e1veis&#8221;, Marx elogiaria Freud pelo mesmo motivo, mas n\u00e3o os rebentos da &#8220;revolu\u00e7\u00e3o sexual&#8221;, que ou n\u00e3o existiu ou foi um retrocesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, chegamos a um ponto sint\u00e1tico fundamental: se a capacidade de financiamento \u00e9, por um lado, infraestrutural, por outro ela \u00e9 da ordem da mentalidade &#8211; a moeda \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o de deus, <a href=\"http:\/\/www.descurvo.blogspot.com.br\/2012\/03\/crise-mundial-culpa-e-fe-na-terra-do.html\" target=\"_blank\">d\u00edvida e culpa s\u00e3o o mesmo significante como nos lembra Hugo Albuquerque<\/a>. E nisso o ciumento patol\u00f3gico se assemelha ao mesmo tempo com um agiota e com um inquisidor do Santo Of\u00edcio: por fora do estado atrav\u00e9s de amea\u00e7as, ou na forma mais estatal e n\u00e3o menos amea\u00e7adora, o ciume precisa confirmar a verdade que produziu; no entanto, sob tortura, o objeto amado n\u00e3o pode sequer mentir; e como a verdade raramente \u00e9 verossemelhante (ela tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o), o ciumento escolhe acreditar na que ele pr\u00f3prio criou &#8211; contra todas as evid\u00eancias materiais. N\u00e3o muito diferente dos evang\u00e9licos que negam a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, os queer negam igualmente quando rejeitam abra\u00e7ar todas as pesquisas realizadas com os chimpanz\u00e9s bonobos (e que provam, muito mais do que suas pseudo-arqueologias, como a sexualidade nos primatas superiores \u00e9 plural e n\u00e3o serve para reprodu\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o para la\u00e7os sociais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, se o ciume normal \u00e9 a contra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de d\u00edvidas e promessas entre dois enamorados, o ciume patol\u00f3gico \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o de d\u00edvida ontol\u00f3gica e teleol\u00f3gica ao objeto amado a partir da d\u00favida escatol\u00f3gica (a salva\u00e7\u00e3o j\u00e1 veio, mas n\u00e3o vir\u00e1; ser\u00e1 para todos, mas nem todos) do sujeito, j\u00e1 n\u00e3o mais enamorado, mas meramente ciumento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de ter investigado o componente superestrutural do amor (a ideologia burguesa mas tamb\u00e9m a anti-burguesa que v\u00ea erradamente na monogamia um problema, e n\u00e3o um efeito colateral natural do enamoramento) e suas condi\u00e7\u00f5es log\u00edsticas e tecnol\u00f3gicas (uma das h\u00e9lices da infraestrutura), chegamos agora a sua condi\u00e7\u00e3o digamos de financiamento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,9],"tags":[396,1791,1798,1796,1797,1795,1792,1794,1793],"class_list":["post-3716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01viver","tag-amor","tag-ciume","tag-crise-financeira","tag-divida","tag-economia-politica","tag-freud","tag-ideologia-burguesa","tag-proust","tag-teoria-queer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3716"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3716\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4218,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3716\/revisions\/4218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}