{"id":3646,"date":"2012-05-21T10:21:00","date_gmt":"2012-05-21T13:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3646"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"dom-dadiva-e-divida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3646","title":{"rendered":"Dom, d\u00e1diva e d\u00edvida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 de muito tempo tem me causado n\u00e1usea estas festinhas de m\u00fasica eletr\u00f4nica em locais ermos e isolados. N\u00e3o se trata de negar a import\u00e2ncia que a e-music teve, por exemplo, na Bahia durante a resist\u00eancia ao Ax\u00e9-System (eram os \u00fanicos ambientes que todas as tribos frequentavam, rompendo com a dicotomia falsa ax\u00e9-music X rock) e nos primeiros anos da Reforma Cultural (a\u00ed muito na figura de <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1802\" target=\"_blank\">Ramiro Musoto<\/a>). Bem ao contr\u00e1rio, parece que, Ax\u00e9-System sendo desconstru\u00eddo e o rock abra\u00e7ando outras vertentes (inclusive, e finalmente!, o pagod\u00e3o), a e-music tornou-se uma ideologia burguesa, <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3627\" target=\"_blank\">um neo-neoclassicismo <em>fugere urbem<\/em>, eivado de veganismo<\/a> &#8211; esse tratamento que os maconheiros do campus de S\u00e3o L\u00e1zaro d\u00e3o ao Vale do Cap\u00e3o (na Chapada Diamantina)\u00a0como se fosse uma disneyl\u00e2ndia de um socialismo macuna\u00edmico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s assistir ao recente filme brasileiro <strong><a href=\"http:\/\/www.paraisosartificiaisofilme.com.br\/\" target=\"_blank\">Para\u00edsos Artificiais<\/a><\/strong>, um filme que <em>mean more than it says<\/em>, isso ficou mais claro para mim. Filme ali\u00e1s ao qual eu quero contrapor ao ultra-urbano, e no entanto bem menos burgues\u00f3ide, <strong><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1723811\/\" target=\"_blank\">Shame<\/a><\/strong>.<\/p>\n<div id=\"attachment_3650\" style=\"width: 683px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a rel=\"attachment wp-att-3650\" href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?attachment_id=3650\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3650\" class=\"size-full wp-image-3650\" title=\"paraisosartificiais\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/paraisosartificiais.jpg\" alt=\"\" width=\"673\" height=\"468\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/paraisosartificiais.jpg 673w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/paraisosartificiais-300x208.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 673px) 100vw, 673px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3650\" class=\"wp-caption-text\">A burguesia gauche compra sua liberdade de pl\u00e1stico, num neo-bucolismo vegano<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos o grande \u00edcone destas festas de m\u00fasica eletr\u00f4nica em meios de mato e praias desertas na Bahia atual: <a href=\"http:\/\/www.universoparalello.org\/home.php?id=1&amp;lang=br\" target=\"_blank\">Universo Paralelo <\/a>(e seu nome \u00e9 j\u00e1 um sintoma). Ocorre no Reveillon e no Carnaval. Seus frequentadores em geral dizem n\u00e3o suportar o carnaval de Salvador porque est\u00e1 &#8220;privatizado e elitizado&#8221; (o que, convenhamos, \u00e9 meia verdade: a pipoca sempre existiu, existe e existir\u00e1, com ou sem pol\u00edticas p\u00fablicas para ela &#8211; &#8220;o carnaval quem faz \u00e9 o foli\u00e3o&#8221;, diria o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2418\" target=\"_blank\">BaianaSystem<\/a>, no &#8220;quem t\u00e1 embaixo quer mais espa\u00e7o \/ se esgueirando feito ninja \/ no meio da multid\u00e3o&#8221;). Como solu\u00e7\u00e3o pessoal para isso, negam n\u00e3o o carnaval elitizado do Ax\u00e9-System (para isso, bastavam eles radicalizarem a urbanidade do carnaval e sairem na pipoca), mas justamente negam a nega\u00e7\u00e3o desta elitiza\u00e7\u00e3o (a pipoca ela mesma): como se elitizar ainda mais, fugindo da cidade para uma natureza idealizada, fosse solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, esse Universo Paralelo s\u00f3 o \u00e9 em espelho convexo: amplia e deforma O Mesmo, sem jamais criar O Outro. Seus frequentadores, que sem d\u00favida se acham de esquerda (talvez PSOListas), est\u00e3o \u00e0 direita do Camarote Salvador (cujos frequentadores bem ou mal, para acess\u00e1-lo, precisam passar pelo meio do pov\u00e3o). \u00c9 um <a href=\"http:\/\/www.urbanibalism.org\/Manifesto_Urban_Cannibalism.pdf\" target=\"_blank\">horror\u00a0\u00e0 cidade n\u00e3o pelo que ela tem de capitalista, mas pelo que ela tem de ecossistema libert\u00e1rio e libertino<\/a>. Os Universos Paralelos s\u00e3o uma tentativa de comprar a liberdade como d\u00edvida, e tom\u00e1-la como d\u00e1diva (benesse de classe) e n\u00e3o como exerc\u00edcio (conflituoso e no comum).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Se falo d\u00e1diva, mister atinar para que estou subvertendo o termo de Marcel Mauss: n\u00e3o se trata do dar gratuito que espera reciprocidade idem, mas sim da id\u00e9ia de que &#8220;caiu do c\u00e9u&#8221;. Essa liberdade, ao mesmo tempo comprada e ganha como direito, \u00e9 artificial &#8211; uma vez que a verdadeira se d\u00e1 como um exerc\u00edcio custoso, mas sem pre\u00e7o, e conflituoso de si mesmo. Este \u00e9 o dom, bastante humano e sempre em constru\u00e7\u00e3o, work-in-progress da supera\u00e7\u00e3o-de-si no que no &#8220;mundo de voc\u00eas&#8221; &#8211; diria Jean Genet &#8211;\u00a0se chamaria de lutas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pra resumir: os e-music confundem Ax\u00e9-System (uma infraestrutura) com Ax\u00e9-Music (superestrutura), e atacam meramente sua est\u00e9tica, repetindo e acirrando seus modos de produ\u00e7\u00e3o, sua \u00e9tica. Se t\u00eam horror ao Carnaval de Salvador n\u00e3o \u00e9 horror aos camarotes e blocos de corda, mas certo nojo do pov\u00e3o, do suor da negrada, do pagod\u00e3o baixaria, do Il\u00ea Ay\u00ea subindo o Curuzu, dos muitos beijos rizom\u00e1ticos dos Filhos de Gandhy perdidos na avenida, da \u00e1gua mineral do Candeal e do empurra-empurra na Timbalada. Universo que \u00e9 Paralelo porque corre lado a lado, e jamais contra, o Ax\u00e9-System &#8211; ele mesmo\u00a0um Ax\u00e9-System vegano e de sinal trocado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inclusive, se a m\u00fasica eletr\u00f4nica representou na Bahia sob o carlo-axezismo um espa\u00e7o m\u00faltiplo, onde viados saiam do gueto e heteros entravam nele, hoje se tornou profundamente heteronormativo (o que, convenhamos, pipoca nenhuma nunca o \u00e9). \u00c9 a\u00ed, principalmente, que <strong>Shame<\/strong> lhe \u00e9 oposto: \u00e9 certo que seu personagem principal \u00e9 uma emula\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa da libertinagem heterossexual &#8211; no entanto, como libertino, n\u00e3o v\u00ea problemas nos prazeres com o mesmo sexo, se calhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se em <strong>Shame<\/strong> a liberdade tamb\u00e9m gera d\u00edvida, ela n\u00e3o \u00e9 meramente comprada nem ganha: \u00e9 tratada como exerc\u00edcio radical de si, impag\u00e1vel por n\u00e3o ser precific\u00e1vel (n\u00e3o se converte totalmente em mercadoria, enquanto em <strong>Para\u00edsos Artificiais<\/strong> ela \u00e9 um fetiche). E, certamente, esta d\u00edvida nunca \u00e9 moral (o que n\u00e3o se pode dizer da mauvaise-conscience bourgeois dos que v\u00e3o a Pen\u00ednsula de Morer\u00e9 por mera urbanofobia motorcr\u00e1tica e carroc\u00eantrica, num pseudo-ecologismo de avatar marinista): nem mesmo diante das sucessivas tentativas de suic\u00eddio de sua irm\u00e3, o personagem principal de <strong>Shame<\/strong> se sente culpado, embora abrace sua responsabilidade subjetiva (de novo, o oposto da pel\u00edcula brasileira: onde todos s\u00e3o culpados sem ningu\u00e9m ser respons\u00e1vel).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para concluir, me volto ao velho ad\u00e1gio medieval, forjado pela burguesia quando ela era uma for\u00e7a de distribui\u00e7\u00e3o de renda (e n\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o da mesma): s\u00f3 a cidade \u00e9 capaz de libertar &#8211; a natureza, o campo, nos retira pot\u00eancia, nos aprisiona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(O tema de como esse hippiesmo anti-urbano era, j\u00e1 na sua raiz, um reacionarismo burgu\u00eas usado pelo aparato industrial-cultural capitalista fora anteriormente muito bem trabalhado por Ang Lee em seu <strong><a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1127896\/\" target=\"_blank\">Taking Woodstock.<\/a><\/strong> Lee \u00e9 um mestre do conservadorismo, no mesmo sentido em que Jacques Le Gof ou Jos\u00e9 Lins do Rego: a leitura de que os sistemas anteriores ao capitalismo pleno eram, em certa medida, mais dignos para todos. Assim, em <em>Riding With The Devil<\/em>, Ang Lee nos mostra como a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura nos Estados Unidos foi um artif\u00edcio para tornar os estados do sul col\u00f4nias de explora\u00e7\u00e3o dos estados do norte; ou em <em>IceStorm<\/em> como a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Sexual foi meramente um acting-out neur\u00f3tico da burguesia de sub\u00farbio. Em Taking Woodstock ele vai al\u00e9m: se algo de bom havia nos hippies setentistas era justamente seu retorno a um ide\u00e1rio do s\u00e9culo XIX, da B\u00e9lle Ep\u00f3que e do decadentismo &#8211; do uso de mescalina \u00e0 cartolas e estamparias indianas &#8211; isto \u00e9, no que a contra-cultura involuntariamente\u00a0tinha de\u00a0intensamente\u00a0urbano; sua busca por um &#8220;mundo melhor&#8221;, vegetariano e no meio do mato mas com showza\u00e7o de rock, isto sim era contra-revolucion\u00e1rio. Eis algo que a esquerda n\u00e3o deveria desprezar: o comum do comunismo passar\u00e1 por um retorno, sim, das formas comerciais urbanas anteriores ao capitalismo &#8211; Jane Jacobs bem sabia disso, no seu rasgado elogio \u00e0s cidades vivas porque levemente desorganizadas e por isso intensas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 de muito tempo tem me causado n\u00e1usea estas festinhas de m\u00fasica eletr\u00f4nica em locais ermos e isolados. 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