{"id":3627,"date":"2012-04-18T14:38:09","date_gmt":"2012-04-18T17:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3627"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"veganismo-ma-consciencia-burguesa-ignorancia-geo-nutricional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3627","title":{"rendered":"Veganismo, m\u00e1-consci\u00eancia burguesa &#038; ignor\u00e2ncia geo-nutricional"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que uma dada classe m\u00e9dia (alta) vegetariania radical (em que pese o dito movimento ter entrado no Brasil atrav\u00e9s do proletariado sintaticamente alienado e importacionista ligado ao Hip Hop) seja numericamente expressiva, ou apesar de crescente v\u00e1 representar algum dia uma faixa demograficamente expressiva. Nem que sejam um movimento pol\u00edtico coeso e com capacidade de combate (isto \u00e9: de elaborar estrat\u00e9gias e dentro delas t\u00e1ticas) \u2013 bem ao contr\u00e1rio, parecem jogar resta-um sobre um tabuleiro de go.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justamente por isso vale refletir a respeito dos ditos Vegans: s\u00e3o um sintoma de uma certa esquerda ao mesmo tempo sub-marxista mas que n\u00e3o chega a ser festiva (leia-se: fourierista), mas que tamb\u00e9m n\u00e3o tem seus impulsos subversivos advindos de priva\u00e7\u00f5es e necessidades reais e perempt\u00f3rias. Enquanto sintoma, s\u00e3o iguaizinhos ao <a href=\"http:\/\/www.quadradodosloucos.com.br\/396\/quando-o-ateismo-e-causa-desfocada\/\" target=\"_blank\">ate\u00edsmo colonizado e positiv\u00f3ide que agora deu para apoi\u00e1-los, e que se intitula (acriticamente) \u201cHumanismo Secular\u201d<\/a>. Gosto de chamar este pobrismo ideol\u00f3gico, que corporalmente se alimenta de cogumelo shitake comprado em delicatessens car\u00edssimas (nada contra: eu tamb\u00e9m compro, mas eu n\u00e3o pretendo \u2013 no sentido tamb\u00e9m de finjo \u2013 fazer voto de pobreza), de carmelitismo canhoto \u2013 mister n\u00e3o confundir com os franciscanos, que na verdade fazem um elogio da riqueza e alegria interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso vegano pode ser reduzido a um fraseado de m\u00e1-consci\u00eancia burguesa: \u201cagora que os pobres (do Brasil, da China e \u00cdndia) podem comer bife de carne de vaca, n\u00e3o devem\u201d. Para justificar tal postura (que chega ao esdr\u00faxulo de combater a vacina\u00e7\u00e3o universal infantil, isso em \u00e1reas altamente civilizadas como SanFrancisco, na Calif\u00f3rnia) vale o discurso mistic\u00f3ide de absolutiza\u00e7\u00e3o do amor universal (\u201cnenhuma esp\u00e9cie tem direito de sacrificar outra\u201d \u2013 como se fosse uma quest\u00e3o de direitos&#8230;!) at\u00e9 argumentos canhestros sobre pol\u00edtica alimentar de larga escala que n\u00e3o deixam de ser malthusianos (\u201cproduzir prote\u00edna vegetal custa dez vezes menos \u00e1gua e espa\u00e7o do que produzir prote\u00edna animal\u201d \u2013 como se o problema fosse de produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tenebroso que a contra-cultura setentista, que de idealista passou ao pragmatismo da tecnologia de fonte aberta, m\u00eddia-livrismo, movimento GLBTT e pela descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, tenha dado uma volta revolucion\u00e1ria no mau-sentido e agora defenda privar as crian\u00e7as do consumo de ovo e da vacina contra a poliomielite (a custa, claro, dos filhos dos pobres continuarem a ser corretamente vacinados \u2013 terceirizaram a prote\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica). Mas n\u00e3o chega a ser surpreendente: a ex-subversiva Pen\u00ednsula de Santo Andr\u00e9 e Ba\u00eda de Golden Gate, morfologicamente irm\u00e3 da minha insubordinada Salvador, sucumbiu a pr\u00f3pria riqueza, gentrificou-se. O Castro n\u00e3o tem uma sauna digna do nome; e se o Haight-Ashbury continua aut\u00eantico (o fato de ser periferia \u00e9 um trunfo, uma desterritorializa\u00e7\u00e3o positiva), \u00e9 sob pena de sequer vender cerveja em seus caf\u00e9s que no entanto vendem maconha certificada, camisetas <em>tie-die<\/em> e, oh!, hamb\u00farguer de soja org\u00e2nica. \u00c9 uma Pituba pra viado criar filho e envelhecer m\u00e3o-na-m\u00e3o (ou um Leblon\/G\u00e1vea \u2013 n\u00e3o Ipanema, que ainda tem qualquer coisa de bicha rica tresloucada que a esquizofreniza e eu gosto). Sua excelente qualidade urbana derivou numa cidade t\u00e3o chata quanto Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a rel=\"attachment wp-att-3628\" href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?attachment_id=3628\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-3628\" title=\"GeografiadaFome\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/GeografiadaFome-207x300.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/GeografiadaFome-207x300.jpg 207w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/GeografiadaFome.jpg 250w\" sizes=\"auto, (max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><\/a>J\u00e1 o argumento da produ\u00e7\u00e3o de boi em larga escala n\u00e3o deveria se aplicar na p\u00e1tria de Josu\u00e9 de Castro \u2013 este recifense que foi um dos que instou a cria\u00e7\u00e3o da FAO na ONU. S\u00e3o dele dois conceitos cruciais para compreender a ind\u00fastria da fome: que fome n\u00e3o \u00e9 estarva\u00e7\u00e3o, porque h\u00e1 fome espec\u00edfica; que fome d\u00e1 lucro, porque \u00e9 gerando escassez que se especula sobre a superabund\u00e2ncia alimentar. Portanto, caro vegan, se os pobres comessem mais carne poder\u00edamos paradoxalmente produzir menos boi \u2013 desde que a amplia\u00e7\u00e3o do consumo adviesse da melhor distribui\u00e7\u00e3o, do impedimento canino pelo Estado de que o Capital especule com os v\u00edveres e comodities alimentares. Ao inv\u00e9s de enfrentar este inimigo bem real, os veganos enfrentam fantasmas, o que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o leva a nada como acirra o problema, criando mais uma (ou talvez mais de uma) fome espec\u00edfica numa popula\u00e7\u00e3o que deveria estar livre dela (o que n\u00e3o deixa de ser uma sin\u00e9doque da anti-vacina\u00e7\u00e3o infantil que eles pregam: a volta de doen\u00e7as numa popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vivia sem estes riscos a mais de uma gera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Josu\u00e9 de Castro havia observado a tautegoria da pobreza, que \u00e9 a mesma da fartura amaz\u00f4nica mas se d\u00e1 nos restos de sert\u00e3o que chegam a megal\u00f3pole Mauriceia da foz do Capibaribe: os moradores de beira de mangue se alimentam de caranguejos que um dia se alimentaram das fezes dos moradores de beira de mangue que ir\u00e3o com\u00ea-los \u2013 n\u00e3o deixa de ser um Belo Monte (Canudos) \u00e0s avessas. Mas ainda assim Castro via nisso uma positividade: prote\u00edna e fosfato n\u00e3o faltariam aos miser\u00e1veis de Pernambuco; um vegano veria a mesma cena, se ofenderia, tomaria a defesa do caranguejo, intimamente desejaria que o miser\u00e1vel comesse a pr\u00f3pria bosta \u2013 e depois iria ouvir MangueBeat sem se dar conta da contradi\u00e7\u00e3o em termos. Seguindo ainda outra m\u00e1xima do grande ge\u00f3grafo: se no Brasil h\u00e1 os que n\u00e3o comem e os que n\u00e3o dormem por medo dos que n\u00e3o comem, os vegans resolveram a contradi\u00e7\u00e3o por silogismo \u2013 deixaram de comer pra ver se conciliam o sono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o veganismo n\u00e3o passe do amor das dondocas aos bichons-fris\u00e9s, s\u00f3 que invertido e levado \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias. Se estivessem realmente interessados em combater a explora\u00e7\u00e3o animal, buscariam inimigos reais e nome\u00e1veis. Por exemplo, se dariam conta que <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?feature=player_embedded&amp;v=ulx2Az07BrU\" target=\"_blank\">o trabalho humano em abatedouros \u00e9 dos mais espoliantes e mutilantes e menos regulados do pa\u00eds<\/a> (teriam pena dos trabalhadores humanos que l\u00e1 t\u00eam seu ganha-p\u00e3o, ao inv\u00e9s de se identificarem com o porco estrebuchante) \u2013 e passariam a incentivar n\u00e3o a n\u00e3o-ingest\u00e3o de carne, mas sua compra em feiras e pequenos abatedouros vindo de pequenos criadores. Que ali\u00e1s constumam abater seu gado com mais cuidado, j\u00e1 que seu lucro est\u00e1 na qualidade e confiabilidade. Em Itapetinga, na Bahia, se abate o boi dormindo no pasto com um tiro a dist\u00e2ncia \u2013 sofrimento nenhum, carne ultra-macia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou incentivariam o consumo de prote\u00edna animal indireta (n\u00e3o me venham com \u201covo-lacto\u201d!), e <a href=\"http:\/\/www.omineiroeoqueijo.com.br\/\" target=\"_blank\">comprariam a briga contra o bin\u00f4mio ANVISA \/ Grandes Latic\u00ednios ao lado dos pequenos produtores de queijo artesanal de Minas, que n\u00e3o podem circular seus produtos sen\u00e3o clandestinamente uma vez que feito de leite cru<\/a> tirado a m\u00e3o de vacas que atendem com do\u00e7ura quando chamadas por seu nome. \u00c9 a grande ind\u00fastria do leite que espolia pequeno produtor (cuja fazendinha fica ociosa metade do dia, se n\u00e3o for produtora de queijo artesanal) e as vacas leiteiras em n\u00edvel industrial. Comprando esta briga, os vegans incentivariam o consumo de queijo de feira (os estados do nordeste tamb\u00e9m produzem, embora menos sofisticados que Minas Gerais), longe das certifica\u00e7\u00f5es que o Estado garante aos pasteurizados mortos e morificados, queijos como alimentos vivos, cuja longevidade e conserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o garantidas por serem queijos curados (isto \u00e9: vacinados biologicamente por bact\u00e9rias, uma tecnologia manufatureira milenar) mais saborosos \u2013 agindo a\u00ed sim anarquisticamente e autonomisticamente, sabotando as formas-Estado e o Capital, como arrogam fazerem enquanto compram quinua real no P\u00e3o de A\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o lutas mais vi\u00e1veis, e mais alegres \u2013 mas como s\u00e3o reais, d\u00e3o um trabalho de reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o a que os deprivados de canja de galinha e os criados a missou com alga n\u00e3o est\u00e3o dispostos por talvez falta de energia fisiol\u00f3gica. E notem: falo como algu\u00e9m em cuja resid\u00eancia n\u00e3o entra \u201cbicho morto\u201d \u2013 sequer sob a forma de embutidos (essa tecnologia secular dos povos de fronteira para deixar as carnes conservadas e prontas para uso sem requerer fogo e preparo, e que por isso as Gerais e as Serras e Pampas Ga\u00fachos dominam t\u00e3o bem!). Porque carne \u00e9 uma forma pouco dur\u00e1vel de prote\u00edna animal, e que d\u00e1 trabalho de preparar, o que torna ineficiente para quem mora sozinho. E quanto mais anterior na escala evolutiva, mais vol\u00e1til \u00e9 a carne embora mais saud\u00e1vel: peixe estraga mais f\u00e1cil que frango, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem me venham com o argumento anti-culin\u00e1rio de que o que d\u00e1 sabor \u00e9 o tempero: sabor implica em textura, e a de uma maminha de alcatra, corte alto e levemente mal-passada, \u00e9 insubstitu\u00edvel at\u00e9 para mim que s\u00f3 como carne vermelha quatro talvez cinco vezes ao ano (tanto quanto a textura da macaxeira de Noca, em Olinda, \u00e9 inolvid\u00e1vel). Nem com a pergunta fatal: <a href=\"http:\/\/www.urbanibalism.org\/Manifesto_Urban_Cannibalism.pdf\" target=\"_blank\">\u201cvoc\u00ea comeria carne humana?\u201d \u2013 claro que comeria! <\/a>O que ali\u00e1s me d\u00e1 um argumento terminal anti-vegano: contra esse vegetarianismo pequeno-burgu\u00eas e cheio de culpa crist\u00e3, busquemos uma antropofagia aqu\u00e9m e al\u00e9m oswaldiana. A crueldade n\u00e3o \u00e9 algo de que a esp\u00e9cie Homo Sapiens deveria se envergonhar, desde que bem usada, j\u00e1 nos ensinava o zen \u2013 comamos pois as tripas do Capit\u00e3o Cook (ironia dos nomes, diria Guimar\u00e3es Rosa em seu Ave, Palavra) no desjejum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o que uma dada classe m\u00e9dia (alta) vegetariania radical (em que pese o dito movimento ter entrado no Brasil atrav\u00e9s do proletariado sintaticamente alienado e importacionista ligado ao Hip Hop) seja numericamente expressiva, ou apesar de crescente v\u00e1 representar algum dia uma faixa demograficamente expressiva. 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