{"id":3412,"date":"2011-12-28T12:38:57","date_gmt":"2011-12-28T15:38:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3412"},"modified":"2025-12-24T13:02:54","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:54","slug":"o-avesso-da-viadagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3412","title":{"rendered":"O Avesso da Viadagem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Epigrafia: escrita\u00a0na\u00a0epiderme &#8211; ou Superf\u00edcie \u00e9 Profundidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu mais novo filme, Pedro Almod\u00f3var, se desvencilhando do melodrama sirkiano e das tentativas de ser Felinni ou um Carlos Saura c\u00f4mico, constr\u00f3i um conto de fadas sinistro ao gosto do mestre James Whale (\u00e9 um <em>Noiva de Frankenstein<\/em>, s\u00f3 que \u00e0s avessas: \u00e9 pela mortifica\u00e7\u00e3o de um corpo vivo que se cria uma mulher desej\u00e1vel), al\u00e9m de aprofundar as influ\u00eancias de Lu\u00eds Bu\u00f1uel (tanto pelas cenas em que animais, particularmente insetos, aparecem sem mais nem menos na tela, e em profus\u00e3o, quanto pela f\u00e1bula ser muito similar \u00e0 <em>Bela Da Tarde<\/em> &#8211; novamente, ao contr\u00e1rio: ningu\u00e9m tem impulsos masoquistas em <em>A Pele que Habito<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muita coisa poderia ser dita, analiticamente, sobre este filme &#8211; especialmente por mim, que n\u00e3o gosto de Almod\u00f3var e considero que ser f\u00e3 dele \u00e9 prova de des-cinefilia (salvo, \u00e9 claro, por <em>Matador<\/em>). N\u00e3o cairei nessa. Prefiro tomar este pre\u00e2mbulo como ep\u00edgrafe, elevando-o, como diria \u00cdtalo Calvino, a dignidade mitol\u00f3gica em que o texto literal significa mais que o interpretado. Retiro no entanto duas consequ\u00eancias desta fita:<\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico cirurgi\u00e3o, personagem central na pel\u00edcula e <em>doplegangher<\/em> do Dr. Victor Frankenstein, \u00e9 um exemplar, pelo entrecho \u00fcbber-transexualista da est\u00f3ria, de que o desejo n\u00e3o oscila meramente entre a homossexualidade e a heterossexualidade. O Robert de Antonio Banderas, que sem d\u00favida sempre gostou apenas de mulher, deseja uma mulher que construir\u00e1 a partir do corpo vivo de um homem; mais ainda, s\u00f3 passa a desejar esta mulher no processo. Ele \u00e9 gay? Bi? T-Lover? Hetero? Nada disso, e tudo, e mais;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Caberia perfeitamente como ep\u00edgrafe desta nova obra de Almod\u00f3var uma frase de Paul Val\u00e9ry em uma de suas brilhantes aulas (e aqui entra como ep\u00edgrafe de ep\u00edgrafe, ou metaep\u00edgrafe se preferirem): &#8220;<em><strong>O mais profundo \u00e9 a pele<\/strong><\/em>&#8220;.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma vicissitude normop\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ditos Movimentos GLBTZW-KY, e outros discursos da viadagem institucional que o habitam, estariam na condi\u00e7\u00e3o de levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a teoria freudiana da sexualidade &#8211; a um s\u00f3 tempo afirmando radicalmente a biologia de Darwin, e a superando por contradi\u00e7\u00e3o. Refiro-me a uma nota de rodap\u00e9 de 1922 ao primeiro dos Tr\u00eas Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), longu\u00edssima e quase sempre ignorada (por recalque) mesmo por diversos psicanalistas (Lacan inclusive). Ela diz aproximadamente o que se segue:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto nos mostra como, do ponto de vista da Psican\u00e1lise, \u00e9 a heterossexualidade que \u00e9 um desvio a ser explicado: enquanto economia ps\u00edquica, ela \u00e9 uma escolha de objeto bem mais dispendiosa do que a escolha narc\u00edsica; as dificuldades de compreender o que algu\u00e9m de outro sexo deseja tamb\u00e9m a\u00ed se interp\u00f5e, com a consequ\u00eancia de que a descarga de satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais procrastinada na heterossexualidade do que na homossexualidade. O fato de a maior parte da popula\u00e7\u00e3o alegar ou compreender ser heterossexual \u00e9 um problema a mais, uma vez que a disposi\u00e7\u00e3o bissexual perverso polimorfa n\u00e3o imp\u00f5e esta vicissitude como necessariamente mais frequente que as outras.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes que a Viadagem Institucional se apresse em dizer que Freud disse que a maior parte dos ditos heteros \u00e9 na verdade homossexual enrustido ou que n\u00e3o se descobriu como tal ainda, alto l\u00e1! \u00d3bvio que a cita\u00e7\u00e3o acima mostra que a heterossexualidade n\u00e3o existiria t\u00e3o ubiquamente sem fortes press\u00f5es da realidade, digamos, social (como n\u00e3o era a norma no Antigo Regime, a literatura galante nos mostra, nem o \u00e9 em outros povos coet\u00e2neos nossos, a antropologia n\u00e3o cessa de descobrir); mas Freud \u00e9 antes n\u00e3o-idiota e sabe que h\u00e1 for\u00e7as biol\u00f3gicas para-al\u00e9m do indiv\u00edduo-esp\u00e9cime ainda que tomado como inconsciente, e diz respeito a esp\u00e9cie como tal: s\u00e3o os res\u00edduos arc\u00e1icos (que Jung vai chamar de arqu\u00e9tipos), e \u00e9 a puls\u00e3o de morte (que Freud acabara de descobrir antes de escrever esta nota \u00e0 sua obra pregressa) &#8211; um efeito colateral da reprodu\u00e7\u00e3o sexuada, que no Homo Sapiens causa especial contradi\u00e7\u00e3o, levando o sujeito a agir contra si mesmo (eventualmente em favor da esp\u00e9cie, \u00e0s vezes nem isso).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Objeto f\u00f3bico: objeto de desejo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disso a Viadagem Institucional (discurso que n\u00e3o \u00e9 privativo dos Movimentos Gays, e mesmo pode se ausentar deles como acidentalmente nos mostra o Grupo Gay da Bahia &#8211; GGB) poderia tirar uma consequ\u00eancia cl\u00ednica radical, se fosse n\u00e3o-idiota: a Homofobia ser compreendida menos como &#8220;\u00f3dio&#8221; ou &#8220;ignor\u00e2ncia&#8221;, e mais como a fobia descrita no Caso de Hanszinho &#8211; uma rea\u00e7\u00e3o paradoxal e infantil frente ao desejo e ao representante da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso traria dois efeitos pr\u00e1ticos. De um lado se entenderia a Homofobia menos como obst\u00e1culo, e mais como porta de vai-e-vem, dialeticamente: o objeto f\u00f3bico \u00e9 tamb\u00e9m transicional (a descoberta \u00e9 de Donald Winnicott), e se ele procrastina a entrada na castra\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m s\u00f3 ele que permite que ela ocorra em algum momento mais ou menos pr\u00f3ximo. O que quer dizer tamb\u00e9m que uma <a href=\"http:\/\/www.sfgate.com\/cgi-bin\/article.cgi?f=\/chronicle\/archive\/2001\/08\/05\/RV199227.DTL\" target=\"_blank\">quantidade consider\u00e1vel de heterossexuais s\u00f3 o \u00e9 como uma evita\u00e7\u00e3o radical do desejo pelos homens<\/a> (ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o) &#8211; e nestes casos, que julgo maioria, a Homofobia n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia da Heterossexualidade, mas antes causa, ou melhor: s\u00e3o uma s\u00f3 e mesma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De outro, ao inv\u00e9s de clamar por ter &#8220;os mesmos direitos dos Heteros&#8221;, a Viadagem Adiquirida &amp; Cong\u00eanita passaria a ofertar direitos: o direito a uma escolha menos coercitiva (ao menos de um ponto de vista Imagin\u00e1rio) de seu objeto sexual de desejo e de suas formas de gozo. Como diz <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1934\" target=\"_blank\">Pedro Pond\u00e9<\/a>, heterossexual convicto e n\u00e3o por fobia ao mesmo sexo: \u00e9 muito bom que na Salvador atual, por efeito da pan-culturalista <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2459\" target=\"_blank\">Boate Boomerangue (in memorian)<\/a>, os meninos possam experimentar ambos os sexos na adolesc\u00eancia at\u00e9 realizarem melhor sua escolha de objeto. O que n\u00e3o chega a ser novidade: tribos ind\u00edgenas, a aristocracia de Lu\u00eds XV, a Atenas de P\u00e9ricles e talvez os monast\u00e9rios da patr\u00edstica crist\u00e3 agiam assim. S\u00f3 a Ordem Burguesa, jovem de 300 anos apenas, imp\u00f4s sua l\u00f3gica, bastante tatibitati, como &#8220;natural&#8221; e &#8220;universal&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Propaganda de op\u00e7\u00e3o sexual&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Freud enxerga na heterossexualidade, mas n\u00e3o no fetichismo ou na drogadi\u00e7\u00e3o ou nas homossexualidades, um desvio a ser explicado, \u00e9 principalmente de um ponto de vista da economia ps\u00edquica. O desejo pelo sexo oposto \u00e9 energeticamente dispendioso, requer um esfor\u00e7o de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o idiom\u00e1tica supino, e representa uma amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o anatomicamente expl\u00edcita (o que as outras sexualidades exatamente evitam).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, a Viadagem Institucional deveria formular uma teoria de mais-valia energ\u00e9tica da sexualidade, muito similar ao que fez Ivan Ilich no tocante a ubiquidade do autom\u00f3vel em meio a crise do petr\u00f3leo. Carros s\u00e3o dispendiosos, caros, e violentos, o oposto das bicicletas &#8211; mas usar autom\u00f3vel \u00e9 tido como &#8220;o normal&#8221;. O mesmo vale para a heterossexualidade. E n\u00e3o \u00e9 dizer que a heterossexualidade, ou o uso de autom\u00f3veis, \u00e9 um problema apenas de quem fez esta escolha: \u00e9 sim um problema de todos os outros. Mais autom\u00f3veis significa menos pedestres e ciclistas; mais heterossexuais (mal-)declarados significa encobrir uma diversidade sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que quer dizer que a heterossexualidade \u00e9 um fetiche, no sentido estritamente marxiano (e n\u00e3o no psicanal\u00edtico): seu valor \u00e9, na Ordem Burguesa, quase todo de troca, tendo valor de uso nulo. Como se sustenta ent\u00e3o majoritariamente um recurso que, especulativio, \u00a0na pr\u00e1tica \u00e9 danoso para todos? Com propaganda &#8211; quase sempre enganosa. A propaganda de carro que vende ruas vazias que jamais o estar\u00e3o, e garantem seguran\u00e7a em velocidades sobre-humanas que certamente ser\u00e3o perigos\u00edssimas; a propaganda de margarina da insuport\u00e1vel fam\u00edlia feliz, m\u00e3e discretamente bem-comida, marid\u00e3o mediocremente culto, cachorro ra\u00e7a scotish-terrier, filhinhos menino-amarelo de playground.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo que os GLBTTWZ-KY deveriam tomar a fala da Geisel-de-Cal\u00e7ol\u00e3o, dita PresidentE (com E porque Cec\u00edlia Meirelles era poeta e n\u00e3o poetisa) Dilma Vana Roussef, de &#8220;n\u00e3o fazemos propaganda de op\u00e7\u00e3o sexual&#8221; por sua positividade &#8211; isto \u00e9: encar\u00e1-la como uma denega\u00e7\u00e3o. Mesmo quando n\u00e3o faz propaganda de op\u00e7\u00e3o sexual, o Estado est\u00e1 a fazer; assim como quando n\u00e3o faz propaganda sobre como optar por sua mobilidade urbana, o Estado est\u00e1 a fazer passivamente propaganda pelo autom\u00f3vel &#8211; e deteriorando a mobilidade de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, contudo, a viadagem adquirida &amp; cong\u00eanita deveria parar de querer herdar da heterossexualidade seus \u00f4nus a t\u00edtulo de b\u00f4nus &#8211; romper com o familismo burgu\u00eas e, mais ainda, trazer para este anti-familismo solteir\u00e3o-d\u00e2ndi os heterossexuais que s\u00f3 querem comer bucetinhas at\u00e9 a velhice, e n\u00e3o constituir fam\u00edlia. S\u00e3o in\u00fameros, e est\u00e3o vastamente oprimidos pelo discurso pr\u00f3-inefici\u00eancia-libidinal da propaganda de op\u00e7\u00e3o sexual feita passivamente; ainda mais, s\u00e3o estes os verdadeiros heterossexuais: os que preferem as mulheres por seu bel-prazer, e n\u00e3o para cumprir etapas de vida estabelecidas pelo capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O prazer de ser v\u00edtima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma dificuldade contudo se interp\u00f5e a tudo isso: os viados n\u00e3o conseguem, geralmente, articular o fato de que preferir pica a buceta \u00e9 uma mera escolha &#8211; feita em circunst\u00e2ncias adversas, precocemente, e cujo processo \u00e9 alvo da amn\u00e9sia infantil. Preferem a frase pronta: &#8220;n\u00e3o tive culpa, n\u00e3o escolhi ser bicha&#8221; &#8211; o que \u00e9 tamb\u00e9m ela uma denega\u00e7\u00e3o por deslocamento da particula negativa: a frase acaba querendo dizer &#8220;tive culpa, escolhi, mas me perdoe&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos argumentos para se manter essa t\u00e1tica meio idiota \u00e9 que \u00e9 mais simples para as bichas pobres (estamos falando de pobreza semiol\u00f3gica, mais do que financeira, claro) compreender e articular este discurso auto-vitimizante (e falso). Dito de outra forma: \u00e9 mais facil manter as bichas pobres pobres mesmo, do que enriquec\u00ea-las em termos de l\u00e9xico e sintaxe reflexiva. Raro passa pela cabe\u00e7a dos Militantes que o fato de bichas pobres tendenrem ao travestismo n\u00e3o \u00e9 mero direito (embora direito seja), e sim antes um problema epist\u00eamico: sem muitos recursos linguageiros, confundem sua identidade sexuada, sua posi\u00e7\u00e3o na sexua\u00e7\u00e3o e seu desejo sexual! Seria como garantir o direito dos miser\u00e1veis a avitaminose, dos analfabetos a aletria &#8211; embora ningu\u00e9m seja obrigado a consumir vitamina C porque pode, nem a ler uma vez que o saiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os buracos como sempre est\u00e3o mais em cima: viados preferem gozar de serem v\u00edtimas coletivamente, a terem a custosa mas eficiente atitude de, diria Ricardo Reis, &#8220;tornarem-se imperadores de si mesmos&#8221; no cada-um-por-si. <a href=\"http:\/\/twitcam.livestream.com\/53iik\" target=\"_blank\">E afinal, como \u00e9 que se combate a heteronormatividade (a homofobia \u00e9 apenas seu sintoma mais violento) acirrando-a com pedidos de casamento ao Papai Estado, mesmo?<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>De Puta-Martir a Dona Santinha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num <a href=\"http:\/\/forumbaianolgbt.blogspot.com\/2011\/11\/salvador-estreia-sabado-projeto-que-une.html\" target=\"_blank\">cine-debate que vem acontecendo quinzenalmente no famigerado Beco dos Artistas, Garcia, Salvador, apresentou-se uma produ\u00e7\u00e3o semi-did\u00e1tica brit\u00e2nica sobre a descoberta da homossexualidade no colegial, bullying e queijandas chatices<\/a>. A uma certa altura, o personagem principal, viado e proto-intelectual, profere: &#8220;Por que nos perseguem tanto, se s\u00f3 queremos amar?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada poderia ser mais falso &#8211; e pusil\u00e2nime. Quando<a href=\"http:\/\/twitcam.livestream.com\/56ka7\" target=\"_blank\"> os GLBTTWZ-KY reivindicam o uso de seus desejos como parte do direito a cidade (ao fim, \u00e9 disso que se trata<\/a>: do direito de namorar na pra\u00e7a ao direito de coabita\u00e7\u00e3o familial), \u00e9 \u00f3bvio que reivindicam tamb\u00e9m o exerc\u00edcio da crueldade, dos mal-entendidos, do sofrimento amoroso &#8211; de todo este Mal, transcendental porque imanente desde que Sade subverteu Kant, de que \u00e9 feito o desejo e o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que ent\u00e3o a Viadagem Institucional, e a viadagem adquirida &amp; cong\u00eanita no baixo-clero do di\u00e1rio, reivindicam seu desejo como &#8220;amor puro&#8221; (e mais: como um amor mais puro que o heterossexual, mais-que-puro no sentido de mais-valia)? Por um lado, \u00e9 um investimento narc\u00edsico: t\u00eam-se assim em alta conta, como fruto da vitimiza\u00e7\u00e3o descrita acima mas tamb\u00e9m como um modo de acirr\u00e1-la (Freud dizia sobre sua pr\u00f3pria etnia, os judeus: s\u00e3o perseguidos em boa medida porque se colocam em posi\u00e7\u00e3o de &#8220;povo escolhido&#8221;. A quest\u00e3o econ\u00f4mica do masoquismo afinal \u00e9 que nada garante melhor, energeticamente, o narcisismo). Por outro, fazem uma propaganda enganosa em que endossam a concep\u00e7\u00e3o burguesa-rom\u00e2ntica de Amor &#8211; quando, bem ao contr\u00e1rio, os viados estariam em posi\u00e7\u00e3o de mostrar que mesmo o amor heterossexual \u00e9 equ\u00edvoco, eivado de crueldade, arbitr\u00e1rio, inconstante, historicamente recente. Entre o Plat\u00e3o do Banquete e a mulher corneada da novela da Globo, os viados n\u00e3o hesitam sobre com quem identificarem-se. \u00c9 caminho seguro para a santidade, isto \u00e9: para a posi\u00e7\u00e3o de dejeto &#8211; e se <a href=\"http:\/\/www.quadradodosloucos.com.br\/1953\/por-uma-esquerda-queer-punk\/\" target=\"_blank\">Bruno Cava nos lembra que a esquerda precisa ficar mais queer-punk<\/a>, \u00e9 tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/www.amalgama.blog.br\/10\/2011\/queerpunk-alem-do-movimento-gay\/\" target=\"_blank\">os viados que precisam ficar mais de esquerda real (e menos esquerda afetuosa: \u00e9 dizer, marxizar sua genit\u00e1lia, ao inv\u00e9s de utopizar seus cora\u00e7\u00f5eszinhos<\/a>). Como, se as Viadagens preferem ser burgu\u00easmente aceitas, e fogem do Queer e do Punk como satan\u00e1s de um crucifixo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* * * Epigrafia: escrita\u00a0na\u00a0epiderme &#8211; ou Superf\u00edcie \u00e9 Profundidade Em seu mais novo filme, Pedro Almod\u00f3var, se desvencilhando do melodrama sirkiano e das tentativas de ser Felinni ou um Carlos Saura c\u00f4mico, constr\u00f3i um conto de fadas sinistro ao gosto do mestre James Whale (\u00e9 um Noiva de Frankenstein, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,9],"tags":[1711,51,1708,1715,1714,1709,1716,1717,1710,1712,1713],"class_list":["post-3412","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01viver","tag-bissexual","tag-gay","tag-glbtt","tag-heterossexual","tag-homossexual","tag-lesbica","tag-militancia","tag-pedro-almodovar","tag-simpatizante","tag-transgeneros","tag-travestis"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3412","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3412"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3412\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4221,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3412\/revisions\/4221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}