{"id":3316,"date":"2011-08-13T10:40:38","date_gmt":"2011-08-13T13:40:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3316"},"modified":"2025-12-24T13:02:55","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:55","slug":"critica-peripatetica-por-uma-praxis-da-autoralidade-em-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3316","title":{"rendered":"Cr\u00edtica Peripat\u00e9tica: pr\u00e1xis da autoralidade em p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><a rel=\"attachment wp-att-3317\" href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?attachment_id=3317\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3317\" title=\"microphone-with-stand\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/microphone-with-stand.jpg\" alt=\"\" width=\"313\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/microphone-with-stand.jpg 313w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/microphone-with-stand-300x286.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 313px) 100vw, 313px\" \/><\/a>Para o maestro Carlos Prazeres, que, carioca, \u00e9 um pedestre convicto!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(e para seu tio Perfeito Fortuna que, de menino, o sujou nas ruas da Lapa)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><\/em>Desde que li um <a href=\"http:\/\/teatronu.blogspot.com\/2010\/06\/resposta-jussilene-ou-quero-montar.html\" target=\"_blank\">certo texto de Gil Vicente Tavares<\/a> tenho querido escrever sobre esta rela\u00e7\u00e3o fundamental entre a Reforma Urbana e a Reforma Cultural (e, de outra forma, entre a viv\u00eancia direta das ruas e o prossumo cultural). Nele, Gil Vicente aponta uma pobreza na vida cultural de Salvador (o que, como diz R\u00f3nei Jorge, &#8220;s\u00f3 acontece na Salvador que eu n\u00e3o vivo, porque a que eu vivo \u00e9 culturalmente exasperante de tanta coisa que acontece ao mesmo tempo&#8221;) a partir do fato de &#8220;ouvir Rachmaninoff dentro do carro&#8221;. Ora, como quer Gil Vicente perceber uma dada experi\u00eancia cultural se colocando fora dela? &#8211; isto \u00e9: fora da rua e dentro da bolha de metal, o autom\u00f3vel, que Le Corbusier queria usar como &#8220;arma para matar a rua&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata sequer de rejeitar a prefer\u00eancia (algo colonialista) pela m\u00fasica europ\u00e9ia &#8211; at\u00e9 porque eu pr\u00f3prio ou\u00e7o Rachmaninoff muito melhor a p\u00e9, frequentando concertos no TCA, passando pela Escola de M\u00fasica da UFBA no Canela e ouvindo involuntariamente trechos de ensaios, etc. Claro, nem tudo isso precisa ser realizado a p\u00e9 ou de bicicleta (uma variante mais potente do modo pedestre) &#8211; mas \u00e9 realizado com menos esfor\u00e7o e mais frequ\u00eancia e qualidade nestes modos. Inclusive porque, exposto ao totalmente acidental da &#8220;alma encantadora (porque sujas) das ruas&#8221; n\u00e3o se separa luxo de lixo, ou cultura erudita da cultura popular (&#8220;a literatura \u00e9 o folclore das elites&#8221;, j\u00e1 dizia Vladimir Propp), ou n\u00e3o se julga qualidade. No mesmo ponto de \u00f4nibus em que semi-marginais vendem disco pirata se pode ouvir cl\u00e1ssicos de Gonzag\u00e3o ou o pior do pior do A Bronkka. E se \u00e9 for\u00e7ado a benignamente suspender qualquer julgamento pr\u00e9vio, nem que seja por uma quest\u00e3o de conforto subjetivo, de evitar um mau-humor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de outro lugar que surge o som da Orkestra Rumpilezz, por exemplo. Letieres Leite \u00e9 outro pedestre ideol\u00f3gico &#8211; s\u00f3 assim poderia, do caos palimps\u00e9stico que \u00e9 a Sete Portas, escavar sua arqueologia mal\u00ea e fazer aquele primor em arabesco que \u00e9 a m\u00fasica Feira das Sete Portas (que n\u00e3o consta do primeiro disco da Orkestra). E de onde vem o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2418\" target=\"_blank\">cultural-jamming do BaianaSystem<\/a>? Ou por que \u00e9 que a <a href=\"http:\/\/www.opbh.com.br\/\" target=\"_blank\">Orquestra Popular da Bomba do Hemet\u00e9rio<\/a>, em Recife, tem uma vitalidade e criatividade maior que a <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1822\" target=\"_blank\">Spok Frevo<\/a> ou a Orquestra Popular do Recife? &#8211; porque n\u00e3o tem medo de se sujar no brega da periferia da Mauric\u00e9ia Desvairada (nisso se iguala ao Momboj\u00f3), nem de ser taxada de impura pelos puristas armoriais tipo Ariano Suassuna. Era das vantagens t\u00e1ticas de ter <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=863\" target=\"_blank\">Marcio Meirelles, um pipoqueiro ideol\u00f3gico<\/a> que nunca teve carro, como Secret\u00e1rio de Cultura do Estado da Bahia &#8211; diferente de Albino Ru(b)im, um burocrata academicista e politiqueiro palaciano no mau sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 disse v\u00e1rias vezes, concordando com Gilles Deleuze (de quem no entanto n\u00e3o gosto) que a cr\u00edtica cultural tem de ser uma cl\u00ednica (no sentido wittgensteiniano do termo) da autoralidade e uma did\u00e1tica (sem ser uma pedagogia) da recep\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9: ajudar a mosca a sair da garrafa, levar os autores e artistas e formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas a entenderem onde est\u00e1 o impasse e apontar vias de super\u00e1-los; e dar ferramentas para que o p\u00fablico possa compreender melhor o que flui e porque gosta de tal coisa e n\u00e3o de outra, sem no entanto tutel\u00e1-lo ou infantiliz\u00e1-lo. N\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 disse isso, como <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1497\" target=\"_blank\">exerci isso ao tomar da Psican\u00e1lise o dispositivo do Cartel e aplicar \u00e0 forma-can\u00e7\u00e3o<\/a>; e quando digo que o blog \u00e9 meio, mas n\u00e3o fim: fim e finalidade \u00e9 o di\u00e1logo real, presencial, di\u00e1rio, com certas pessoas, e com a cidade (viva, pedestre) em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, quando a tr\u00eas anos atr\u00e1s resolvi deixar de usar carro e preferir a bicicleta como principal (mas n\u00e3o \u00fanico) meio de transporte (porque sem buz\u00fa em Salvador n\u00e3o se vive a cidade real, que o diga o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2881\" target=\"_blank\">Suinga e seu sorvete de caj\u00e1 na Esta\u00e7\u00e3o da Lapa esperando seu Cajazeiras X<\/a>) foi para que a cr\u00edtica deixasse de ser de gabinete &#8211; no mesmo sentido que <a href=\"http:\/\/www.livrariaresposta.com.br\/v2\/produto.php?id=89048\" target=\"_blank\">Antonio Lancetti fala que na Reforma Psiqui\u00e1trica a cl\u00ednica continua a ser psicanal\u00edtica, mas ao inv\u00e9s de deitada no div\u00e3, \u00e9 em p\u00e9 e transitando pela cidade<\/a> &#8211; com todos os riscos, inclusive contra-transferenciais, que isso implica. Ou como diz Luciano Elia: ningu\u00e9m atende autistas para ser mordido, mas ser mordido por um autista \u00e9 algo que pode acontecer, e se deve suportar, uma vez que se os atende. Como se v\u00ea, a Reforma Cultural depende da Reforma Urbana tanto quanto a Reforma Psiqui\u00e1trica, e esta depende tamb\u00e9m da Cultural &#8211; todas dizem respeito a liberdade radical do direito a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso na associa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre o pensar-andando aristot\u00e9lico, reavivado por Franco Basaglia em outro sentido (&#8220;o psicoterap\u00eautico \u00e9 a cidade&#8221;, &#8220;a cidade que liberta em seu anonimato&#8221;, diria Hausmann; &#8220;a cidade que educa, enquanto a escola apenas instrui&#8221;, diria Ivan Ilich), e a moda atual dos Stand-Up Comedies. N\u00e3o que eu aprecie o g\u00eanero, a meu ver um mito burgu\u00eas importacionista do american-way-of-life. Mas h\u00e1 nele uma positividade: a arte (isto \u00e9: o risco no qual o artista se equilibra) na com\u00e9dia-em-p\u00e9 \u00e9 seu corpo n\u00fa. Nada h\u00e1 entre ele e a plateia a n\u00e3o ser um microfone &#8211; isto \u00e9: sua pr\u00f3pria voz. Quase n\u00e3o h\u00e1 personagem. Nada se vende ali a n\u00e3o ser o corpo pr\u00f3prio (como os psicanalistas e as prostitutas). Uma autoralidade que n\u00e3o teme se ro\u00e7as, e se contaminar, da imundice (aquilo que vem do mundo) dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, o blog de Gil Vicente se chama Teatro N\u00fa &#8211; por causa do seu bom projeto &#8220;Teatro N\u00fa Cinema&#8221;. Mas parece que o rapaz n\u00e3o consegue se despir de sua carapa\u00e7a de metal motorizada, nem de sua ideologia de classe, menos ainda de uma heteronormatividade que me parece apenas fachada. Ainda que, vejam bem, eu concordo com ele quando diz que h\u00e1 um imperativo categ\u00f3rico da grosseria na bahianidade, que precisa ser extirpado e que nos faz muito mal; que o black-is-business largamente j\u00e1 deu o que tinha de dar e se tornou quase t\u00e3o autof\u00e1gico quanto o Ax\u00e9-System medioclassista branco a que se propunha tamb\u00e9m a combater.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se ampliar meus modos de transporte, em dire\u00e7\u00e3o a formas mais aut\u00f4nomas e rueiras, foi fundamental para me fazer o cr\u00edtico cultural que me tornei, parece que minha recente mudan\u00e7a para a Gamboa de Cima exponencializa isso (<a href=\"http:\/\/www.descurvo.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">Hugo Albuquerque chamaria isso de guerrilha partisan<\/a>) &#8211; tanto pela proximidade com o Teatro Castro Alves quanto com os botecos do Largo Dois de Julho e mesmo com os crack\u00f4manos da muradinha da Avenida Conselheiro Lafayete Coutinho (Contorno), cuja presen\u00e7a me incomoda menos do que se pode supor. Coincidiu minha mudan\u00e7a com finalmente o in\u00edcio da leitura do cl\u00e1ssico manifesto de <a href=\"http:\/\/pt.scribd.com\/doc\/4799781\/geografiayves-lacoste\" target=\"_blank\">Yves Lacoste, &#8220;Geografia: isto serve, em primeiro lugar, para fazer guerra&#8221;<\/a>. Faltam aos cr\u00edticos, e aos artistas e autores, e aos gestores p\u00fablicos e privados, um racioc\u00ednio estrat\u00e9gico geogr\u00e1fico &#8211; isto \u00e9: de tomada e retomada de territ\u00f3rio. N\u00e3o falta sempre, uma vez que a <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=391\" target=\"_blank\">SalaDeArte<\/a> por exemplo sabe muito bem o efeito que tem em seu entorno, <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2683\" target=\"_blank\">aumentando seu afluxo pedestre mesmo em bairros carrodependentes como o Itaigara<\/a>. Falta, mas come\u00e7a-se a migrar nesta dire\u00e7\u00e3o quando vejo o Encontro de Compositores do Teatro Vila Velha ser um lugar em que o discurso pelo melhor uso da cidade, mais densa, aparece sempre e sempre e fora do lugar comum. Ali\u00e1s, \u00e9 no Encontro de Compositores do Teatro Vila Velha onde mais se pratica tamb\u00e9m uma autoralidade stand-up, com seu despojamento para o bem e para o mal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o maestro Carlos Prazeres, que, carioca, \u00e9 um pedestre convicto! 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