{"id":3198,"date":"2011-06-03T14:46:52","date_gmt":"2011-06-03T17:46:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3198"},"modified":"2025-12-24T13:02:55","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:55","slug":"o-som-das-sextas-xxxii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3198","title":{"rendered":"O Som das Sextas &#8211; XXXII"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Abordar o espec\u00edfico do cancioneiro de <strong><a href=\"http:\/\/tramavirtual.uol.com.br\/manuela_rodrigues\" target=\"_blank\">Manuela Rodrigues<\/a><\/strong> se coloca para mim como uma dificuldade, menos enquanto cr\u00edtico, mais enquanto psicanalista. A rigor, dever\u00edamos chamar de impossibilidade &#8211; o imposs\u00edvel de responder, com Freud, &#8220;o que quer uma mulher?&#8221; (porque, lembremos, de mais de uma n\u00e3o se pode falar &#8211; enquanto dos homens se pode falar coletivamente, em massa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que sua obra \u00e9 idiossincr\u00e1sica do ponto de vista formal: a um s\u00f3 tempo m\u00fasica erudita e samba, m\u00fasica eletr\u00f4nica e bossa &#8211; o que leva a Jarbas Bitencourt cham\u00e1-la de &#8220;choro progressivo&#8221;. Mas a quest\u00e3o que coloco \u00e9 mais al\u00e9m (ou mais aqu\u00e9m), e n\u00e3o se trata tampouco de conte\u00fado tem\u00e1tico (embora passe tamb\u00e9m por ele). Trata-se de a-causa (o que em psican\u00e1lise se leria como &#8220;A-barrado&#8221; causa &#8211; a causa n\u00e3o-todo a dizer).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu primeiro contato pessoal com Manuela se deu em um dos primeiros Encontros de Compositores do Teatro Vila Velha, em outubro do ano passado. Perguntei-lhe ent\u00e3o, admito que com ares de esfinge, se haveria uma can\u00e7\u00e3o especificamente feminina &#8211; uma vez que o universo de compositores populares \u00e9 masculino e de int\u00e9rpretes \u00e9 feminino, mas ela pr\u00f3pria \u00e9 mais compositora do que interprete. A princ\u00edpio ficou meio atordoada, como quem tenta balbuciar uma resposta, tateia e n\u00e3o encontra significantes (o que deveria ser \u00f3bvio: o significante de A Mulher n\u00e3o existe enquanto inscrito no inconsciente). Da\u00ed, tive de construir com ou para ela uma resposta: &#8220;talvez uma can\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse ostenta\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, mas uma tentativa de grafar o Outro gozo&#8221;. Como Manuela \u00e9 familiar a certo vocabul\u00e1rio da psican\u00e1lise, consentiu: &#8220;\u00e9 isto mesmo&#8221;.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong><\/p>\n<div id=\"attachment_3205\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a rel=\"attachment wp-att-3205\" href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?attachment_id=3205\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3205\" class=\"size-full wp-image-3205\" title=\"manuelarodrigues\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/manuelarodrigues.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/manuelarodrigues.jpg 640w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/manuelarodrigues-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3205\" class=\"wp-caption-text\">A n\u00e3o-toda daqui (ou &quot;Uma Outra qualquer por a\u00ed&quot;)<\/p><\/div>\n<p><\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma arqueologia poss\u00edvel do cancioneiro feminino no Brasil &#8211; especialmente se lembrarmos que a precursora do formato-can\u00e7\u00e3o, ainda no 2\u00ba Imp\u00e9rio, era uma mulher: Chiquinha Gonzaga &#8211; muito mais do que Alberto Nepomuceno ou Zequinha de Abreu. E nela se pode at\u00e9 constatar uma brejeirice imaginariamente feminina, que no entanto n\u00e3o representa diferen\u00e7a de causa, estrutura ou significa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao cancioneiro dos homens, inclusive pela aus\u00eancia de letra. Depois, em meio a Era Vargas, com as divas do r\u00e1dio, surge uma que cantava menos do que compunha: Dolores Duran.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Dolores, sim, aparece algo espec\u00edfico do simb\u00f3lico da feminilidade: o fato de que uma mulher s\u00f3 \u00e9 representada para um homem &#8211; se as mulheres querem uma significa\u00e7\u00e3o (\u00e9 a resposta freudiana a pergunta &#8220;o que querem?&#8221;), ela s\u00f3 pode vir do fato de serem desejadas por um homem. Posi\u00e7\u00e3o esta, de serem desejadas, bastante masoquista (e lembramos, novamente, com Freud que falar em mulheres masoquistas \u00e9 uma redund\u00e2ncia, uma vez que a pr\u00f3pria falta f\u00e1lica as coloca em condi\u00e7\u00e3o \u00f4nticamente masoquista), o que Dolores Duran retrata s\u00e3o mulheres em uma posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o abandonada e amorosa ao desejo de um homem. Propriamente, o eu-l\u00edrico de Dolores \u00e9 o da mulher que aceita ser A Outra, a amante, a que est\u00e1 em segundo plano porque ocupa o lugar apenas de objeto de\u00a0desejo, e n\u00e3o do matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem depois, nos anos de abertura do \u00faltimo regime militar, surge Tet\u00ea Sp\u00edndola (que hoje influencia involuntariamente a excelente Tulipa Ruiz). Para al\u00e9m da curiosidade escrachadamente engra\u00e7ada de sua voz em sopran\u00edssimo, seu visual estramb\u00f3tico e de tocar ala\u00fade, Tet\u00ea compunha e muito! &#8211; e de um lugar feminino. Agora de uma mulher que n\u00e3o mais aceita um lugar secund\u00e1rio e submisso do desejo de um homem; a voz po\u00e9tica de Tet\u00ea Sp\u00edndola exige, mais do que meramente demanda, gozo de seus parceiros amorosos. \u00c9 ainda uma mulher que s\u00f3 se representa a partir de um homem, mas em posi\u00e7\u00e3o ativa, e por isso ainda mais hist\u00e9rica, uma vez que falicizada &#8211; que &#8220;ca\u00e7a como um homem&#8221;. Tet\u00ea mant\u00e9m, contudo, um tra\u00e7o de uni\u00e3o com Dolores: o apelo ao cafona, ao brega, a est\u00e9tica de r\u00e1dio AM re-elaborada sofisticadamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 90 surgem uma gama de interpretes e compositoras femininas l\u00e9sbicas &#8211; tendo seu maior \u00edcone em Cassia Eler, uma George Sand do nosso tempo. Neste rol, n\u00e3o incluo Adriana Calcanhoto que, embora componha eximiamente, nada tem de espec\u00edfico da feminilidade (sequer da homossexualidade feminina) em seu cancioneiro. A homossexualidade das mulheres, lembremos, tamb\u00e9m \u00e9 um sintoma hist\u00e9rico: uma tentativa de se re-posicionar na l\u00f3gica f\u00e1lica dos significantes (dispensando, justamente, o falo, que \u00e9 substituido integralmente pelo amor; ou emulando o desejo masculino, sem um p\u00eanis) e de representar o gozo de A-Mulher (aquele que \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o foracluso do inconsciente &#8211; e que aparece, por\u00e9m e por isto mesmo, nos psic\u00f3ticos de ambos os sexos). Nisto se destaca Ana Carolina: apesar de uma obra que reputo simpl\u00f3ria e tecnicamente question\u00e1vel, \u00e9 nela que a feminilidade enquanto homossexualidade (emula\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da masculinidade) comparece com toda clareza, a custo inclusive de eliminar met\u00e1foras.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <strong>Manuela Rodrigues<\/strong> a quest\u00e3o j\u00e1 \u00e9 de todo diferente. As mulheres, em primeira pessoa, comparecem na sua l\u00edrica representando-se independentemente dos homens; o que h\u00e1 de feminilidade a\u00ed \u00e9 justamente a quest\u00e3o de &#8220;o que \u00e9 uma mulher, uma vez que agora as diferen\u00e7as de g\u00eanero n\u00e3o mais existem, mas as de sexua\u00e7\u00e3o sim?&#8221; (e nisto segue a trilha aberta por Rita Lee, em\u00a0can\u00e7\u00f5es como\u00a0&#8220;Cor de Rosa-Choque&#8221; e &#8220;Ovelha Negra&#8221;). E da\u00ed que ela pode se questionar: &#8220;<em>Mo\u00e7a de fam\u00edlia \/ (&#8230;) \/ e quem foi que tirou minha honra?<\/em>&#8220;; identificar-se como &#8220;<em>Eu, profissional liberal \/ dona do meu umbigo \/ em que botei um piercing \/ pra fingir que n\u00e3o ligo pra idiotice<\/em>&#8220;; e que n\u00e3o tem vergonha de ser &#8220;<em>O tipo de mulher \/ barraqueira que apronta<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"480\" height=\"390\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/bOjIDr3RtBw\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"480\" height=\"390\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/PE4TkrWN7A4\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De alguma forma, esta ambiguidade aparece no mesmo corpo de Manuela Rodrigues: rosto de crian\u00e7a e jeito de adolescente, mas muito senhora-de-si quando se chega perto; mulata, de tran\u00e7os bem europeus; vinda de uma fam\u00edlia de intelectuais acad\u00eamicos e com forma\u00e7\u00e3o em canto l\u00edrico e oper\u00edstico, mas ligada ao samba. Entre as etnias, entre os g\u00eaneros musicais, entre identidades et\u00e1rias e de \u00e9poca, e entre o lado de fora e de dentro da sexua\u00e7\u00e3o, re-significando-se a cada nova can\u00e7\u00e3o &#8211; porque A-Mulher\u00a0enquanto significante universalmente foracluso, o Outro Sexo, s\u00f3 pode aparecer no interdito entre um significante e outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abordar o espec\u00edfico do cancioneiro de Manuela Rodrigues se coloca para mim como uma dificuldade, menos enquanto cr\u00edtico, mais enquanto psicanalista. 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