{"id":3117,"date":"2011-04-27T12:52:17","date_gmt":"2011-04-27T15:52:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3117"},"modified":"2025-12-24T13:02:55","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:55","slug":"esforco-de-um-malogro-profissional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3117","title":{"rendered":"esfor\u00e7o de um Malogro profissional"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 tem tempo que tem me irritado certo elogio da dita cr\u00edtica musical baiana (em sua maioria formada por jornalistas que n\u00e3o sabem que Vladimir Propp existiu, e conhecem Theodor Adorno por orelhada de apostilas de gradua\u00e7\u00e3o) a banda <strong><a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/maglorebanda\" target=\"_blank\">Maglore<\/a><\/strong>. Contudo, eu evitava falar a respeito. Primeiro porque considero t\u00e3o irrelevante que o melhor \u00e9 ignorar que existe, e n\u00e3o falar deles sequer pra falar mal (\u00e9 o que um destes jornalistas culturais, a quem ali\u00e1s admiro e respeito, <a href=\"http:\/\/twitter.com\/lubmatos\" target=\"_blank\">Luciano Matos<\/a>, diz a respeito do Restart). Porque pra mim a <strong>Maglore<\/strong> n\u00e3o passa disso: um Restart &#8220;\u00e0 esquerda&#8221; &#8211; n\u00e3o porque eles sejam de esquerda (na verdade eles nem sabem o que s\u00e3o), e sim porque seu p\u00fablico e seus apoiadores intelectuais v\u00eam do Anti-Ax\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a rel=\"attachment wp-att-3118\" href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?attachment_id=3118\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-3118\" title=\"maglore-divulgacao-foto-por-lucas-azevedo\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/maglore-divulgacao-foto-por-lucas-azevedo-300x237.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/maglore-divulgacao-foto-por-lucas-azevedo-300x237.jpg 300w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/maglore-divulgacao-foto-por-lucas-azevedo.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Sua exist\u00eancia \u00e9 t\u00e3o desimportante quanto inofensiva &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 inofensivo \u00e9 o &#8220;muito barulho por nada&#8221; que se faz ao redor destes rapazes. \u00c9 isso que preocupa: a dita cr\u00edtica parece ter perdido a criticidade. Qualquer coisa vale no P\u00f3s-Ax\u00e9, por mais inconsistente que seja, desde que seja uma banda &#8220;esfor\u00e7ada&#8221; e &#8220;profissional&#8221; &#8211; diz o jornalismo cultural bahiano e a produ\u00e7\u00e3o cultural que cresceu sob a Era Marcio Meirelles. Esse elogio do profissionalismo, conquanto seja ben\u00e9fico ao Anti-Ax\u00e9 at\u00e9 certo ponto, est\u00e1 na medula \u00f3ssea do Ax\u00e9-System, devemos nos lembrar &#8211; e da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica como um todo (algu\u00e9m duvida que Luan Santanna, essa irrelev\u00e2ncia de Mar\u00edlia, \u00e9 &#8220;esfor\u00e7ado&#8221; e &#8220;profissional&#8221;?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da \u00fanica vez que vi a <strong>Maglore<\/strong> tocar ao vivo foi encerrando um show da Formid\u00e1vel Fam\u00edlia Musical, j\u00e1 exilada no Rio de Janeiro, que ocorreu na Boomerangue quase um ano antes de ela fechar. Ou seja: estou dando o desconto de que, talvez, naquele momento, a <strong>Maglore<\/strong> fosse imatura e n\u00e3o tivesse ainda um repert\u00f3rio autoral ou interpretativo pr\u00f3prio. Por\u00e9m, ressalvo: o primeiro show da <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2447\" target=\"_blank\">TenTrio<\/a>, por exemplo, tinha um uso de palco t\u00e3o ruim que parecia ensaio &#8211; mas o som era de uma vitalidade e personalidade impressionantes. E olhe que eles n\u00e3o t\u00eam letra, posto que fazem apenas instrumental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, neste show que vi da Maglore ela ocilava entre um grupo de crooning para baile de debutantes e um cover dessas bandas de pop-rock (que no fim da conta s\u00e3o de axez\u00e3o rasteiro e radiof\u00f4nico mal-disfar\u00e7ado) que tocam em boates de mauricinhos da Pituba (carr\u00f3filos e que deliram que o Pelourinho est\u00e1 abandonado, embora n\u00e3o passem num raio de 5km de l\u00e1 desde que nasceram).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posteriormente, quando eles lan\u00e7aram seu disco, comentei no twitter, com muita parcim\u00f4nia, que eu tinha restri\u00e7\u00f5es a <strong>Maglore<\/strong> e que precisava ouvir mais ao vivo, e estava disposto a tal. A rea\u00e7\u00e3o de Teago, seu vocalista e compositor, foi a pior poss\u00edvel: chegou mesmo a dizer que o papel da cr\u00edtica \u00e9 irrelevante no processo de constru\u00e7\u00e3o autoral, de recepc\u00e3o do p\u00fablico e de Reforma Cultural do Estado. (Notem: quando a &#8220;cr\u00edtica&#8221; lhes elogia, ela n\u00e3o \u00e9 irrelevante. Notem: s\u00e3o os \u00fanicos &#8220;autores&#8221;, e nem digo s\u00f3 da Bahia, a pensarem assim hoje, uma vez que artistas e produtores ativamente buscam a an\u00e1lise dos cr\u00edticos &#8211; desde as orquestras eruditas at\u00e9 os sambistas. Como ali\u00e1s soe de ser em qualquer per\u00edodo est\u00e9tico f\u00e9rtil).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que fique claro que n\u00e3o considero que a Teago falte talento: uma vez no Encontro de Compositores do Teatro Vila Velha ele mostrou um ijex\u00e1 muito bonito; em outro, uma can\u00e7\u00e3o que ele queria que fosse bossa nova e n\u00e3o foi, depois frevo e n\u00e3o foi e ele n\u00e3o sabia o que era &#8211; na verdade, era uma levada-ax\u00e9 bem a estilo de <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=3020\" target=\"_blank\">R\u00f3nei Jorge<\/a> e do <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2881\" target=\"_blank\">Suinga<\/a> (nada a ver, portanto, com o axez\u00e3o zumbi privatista). \u00c9 a\u00ed que reside o problema: seu talento n\u00e3o tem rumo. Talento \u00e9 apenas energia, no sentido newtoniano do termo: capacidade de realizar trabalho. Bem direcionado, \u00e9 prof\u00edcuo e eficiente como uma bicicleta ou um trem; mal direcionado, \u00e9 um disperd\u00edcio id\u00eantico ao de um autom\u00f3vel. Se talento n\u00e3o falta (embora n\u00e3o seja muito), falta projeto est\u00e9tico (isto \u00e9: tamb\u00e9m pol\u00edtico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teago n\u00e3o apenas parece desconhecer como direcionar melhor seu talento (muito porque p\u00fablico e &#8220;cr\u00edtica&#8221; o blindam com o discurso do &#8220;profissionalismo e esfor\u00e7o&#8221; &#8211; esfor\u00e7o como se v\u00ea meramente bra\u00e7al, alienante e alienado, uma vez que n\u00e3o \u00e9 reflexivo nem autocr\u00edtico), como ele parece que n\u00e3o quer saber: \u00e9 a ignor\u00e2ncia como definido no dialeto bahian\u00eas &#8211; &#8220;n\u00e3o sei, n\u00e3o quero saber e tenho raiva de quem sabe&#8221;. Num destes Encontros do Vila Velha falei-lhe sobre como <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2079\" target=\"_blank\">Letieres Leite me explicara que ijex\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero, mas uma fam\u00edlia de g\u00eaneros tal qual o samba, o frevo e o bumba-boi<\/a>; Teago ouviu com relativo desd\u00e9m. Em outro epis\u00f3dio, falei-lhe que sua tal levada-ax\u00e9 poderia ter virado um frevo-de-bloco, l\u00edrico e minuetado, mais pr\u00f3ximo da bossa nova &#8211; resposta: &#8220;\u00c9 que eu n\u00e3o ou\u00e7o esse tipo de coisa, s\u00f3 rock&#8221;, o que eu complementaria mentalmente &#8220;rock radiof\u00f4nico, voc\u00ea quer dizer&#8230;&#8221;. Ainda neste mesmo dia, tentei abordar peculiaridades est\u00e9ticas com ele por exemplo do Retrofoguetes e da Rumpilezz: suas respostas, num misto de arrog\u00e2ncia e indisfar\u00e7\u00e1vel inseguran\u00e7a, foram mitificadoras do tipo &#8220;s\u00e3o g\u00eanios, e por isso inanalis\u00e1veis&#8221;, o que al\u00e9m de paralisante para ele e inviabilizador do debate \u00e9 uma fal\u00e1cia: ambos os grupos se submetem sistematicamente a avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e pedem por ela &#8211; inclusive comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez esta emp\u00e1fia da <strong>Maglore<\/strong> advenha justo do elogio excessivo (e vazio e irrefletido) que o jornalismo e os produtores (e n\u00e3o a cr\u00edtica!) vem fazendo a eles: tornaram-se crian\u00e7as mimadas. O que ali\u00e1s talvez tenham sempre sido. Uma das piores caracter\u00edsticas da Maglore \u00e9 sua falta de identidade com Salvador, e com a Salvador da Reforma Cultural. \u00c9 uma banda digamos &#8220;international style&#8221;. N\u00e3o por acaso: seus membros s\u00e3o do Imbu\u00ed e arrabaldes, naquela \u00e1rea em que Salvador n\u00e3o \u00e9 Salvador. S\u00e3o o que se chamaria, l\u00e1 na Barra Avenida, de &#8220;meninos de playground&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Que fique claro que esta cr\u00edtica, virulenta, que acabo de fazer n\u00e3o visa isolar ou ostracizar ningu\u00e9m. Se a <strong>Maglore<\/strong> for esperta, usa isso como um koan soto-zen e procura mudar de posi\u00e7\u00e3o. Ou segue me ignorando como cr\u00edtico, confortavelmente.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 tem tempo que tem me irritado certo elogio da dita cr\u00edtica musical baiana (em sua maioria formada por jornalistas que n\u00e3o sabem que Vladimir Propp existiu, e conhecem Theodor Adorno por orelhada de apostilas de gradua\u00e7\u00e3o) a banda Maglore. Contudo, eu evitava falar a respeito. Primeiro porque considero t\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[933],"tags":[1619,20,1617,1616,1618,511,1329,136,15],"class_list":["post-3117","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-retorno-da-cancao","tag-axe-system","tag-bahia","tag-banda","tag-maglore","tag-pop","tag-pos-axe","tag-reforma-cultural","tag-rock","tag-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3117"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3117\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3122,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3117\/revisions\/3122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}