{"id":2977,"date":"2011-02-14T21:49:15","date_gmt":"2011-02-15T00:49:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2977"},"modified":"2025-12-24T13:02:55","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:55","slug":"teoretica-praxis-do-anti-jornalismo-n%c2%ba2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2977","title":{"rendered":"Teor\u00e9tica &#038; Pr\u00e1xis do Anti-Jornalismo &#8211; n\u00ba2"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em><a rel=\"attachment wp-att-2995\" href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?attachment_id=2995\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2995\" title=\"folha\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/folha.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/folha.jpg 320w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/folha-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/folha-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a>Fato, Not\u00edcia, Interpreta\u00e7\u00e3o e Verdade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <strong>Jornalismo<\/strong> \u00e9 o dispositivo pelo qual, num modelo industrial de neg\u00f3cio, se transforma a mat\u00e9ria prima (o Fato) em mercadoria (Not\u00edcia) numa produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie. Esta mercadoria s\u00f3 tem seu valor de troca garantido pela suposi\u00e7\u00e3o de Verdade (&#8220;factual&#8221;) que atribu\u00edmos a ela &#8211; embora seu valor de uso esteja em propor\u00e7\u00e3o inversa a isso: quanto mais se \u00e9 Not\u00edcia, menos fidelidade para com o Fato e menos Verdade porta. Nisso a not\u00edcia n\u00e3o se difere de nenhuma outra mercadoria &#8211; de um carro, por exemplo, que vale tanto mais a partir de sua pot\u00eancia virtual atribu\u00edda quanto menos realiza\u00e7\u00e3o de deslocamento (eles causam congestionamentos&#8230;) \u00e9 capaz de factualmente realizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema se d\u00e1 na particularidade do trabalho do Jornalista. Sujeito partido ao meio, tem o imperativo da verdade factual de um lado, e da produ\u00e7\u00e3o celeremente fordista de not\u00edcias de outro. O mais prov\u00e1vel, diante deste dilema, \u00e9 que n\u00e3o consiga produzir nem uma coisa nem outra: nem not\u00edcias aos borbot\u00f5es, nem not\u00edcias com alto grau de integralidade factual. Isso explica em parte como o <strong>Des-Jornalismo<\/strong> atual \u00e9 consequ\u00eancia inevitavel da exist\u00eancia do Jornalismo ele mesmo enquanto pr\u00e1tica discursiva &#8211; e que Jornalistas da velha guarda como Mino Carta apregoem um &#8220;retorno ao modo antigo de fazer jornalismo, com fidelidade canina a verdade factual&#8221; nada mais \u00e9 do que um bucolismo pseudo-aristocr\u00e1tico, uma fantasia na qual a Idade Industrial seria revers\u00edvel e poder\u00edamos todos ter uma casa no campo &amp; muitos rocks-rurais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, contudo, ainda, um mal-entendido inescap\u00e1vel na rela\u00e7\u00e3o entre <strong>Verdade<\/strong>, <strong>Fato<\/strong> e <strong>Not\u00edcia<\/strong>. Dissemos acima que a Not\u00edcia \u00e9 uma perda (mais-valia) da densidade de Verdade dos Fatos &#8211; \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o v\u00e1lida, mas imprecisa. H\u00e1 dois conceitos de Verdade aqui em jogo: a verdade como &#8220;relato mais ou menos fiel dos fatos&#8221; e a verdade como &#8220;a descoberta, ou entendimento, do que causou os fatos&#8221; &#8211; esta \u00faltima s\u00f3 \u00e9 alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da Interpreta\u00e7\u00e3o, fun\u00e7\u00e3o que teoricamente \u00e9 inalien\u00e1vel do leitor. Isto \u00e9: o Jornalista n\u00e3o a poderia fazer por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Poderia&#8221; e &#8220;teoricamente&#8221; porque a p\u00f3s-modernidade \u00e9 capaz de fazer acontecer os imposs\u00edveis da mediocridade (<a href=\"http:\/\/diariogauche.blogspot.com\/2011\/01\/o-modo-lumpen-de-estar-no-mundo.html\" target=\"_blank\">o que Crist\u00f3v\u00e3o Feil gosta de chamar &#8220;lumpenzinato&#8221;<\/a>). O surgimento dos chamados &#8220;\u00c2ncoras&#8221; na TV americana dos anos 1970 marca a arqueologia desta transi\u00e7\u00e3o: um Jornalista que \u00e9 pago n\u00e3o para produzir Not\u00edcia a partir dos Fatos, mas para Interpretar a Not\u00edcia em nome do coletivo de leitores &#8211; colocando-os em total passividade arreflexiva, aliena\u00e7\u00e3o em segunda pot\u00eancia (dos Fatos e da Verdade a que se chega interpretando estes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <strong>Des-Jornalismo<\/strong> n\u00e3o apenas aliena os leitores dos meios de produ\u00e7\u00e3o e de suas escolhas de consumo, como tamb\u00e9m o Jornalista numa posi\u00e7\u00e3o de &#8220;especializa\u00e7\u00e3o flex\u00edvel&#8221; francamente toytotista: aquele que sabe fazer tudo, e por isso nada sabe fazer realmente. O Des-Jornalismo \u00e9 assim o Jornalismo (enquanto pr\u00e1tica discursiva) levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, coet\u00e2neo inevit\u00e1vel do neoliberalismo, levando seu sistema ao paroxismo de suas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m nisso o <strong>Jornalismo<\/strong> \u00e9 hoje o que foi a Psiquiatria nos anos 1970. A t\u00edtulo de gerir totalmente a vida do louco (&#8220;secretariar o alienado&#8221;) a bondade psiqui\u00e1trica n\u00e3o o deixava viver sua loucura, salvo aquela que a Psiquiatria lhe impunha: a do hosp\u00edcio. A t\u00edtulo de bem-informar (&#8220;a \u00e9tica do jornalismo&#8221;), o Jornalismo impede sutilmente o leitor de viver suas Verdades, seus Fatos e suas Interpreta\u00e7\u00f5es: nada existir\u00e1 na sua realidade mental, sen\u00e3o a realidade da Not\u00edcia. Como todas as outras mercadorias, a Not\u00edcia alcan\u00e7a assim o status de fetiche.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que pr\u00e1ticas ent\u00e3o o <strong>Anti-Jornalismo<\/strong> (no sentido, cada vez mais claro inclusive para mim, em que se diz Anti-Psiquiatria) pode estabelecer na contra-m\u00e3o disso? N\u00e3o se trata de negar a Idade Industrial nem a capacidade de velocidade e penetra\u00e7\u00e3o da Not\u00edcia, como n\u00e3o se tratava de descartar o uso de medicamentos neurol\u00e9pticos nos anos 1970, sem os quais a Reforma Psiqui\u00e1trica seria impratic\u00e1vel. Se tratava de entender que, embora parte fundamental e inevitavel do tratamento, n\u00e3o era nos medicamentos que este residia, e mesmo poderiam haver tratamentos de psicose que n\u00e3o passassem pela prescri\u00e7\u00e3o medicamentosa; o mesmo para a Not\u00edcia: \u00e9 fundamental que ela exista, mas n\u00e3o dependemos dela (o que a retira da posi\u00e7\u00e3o de fetiche, voltando a ser mera mercadoria), e \u00e9 preciso ir assim al\u00e9m dela. Isto \u00e9: resgatar nosso direito a interpreta\u00e7\u00e3o, inclusive mutua e coletivamente realizada &#8211; e isso os blogs j\u00e1 servem bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 outra postura pr\u00e1tica que eu tomo desde o contato direto com o fato. Os Jornalistas tem mania de anotar tudo para &#8220;n\u00e3o perder os detalhes importantes&#8221; quando v\u00e3o apurar um fato ou fazer uma entrevista &#8211; e \u00e9 justamente a\u00ed que o principal se perde, e o Fato vira mercadoria. Eu jamais anoto nada quando estou a &#8220;cobrir&#8221; algo &#8211; uso da aten\u00e7\u00e3o flutuante, oriunda da Psican\u00e1lise, que justamente me permite reter aquilo que fala ao meu desejo de analista ou mesmo ao meu sintoma enquanto sujeito. S\u00f3 a\u00ed \u00e9 que o fundamental n\u00e3o-fetichizado se fixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falei &#8220;cobrir&#8221;, contudo o termo \u00e9 mal colocado aqui. Cobrir, em Jornalismo, implica em sistematicamente buscar os fatos &#8211; n\u00e3o h\u00e1, assim, aten\u00e7\u00e3o flutuante nem associa\u00e7\u00e3o livre: age-se como oper\u00e1rio-padr\u00e3o. Eu jamais &#8220;busco&#8221; ativamente os fatos; ao contr\u00e1rio, me permito estar neles quase por acidente, o que \u00e9 parte indissoci\u00e1vel da t\u00e9cnica de associa\u00e7\u00e3o livre e de aten\u00e7\u00e3o flutuante inventada por Freud, e que ao meu ver caem a perfei\u00e7\u00e3o no desmonte da institui\u00e7\u00e3o Jornalismo tal qual cairam, mas em outro contexto, no desmonte da institui\u00e7\u00e3o Psiquiatria: l\u00e1 onde o Psiquiatra buscava insidiosamente sinais e sintomas, o psicanalista apenas se permite escutar; l\u00e1 onde o Jornalista apura (<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2045\" target=\"_blank\">&#8220;<em>s\u00f3 pela usura de falar de mim<\/em>&#8220;, diria Thiago Kalu<\/a>), o Anti-Jornalista deve se permitir testemunhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fato, Not\u00edcia, Interpreta\u00e7\u00e3o e Verdade O Jornalismo \u00e9 o dispositivo pelo qual, num modelo industrial de neg\u00f3cio, se transforma a mat\u00e9ria prima (o Fato) em mercadoria (Not\u00edcia) numa produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie. Esta mercadoria s\u00f3 tem seu valor de troca garantido pela suposi\u00e7\u00e3o de Verdade (&#8220;factual&#8221;) que atribu\u00edmos a ela &#8211; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,13,9],"tags":[1064,1401,1065,1573],"class_list":["post-2977","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01ler","category-01viver","tag-anti-jornalismo","tag-des-jornalismo","tag-jornalismo","tag-reforma-midiatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2977"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2977\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3049,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2977\/revisions\/3049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}