{"id":2889,"date":"2010-11-16T22:57:43","date_gmt":"2010-11-17T01:57:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2889"},"modified":"2025-12-24T13:02:56","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:56","slug":"trufaut-revisited","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2889","title":{"rendered":"Trufaut, revisited"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/EU-MATEI-MINHA-M\u00c3E.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2891\" title=\"EU MATEI MINHA M\u00c3E\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/EU-MATEI-MINHA-M\u00c3E-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/EU-MATEI-MINHA-M\u00c3E-228x300.jpg 228w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/EU-MATEI-MINHA-M\u00c3E-780x1024.jpg 780w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/EU-MATEI-MINHA-M\u00c3E.jpg 1073w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><\/a>Sob o aspecto da f\u00e1bula (isto \u00e9, como diz <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1579\" target=\"_blank\">Prof. Andr\u00e9 Setaro<\/a>, da narrativa que se desenvolve, do enredo que \u00e9 contado) <em><strong>J&#8217;ai tu\u00e9 ma M\u00e8re<\/strong><\/em> ficaria meramente no plano do confessionalismo adolescente bem-feito, algo entre Goethe e Musset, acima um pouco do Legi\u00e3o Urbana de Renato Russo &#8211; ou, para ser justo, e gra\u00e7as a sua economia formal, estaria a altura dos versos de Cazuza, e nada mais. Ocorre que \u00e9 na est\u00f3ria e n\u00e3o na f\u00e1bula (isto \u00e9: no <em>modus contandi<\/em>, na estrutura metalingu\u00edstica que todo filme vela e revela e atrav\u00e9s da qual a f\u00e1bula comparece) que Xavier Dolan mostra-se um promissor jovem mestre &#8211; e, neste sentido, seu longa de estr\u00e9ia \u00e9 como <em>O Fabuloso Destino de Amelie Poulain<\/em>: um filme que ser\u00e1 adorado por cin\u00e9filos por motivos que seus f\u00e3s n\u00e3o-cin\u00e9filos nem se apercebem; e adorado por n\u00e3o-cin\u00e9filos naquilo que seus f\u00e3s cin\u00e9filos detestariam, por vulgaridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amelie Poulain \u00e9 adorado por seus f\u00e3s leigos (o cin\u00e9filo \u00e9 o cl\u00e9rigo da Religi\u00e3o da Luz) por seu clima on\u00edrico e leve. Nem desconfiam a homenagem que h\u00e1 a est\u00e9tica teatralizante do anti-cinema de Sacha Guitry desde o t\u00edtulo, e toda defer\u00eancia que Jean Pierre Jeunet faz ao Realismo Po\u00e9tico da Path\u00e9 dos anos 1930, em especial ao d\u00edptico de Marcel Carn\u00e9 (<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UJIIrguLzDw\" target=\"_blank\">Boulevard do Crime \/ Crian\u00e7as do Para\u00edso<\/a>) e a toda a magistral obra de Jean Vigo (tanto<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4w17C9y6Vgo\" target=\"_blank\"> Zero de Conduta<\/a> quanto <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UR-k_Mp_P3A\" target=\"_blank\">Atalante<\/a>) e Jean Renoir e Ren\u00e9 Clair (em especial seu primeiro longa sonorizado, <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zf4wUmBM6gk\" target=\"_blank\">Sob Os Tetos De Paris<\/a>). Assim, <em>Amelie Poulain<\/em> \u00e9 um filme a um s\u00f3 tempo sofisticado e tolo. Parafraseando Luis Bu\u00f1uel a respeito de <em>Metr\u00f3polis<\/em> de Fritz Lang, poderiamos dizer que s\u00e3o &#8220;dois filmes, um dentro do outro, que n\u00e3o se misturam, como um casaco de duas faces&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com <em><strong>Eu Matei Minha M\u00e3e<\/strong><\/em> n\u00e3o acontece exatamente da mesma forma, porque sua escolha tem\u00e1tico-fabulat\u00f3ria implica na escolha formal que se far\u00e1 &#8211; enquanto a obra de Jeunet poderia ter escolhido qualquer tema para usar uma roupagem pr\u00e9-Guerra. E n\u00e3o se pense que o tema \u00e9 o conflito do adolescente homossexual com sua m\u00e3e solteira &#8211; esta \u00e9 apenas uma modula\u00e7\u00e3o, fundamental sem d\u00favida, do tema maior. E seu tema maior \u00e9 uma reedi\u00e7\u00e3o do mito fundador do cinema contempor\u00e2neo: a pseudo-autobiografia de Fran\u00e7ois Trufaut.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"640\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/_jDTlFFRNnE?fs=1&amp;hl=en_US\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"640\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/_jDTlFFRNnE?fs=1&amp;hl=en_US\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu tema \u00e9 fundamentalmente o do adolescente desajustado, intelectualmente precoce, e de fam\u00edlia esgar\u00e7ada, que s\u00f3 acha reden\u00e7\u00e3o numa arte ao mesmo tempo de um s\u00e9culo antes (literatura, pintura) e do porvir (o fotograma, no caso de Antoine Doinel, o digital no caso de Hubert da pel\u00edcula em quest\u00e3o), erudita e popularesca: o cinema. Mas, isto s\u00f3 fica evidente pelas escolhas formais, da est\u00f3ria e n\u00e3o da fabula, que Dolan faz: a refer\u00eancia a Jackson Pollock, a literatura do in\u00edcio do romantismo franc\u00eas e a Jean Genet, o cabelo e gestual ao modo de Warren Beatty em <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dWDkdsZQq_c\" target=\"_blank\">Clamor do Sexo<\/a>, a profus\u00e3o de imagens de James Dean e Jeane Moreau &#8211; coisa que o gostador de filmes jamais perceber\u00e1, mas o cin\u00e9filo devoto reconhece como a uma ora\u00e7\u00e3o gregoriana. A rela\u00e7\u00e3o entre as duas obras \u00e9 t\u00e3o clara que a cena final de ambos se d\u00e1 no mesmo cen\u00e1rio: em <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bO8XIm6bbgA\" target=\"_blank\">Os Incompreendidos<\/a>, de Trufa, com Jean Pierre Leaud correndo sem rumo por um descampado a beira-mar; no filme de Dolan, imagens dele como crian\u00e7a fazendo o mesmo, s\u00f3 que acompanhado da m\u00e3e, e depois ele j\u00e1 adulto, sentado num rochedo ao lado da mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferente de Doinel, contudo, Hubert n\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a perdida de uma m\u00e3e que pouco lhe d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o e passa mais tempo com amantes ou vagando desempregada; nem tem aquela heterossexualidade sempre em descoberta, sempre acidentada e da ordem do malogro, que o alter-ego de Trufaut tem. Ao alter-ego de Xavier Dolan n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre seu desejo (embora haja sobre seu gozo), e sequer sua homossexualidade \u00e9 uma quest\u00e3o; antes de ser uma crian\u00e7a abandonada, largada involuntariamente as ruas de Paris, \u00e9 um menino mimado de sub\u00farbio. \u00c9 um menor ou maior que o outro, em escala de valor moral? N\u00e3o creio. Importa antes saber que um e outro nos mostram que a Era que criou a Adolesc\u00eancia tamb\u00e9m criou a \u00fanica tecnologia que nos pode fazer suport\u00e1-la e super\u00e1-la: o cinemat\u00f3grafo e sua contraparte, a sala escura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, nos diz Jean-Luc Godard em seu \u00faltimo filme assist\u00edvel (<em>Elogio do Amor de Qualquer Coisa<\/em>): &#8220;A verdade \u00e9 que n\u00e3o existem adultos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob o aspecto da f\u00e1bula (isto \u00e9, como diz Prof. Andr\u00e9 Setaro, da narrativa que se desenvolve, do enredo que \u00e9 contado) J&#8217;ai tu\u00e9 ma M\u00e8re ficaria meramente no plano do confessionalismo adolescente bem-feito, algo entre Goethe e Musset, acima um pouco do Legi\u00e3o Urbana de Renato Russo &#8211; ou, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[1561,26,1559,1560,1558],"class_list":["post-2889","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01ver","tag-antoine-doinel","tag-cinema","tag-eu-matei-minha-mae","tag-francois-trufaut","tag-xavier-dolan"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2889"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2889\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4230,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2889\/revisions\/4230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}