{"id":263,"date":"2008-09-28T18:28:34","date_gmt":"2008-09-28T21:28:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=263"},"modified":"2025-12-24T13:03:56","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:56","slug":"ensaio-sobre-a-besteira-um-filme-acidentalmente-nao-ruim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=263","title":{"rendered":"Cegueira sem ensaio: um estudo da irresponsabilidade interesseira."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O senhor Fernando Meirelles conseguiu, filmando em ingl\u00eas um livro de Saramago, se inscrever numa categoria peculiar dos cineastas na hist\u00f3ria do cinema: os diretores n\u00e3o-autores, quase ap\u00f3crifos. O exemplo supremo deste tipo de gente \u00e9 Michael Curtiz, que (des)dirigiu <em>Casablanca<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo n\u00e3o-autor n\u00e3o porque falte estilo a sua obra (falta, se entendemos estilo como &#8220;qualidade est\u00e9tica&#8221; &#8211; n\u00e3o falta se entendemos como marcas individuais: seus dedos imundos deixam pegadas mesmo nos crimes que acidentalmente deixou de cometer, mas n\u00e3o de tentar). Refiro-me com este termo aos diretores que n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis em nada pelo sucesso (ou fracasso) de suas obras &#8211; sequer como t\u00e9cnicos contratados de um est\u00fadio (e o est\u00fadio, ou o produtor, a\u00ed compareceria como autor). Houve grandes diretores t\u00e9cnicos, que cumpriam apenas a autoralidade de uma institui\u00e7\u00e3o, como Anatole Litvak.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes (des)diretores, como Curtiz e Meirelles, n\u00e3o necessariamente fazem filmes ruins. Ao contr\u00e1rio, conseguem fazer filmes que tinham tudo para dar errado, darem certo a revelia deles pr\u00f3prios. Nisso n\u00e3o se pode incluir o Ingmar Bergman de <em>O S\u00e9timo Selo<\/em>: se nele o cen\u00e1rio despenca, o zipper de Max von Sydow aparece, e ainda assim o filme sai bem \u00e9 pelo rigor met\u00f3dico de Bergman no roteiro e no trabalho de atores &#8211; e n\u00e3o apesar deste rigor (ou, no caso de Meirelles, da aus\u00eancia dele).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os desdiretores s\u00e3o marcados por op\u00e7\u00f5es ruins que beiram o rid\u00edculo. Vejamos o caso cl\u00e1ssico de Casablanca: um filme sobre a ocupa\u00e7\u00e3o nazista na Fran\u00e7a, que se passa no Marrocos, que foi filmado e lan\u00e7ado enquanto a ocupa\u00e7\u00e3o ainda ocorria e n\u00e3o havia ind\u00edcio de que os Aliados pudessem vencer a Alemanha (ali\u00e1s, os EEUU nem tinham entrado na guerra!); personagens fl\u00e1cidos e inconsistentes, com premissas obscuras, uma m\u00fasica \u00f3bvia, uma fotografia com luz de padaria. Um ator principal desconhecido, feio e com sotaque de viado (lingua presa e fanho &#8211; justi\u00e7a fa\u00e7a-se, \u00e9 nestas circunst\u00e2ncias adversas que Humphrey Bogart mostra porque era o maior ator que o cinema jamais viu). Uma atriz desconhecida, sueca, interpretando uma alem\u00e3; bela, por\u00e9m sem exuber\u00e2ncia e inexpressiva. <em>Casablanca<\/em> era uma verdadeira bomba! Milagrosamente, de filme Z, tornou-se filme A &#8211; e a dire\u00e7\u00e3o de quinta categoria de Curtiz n\u00e3o ajudou em nada, suspeito at\u00e9 que atrapalhou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minhas expectativas para com <em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em> eram, claro, as piores poss\u00edveis. Um grupo de atores americanos (embora ligados ao Actors Studio), interpretando um texto de Saramago em ingl\u00eas, num cen\u00e1rio urbano ultra-moderno, e dentro de uma est\u00e9tica entre o cinema independente americano e Hollywood (em tempo: este cin\u00e9filo, porque \u00e9 cin\u00e9filo, tem devo\u00e7\u00e3o por Hollywood, e ojeriza ao cinema independente em geral, mormente ao mentecapto chamado John Cassavetes. N\u00e3o obstante, creio que uma est\u00e9tica europ\u00e9ia e propriamente portuguesa, como a do cineasta Manoel de Oliveira, cairia melhor para uma obra de Saramago). O que ele pretende ser uma homenagem \u00e9 quase uma ofensa: Jos\u00e9 Saramago \u00e9 talvez o prosador que tem a mais \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a lusa l\u00edngua (sim, estou considerando Padre Antonio Vieira nesse grupo comparativo). Como ele, apenas Pessoa, na poesia, o teve. E da\u00ed, n\u00e3o \u00e9 apenas um interesse pela l\u00edngua enquanto fato, mas enquanto consequ\u00eancia ps\u00edquica: a afirma\u00e7\u00e3o repetida do \u00f3bvio, a incapacidade de captar chistes, t\u00e3o lisboeta \u00e9 uma presen\u00e7a fundamental na sintaxe saramaguiana, tal como o des-eu e a saudade \u00e9 fundamental na pessoana e \u00e9 n\u00e3o menos portucalense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miraculosamente, o filme n\u00e3o s\u00f3 funciona bem, como preserva (acidentalmente) parte da sintaxe de Saramago (confus\u00e3o entre sujeitos enunciantes do di\u00e1logo, porque h\u00e1 apenas pontos, v\u00edrgulas e mai\u00fasculas a marc\u00e1-lo dentro de um longo par\u00e1grafo), ao n\u00e3o nomear nenhum personagem sen\u00e3o por sua fun\u00e7\u00e3o e profiss\u00e3o (a Guia, o M\u00e9dico, o Menino, etc.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso faz, contudo, de Fernando Meirelles um cineasta autoral, ou tecnicamente correto. \u00c9 um interesseiro, um alpinista celul\u00f3idico, que ao inv\u00e9s de fazer um filme apropriado ao seu objeto de interesse ou a na\u00e7\u00e3o de origem sua ou da obra (e todo filme \u00e9 sempre, sobretudo, nacional, inclusive Hollywood, que \u00e9 a arte nacional americana como o afresco renascentista foi a italiana e a m\u00fasica erudita do Romantismo a alem\u00e3), prefere servir cegamente aos grandes est\u00fadios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata meramente de uma quest\u00e3o de idioma. O italiano Luchino Visconti filmou o alem\u00e3o Thomas Mann em ingl\u00eas, e o filmou bem. Mas est\u00e1 l\u00e1 o esfor\u00e7o por substituir as longas descri\u00e7\u00f5es sinest\u00e9sicas de Mann pelo onirismo encadeado da c\u00e2mera, pela m\u00fasica de Gustav Mahler &#8211; e especialmente, a parcim\u00f4nia nos di\u00e1logos, que seria imposs\u00edvel em Saramago, cuja obra beira a oralidade reconstruida. Nem se trata de uma quest\u00e3o de filmar atrav\u00e9s dos grandes est\u00fadios: <em>Morte em Veneza<\/em> seria inconceb\u00edvel fora da MGM &#8211; mas uma coisa \u00e9 filmar <span style=\"text-decoration: underline;\">atrav\u00e9s<\/span> dos grandes est\u00fadios, outra \u00e9 filmar a <span style=\"text-decoration: underline;\">partir<\/span> deles e <span style=\"text-decoration: underline;\">dentro<\/span> deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Federico Felinni nos lembrava que filmar \u00e9 como dar um tiro na lua: puro c\u00e1lculo na causa, mas o efeito \u00e9 sempre acidental. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre o rigor do autor-diretor e seu efeito aleat\u00f3rio como em nenhuma outra arte. Em Meirelles o efeito \u00e9 aleat\u00f3rio apesar de n\u00e3o haver rigor nenhum na sua causa (ali\u00e1s, interesseira) &#8211; o que \u00e9 completamente diferente e, se n\u00e3o est\u00e1 longe de ser cinema, est\u00e1 longe de ser cinema autoral seguramente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O senhor Fernando Meirelles conseguiu, filmando em ingl\u00eas um livro de Saramago, se inscrever numa categoria peculiar dos cineastas na hist\u00f3ria do cinema: os diretores n\u00e3o-autores, quase ap\u00f3crifos. O exemplo supremo deste tipo de gente \u00e9 Michael Curtiz, que (des)dirigiu Casablanca. 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