{"id":2605,"date":"2010-07-17T23:17:00","date_gmt":"2010-07-18T02:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2605"},"modified":"2025-12-24T13:02:57","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:57","slug":"artefatos-vitorianos-para-uso-das-cidades-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2605","title":{"rendered":"Artefatos Vitorianos Para Uso das Cidades &#8211; I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Nosso Teatro \u00cdntimo de Bolso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e9culo XIX conheceu a populariza\u00e7\u00e3o e a acelera\u00e7\u00e3o da imprensa que, inventada por Gutemberg, s\u00f3 agora alcan\u00e7ava um paradigma industrial do produ\u00e7\u00e3o &#8211; e nisso n\u00e3o difere de outras \u00e1reas. Surgem os jornais di\u00e1rios, os per\u00edodicos, os vespertinos, as revistas, e especialmente: o livro de bolso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O formato-livro tem sua excel\u00eancia enquanto design de produto desde o surgimento da Universidade, na Idade M\u00e9dia. Muito mais f\u00e1cil de manusear do que um papiro ou pergaminho, o livro tinha outras vantagens; ocupava pouco espa\u00e7o para ser guardado, e sua lombada permitia a leitura de uma s\u00edntese de seu conte\u00fado sem termos de retir\u00e1-lo da estante. Primeiro produzido manualmente, atrav\u00e9s dos copistas e das iluminuras, tem na Renascen\u00e7a o surgimento da manufatura: os tipos m\u00f3veis permitem a celeridade de sua confec\u00e7\u00e3o, certo barateamento nos pre\u00e7os, e uma maior oferta de produto; por outro lado, sua produ\u00e7\u00e3o depende ainda da m\u00e3o humana, por vezes sem divis\u00e3o social do trabalho (inclusive com alguns autores sendo eles pr\u00f3prio tip\u00f3grafos e editores). E, principalmente, n\u00e3o eram port\u00e1teis: grandes e volumosos e caros, sua posse se restringia a aristocracia, \u00e0s universidades, ao clero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/jornaleiro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2622\" title=\"jornaleiro\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/jornaleiro.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"477\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/jornaleiro.jpg 800w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/jornaleiro-300x178.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Romantismo nos lega este fato pragm\u00e1tico: a ascens\u00e3o da burguesia e a alfabetiza\u00e7\u00e3o do proletariado (com o fim definitivo, ao menos formalmente, da escravid\u00e3o e do servilismo) expandem o p\u00fablico leitor. O escritor passa a ser uma engrenagem do sistema industrial, com um organizador de capitais (o editor), um distribuidor (o livreiro), etc. A prosa narrativa ganha proemin\u00eancia primeiro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 poesia \u00e9pica, e depois \u00e0 l\u00edrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"640\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/iwPj0qgvfIs&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"640\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/iwPj0qgvfIs&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surgem as bibliotecas p\u00fablicas, bancas de revista nas cal\u00e7adas e a figura do menino-jornaleiro gritando &#8220;Extra! Extra!&#8221;; livrarias tornam-se com\u00e9rcio cotidiano de bairro. Ler o jorna num parque p\u00fablico, um livro no bonde, uma revista (com fotografias!) enquanto se aguarda um \u00f4nibus de tra\u00e7\u00e3o animal, ou dentro do cabriol\u00e9 de pra\u00e7a voltando pra casa (cap\u00f4 aberto, vale lembrar) passam a fazer parte do cotidiano das cidades. <strong>O livro \u00e9 assim, nos moldes em que o conhecemos hoje, um objeto sobretudo urbano<\/strong>. Seus usos t\u00eam \u00edntima rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas com as cidades, mas com o mover-se dentro delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis porqu\u00ea inserirmos o objeto-livro (e seus correlatos) <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2517\" target=\"_blank\">nesta s\u00e9rie que visa mostrar como a t\u00e9cnologia <\/a><em><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2517\" target=\"_blank\">vapor-punk &amp; mecano-punk<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2517\" target=\"_blank\"> da B\u00e8lle-Ep\u00f3que \u00e9 o estado-da-arte em termos de mobilidade urbana<\/a>: de l\u00e1 v\u00eam os cal\u00e7amentos, pra\u00e7as e parques p\u00fablicos como entendemos hoje (embora todos remontem em esbo\u00e7o, como o livro, \u00e0 \u00e9pocas anteriores &#8211; quando tinham outros intuitos e finalidades), a bicicleta, o bonde, o metr\u00f4, o \u00f4nibus. At\u00e9 mesmo o motor a explos\u00e3o, o autom\u00f3vel, o esgotamento sanit\u00e1rio, a distribui\u00e7\u00e3o por canos residenciais de \u00e1gua pot\u00e1vel, g\u00e1s e \u00f3leo. Tudo isso que faz uma metr\u00f3pole poss\u00edvel &#8211; aquilo que fez Hausmann fazer Paris deixar de ser uma vila medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro (e outras formas impressas) ainda hoje \u00e9 um grande auxiliar dos deslocamentos em metr\u00f3poles. Qual o maior prazer do transporte coletivo, em compara\u00e7\u00e3o ao autom\u00f3vel e mesmo \u00e0 bicicleta e ao andar a p\u00e9? Poder ler. Folhear o jornal do dia, prender a aten\u00e7\u00e3o em longos par\u00e1grafos de a\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo passado, fazer o olhar voar pela janela como quem l\u00ea um poema sendo recitado em meia-voz; tentar descobrir que novela \u00e9 aquela que a mo\u00e7a no banco adiante l\u00ea ao ponto de lhe n\u00e3o corresponder ao n\u00e3o obstante insistente flerte; discutir a mat\u00e9ria do seman\u00e1rio pol\u00edtico com o desconhecido vizinho de banco, ao lado, de quem se discorda frontalmente, mas com a cortesia que reservamos apenas aos an\u00f4nimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed nossa <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2591\" target=\"_blank\">proposta de interven\u00e7\u00e3o Semeando Livros<\/a>: ficou claro para mim, h\u00e1 muito tempo, que o direito \u00e0s cidades e o direito ao livro est\u00e3o enodados; que o capital liter\u00e1rio (no sentido de letra, e n\u00e3o de literatura) e o capital urbano s\u00e3o por vezes um s\u00f3 e o mesmo. E n\u00e3o por acaso o Brasil, pa\u00eds dos n\u00e3o-leitores, \u00e9 o pa\u00eds das des-cidades. Aproveitamos para dizer que alguns livros de nossa interven\u00e7\u00e3o urbana tiveram seu texto de folha de rosto modificado para: &#8220;ROUBE-ME! (mas n\u00e3o me deixe em casa)&#8221;, num estilo que lembra o mais anti-vitoriano dos vitorianos: Sir Charles Ludwidge, Lewis Carroll.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Foto10.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2621\" title=\"Foto10\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Foto10.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Foto10.jpg 640w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Foto10-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se prop\u00f5e que as formas Art-Nouveau (e o livro o \u00e9 por excel\u00eancia, imitando industrialmente a natureza da fala teatral e da escrita cursiva das ep\u00edstolas &#8211; n\u00e3o s\u00e3o os primeiros romances sistem\u00e1ticos, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, justamente epistolares?) s\u00e3o o estado-da-arte para o uso das cidades, n\u00e3o se quer dizer que n\u00e3o se os pode modernizar. Salvo uma que outra tentativa de modernice, tornar tecnologicamente up-to-date as formas do <em>fin-du-XIXeme-si\u00e8cle<\/em> \u00e9 muito bem-vindo. O que s\u00e3o os iPods, Mp3 Players, e antigamente os <em>walkmans<\/em>, sen\u00e3o uma amplia\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o-livro na metr\u00f3pole do auge do capitalismo? &#8211; inclusive porque se podem usar andando, e o livro n\u00e3o. At\u00e9 mesmo o telefone-celular entra nesta l\u00f3gica, atribuindo fun\u00e7\u00e3o de aux\u00edliar de mobilidade urbana a um ente <em>vapor-mecanopunk<\/em> que ainda n\u00e3o o tinha: o telefone, hoje dito fixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em Tempo: <\/strong>Alguns leitores insistiram que eu sorteie alguns exemplares das colet\u00e2neas em que participo. Farei melhor: os que quiserem, me pe\u00e7am por aqui ou por email, deixando nome completo e endere\u00e7o postal, bem como qual das duas (ou ambas, se for o caso) colet\u00e2neas quer ganhar &#8211; a do <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=479\" target=\"_blank\">Concurso de Cr\u00f4nicas de Canoas<\/a> ou a do <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2038\" target=\"_blank\">Pr\u00eamio de Contos do Paran\u00e1<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosso Teatro \u00cdntimo de Bolso O s\u00e9culo XIX conheceu a populariza\u00e7\u00e3o e a acelera\u00e7\u00e3o da imprensa que, inventada por Gutemberg, s\u00f3 agora alcan\u00e7ava um paradigma industrial do produ\u00e7\u00e3o &#8211; e nisso n\u00e3o difere de outras \u00e1reas. 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