{"id":2570,"date":"2010-07-08T22:59:25","date_gmt":"2010-07-09T01:59:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2570"},"modified":"2025-12-24T13:02:57","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:57","slug":"o-som-das-sextas-xxii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2570","title":{"rendered":"O Som das Sextas XXII"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ir ao <em>Bal Masqu\u00e9<\/em> em Recife no pr\u00e9-carnaval deste ano me fez perceber algo bem pouco evidente na civiliza\u00e7\u00e3o pernambucana, e crucial na sua rela\u00e7\u00e3o com a Bahia: existe um estar-no-mundo olindense, que nada tem a ver com o recifense, e por vezes se op\u00f5e insubordinadamente a este. Descobri isso por ter passado a maior parte do tempo com amigos que s\u00e3o de Olinda e em Olinda moram, tanto que se perdem na vizinhamente colabada Recife.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Recife \u00e9 a cidade retil\u00ednea, massiva com intervalos feitos pelas orlas de rios enormes, metr\u00f3pole laica, mais moderna capital das Am\u00e9ricas durante o s\u00e9culo XVII, a Amsterd\u00e3 tropical, e mais ou menos judaica; Olinda \u00e9 a resit\u00eancia portuguesa, encimada em morros e deformada por estes (como Salvador, uma cidade em que a topografia se rebelou contra o urbanismo imposto pela metr\u00f3pole eclesi\u00e1stica). Menor, mas mais cat\u00f3lica: se as igrejas centen\u00e1rias de Recife se escondem envergonhadas em becos, as de Olinda flutuam exuberantes como as de Salvador e de Ouro Preto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Ningu\u00e9m se engane em simplificar dizendo que Olinda \u00e9 barroca e Recife n\u00e3o. Recife \u00e9 t\u00e3o barroca quanto Salvador, mas de um modo oposto: aqui, o dourado das igrejas e do azeite de dend\u00ea, a sensualidade libertina de Greg\u00f3rio de Mattos e Castro Alves, e asubvers\u00e3o m\u00edstica de Antonio Vieira. Recife \u00e9 o barroco holand\u00eas, uma cidade Spinoziana: um racionalismo radical que s\u00f3 o horror a cren\u00e7a e ao desejo poderiam gerar. O frevo \u00e9 a express\u00e3o viva do conatus da \u00c9tica Conforme Um Ge\u00f4metra, em forma de m\u00fasica e dan\u00e7a: a pot\u00eancia do corpo animal, org\u00e2nico, a servi\u00e7o de uma raz\u00e3o dominadora, pulsante e agil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito de outra forma, se Salvador \u00e9, com suas colinas ocupadas, uma &#8220;vis\u00e3o do Para\u00edso tanto quanto o Rio de Janeiro &#8211; esta sim uma cidade em nada barroca, plenamente neocl\u00e1ssica -, Recife \u00e9 o sofrimento eterno, controlado pela raz\u00e3o. Um <em><strong>Carnaval No Inferno<\/strong><\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/eddie.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2572\" title=\"eddie\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/eddie.jpg\" alt=\"\" width=\"488\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/eddie.jpg 488w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/eddie-292x300.jpg 292w\" sizes=\"auto, (max-width: 488px) 100vw, 488px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta diferen\u00e7a se manifesta claramente em seus autores. N\u00e3o precisa nascer em Recife para ser recifense como autor: o olindense Lenine faz can\u00e7\u00f5es retas, calculadas, comedidas at\u00e9. O recifense Silverio Pessoa \u00e9 totalmente Olinda, por sua vez: escrachado, espont\u00e2neo, inventivo e incontrol\u00e1vel. Nenhum autor atual marca tanto esta diferen\u00e7a quanto <strong><a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/bandaeddie\" target=\"_blank\">Eddie<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olinda \u00e9, desde sua topografia urbana at\u00e9 o h\u00e1bito de n\u00e3o se levar a s\u00e9rio e a presen\u00e7a ostensiva do samba, o elo-perdido entre Pernambuco e Salvador. Nisso, entendo que Eddie foi muit\u00edssimo feliz ao compor e gravar <em>A Gente T\u00e1 Querendo A Vida Boa<\/em>, em que a refer\u00eancia ao frevo-el\u00e9trico c\u00e9lebre de Caetano Veloso (&#8220;<em>l<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=_LYBL--pujU\" target=\"_blank\">ua no mar\u00a0\/ que \u00e9 pra canoa passear \/ a vida boa passa no real que h\u00e1 \/ cora\u00e7\u00e3o \/ ser\u00e1 vida boa?<\/a><\/em>&#8220;). E da\u00ed talvez suas t\u00e3o frequentes vindas a Reconvexa, e a acolhida que n\u00f3s lhe damos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"480\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/hKMpqhHUqfU&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/hKMpqhHUqfU&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, \u00e9 no samba que <strong>Eddie<\/strong> mostra o olindense que \u00e9. Embora sejam samba-rock, e n\u00e3o o patusco tradicional de l\u00e1. <strong>Eddie<\/strong> \u00e9 t\u00e3o can\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o can\u00e7\u00e3o, que tem n\u00e3o um, nem dois, mas pelo menos tr\u00eas hinos do <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=384\" target=\"_blank\">Baile Esquema Novo<\/a> &#8211; o acima posto, e os sambinhas <em>Baile Betinha<\/em> e <em>Pode Me Chamar Que Eu Vou<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"640\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/rQFjMJCYjxM&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"640\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/rQFjMJCYjxM&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"480\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Zc3YazjKH1s&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Zc3YazjKH1s&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante Chico Science ser de nascen\u00e7a olindense, se colocava do lado mais reto e plano do Capibaribe; talvez porque a outra banda do MangueBeat em seu nascedouro fosse t\u00e3o recifense que fez um manifesto prescritivo, <em>Caranguejos Com C\u00e9rebro<\/em>, refiro-me evidentemente a Fred 04 do Mundo Livre S\/A. Fazer manifestos est\u00e9tico-program\u00e1ticos vai contra a insubordina\u00e7\u00e3o esculhambada de Salvador e de Olinda &#8211; onde o frevo \u00e9 mangueado e do pov\u00e3o, e n\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o ordeira da aristocracia nas ruas (frevo de pau-e-corda, de bloco) ou nos sal\u00f5es (os frevos de palco dos her\u00e1ldicos bailes a fantasia). Esta tentativa sistem\u00e1tica de criar uma cultura pernambucana nova, mas enraizada em tradi\u00e7\u00f5es, antena parab\u00f3lica no mangue voltada para o mundo, talvez tenha excluido, \u00e0 guisa de enaltecer o popular tradicional (e mitificado), o que Pernambuco tem de mais popular (urbano e de consumo): o brega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O brega que se manifesta no sucesso l\u00e1 dos paraenses do Calypso. O brega de filmes n\u00e3o obstante cults como <em>Amarelo Manga<\/em>. Dos grupos p\u00f3s-Mangue, o \u00fanico a perceber a import\u00e2ncia de resgatar o brega dentro de uma l\u00f3gica Mangue foi justamente o \u00fanico a ser rigorosamente independente, rejeitando de uma s\u00f3 vez Estado e ind\u00fastria: o Momboj\u00f3, e ainda assim <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/cultura\/musica\/novo+album+reforca+posicao+peculiar+do+mombojo\/n1237673002629.html\" target=\"_blank\">tardiamente e em projeto paralelo como bem lembra Pedro Alexandre Sanches<\/a>. No entanto, de modo mais comedido, n\u00e3o escapa ao <strong>Eddie<\/strong> esta percep\u00e7\u00e3o &#8211; de que \u00e9 no brega que a can\u00e7\u00e3o agonizou mas n\u00e3o morreu, e \u00e9 l\u00e1 que ela encontra seu real apelo de massas (como, paralelamente, na Bahia, \u00e9 no pagod\u00e3o, na suingueira e no arrocha &#8211; valoriza\u00e7\u00e3o que se deveu primeiro a Orkestra Rumpilezz, e depois ao BaianaSystem). Da\u00ed sua ador\u00e1vel vers\u00e3o em boler\u00e3o para um cl\u00e1ssico do frevo-can\u00e7\u00e3o: <em>\u00c9 De Fazer Chorar (oh, quarta-feira ingrata, chega t\u00e3o depressa, s\u00f3 pra contrariar)<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"480\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/IbvuoRGD8TE&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/IbvuoRGD8TE&amp;hl=en_US&amp;fs=1\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ir ao Bal Masqu\u00e9 em Recife no pr\u00e9-carnaval deste ano me fez perceber algo bem pouco evidente na civiliza\u00e7\u00e3o pernambucana, e crucial na sua rela\u00e7\u00e3o com a Bahia: existe um estar-no-mundo olindense, que nada tem a ver com o recifense, e por vezes se op\u00f5e insubordinadamente a este. 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