{"id":2377,"date":"2010-05-13T21:44:45","date_gmt":"2010-05-14T00:44:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2377"},"modified":"2025-12-24T13:02:57","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:57","slug":"do-retrocesso-ao-largo-da-des-ordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2377","title":{"rendered":"Do Retrocesso ao largo da des-Ordem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"attachment_2378\" style=\"width: 339px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/caetano-veloso.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2378\" class=\"size-full wp-image-2378\" title=\"caetano-veloso\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/caetano-veloso.jpg\" alt=\"\" width=\"329\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/caetano-veloso.jpg 329w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/caetano-veloso-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2378\" class=\"wp-caption-text\">Calado, ele \u00e9 um grande pensador...<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Caetano Veloso<\/strong> \u00e9 um cara que se sacrifica todo dia em nome da liberdade de express\u00e3o no Brasil &#8211; provando com a pr\u00f3pria imagem p\u00fablica que democracia \u00e9, no limite e radicalmente, o livre direito de dizer besteira com ar de coisa s\u00e9ria. Esta semana, <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/mat\/2010\/05\/09\/caetano-veloso-estreia-coluna-no-globo-politica-largo-da-ordem-916537079.asp\" target=\"_blank\">cometeu em O Globo um artigo de des-opini\u00e3o<\/a> (no qual ele n\u00e3o \u00e9 contra nem a favor de nada, muito pelo cont\u00e1rio. Ou n\u00e3o? &#8211; Ainda assim mente, deturpa, e age de modo totalmente inconsequente do ponto de vista pol\u00edtico e c\u00edvico) que \u00e9 um verdadeiro desastre ferrovi\u00e1rio, sem sobreviventes (porque o trem estava vazio de id\u00e9ias que pudessem vir a ser mortas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comentemos aqui, ent\u00e3o, por mor &amp; m\u00edster jogar luz na barafunda pseudo-barroca de ascr\u00e2nios &amp; edim\u00f4nios que o mui dileto filho da Purifica\u00e7\u00e3o de Santo Amaro oblou. (Porque, como se ver\u00e1, Caetano Veloso escreve em prosa t\u00e3o bem quanto fala em entrevistas. O texto \u00e9 <em><a href=\"http:\/\/webcache.googleusercontent.com\/search?q=cache:Jh3ayzhP0SwJ:www.cidadeserra.com.br\/6322\/fhc-o-farol-critica-lula-porque-nao-se-ajoelha-diante-dos-eua.html+bloated+fernando+henrique+cardoso+gorduroso&amp;cd=11&amp;hl=pt-BR&amp;ct=clnk&amp;client=gmail\" target=\"_blank\">bloated<\/a><\/em>, para lhe ser gentil. Ao golpe de olhos, parece um jogador de futebol de terceira divis\u00e3o recitando Padre Ant\u00f4nio Vieira, em Latim, a respeito de neuroqu\u00edmica).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prepare-se, leitor &#8211; \u00e9 cansativo como s\u00f3 Caetano Veloso sabe ser:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando disse a Leminski, no come\u00e7o dos anos 70, que me encantava a recupera\u00e7\u00e3o do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: &#8220;Voc\u00ea adora engana\u00e7\u00f5es feitas para a classe m\u00e9dia.&#8221; Respondi que adorava mesmo. Sempre \u00e0 esquerda, Leminski via limpeza, ilumina\u00e7\u00e3o, policiamento e restaura\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios como maquiagem &#8211; e olhava com desconfian\u00e7a meu interesse por Jaime Lerner, o ent\u00e3o prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime &#8211; e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas n\u00e3o via o Largo da Ordem como engana\u00e7\u00e3o. Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia \u00e0 classe m\u00e9dia. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: &#8220;Eu sou classe m\u00e9dia.&#8221; O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria &#8211; ou estaria mostrando que j\u00e1 decolara. Era sonhar demais.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja: segundo Caetano, ACM foi o homem que conduziria, como conduziu, o Brasil e a Bahia ao para\u00edso da equidade e da civilidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda nos 70, os sobrados da \u00e1rea estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados. Lembro duas rea\u00e7\u00f5es negativas: Candice Bergen e D\u00e9cio Pignatari. Em ocasi\u00f5es diferentes, ouvi de ambos: &#8220;Parece a Disneyl\u00e2ndia.&#8221; Eu pr\u00f3prio, diante das tintas pl\u00e1sticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby. Mas a verdade \u00e9 que, tendo crescido em Santo Amaro, eu n\u00e3o achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, m\u00eas de Nossa Senhora da Purifica\u00e7\u00e3o. Achei que Candice e D\u00e9cio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. D\u00e9cio, de Sampa, queria velharia mais &#8220;aut\u00eantica&#8221;. Candice, de Los Angeles, reviu o que exp\u00f5e a artificialidade de sua terra natal: Disneyl\u00e2ndia. J\u00e1 eu s\u00f3 via o esbo\u00e7o de realiza\u00e7\u00e3o da promessa do Largo da Ordem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, Caetano confunde as duas tentativas de Revitaliza\u00e7\u00e3o do Maciel de Cima (como ent\u00e3o era chamado o Pelourinho) por Lina Bo Bardi &#8211; uma antes e outra logo depois da Ditadura -, com a realizada no e pelo carlismo, que era uma mera Reforma des-ocupacional, criando como efeito colateral mais not\u00f3rio o bairro de Coutos, no Sub\u00farbio Ferrovi\u00e1rio, que mais parece um ensaio-geral do p\u00f3s-apocalipse ou um esbo\u00e7o de cen\u00e1rio de um filme de Kurosawa sobre a Terceira Bomba Nuclear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesta reforma que o Pelourinho passou a ser chamado Pelourinho. Pra quem n\u00e3o lembra, pelourinho (como diz o pr\u00f3prio Caetano em um de seus \u00faltimos lampejos de contribui\u00e7\u00e3o cultural a na\u00e7\u00e3o &#8211; l\u00e1 se v\u00e3o 10 anos) \u00e9 o nome do lugar &#8220;onde os escravos eram castigados&#8221; &#8211; e onde, na \u00e9poca em que a Reforma de ACM &#8220;dava certo&#8221;, uma fila de soldados, quase todos pretos, dava porrada na nuca de malandros pretos, e de outros quase brancos tratados como pretos (s\u00f3 pra mostrar aos outros quase pretos que s\u00e3o quase todos pretos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Confunde&#8221; \u00e9 bondade minha. Caetano conhecia Lina Bardi pessoalmente. Viveu, de perto e de longe, ambas as tentativas de restauro. Ele quer \u00e9 confundir o leitor! Um leitor provavelmente carioca, e do Leblon, um vizinho seu que talvez nunca tenha aqui vindo! Decidam se ele faz isso por pregui\u00e7a mental ou por mau-caratismo intelectual. Pelo respeito que tenho ao Caetano de <em>Circulad\u00f4<\/em>, omito-me.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 90, toda a regi\u00e3o do Pelourinho ganhou o tratamento que eu imaginara ut\u00f3pico em 1972. H\u00e1 queixas contra os m\u00e9todos usados para a retirada dos moradores. H\u00e1 a frase bonita de Verger: &#8220;Devia se erguer no Pelourinho um monumento \u00e0s putas.&#8221; Elas \u00e9 que mantiveram de p\u00e9 esse peda\u00e7o da cidade. Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em mat\u00e9ria deteriorada, eu me sentia fascinado tamb\u00e9m pela degrada\u00e7\u00e3o dos habitantes. A prostitui\u00e7\u00e3o mais anti-higi\u00eanica manteve os sobrados de p\u00e9. Casas sem moradores caem. As do Pel\u00f4 exibiam as marcas da decad\u00eancia da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, pe\u00e7o ajuda aos universit\u00e1rios: eu n\u00e3o entendi nada!<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">ou bem Caetano acha que um bairro hist\u00f3rico se mantem vivo por seus habitantes tamb\u00e9m hist\u00f3ricos &#8211; e a\u00ed ele tem, por necessidade l\u00f3gica, de achar a Reforma de ACM uma merda total;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">ou ele acha que tem de ser de modo higi\u00eanico e autorit\u00e1rio que se retire pobre de bairros que foram ricos a 5 s\u00e9culos atr\u00e1s &#8211; e ele assuma de uma vez que \u00e9 carlista.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse meio termo, novamente, \u00e9 ou covardia moral ou desonestidade l\u00f3gica. Decidam a\u00ed.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">ACM \u00e9 um nome que se evita &#8211; a n\u00e3o ser que se queira xing\u00e1-lo ou adul\u00e1-lo. Medir objetivamente seu legado \u00e9 an\u00e1tema. Tou fora.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tou fora&#8221;. &#8220;Tou&#8221; fora! &#8211; poderia haver um modo pior de usar a variante oral na escrita?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E &#8220;Tou fora&#8221; se refere a que? Que per\u00edodo? Que termo da ora\u00e7\u00e3o anterior? Ou seria a subsequente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste trecho, Caetano parece estar transcrevendo (mal!) uma entrevista gravada de si pr\u00f3prio consigo mesmo ainda em formato K7.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A essa altura, ele [ACM] j\u00e1 tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tr\u00e1fego apenas nas cumeadas).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De novo, Caetano mente e sabe que mente. As Avenidas de Vale s\u00e3o de Mario Leal Ferreira (o Vale de Nazare e a Centen\u00e1rio, tra\u00e7ado de Di\u00f3genes Rebou\u00e7as), executadas em sua maioria durante o nascimento da <em>Avant Gard<\/em> no Governo Oct\u00e1vio Mangabeira, e depois na sua continua\u00e7\u00e3o com Antonio Balbino e no ocaso desta era com Luiz Vianna Filho. ACM s\u00f3 assumiu o governo em 1970; em 1967 era apenas prefeito. Das avenidas de vale ACM s\u00f3 fez a Mario Leal Ferreira (a \u00faltima a ser executada) &#8211; nome que ele escondeu sob o apelido de Bonoc\u00f4, j\u00e1 que fazia parte da metodologia carlista soterrar a hist\u00f3ria pregressa. A avenida Lu\u00eds Vianna Filho, que ACM escondeu sob o nome de Paralela, n\u00e3o \u00e9 uma avenida de vale, muito ao contr\u00e1rio do que se diz, e por motivos auto-evidentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De resto, se apropriar de id\u00e9ias de advers\u00e1rios, concretizadas anteriormente, e vender como suas tamb\u00e9m era um artif\u00edcio carlista (que Caetano parece exercitar em O Globo). ACM fez isso com o P\u00f3lo Petroqu\u00edmico de Cama\u00e7ari (projeto de seu arqui-inimigo R\u00f4mulo Almeida), faria tamb\u00e9m com Mario Leal Ferreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que ACM fez foi expandir Salvador ao norte criando a patologia que o Pelourinho se tornou: um Centro de Capital que n\u00e3o \u00e9 centro e onde nenhum pol\u00edtico transita no dia a dia. ACM fez isso criando o Centro Administrativo da Bahia: a pedra angular da feira-de-santaniza\u00e7\u00e3o de Salvador, fazendo com que a Capital perdesse sua identidade com o Rec\u00f4ncavo Hist\u00f3rico &#8211; de onde Caetano Veloso vem e a que ele diz (n\u00e3o sei se algu\u00e9m acredita depois dessa) amar.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E atra\u00eddo quadros de alto n\u00edvel t\u00e9cnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antrop\u00f3logo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano n\u00e3o pode ser superestimado, n\u00e3o acolheria decis\u00f5es mal\u00e9volas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caetano, quem acolhe decis\u00f5es e as sustenta \u00e9 o Governador e o Prefeito &#8211; ACM, no caso &#8211; e n\u00e3o um t\u00e9cnico por ele escolhido, como Vivaldo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(de resto, achar que em pleno carlismo quem quer que seja pudesse contestar, em algum grau, a decis\u00e3o soberana do Tirano \u00e9 um del\u00edrio salvacionista deste senhor).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, a restaura\u00e7\u00e3o, com os atrativos para quem quisesse estabelecer neg\u00f3cios ali, mudou a cara da cidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maquiou. A mudan\u00e7a veio depois, com o esvaziamento do Pelourinho, seus arrabaldes virando cracol\u00e2ndia, e o Maciel de Cima se configurando como a m\u00e1xima express\u00e3o do turismo prostituto e predat\u00f3rio.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jovens que at\u00e9 os anos 80 nunca tinham ido ao centro hist\u00f3rico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova auto-imagem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu s\u00f3 conseguia frequentar o Pel\u00f4 logo antes, durante, e logo depois da Reforma de ACM. De l\u00e1 pra c\u00e1, foram mais de 10 anos que ir ao Pel\u00f4 era pra mim um transtorno a ser feito uma ou duas vezes no ano, e bastava!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, com a Revitaliza\u00e7\u00e3o liderada por Marcio Meirelles e Beatriz Lima, premiada pela Caixa Econ\u00f4mica (o que Caetano omite por ignorar), vou ao Pel\u00f4 duas ou tr\u00eas vezes&#8230; por semana, e muito satisfeito! Se puder, vou mais vezes. Porque n\u00e3o h\u00e1 uma atra\u00e7\u00e3o axezeira ou turistoide l\u00e1. Porque o bairro est\u00e1 vivo e bem cuidado. Porque a Sinf\u00f4nica da Bahia toca em alguma igreja l\u00e1 uma vez por m\u00eas (e com ACM isso nunca aconteceu); porque Armandinho Macedo t\u00eam um palco permanente, e sempre cheio, l\u00e1 \u00e0s quartas-feiras. Entre outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mais: os j\u00f3vens a que Caetano se refere s\u00e3o os que v\u00eam de fora da cidade, ou da burguesia soteropolitana que odeia Salvador. Que aprendeu com o carlismo a odiar Salvador. Os jovens de classe m\u00e9dia baixa estavam alijados do Pel\u00f4. E os que l\u00e1 nasceram e se criaram estavam em uma das duas drogas, efeitos da reforma carlista: Coutos, que era a oficial, ou o crack mesmo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desprezo pelo Pelourinho quem tinha era ACM, que, como dissemos acima, fez a cidade crescer para fora de seus centros antigo e expandido, esvaziando-os ao criar bairros como a Pituba e o Imbu\u00ed. ACM detestava o Pelourinho porque detestava povo, gente, pessoas &#8211; da\u00ed gostar de Bras\u00edlia e querer governar desde uma &#8220;Bras\u00edlia bahiana&#8221; como \u00e9 o CAB<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o dada \u00e9 que as facilita\u00e7\u00f5es oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram s\u00e3o artificiosas. O secret\u00e1rio de Cultura, meu amigo\u00a0<span>M\u00e1rcio Meirelles<\/span>, \u00e9 o respons\u00e1vel pelo destino da \u00e1rea. Diretor do Bando de Teatro Olodum, M\u00e1rcio nos deu &#8220;\u00d3 pa\u00ed, \u00f3!&#8221;. O elenco que ele reuniu \u00e9 um espanto de vitalidade. Mas, nesse e em outros espet\u00e1culos do grupo, o sarcasmo relativo \u00e0 reforma do Pelourinho vinha colorir o \u00f3dio a ACM.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de invadir a UFBA com as tropas da PM em 2001, e espancar adolescentes, o que ACM conseguiu para sua mem\u00f3ria foi isso: \u00f3dio. &#8220;\u00d3dio e Nojo&#8221;, s\u00f3 para nos darmos ao luxo de parafrasearmos presidente da \u00faltima Assembl\u00e9ia Nacional Constituinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provocou tanto \u00f3dio que o seu amigo Heonir de Jesus Pereira Rocha, ent\u00e3o reitor da UFBA, teve de romper com ele publicamente no dia seguinte. N\u00e3o seria mais \u00f3bvio constatar o contr\u00e1rio: que a cr\u00edtica a reforma carlista do Pel\u00f4 n\u00e3o \u00e9 para &#8220;colorir o \u00f3dio a Ele&#8221;, e sim a causa (justific\u00e1vel!) deste mesmo \u00f3dio? Por que Caetano acha que pode deslegitimar desta forma t\u00e3o simpl\u00f3ria os sujeitos de um discurso ali\u00e1s vitorioso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se ACM atraiu para si &#8220;bons quadros de esquerda&#8221;, tamb\u00e9m soube no fim da vida e do carlismo fazer com que todos se afastassem dele. At\u00e9 seu pr\u00f3prio filho, Lu\u00eds Eduardo; at\u00e9 o ex-governador Paulo Souto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste par\u00e1grafo, Caetano revela outro ran\u00e7o carlista: o que ser amigo ou n\u00e3o de Marcio muda o que ele diz? Nada. Eu elogio M\u00e1rcio Meirelles 90% do tempo, e n\u00e3o tenho maiores proximidades com ele, nem ele comigo. Nossa admira\u00e7\u00e3o se formou nos \u00faltimos 3 anos, porque espontaneamente, cada um de um lado, unimos for\u00e7a pela Reforma Cultural Bahiana (e claro que n\u00e3o fomos os \u00fanicos, e este espa\u00e7o n\u00e3o tem um-d\u00e9cimo de import\u00e2ncia que outros atos e outros sujeitos desta reforma tiveram em seus efeitos e causas). Mesmo isso n\u00e3o me impede de criticar, quando precisa &#8211; ali\u00e1s \u00e9 esta a fun\u00e7\u00e3o que eu me incumbi, e que o Secret\u00e1rio me agradece por cumprir: ser cr\u00edtico sistem\u00e1tico e org\u00e2nico. &#8220;Uma nova cr\u00edtica, que surge com a nova can\u00e7\u00e3o&#8221; como me disse uma vez Pedro Pond\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser amigo (ou assim declarar-se) de algu\u00e9m sobre quem se diz bobagem n\u00e3o \u00e9 um modo de autorizar-se a bobagem dita. Muito ao contr\u00e1rio. Dona Can\u00f4 n\u00e3o te ensinou estes bons modos elementares?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu adorava a pe\u00e7a assim mesmo. Arte \u00e9 coisa s\u00e9ria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira est\u00e3o, na verdade, mais sintonizadas com as for\u00e7as que fizeram poss\u00edvel a recupera\u00e7\u00e3o do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desconex\u00e3o frasal que Caetano consegue provocar dentro de um mesmo par\u00e1grafo me fascina &amp; embevece&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois vieram o Recife Velho, o Centro de S\u00e3o Lu\u00eds, algo do Centro de S\u00e3o Paulo &#8211; e sobretudo veio vindo a Lapa.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compara\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula em U, onde cujo faz a curva. Nenhum destes centros tem 450 anos de idade (350 para Sampa e Rio, 200 para os outros dois; onde Recife tem pr\u00e9dios de 400 anos \u00e9 na Boa Vista, Aurora e em Olinda). Nenhum deles foi projetado para ser a Capital Ultramarina Portuguesa, em forma de fortaleza; nenhum ocupa um terreno t\u00e3o acidentado; nenhum recebeu tantos escravos negros por tanto tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mais: no caso de Recife e principalmente de S\u00e3o Lu\u00eds (e Rio de Janeiro, mais recentemente), a reforma do Centro Hist\u00f3rico n\u00e3o foi, como a de ACM no Pelourinho, esvaziante. S\u00e3o Lu\u00eds criou habita\u00e7\u00e3o l\u00e1, para funcion\u00e1rios p\u00fablicos especialmente, e o governador governa de dentro da Praia Grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que s\u00f3 agora se faz pelo Pel\u00f4: programa habitacional, e o retorno do Governo do Estado (ao menos a parte pol\u00edtica e de gest\u00e3o cultural) para dentro dos Port\u00f5es da Ajuda. Mas Caetano acha que certo estava ACM, que fez tudo ao contr\u00e1rio dos centros antigos de que Caetano gosta. \u00c9 o quereres e o estares sempre a fim do que em mim \u00e9 de mim t\u00e3o desigual de um n\u00e3o menos eterno insatisfeito e menino mimado que tem de, aos 60 anos de idade, se submeter a esporro p\u00fablico da m\u00e3e.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa privada se achegou, a Sala Cec\u00edlia Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, ilumina\u00e7\u00e3o, policiamento &#8211; e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FH-Lula.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 na gest\u00e3o atual se conseguiu abrir o Espa\u00e7o Unibanco de Cinema dentro do Centro Antigo de Salvador, e re-viabilizar o Cine XIV do Grupo SalaDeArte. Se o crit\u00e9rio \u00e9 atrair capital privado de cultura, a\u00ed est\u00e1: hoje atr\u00e1i, e com ACM n\u00e3o atraia &#8211; atraia s\u00f3 o capital especulativo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveit\u00e1vel de ACM &#8212; e fazer melhor.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente o que vem sendo feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pr\u00f3ximo queixume?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel fazer com os benef\u00edcios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o citai o santo nome de Glauber Rocha em v\u00e3o &#8211; especialmente se n\u00e3o ireis dizer que \u00e9 dele a id\u00e9ia que roubaste para colocardes fora de lugar aqui, oh Caetano.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse privatismo repentino soa suspeito.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De que &#8220;privatismo repentino&#8221; ele est\u00e1 falando? Algu\u00e9m entendeu essa parte, ou foi s\u00f3 mais uma caetanice?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O abandono do centro hist\u00f3rico tem parte no aumento da criminalidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 das poucas \u00e1reas da cidade em que a criminalidade vem caindo sensivelmente&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pol\u00edtica para mim \u00e9 isso. Capturar as for\u00e7as regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. N\u00e3o se atar a fac\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas como a torcidas de futebol &#8211; nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para nossa sorte, diferentemente de Gilberto Gil, Caetano nunca foi gestor; e diferentemente de Chico Buarque, nunca se meteu em pol\u00edtica de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caetano \u00e9 o que, mesmo? Nada &#8211; s\u00f3 um filho de Dona Can\u00f4. (Lembrando que S\u00e9rgio Buarque de Holanda dizia de si mesmo ao fim da vida, quando perguntavam quem era ele: &#8220;eu sou o pai do Chico&#8221;. E olhe que era S\u00e9rgio!)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caetano Veloso \u00e9 um cara que se sacrifica todo dia em nome da liberdade de express\u00e3o no Brasil &#8211; provando com a pr\u00f3pria imagem p\u00fablica que democracia \u00e9, no limite e radicalmente, o livre direito de dizer besteira com ar de coisa s\u00e9ria. 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