{"id":2298,"date":"2010-04-13T22:11:41","date_gmt":"2010-04-14T01:11:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2298"},"modified":"2025-12-24T13:02:58","modified_gmt":"2025-12-24T16:02:58","slug":"o-patrono-da-xibietagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2298","title":{"rendered":"O Patrono da Xibietagem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"attachment_2299\" style=\"width: 389px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Jorge_Amado1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2299\" class=\"size-full wp-image-2299\" title=\"Jorge_Amado1\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Jorge_Amado1.jpg\" alt=\"\" width=\"379\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Jorge_Amado1.jpg 379w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Jorge_Amado1-240x300.jpg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 379px) 100vw, 379px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2299\" class=\"wp-caption-text\">Ele ainda tem alguma coisa a ensinar aos novos-bahianos...<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00faltimos anos de vida de Jorge Amado coincidiram com os \u00faltimos anos, e mais duros, do carlismo, e com a ascens\u00e3o do <em>ax\u00e9-sistem<\/em> e a dissemina\u00e7\u00e3o do modelo Globo de bahianiade associado a tudo isso: indol\u00eancia, curteza mental, grosseria, sexualidade tur\u00edstica. Jorge Amado, infelizmente, talvez j\u00e1 velho demais para reagir, assentiu que sua obra fosse usada para este fim; e pessoalmente, se aproximou de ACM &#8211; antes, um rival, quando na constituinte de 1945 foi deputado pelo PCB, apoiador e amigo \u00edntimo do Governador Oct\u00e1vio Mangabeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a mesma for\u00e7a que minha gera\u00e7\u00e3o rejeitou o axez\u00e3o e a bahianidade-pra-paulista-ver, passou a condenar Jorge Amado. Eu mesmo por anos vi nele um escritor tur\u00edstico, de frases mal-acabadas, e parca capacidade de an\u00e1lise psicossocial (se comparado com Graciliano Ramos), econ\u00f4mica (se comparado com Jos\u00e9 Lins do R\u00eago, especialmente em seu monumental romance <em>Usina<\/em>, o \u00faltimo do ciclo da cana) ou hist\u00f3rica (<em>Terra dos Sem-Fim<\/em> soa-me sempre como uma c\u00f3pia encurtada de <em>O Tempo e o Vento<\/em>, de \u00c9rico Ver\u00edssimo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pra completar, tinha essa inveja de Recife que permeou a resist\u00eancia ao <em>ax\u00e9-sistem<\/em>: nos anos 1930, Recife teve um movimento liter\u00e1rio t\u00e3o organizado que atraiu escritores de outros estados e gerou cientistas sociais e cr\u00edticos. A Bahia, n\u00e3o. Sabemos que houve a Avant-Gard, difuso por\u00e9m mais duradouro e importante do que o modernismo pernambucano &#8211; no entanto, na \u00e9poca, a mem\u00f3ria do carlismo apagava e impedia de nos lembrar dessa \u00e9poca \u00e1urea. Da qual Jorge Amado \u00e9 dileto representante, como Caryb\u00e9 ou Verger, como Walter da Silveira e como Smetak ou Dorival Caimmy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente tomei para ler <em>Os Velhos Marinheiros<\/em>. Li de uma sentada! &#8211; e olhe que estava de plant\u00e3o no hospital (por sorte, n\u00e3o houve chamados por duas horas seguidas). Eis uma injusti\u00e7a que estes momentos de p\u00f3s-axezismo precisa fazer: sejamos p\u00f3s-amadianos!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fato: os persoangens de Jorge Amado s\u00e3o superficiais e esquem\u00e1ticos, de um realismo socialista tal que parecem sa\u00eddos de um painel de Diego Rivera ou de um filme da fase mexicana de Bu\u00f1uel. Outro fato: como romancista do cacau, ele fica aqu\u00e9m l\u00e9guas do grande tr\u00e1gico que \u00e9 Adonias Filho; como regionalista bahiano, perde feio para Herberto Salles, a quem ele chamou de &#8220;unificador da Bahia&#8221;, j\u00e1 que sua obra retrata a ocupa\u00e7\u00e3o da bacia do Paragua\u00e7\u00fa: de Len\u00e7ois a Cachoeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fato tamb\u00e9m: a longevidade excessiva, e o fen\u00f4meno midi\u00e1tico desde os primeiros livros, causou um &#8220;efeito Fernando Pessoa&#8221; (s\u00f3 que sem Pessoa) na Bahia: Jorge Amado, escritor pouco sistem\u00e1tico e algo pregui\u00e7oso (mas a pregui\u00e7a a\u00ed \u00e9 m\u00e9todo!), encobriu esses dois g\u00eanios acima citados, at\u00e9 hoje injustamente pouco conhecidos do leitor brasileiro e lus\u00f3fono. (E podem notar: a renova\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria brasileira se deu quando Jorge Amado morreu: quer por surgirem novos autores, quer pela redescoberta de outros j\u00e1 ent\u00e3o na ativa como Raduan Nassar e Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada disso retira o fato de que Jorge Amado inventou a Bahia (no sentido que Di\u00f3genes Rebou\u00e7as e Edgar Santos inventaram), elevou &#8211; junto com Mangabeira &#8211; a xibietagem e a nigrinhagem ao patamar de tecnologia de reflex\u00e3o l\u00f3gica (o que nenhum escritor brasileiro fez com seu idioleto nativo, a exce\u00e7\u00e3o talvez de Guimar\u00e3es Rosa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mais: n\u00e3o houve no s\u00e9culo XX cronista urbano compar\u00e1vel no Brasil. E, nos cinco s\u00e9culos de lusa l\u00edngua, compara-se apenas a Machado de Assis e E\u00e7a de Queiroz: em um est\u00e1 l\u00e1 transpirante a contradi\u00e7\u00e3o de viver numa capital imperial e tropical, iluminista e escravocrata; em outro, na mais provinciana das capitais europ\u00e9ias; em Jorge, a cidade que, insubordinada e anti-hier\u00e1rquica (como diz o pr\u00f3prio Jorge Amado no seu <em>Bahia de Todos os Santos<\/em>, que est\u00e1 longe de ser um &#8220;guia de viagem&#8221;), inverteu valores e, de capital militar portuguesa, se fez sede n\u00e3o declarada da civiliza\u00e7\u00e3o nag\u00f4 &#8211; Roma Negra, sudanesa vestida de renda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos retratou para fora do tempo, e nisso n\u00e3o foi nem superficial nem midi\u00e1tico. Basta ler<strong> <\/strong><em><strong>A Morte e a Morte de Quincas Berro d&#8217;\u00c1gua<\/strong><\/em><strong>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"640\" height=\"385\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ph14cRyrS3o&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"640\" height=\"385\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ph14cRyrS3o&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 l\u00e1 a esperteza inocente e o h\u00e1bito de n\u00e3o tratar nada a s\u00e9rio &#8211; t\u00e3o mangabeirista; a civilidade polida e ao mesmo tempo um tanto suja de rua, de dend\u00ea e de sexo; um pansexualismo ao mesmo tempo p\u00edcaro (e a\u00ed a heran\u00e7a de Greg\u00f3rio de Mattos e Castro Alves s\u00e3o \u00f3bvias) e infantilmente brincalh\u00e3o (nada dos dramas chor\u00f5es das punhetas em bangu\u00eas abandonados de Z\u00e9 Lins).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 l\u00e1 o barroquismo no estilo. N\u00e3o o barroco solene e m\u00edstico das Minas. Mas o barroco que gera catedrais inacredit\u00e1veis (e Jorge \u00e9 capaz de frases com subordina\u00e7\u00f5es dignas do Padre Antonio Vieira, em que constr\u00f3i de um golpe s\u00f3 verdadeiras teorias culturais da Capital Reconvexa), e ao mesmo tempo becos e corti\u00e7os malajambrados. O barroco do belo e do feio simult\u00e2neo; da santa e da puta; do ex\u00fa e do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tempo de reabilitar Jorge Amado. N\u00e3o o dos \u00faltimos dias de vida, ascentindo com o carlismo e sendo usado ao bel-prazer da V\u00eanus Platinada do Plim-Plim. Mas o jovem diplomata bahiano, que mostrou ao mundo que, diria Milton Santos (outro amadiano, porque tamb\u00e9m filho e autor da Avant Gard), uma outra civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel: negra, sem ser africana; branca, sem ter pruridos cat\u00f3licos. Civiliza\u00e7\u00e3o em que, se o portugu\u00eas \u00e9 o espanhol desossado, o bahian\u00eas \u00e9 o portugu\u00eas cozido lento, no aguid\u00e1 de barro, com azeite de dend\u00ea &#8211; e servido com ef\u00f3, aca\u00e7\u00e1 e feij\u00e3o-de-leite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por coincid\u00eancia, os filmes da nova safra bahiana tem revisto a cidade do Salvador com olhos que n\u00e3o s\u00e3o exatamente ao modo de Amado, mas herdeiro dele. Por exemplo: <em>Cidade Baixa<\/em>, ali\u00e1s se passando na parte da cidade que Jorge Amado mais gostava &#8211; e que na \u00e9poca era a mais pobre e isolada. Quando n\u00e3o ocorre, nesta nova safra, de advirem filmes diretamente feitos a partir da obra dele &#8211; e sem parecerem novelas da Globo pra paulista ver: <em>Capit\u00e3es da Areia<\/em> e <em>Quincas Berro D&#8217;\u00c1gua<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um Jorge Amado, finalmente, re-baianizado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os \u00faltimos anos de vida de Jorge Amado coincidiram com os \u00faltimos anos, e mais duros, do carlismo, e com a ascens\u00e3o do ax\u00e9-sistem e a dissemina\u00e7\u00e3o do modelo Globo de bahianiade associado a tudo isso: indol\u00eancia, curteza mental, grosseria, sexualidade tur\u00edstica. 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