{"id":2206,"date":"2010-03-01T19:09:45","date_gmt":"2010-03-01T22:09:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2206"},"modified":"2025-12-24T13:03:35","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:35","slug":"hotel-da-bahia-uma-didatica-da-ponte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2206","title":{"rendered":"Hotel da Bahia: uma did\u00e1tica da Ponte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2209\" title=\"30-hotel-tropical-wi-fi-salvador\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/30-hotel-tropical-wi-fi-salvador.jpg\" alt=\"30-hotel-tropical-wi-fi-salvador\" width=\"400\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/30-hotel-tropical-wi-fi-salvador.jpg 400w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/30-hotel-tropical-wi-fi-salvador-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante notar que os preocupad\u00edssimos com o fim (?)\u00a0do Hotel da Bahia s\u00e3o os mesmos que se op\u00f5e a Ponte Salvador-Itaparica (<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2199\" target=\"_blank\">n\u00e3o \u00e9 o caso de Paulo Souto, sem d\u00favida nisso um estadista<\/a>). Postura tipicamente medioclassista: preocupa-se com certa situa\u00e7\u00e3o social &#8211; mas se coloca contra os mecanismos para resolv\u00ea-la. Exemplo cl\u00e1ssico: 11 em cada 10 medioclassistas s\u00e3o a favor da distribui\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds &#8211; destes, 9 s\u00e3o no entanto contra o Bolsa-Fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes que algu\u00e9m fa\u00e7a uma hiperinterpreta\u00e7\u00e3o rasteira, eu n\u00e3o estou dizendo que o Hotel da Bahia fechou &#8220;porque n\u00e3o tem Ponte&#8221;. <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2187\" target=\"_blank\">Nem estou dizendo que &#8220;s\u00f3 a Ponte salva&#8221;<\/a>. Estou frisando um fato evidente: o Centro Expandido (nem falo s\u00f3 do Centro Antigo) de Salvador virou uma cidade-dormit\u00f3rio. E j\u00e1 se fala nisso como &#8220;efeito Salvador&#8221;, no mesmo sentido que as grandes avenidas vazias s\u00e3o conhecidas como &#8220;efeito Los Angeles&#8221;. &#8220;Efeito Salvador&#8221;: uma capital cosmopolita de 3milh\u00f5es de habitantes ter uma vida laboral de cidade de interior pobre &#8211; toda sua popula\u00e7\u00e3o trabalha fora de seu Centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este processo \u00e9 longo: dos anos 40 aos anos 70, Salvador se industrializou. Tinha f\u00e1brica textil (a Lu\u00eds Tarqu\u00ednio), po\u00e7o de petr\u00f3leo, sider\u00fargicas e f\u00e1bricas de chocolate no sub\u00farbio ferrovi\u00e1rio, especificamente em Plataforma. Que ind\u00fastria Salvador abriga hoje? Nenhuma! Todas se deslocaram para o norte, especialmente para Cama\u00e7ari e agora para Feira de Santana. Este \u00e9 o principal motivo de o Centro Econ\u00f4mico de Salvador estar hoje na sua entrada norte. E se nada for feito, vai piorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta ocupar com habita\u00e7\u00e3o o Com\u00e9rcio e o Pelourinho &#8211; se n\u00e3o houver atividade produtiva\u00a0geradora de renda robusta (turismo portanto n\u00e3o conta)\u00a0para todas as classes sociais no Centro Expandido, ele vai virar um enorme museu residencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, se pode alegar que certas \u00e1reas do Centro continuam vivas ou foram revitalizadas. No limite, a Pra\u00e7a Castro Alves, especialmente atrav\u00e9s do Espa\u00e7o Glauber Rocha Unibanco de Cinema. Ali\u00e1s, a Castro Alves deve receber o Hotel Fasano, de alto luxo, no tamb\u00e9m tombado Pr\u00e9dio do Jornal A Tarde. Isto \u00e9: h\u00e1 sim sa\u00edda para o Hotel da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Milton Santos<\/strong>, em seu cl\u00e1ssico obrigat\u00f3rio <strong><em><a href=\"http:\/\/www.edusp.com.br\/detlivro.asp?id=411199\" target=\"_blank\">O Centro Da Cidade do Salvador<\/a><\/em><\/strong>, de 50 anos atr\u00e1s, j\u00e1 alertava para duas fal\u00e1cias que at\u00e9 hoje se alardeiam. Uma, \u00e9 a id\u00e9ia de conserva\u00e7\u00e3o patrimonial e sua rela\u00e7\u00e3o com a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ge\u00f3grafo neg\u00e3o aponta um fato \u00edmpar: em Salvador, conserva\u00e7\u00e3o patrimonial e especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria funcionam n\u00e3o como limitadores um do outro (o que seria normal e esperado e ocorre em outras cidades do pa\u00eds). Antes, como vetores que se somam: os tombamentos s\u00e3o t\u00e3o r\u00edgidos (porque n\u00e3o se pode mudar o assoalho do Pelourinho, por exemplo?) que esvaziam os pr\u00e9dios agraciados; e a especula\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de reaproveit\u00e1-los de alguma forma, vai buscar outras \u00e1reas mais distantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que isso tem mudado, desde a gest\u00e3o municipal de Antonio Imbassahy, e mais recentemente com o Programa de Tombamento do Patrim\u00f4nio Modernista pelo IPAC e com o Escrit\u00f3rio de Refer\u00eancia do Centro Antigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra fal\u00e1cia que o g\u00eanio negro de Maca\u00fabas lembra \u00e9 a id\u00e9ia de que Salvador tem uma alta densidade demogr\u00e1fica. Tem, s\u00f3 que \u00e9 mal distribu\u00edda. Num mesmo bairro h\u00e1 pr\u00e9dios superlotados lado a lado a pr\u00e9dios vazios. No limite, a Liberdade \u00e9 insuportavelmente cheia &#8211; e no Com\u00e9rcio n\u00e3o mora ningu\u00e9m. Insistir nesta fal\u00e1cia quantitativa (e ignorar uma avalia\u00e7\u00e3o qualitativa da densidade demogr\u00e1fica) tamb\u00e9m interessa a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria desregrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo desregrada porque\u00a0a especula\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 em si inevit\u00e1vel &#8211; o que n\u00e3o\u00a0\u00e9 inevit\u00e1vel \u00e9 seu desregulamento. E &#8211; li\u00e7\u00e3o de Di\u00f3genes Rebou\u00e7as! &#8211; se bem usada, com firme condu\u00e7\u00e3o pelo aparato estatal democr\u00e1tico, ela pode ser ben\u00e9fica. E gerar obras-primas. Como o Hotel da Bahia, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem os contra-Ponte (o trocadilho \u00e9 por sua conta, leitor) que a Ponte traria a viol\u00eancia de Itaparica atual para o Centro de Salvador &#8211; e que pioraria a de l\u00e1. Que traria a fal\u00eancia de l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao que parece, \u00e9 justo o contr\u00e1rio: n\u00e3o haver liga\u00e7\u00e3o direta com o Rec\u00f4ncavo e n\u00e3o haver vetor de retraimento da cidade para seu Centro (com expans\u00e3o econ\u00f4mica deste) \u00e9 que pode alastrar essas pragas. Tendo isso, \u00e9 prov\u00e1vel que elas sanem ou diminuam. Esse bucolismo conservacionista, ao tentar barrar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, s\u00f3 a piora &#8211; bem na dial\u00e9tica que Milton Santos mostrou em sua obra-prima meio s\u00e9culo atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem que se entender a divis\u00e3o de Salvador entre <em>antes e depois do Rio Vermelho<\/em> como uma cis\u00e3o entre as duas regi\u00f5es metropolitanas de Salvador. Ao norte, uma industrial, recente, rica, mas urbanisticamente ca\u00f3tica (salvo as orlas mar\u00edtimas de Mata de S\u00e3o Jo\u00e3o, Lauro de Freitas e Cama\u00e7ari), e com uma classe m\u00e9dia jeca; ao Sul e a Oeste, cidades antigas, com um patrim\u00f4nio cultural imaterial transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. O &#8220;umbigo do mundo&#8221;, diria Milton Santos. Por\u00e9m estagnadas e empobrecidas. Cidades que s\u00e3o a pr\u00f3pria imagem da aristocracia decadente: erudita,\u00a0popularmente engajada, e sem um tost\u00e3o no bolso. (Sobre isso, brilhante texto de <strong>Ubiratan Castro, o Bira Gordo<\/strong>, <a href=\"http:\/\/jeitobaiano.wordpress.com\/2010\/02\/23\/uma-ponte-sobre-o-reconcavo\/\" target=\"_blank\">no final deste post<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Ponte para Itaparica pode n\u00e3o s\u00f3 <a href=\"http:\/\/osvaldocampos.blogspot.com\/2010\/02\/uma-utopia-de-lugar_09.html\" target=\"_blank\">re-ligar Salvador ao Rec\u00f4ncavo, mas o Passado ao Futuro<\/a>; Cama\u00e7ari a Cachoeira. Especialmente, religar uma Capital Cosmopolita consigo mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o fim do Hotel da Bahia pode nos ensinar alguma coisa, que seja tamb\u00e9m\u00a0isso. N\u00e3o ter\u00e1 sido em v\u00e3o &#8211; e mestre Di\u00f3genes certamente agradeceria de algum boteco no reformado (e bauhaus!)\u00a0Largo Dois de Julho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 interessante notar que os preocupad\u00edssimos com o fim (?)\u00a0do Hotel da Bahia s\u00e3o os mesmos que se op\u00f5e a Ponte Salvador-Itaparica (n\u00e3o \u00e9 o caso de Paulo Souto, sem d\u00favida nisso um estadista). 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