{"id":2079,"date":"2010-01-22T06:50:35","date_gmt":"2010-01-22T09:50:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2079"},"modified":"2025-12-24T13:03:35","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:35","slug":"regio-dorkestra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2079","title":{"rendered":"R\u00e9gio d&#8217;Orkestra"},"content":{"rendered":"<h3><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2158\" title=\"letieres_leite\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/letieres_leite.jpg\" alt=\"letieres_leite\" width=\"282\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/letieres_leite.jpg 282w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/letieres_leite-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><\/h3>\n<h3>&#8220;Eu Sou Um Oper\u00e1rio da M\u00fasica&#8221;<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele lidera uma das mais importantes big-bands de jazz do mundo, hoje. Uma big-band nag\u00f4, mal\u00ea, fon, j\u00eaje &#8211; que subverte a estrutura orquestral ao colocar na frente, e n\u00e3o na cozinha, os tambores e percuss\u00f5es, e os negros em traje de gala. A Orkestra Rumpilezz acabou sendo um meta-mundo do p\u00f3s-axezismo: para ela convergem o Neojib\u00e1, a OSBA, o Jam do MAM, a cozinha de Ivete Sangalo e Daniela Mercury, o pagod\u00e3o, e at\u00e9 o rock. \u00c9 com uma honra infinita que o \u00daltimo Baile dos Guermantes estende o tapete de veludo vermelho para o g\u00eanio: Letieres Leite!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"425\" height=\"344\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/7GsaNo27Jyg&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"425\" height=\"344\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/7GsaNo27Jyg&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que tenho feito \u00e9 formatar formalmente a m\u00fasica bahiana negra de origem &#8211; catalogar, sistematizar, estruturar um pensamento da m\u00fasica que estou defendendo. Algo como Pernambuco fez com o frevo a quase um s\u00e9culo atr\u00e1s, quando o frevo foi catalogado e separado nas tr\u00eas vertentes (de rua, can\u00e7\u00e3o, e de bloco ou pau-e-corda).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LUCAS JERZY PORTELA: N\u00e3o gostaria que fosse uma entrevista, e sim uma conversa. Como naquele dia em que voc\u00ea me ligou e conversamos quase meia hora por telefone celular &#8211; ali\u00e1s, eu gostaria de ter gravado aquilo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LETIERES LEITE: Eu tenho muita facilidade de falar, juntar as id\u00e9ias e colocar as id\u00e9ias bem claras. \u00c9 uma tend\u00eancia minha natural. Li um pouco sobre o tema da can\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das suas entrevistas, existe aquela resist\u00eancia &#8211; um tema que foi levantado pelo grande cr\u00edtico Zuza Homem de Melo. Eu entendo que quando se tenta ver a m\u00fasica atual, a m\u00fasica falada que foi propagada pelo RAP &#8211; \u00e9 preciso lembrar que significa <em>ritmo&amp;poesia<\/em>. Lembro sempre do <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gil_Scott-Heron\" target=\"_blank\">Gil Scott-Heron<\/a>, que al\u00e9m de rapper \u00e9 m\u00fasico de jazz da pesada, instrumentista, e era um poeta escritor, que fez livros fant\u00e1sticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 lhe ocorreu que o poeta mais arrojado, e que abre o s\u00e9culo XX na poesia era um negro americano? &#8211; <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/E._E._Cummings\" target=\"_blank\">e.e.cummings<\/a><\/strong><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Scott-Heron n\u00e3o \u00e9 poeta exatamente, mas tinha uma aten\u00e7\u00e3o especial com a palavra &#8211; embora reconhecido primeiro como instrumentista. Da\u00ed ele ser considerado um dos pais do RAP. L\u00f3gico que naquela \u00e9poca, naquele contexto hist\u00f3rico, tudo isso acontecia por ser a contesta\u00e7\u00e3o do negro, da priva\u00e7\u00e3o do negro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 uma coisa curiosa sobre e.e.cummings: ele tinha influ\u00eancia aristocr\u00e1tica e da art-dec\u00f4 alem\u00e3. E por outro lado, ningu\u00e9m lembra que ele era negro. Meio como o jazz, que s\u00f3 \u00e9 lembrada como a &#8220;m\u00fasica erudita americana&#8221; ou &#8220;m\u00fasica erudita do s\u00e9culo XX&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa maneira h\u00e1 uma tend\u00eancia natural de embranquecimento dos avan\u00e7os da cultura negra que s\u00e3o tidos por sofisticados &#8211; o que \u00e9 uma coisa quase orquestrada. O rock&#8217;n roll \u00e9 considerado ainda uma ponte entre esses dois mundos: negro e branco. Vamos falar tecnicamente: o <em>rythm&amp;blues<\/em> \u00e9 uma m\u00fasica cujo formato \u00e9 de 12 compassos, essa estrutura foi fechada dentro da cultura negra. E s\u00f3 foi replicada pela classe m\u00e9dia branca brit\u00e2nica depois, do que se foi tirando a base do rock, diminuindo a sua estrutura at\u00e9 chegar num invento que eu considero um divisor de \u00e1guas interessant\u00edssimo &#8211; O Ramones, que reduziu a can\u00e7\u00e3o a tr\u00eas acordes e por vezes um s\u00f3 verso. Do ponto de vista formal, \u00e9 interessant\u00edssimo! Mas nos seus prim\u00f3rdios, a estrutura harm\u00f4nica e mel\u00f3dica, o material m\u00ednimo pra se come\u00e7ar a fabricar rock, veio da cultura negra &#8211; Litle Richards, Chuck Berry, e outros caras at\u00e9 anteriores que j\u00e1 tocavam rock&#8217;n roll, embora classificado como jazz ou blues na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um fato not\u00e1vel: a poesia de e.e.cummings \u00e9 especialmente er\u00f3tica, sensual, \u00e0s vezes at\u00e9 expl\u00edcita; e isto \u00e9 algo marcante tamb\u00e9m no jazz, no blues, no rock, no pagod\u00e3o. Voc\u00ea acha que a contribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra na can\u00e7\u00e3o passa tamb\u00e9m pela explicita\u00e7\u00e3o da sexualidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m isso, mas n\u00e3o s\u00f3 isso. N\u00e3o devemos reduzir a contribui\u00e7\u00e3o negra na m\u00fasica popular apenas a isso, e sim lembrar da estrutura\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica e r\u00edtmica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No entanto, a m\u00fasica popular do interior do Brasil, especialmente o sertanejo de Goi\u00e1s e a moda de viola do Mato-Grosso, \u00e9 muito puramente portuguesa. N\u00e3o consigo ver influ\u00eancia negra al\u00ed, talvez por n\u00e3o ter havido escravid\u00e3o negra expressiva nestas regi\u00f5es. \u00c9 quase modinha.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado as pessoas se esquecem que quase todos os instrumentos do samba s\u00e3o, por origem, portugueses, inclusive a percuss\u00e3o e os surdos &#8211; tamanha \u00e9 a dissemina\u00e7\u00e3o da miscigena\u00e7\u00e3o na nossa m\u00fasica popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou da origem harm\u00f4nica e r\u00edtmica negra, mas do ponto de vista l\u00edrico e mel\u00f3dico, a can\u00e7\u00e3o vem de uma tradi\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A influ\u00eancia maior da can\u00e7\u00e3o vem desse embate, desta tens\u00e3o. Aqui, uma impress\u00e3o pessoal: a can\u00e7\u00e3o est\u00e1 quase sempre ligada a algo de melanc\u00f3lico na melodia e nas letras. Veja o samba-can\u00e7\u00e3o, por exemplo: \u00e9 o samba mais triste. E o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frevo-can\u00e7\u00e3o!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exato: frevo-can\u00e7\u00e3o. Falamos at\u00e9 juntos, est\u00e1 vendo? Isso tem algo da heran\u00e7a ib\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos Bumba-Bois do Maranh\u00e3o em Sotaque de Orquestra, embora muito dan\u00e7antes a melodia \u00e9 em tom menor.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas Cirandas, de Pernambuco, tamb\u00e9m. Isso vem da cultura ib\u00e9rica j\u00e1 formatada &#8211; isto \u00e9: depois de assimilar a influ\u00eancia moura, dos 500 anos de domina\u00e7\u00e3o \u00e1rabe na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa voc\u00ea me falou no telefone aquele dia, que eu acho importante: &#8220;por melhor que sejam estas quatro entrevistas deste cartel, elas ignoram a a m\u00fasica produzida na Bahia pela popula\u00e7\u00e3o negra. S\u00e3o entrevistas de branco&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pensamos em m\u00fasica alternativa, pensamos em m\u00fasica feita pela classe m\u00e9dia. Me refiro ao branco hist\u00f3rico, antropol\u00f3gico-social, n\u00e3o exatamente ao \u00e9tnico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 m\u00fasica de esquerda, mas de classe m\u00e9dia. Digamos, de uma esquerda universit\u00e1ria &#8211; e n\u00e3o da esquerda prolet\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exato. Eu falo isso enquanto educa\u00e7\u00e3o formal &#8211; e n\u00e3o como capacidade de observa\u00e7\u00e3o de vida, na qual os grandes cancionistas de pouca educa\u00e7\u00e3o formal s\u00e3o diplomados. Como Batatinha, ou Cartola. Pensei primeiro em Batatinha porque eu tive proximidade maior com ele. Meu pai era contempor\u00e2neo dele e tamb\u00e9m tip\u00f3grafo, e ele tinha uma loja na Pra\u00e7a da S\u00e9, uma livraria na Rua Monte Alverne, na qual eu trabalhava. E Batatinha ia l\u00e1 e ele j\u00e1 era o cara, o sambista fundamental para nossa forma\u00e7\u00e3o ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 algo que voc\u00ea e Emerson Taquari fazem que acho importante: valorizar o pagod\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o quero valorizar nenhum ritmo em especial, procuro ver a import\u00e2ncia de cada um como um todo. E eu coloco o pagode bahiano como um dos ramos da grande \u00e1rvore cuja origem \u00e9 o candombl\u00e9. \u00a0Mas todo o desenvolvimento do pagode tem a ver com a industria, que o produz: quem ganha dinheiro com o pagod\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, s\u00e3o os brancos donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o! Embora eu ache que o pagode tenha sido o estilo musical que mais realizou uma verdadeira distribui\u00e7\u00e3o de renda direta dentro da m\u00fasica. Nunca vi um estilo musical fazer com que pessoas de uma certa classe social tenham aumentado radicalmente seu poder aquisitivo e passassem a transformar seus lugares geogr\u00e1ficos de origem &#8211; s\u00f3 o pagod\u00e3o. Eu posso falar disso por observa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, do tempo em que eu morava no Caxund\u00e9, na Boca do Rio, onde havia v\u00e1rios grupos de pagode que nem eram de grande sucesso. Tinha um menino l\u00e1 que aprendeu a tocar umas coisas comigo com cinco anos de idade, e hoje toca no Fantasm\u00e3o, e tocou muito tempo com Tony Salles (da banda de pagod\u00e3o e suingueira RagaToni) &#8211; chama-se \u00a0Deilton. Eu vi Deilton crescer e transformar uma situa\u00e7\u00e3o financeira na fam\u00edlia dele. Houve uma distribui\u00e7\u00e3o de renda aut\u00eantica: a rua onde esses caras moravam tinham um aspecto; quando come\u00e7aram a tocar, melhorou imediatamente a paisagem da rua. Claro: eles s\u00e3o explorados pela ind\u00fastria cultural, e ganham menos do que merecem de seus empres\u00e1rios &#8211; mas isso se realizou com o dinheiro que eles ganharam. Qual a outra op\u00e7\u00e3o que os pagodeiros teriam? Ser auxiliar de servi\u00e7os gerais, pedreiros, n\u00e3o haveria mudan\u00e7a de vida, transforma\u00e7\u00e3o social. Eu nunca vi isso ocorrer por exemplo no ax\u00e9-music &#8211; na verdade, eu prefiro falar em &#8220;m\u00fasica bahiana&#8221; do que em &#8220;ax\u00e9-music&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas m\u00fasica bahiana inclui v\u00e1rias coisas que n\u00e3o s\u00e3o ax\u00e9, nem pagode.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00fasica bahiana inclui tudo que se produz no universo do Carnaval de Salvador. Pro sulista, t\u00e1 tudo na mesma prateleira: do Filhos de Gandhy at\u00e9 Mariene de Castro, de Chiclete com Banana a Armandinho. Isso \u00e9 uma vis\u00e3o de fora, de quem n\u00e3o entende, mas tem uma conex\u00e3o com a realidade. Porque todos estes trabalhos se conectam na percuss\u00e3o, reverenciam a percuss\u00e3o, todos estes trabalhos partem da percuss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo o frevo el\u00e9trico? Porque o frevo el\u00e9trico retira a percuss\u00e3o, e transfere o ritmo pra guitarra.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer divis\u00e3o r\u00edtmica de um instrumento harm\u00f4nico vem de um instrumento percussivo. A transforma\u00e7\u00e3o social que o pagode proporcionou em n\u00e3o vi em outros ritmos bahianos &#8211; todos os m\u00fasicos destes outros ritmos que n\u00e3o eram da percuss\u00e3o n\u00e3o vinham de classes mais baixas. Os negros na cozinha da m\u00fasica, e os brancos de classe m\u00e9dia no sopro e nas guitarras. Eu fa\u00e7o parte dessa turma de m\u00fasicos de sopro &#8211; apesar de ser negro, sempre fui de classe m\u00e9dia; meu pai era livreiro, eu lia muito desde cedo, etc. Por que isso? Primeiro, que os m\u00fasicos de instrumentos harm\u00f4nicos do ax\u00e9-music tocavam instrumentos caros, piano, saxofone, etc. &#8211; os tambores s\u00e3o baratos. \u00a0N\u00e3o se conhecia um pianista negro em Salvador at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s. Isso \u00e9 uma loucura! Antes de eu ir pra Europa estudar, fiz uma pesquisa pessoal para saber a quantidade de m\u00fasicos negros que sabiam tocar e orquestrar. N\u00e3o tinha. Eram brancos que vinham de fam\u00edlias que podiam bancar estes estudos. N\u00e3o estou querendo criar uma barreira racial ou social, e sim mostrando uma realidade. Como era a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica bahiana? Havia um \u00fanico est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o, a WR, e este est\u00fadio tinha seus m\u00fasicos de base. Este monop\u00f3lios s\u00f3 diminuiu quando surgiu o home-studio &#8211; ficou barato: qualquer pessoa consegue montar um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o em casa, o que tem a ver com o advento do MySpace e do Youtube. Voltando a minha considera\u00e7\u00e3o sobre a ascens\u00e3o social no pagod\u00e3o: em bandas de pagode foi a primeira vez que vi uma banda formada completamente por negros, na Bahia. E eram v\u00e1rias! Dei-me conta disso quando voltei da Europa e fui ver o que estava acontecendo de novo na Bahia &#8211; quando vi fiquei muito feliz. Isso estou falando h\u00e1 20 anos atr\u00e1s. Quando vi disse: caramba! Antes o cantor podia at\u00e9 ser um negro, como Lazzo Matumbi ou Margareth Menezes, Pierre Onassis, mas eram negros que tinham sempre uma subordina\u00e7\u00e3o a alguma famiglia branca que tinha o controle do poder econ\u00f4mico, e estes cantores negros trabalhavam pra estas pessoas dentro de certos limites. \u00c9 diferente das cantoras brancas de ax\u00e9-music, que v\u00eam da classe m\u00e9dia e acabam sendo s\u00f3cias de seus empres\u00e1rios e gravadoras, e tinham la\u00e7os consagu\u00edneos com estas famiglias. A exce\u00e7\u00e3o talvez seja Ivete Sangalo, que vem de uma classe popular, batalhadora, que j\u00e1 vendeu de chap\u00e9u at\u00e9 marmita para ganhar dinheiro. Ainda assim, por n\u00e3o ser negra, era facilmente abra\u00e7ada por estes grupos. Margareth Menezes por muito tempo foi a \u00fanica negra que cantava m\u00fasica bahiana com car\u00e1ter e originalidade; na Su\u00ed\u00e7a, a vi cantando com David Birn &#8211; e voltando pro Brasil, vi que aqui ela n\u00e3o estava estourada.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2161\" title=\"rumpilezz\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/rumpilezz.jpeg\" alt=\"rumpilezz\" width=\"700\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/rumpilezz.jpeg 700w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/rumpilezz-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa coisa de se considerar negro \u00e9 engra\u00e7ada. <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1934\" target=\"_blank\">Pedro Pond\u00e9<\/a><\/strong><strong>, que \u00e9 branco, diz se considerar em parte negro &#8211; apesar de vir de uma fam\u00edlia aristocr\u00e1tica. Ele me disse at\u00e9 que estranhava quando as pessoas se referiam a ele como algu\u00e9m vindo do &#8220;cl\u00e3 intelectual dos Pond\u00e9&#8221;. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falo dos nomes de fam\u00edlia, n\u00e3o falo como um exagero ou um exerc\u00edcio de repeti\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias aristocratas mundial &#8211; embora saibamos que a Hist\u00f3ria se repete. A nossa aristocracia, se por um lado tem um pacto com o povo e uma vis\u00e3o social, em figuras como Edgar Santos, An\u00edsio Teixeira, Oct\u00e1vio Mangabeira, por outro ela \u00e9 a classe dominante e monopolista como qualquer outra. Se se vem de uma fam\u00edlia cuja domina\u00e7\u00e3o \u00e9 na industria naval, \u00e9 uma mesma fam\u00edlia que domina; na \u00e1rea varejista, outra; na \u00e1rea da Cultura \u00e9 igual. Quem domina o mercado cultural bahiano, para bem e para o mal, s\u00e3o as mesmas fam\u00edlias h\u00e1 quase um s\u00e9culo. Eles s\u00e3o at\u00e9 involuntariamente preparados pra isso desde pequenos, em seus ambientes dom\u00e9sticos, familiares. Os meninos do pagod\u00e3o n\u00e3o foram preparados desde pequenos para isso &#8211; \u00e9 esfor\u00e7o pessoal. Isso n\u00e3o diminui os que v\u00eam de fam\u00edlias abastadas: s\u00e3o talentos\u00edssimos! O que estou mostrando \u00e9 uma diferen\u00e7a social: uns, nascem em fam\u00edlias que tem os meios de produ\u00e7\u00e3o e o capital cultural transmitido de ber\u00e7o; os da periferia, se chegaram a isso, foi por esfor\u00e7o. A aristocracia n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 ligada a poder econ\u00f4mico, e sim ao de perpetua\u00e7\u00e3o de um conceito cultural. Que conceito cultural \u00e9 este que estas fam\u00edlias perpetuam? Ora, por mais que eu admire, n\u00e3o \u00e9 o meu! Eu fui criado na beira do Dique do Toror\u00f3, e depois na Boca do Rio. Embora eu tenha vindo de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, j\u00e1 tive momentos de necessidade financeira na adolesc\u00eancia, indo estudar em col\u00e9gio p\u00fablico e tendo contato com pessoas que me mostraram este outro lado. E embora eu tenha sempre tido contato com a elite, olha meu sobrenome: eu n\u00e3o venho dos cl\u00e3s intelectuais da Bahia! Mas h\u00e1 isso na Bahia: a intera\u00e7\u00e3o entre estas fam\u00edlias e as classes populares \u00e9 intens\u00edssima, por causa da perten\u00e7a das fam\u00edlias da elite com o candombl\u00e9. Pense que toda a classe pol\u00edtica do estado nos \u00faltimos 50 anos passou pelo Conselho de Ob\u00e1 de M\u00e3e Senhora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eis algo que acho mal-explorado na Bahia. A Bahia tem a \u00fanica P\u00e1scoa multicultural do mundo! Qual \u00e9 a ceia de P\u00e1scoa no Rec\u00f4ncavo? Carur\u00fa, vatap\u00e1, feij\u00e3o de leite &#8211; \u00e9 um ritual de Ox\u00f3ssi. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pov\u00e3o: as fam\u00edlias brancas, da elite cat\u00f3lica da Vit\u00f3ria d\u00e1 carur\u00fa na P\u00e1scoa. E ningu\u00e9m repara nisso &#8211; n\u00e3o se comenta isso fora do estado. Talvez porque estejamos t\u00e3o habituados que n\u00e3o nos damos conta de que n\u00e3o \u00e9 assim em outros lugares do mundo e do pa\u00eds &#8211; que \u00e9 s\u00f3 aqui que se come carur\u00fa na P\u00e1scoa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra coisa \u00e9 que as bandas de pagod\u00e3o s\u00e3o formadas por amigos que moram no mesmo bairro. Um amigo tinha um cavaquinho, aprendido na rua, na oralidade; outro tocava percuss\u00e3o; mas a\u00ed precisava de algu\u00e9m pra tocar o teclado, ou o sopro, e a\u00ed se fazia um primo ou um vizinho aprender a tocar estes instrumentos. Claro que estes m\u00fasicos s\u00e3o de baixa qualifica\u00e7\u00e3o, pelo estilo musical escolhido n\u00e3o ser muito exigente do ponto de vista harm\u00f4nico e mel\u00f3dico. Claro, se partirmos pra uma discuss\u00e3o de complexidade est\u00e9tica em geral, todas os estilos musicais s\u00e3o ricos. Sinceramente, a revolu\u00e7\u00e3o r\u00edtmica do pagode foi a \u00faltima grande revolu\u00e7\u00e3o percussiva que aconteceu na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No Brasil tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez. O Funk Carioca, pelo amor de deus, n\u00e3o tem originalidade e criatividade musical!, pouqu\u00edssimos elementos r\u00edtmicos. Os trabalhos de pagod\u00e3o na Bahia passam pelo arranjo e combina\u00e7\u00e3o de claves. Uma m\u00fasica geralmente contem uma clave; s\u00f3 que o pagod\u00e3o consegue, em uma mesma melodia, variar por duas ou tr\u00eas claves. E al\u00e9m disso, a polirritmia: o pagode est\u00e1 num ritmo, e ao mesmo tempo este ritmo dobra paralelamente. \u00a0Claro, todo esse meu argumento \u00e9 acad\u00eamico, digamos assim: falo de regras &#8211; o pagode tem uma regra! &#8211; altamente complexa, e \u00e9 inovador. Inventar uma nova forma de cantar ou um novo texto \u00e9 mais f\u00e1cil do que se criar um ritmo absolutamente novo. Por mais que tenha vindo do samba-duro, do samba de roda e da chula, o pagod\u00e3o j\u00e1 \u00e9 outra coisa; e desse ainda deriva a suingueira, e depois o Psirico &#8211; \u00e9 mutante, sem romper com uma tradi\u00e7\u00e3o. Notei que o pagod\u00e3o havia criado algo novo vendo os teclados eletr\u00f4nicos japoneses, que vem com ritmos pr\u00e9-fabricados. Estes teclados contemplavam sempre, entre os ritmos brasileiros, samba e bossa-nova. Mesmo o frevo ainda n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, algum dia estar\u00e1, \u00e9 inevit\u00e1vel. Nestes teclados, a partir dos anos 90, come\u00e7ou a aparecer os ritmos &#8220;Ax\u00e9 1&#8221; e &#8220;Ax\u00e9 2&#8221;. Ax\u00e9 1 geralmente \u00e9 samba-reggae, e Ax\u00e9 2 \u00e9 mais a levada, o galope. Este fen\u00f4meno da Bahia \u00e9 de n\u00edvel mundial: poucos lugares do mundo se tem not\u00edcia de ainda se estarem inventando padr\u00f5es r\u00edtmicos novos. Talvez na \u00c1frica, ou em Cuba, mas sem o impacto midi\u00e1tico que a Bahia tem. Contudo, o que quero ressaltar s\u00e3o estes dois pontos: a distribui\u00e7\u00e3o de renda a partir do pagod\u00e3o, apesar do alto n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidos pela ind\u00fastria fonogr\u00e1fica; e o fato de terem passado a ter acesso a outros instrumentos mel\u00f3dicos e harm\u00f4nicos a que a popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o tinha. Hoje em Salvador, apenas 15 anos depois, observe o n\u00famero de instrumentistas negros que n\u00e3o trabalham com percuss\u00e3o, e sim com teclas, sopros e cordas: \u00e9 imenso! Se houvesse investimento s\u00e9rio neste sentido, poderiamos ser como Cuba, Nova York, a New Orleans de Winton Marsalis Jr. Por\u00e9m, o que falo \u00e9 de ter um movimento sistem\u00e1tico de educa\u00e7\u00e3o musical para a popula\u00e7\u00e3o negra: isso aconteceu em Cuba, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o; Nova York, e agora Salvador &#8211; primeiro espontaneamente pelo pagod\u00e3o, e agora, muito recentemente, de modo formal, por causa do Neojib\u00e1. Nestes tr\u00eas lugares existia um material humano fruto da miscigena\u00e7\u00e3o de culturas e ra\u00e7as, e condi\u00e7\u00f5es f\u00e9rteis para se fazer uma m\u00fasica forte n\u00e3o apenas dentro da tradi\u00e7\u00e3o oral, e sim tamb\u00e9m dentro de recursos modernos, contempor\u00e2nea e nova &#8211; se fossem dadas oportunidades destas pessoas terem acesso ao conhecimento formal. Em Nova York, eles chamavam de Youngs Lives, e criou gera\u00e7\u00f5es de m\u00fasicos potentes; parte destes trabalhos eram m\u00fasicos negros ensinando m\u00fasicos negros nas ruas. Quando olho a Bahia, vejo todo este material r\u00edtmico dispon\u00edvel &#8211; n\u00e3o tem nada a ver com nenhum estilo m\u00fasical. Faz de conta que a gente n\u00e3o tem nenhuma m\u00fasica em Salvador, e observe as pessoas andando: o modo de agir do bahiano \u00e9 musical, mesmo se a cidade fosse muda. Isso me faz crer que a potencialidade de Salvador \u00e9 identica a de Cuba e de Nova York &#8211; basta que se tome isso e se fa\u00e7a alguma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o, o <a href=\"http:\/\/neojiba.org\/\" target=\"_blank\">Neojib\u00e1<\/a> cumpre este papel&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cumpre! Claro que cumpre! Foi a primeira vez que vi um programa s\u00e9rio, concreto, para transforma\u00e7\u00e3o do afro-descendente na Bahia atrav\u00e9s da m\u00fasica, foi o Neojib\u00e1. O que h\u00e1 \u00e9 que o Neojib\u00e1 foca principalmente a m\u00fasica erudita &#8211; no que est\u00e3o corretos. Falta projeto similar que contemple a m\u00fasica popular, n\u00e3o apenas daqui, mas do mundo inteiro: o jazz, o folk &#8211; para formar m\u00fasicos que possam disputar espa\u00e7os, individualmente, com m\u00fasicos de qualquer lugar do mundo. O Neojib\u00e1 usa estrutura de m\u00fasica popular quando realiza bis, mas n\u00e3o acho a melhor solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso tratar a m\u00fasica popular como disciplina em si, com seu rigor pr\u00f3prio. Cuba fez isso com a Salsa (que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica cubana, mas uma reinven\u00e7\u00e3o a partir do jazz, fora de Cuba e da qual Cuba se re-apropria depois) h\u00e1 quase 100 anos, com livros e mais livros sistematizados; Recife fez algo similar com o frevo na mesma \u00e9poca, quando estabeleceu os tr\u00eas estilos fundamentais: de rua, de pau-e-corda ou de bloco, e frevo-can\u00e7\u00e3o. O que acontece com Cuba \u00e9 que os percussionistas de l\u00e1 sabem escrever arranjo em nota\u00e7\u00e3o musical de pauta &#8211; porque o pa\u00eds trata a m\u00fasica popular com o rigor de m\u00fasica de concerto, sem no entanto confundir as duas coisas. Claro que a tradi\u00e7\u00e3o yorub\u00e1 \u00e9 oral tradicionalmente; s\u00f3 que n\u00e3o dar condi\u00e7\u00f5es para que a tradi\u00e7\u00e3o yorub\u00e1 se torne tamb\u00e9m ela uma cultura escrita e erudita \u00e9 uma forma de segrega\u00e7\u00e3o. J\u00e1 me perguntaram: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o acha, Letieres, que se os percussionistas negros da Bahia aprenderem teoria musical formal v\u00e3o perder a espontaneidade?&#8221; &#8211; ora, n\u00e3o tem balela maior! Se fosse assim, todo o jazz americano n\u00e3o seria espont\u00e2neo&#8230; Voc\u00ea veja que se tentou tirar dos negros o m\u00e9rito do jazz americano: quando Milles Davis estava no auge, a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica da costa oeste cria Chat Baker &#8211; que \u00e9 excelente, s\u00f3 que claramente era pra ser uma &#8220;vers\u00e3o branca do Milles&#8221;; a mesma coisa Benny Goodman, quando a big-band de Duke Ellington estava no auge. Isso acontece quando \u00e9 um negro que est\u00e1 por dentro de uma descoberta musical que tem um car\u00e1ter mais elaborado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de Duke Ellington, e voc\u00ea deve saber que seu apelido Duke vinha do fato de ele ter uma forma\u00e7\u00e3o aristocrata, de uma fam\u00edlia que sempre trabalhou pros senadores de Washington. Como e.e.cummings, um poeta de Harvard; e no Brasil, Pixinguinha.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei se Pixinguinha se encaixa bem nisso. A hist\u00f3ria profissional dele tem um fato muito estranho: a maioria das composi\u00e7\u00f5es dele s\u00e3o em parceria com Benedito Lacerda. Eu me perguntava: como?, se a m\u00fasica de Pinxinguinha \u00e9 instrumental. M\u00fasica instrumental geralmente n\u00e3o requer parceria. Existe, mas s\u00e3o raros; em geral, um compositor not\u00f3rio instrumental comp\u00f5e sozinho. Ent\u00e3o, por que ele sempre tinha Benedito Lacerda ao lado dele? Ora, Lacerda foi o cara que quitou as hipotecas de Pixinguinha. Ele fez um contrato com Pixinguinha: &#8220;Eu vou ajeitar sua vida. Voc\u00ea \u00e9 g\u00eanio da m\u00fasica, mas p\u00e9ssimo nas finan\u00e7as. Eu quito suas d\u00edvidas, mas quero ter participa\u00e7\u00e3o de autoria em metade de suas m\u00fasicas&#8221;. At\u00e9 hoje a fam\u00edlia de Benedito Lacerda lucra com direitos autorais. Coloco esta hist\u00f3ria aqui para mostrar que, mesmo em m\u00fasicos negros eruditos e de ares brancos e elitistas, tamb\u00e9m sofrem este tipo de espolia\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, Pixinguinha come\u00e7ou fazendo jazz; os Oito Batutas era uma big-band, com o bumbo da bateria escrito jazz-band e tudo mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea me disse uma vez que n\u00e3o gosta do r\u00f3tulo de big-band pra Orkestra Rumpilezz. E Pedro Alexandre Sanches esta semana me disse que tem dificuldade de se permitir conhecer a Rumpilezz justamente pelo r\u00f3tulo de jazz que ela tem &#8211; embora ele saiba que este r\u00f3tulo seja impreciso, e que a Orkestra esteja mais pr\u00f3ximas \u00e0s vezes do samba-reggae. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s temos uma forma\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima da big-band pela tipologia e quantidade de instrumentos; mas nossa disposi\u00e7\u00e3o no palco, n\u00e3o. As big-bands se arrumam em arena reta, n\u00f3s fazemos um U; a percuss\u00e3o, muito maior, fica na frente do palco e n\u00e3o atr\u00e1s. Em termos de arranjo tamb\u00e9m, nosso trabalho \u00e9 muito pessoal, fora do convencionalismo das big-bands. O aspecto de crooning que a Rumpilezz tem por exemplo em Tabo\u00e3o ou O Samba Nasceu na Bahia n\u00e3o comparece por exemplo em Floresta Azul ou em Temporal. Quer dizer: a gente pode at\u00e9 ser jazz em orquestra, s\u00f3 que varia do acid-jazz at\u00e9 o crooning de big-band, sem se fixar em nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao tema da can\u00e7\u00e3o: o pagod\u00e3o bahiano faz can\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das defini\u00e7\u00f5es da can\u00e7\u00e3o \u00e9 a poesia musicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9, o que cria um conflito com o RAP, j\u00e1 que o RAP \u00e9 a anti-can\u00e7\u00e3o: letra e melodia est\u00e3o presentes, mas irrevogavelmente irreconcili\u00e1veis. Pedro Pond\u00e9 me apontou isso: que a id\u00e9ia de que a can\u00e7\u00e3o morreu vem da for\u00e7a que o RAP tomou nos anos 90. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que quer dizer RAP? Rythim And Poetry. Ritmo e Poesia, sem Melodia &#8211; quando \u00e9 a melodia que permite o am\u00e1lgama entre poesia e ritmo na can\u00e7\u00e3o. O pagode pode vir a ter can\u00e7\u00e3o, contudo a constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica do pagode n\u00e3o contempla tanto a can\u00e7\u00e3o. Pedro Pond\u00e9 tamb\u00e9m disse que a can\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que se pode assoviar &#8211; o que dificilmente acontece com o pagode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando eu perguntei sobre o pagode fazer can\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque me interessa a diferen\u00e7a entre can\u00e7\u00e3o e cantiga (exemplo: cantiga de ninar, cantiga de roda). E penso que o pagod\u00e3o talvez esteja mais pr\u00f3ximo da cantiga do que da can\u00e7\u00e3o. Porque a cantiga valoriza mais o ritmo, e menos a letra &#8211; ali\u00e1s, a letra tende a ser pobre, pequena e repetitiva.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pagod\u00e3o tem mais a ver com a cantiga do que o a can\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o tem uma influ\u00eancia forte da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e do Sul da Europa, uma certa melancolia na melodia, que o pagod\u00e3o n\u00e3o tem. No candombl\u00e9 tamb\u00e9m temos esta influ\u00eancia bem clara: tem as rezas, e as cantigas, as cantigas de inquice. A cantiga \u00e9 pra rua, pra fora do terreiro, como o que o Filhos de Gandhy fazem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por telefone, certo dia voc\u00ea me falou da exist\u00eancia o Ijex\u00e1-Can\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1gVR3sSD5Hk\" target=\"_blank\">ijex\u00e1<\/a> pra mim \u00e9 um genero musical completo, s\u00f3 falta algu\u00e9m formalizar e bater o martelo sobre isso. Tem ijex\u00e1 de rua, ijex\u00e1-pop, ijex\u00e1 can\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea pega algo da Cor do Som, de Moraes Moreira, \u00e9 ijex\u00e1-pop ou ijex\u00e1-rock. Jer\u00f4nimo faz ijex\u00e1-can\u00e7\u00e3o. Eu cheguei a conversar com Gilberto Gil sobre isso uma vez: sobre a batida do ijex\u00e1. Em Toda Menina Baiana Gil pega a batida do ijex\u00e1 no viol\u00e3o, mas inverte. A\u00ed eu comecei a ver que certas m\u00fasicas do cancioneiro brasileiro s\u00e3o surpreendentemente ijex\u00e1: <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qoJ-AUi2GXs\" target=\"_blank\">Trilhos Urbanos<\/a>, de Caetano, por exemplo, \u00e9 ijex\u00e1 &#8211; s\u00f3 que o viol\u00e3o dele toca uma frase que me deixou em d\u00favida. Depois atinei para <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TqxKX97TxsY\" target=\"_blank\">Lua &amp; Estrela<\/a>, e de novo isso: uma batida de ijex\u00e1, mas substituindo o grave do agog\u00f4 pelo agudo e vice-versa. Era uma clave que parecia do ijex\u00e1, mas nunca tinha encontrado nos ijex\u00e1s tradicionais. A\u00ed um dia me deu um &#8220;eureka&#8221;, e eu percebi: h\u00e1 numa varia\u00e7\u00e3o dos Filhos de Gandhy, uma clave, que se dividida e simplificada, d\u00e1 exatamente o ritmo de Trilhos Urbanos, Lua &amp; Estrela, e outras. A\u00ed, pra mim foi myth-buster, bati o martelo: o viol\u00e3o de Caetano \u00e9 ijex\u00e1! Dos ritmos afro-baianos, o que mais ganhou notoriedade e varia\u00e7\u00e3o foi o ijex\u00e1. E um dos grandes compositores compositores de ijex\u00e1 do Brasil n\u00e3o \u00e9 baiano: Jo\u00e3o Donato. Diversas composi\u00e7\u00f5es dele s\u00e3o ijex\u00e1-can\u00e7\u00e3o, especialmente as composi\u00e7\u00f5es em parceria com Gilberto Gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea certa vez me disse que a Orkestra Rumpilezz faz can\u00e7\u00e3o, sim. <a href=\"http:\/\/music.myspace.com\/index.cfm?fuseaction=music.popupplayer&amp;sindex=-1.3&amp;shuffle=false&amp;amix=false&amp;pmix=false&amp;plid=38935&amp;artid=1729825&amp;profid=109778728&amp;friendid=109778728&amp;sseed=0&amp;ptype=3&amp;stime=5.511&amp;ap=1&amp;rpeat=false\" target=\"_blank\">Tabo\u00e3o<\/a> pra mim \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o. Mas ela tem uma peculiaridade que eu vejo e voc\u00ea me nega: de que ela \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o sinf\u00f4nica, involunt\u00e1ria, de Na Baixa Dos Sapateiros, de Ary Barroso. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica instrumental tem can\u00e7\u00e3o em sua forma primitiva, em pot\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 can\u00e7\u00e3o instrumental, e sim m\u00fasica instrumental cancion\u00e1vel. Ild\u00e1sio Tavares j\u00e1 me disse que quer letrar uma m\u00fasica da Rumpilezz. O\u00a0que vai sugerir a can\u00e7\u00e3o depois de pronta \u00e9 a linha mel\u00f3dica. Uma m\u00fasica que voc\u00ea assovia, mas n\u00e3o tem letra: ela \u00e9 can\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra mim \u00e9. Se assim n\u00e3o fosse, eu n\u00e3o pensaria que o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1773\" target=\"_blank\">Retrofoguetes faz can\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong><strong>. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a letra musicada; ela \u00e9 a melodia letr\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 um conceito que eu gostaria de roubar do cinema: a id\u00e9ia de Cinema-Puro, que \u00e9 o cinema feito apenas de imagem, sem texto, e as imagens se relacionam entre si atrav\u00e9s das m\u00fasicas. Contra isso, Andr\u00e9 Bazin criaria o conceito de Cinema-Impuro. Ele diz que o Cinema Puro s\u00f3 existe como ideal, e o cinema deve almejar este ideal, mas n\u00e3o quer dizer que um cinema que precise do texto pra sustentar suas imagens n\u00e3o seja cinema. H\u00e1 graus de pureza do Cinema. No limite, o filme paradigm\u00e1tico do Cinema-Puro \u00e9 Fantasia, de Walt Disney, filme que se sustenta a partir de m\u00fasicas que j\u00e1 existiam antes, m\u00fasicas abstratas que Disney transforma, atrav\u00e9s do desenho, em m\u00fasica figurativa. Como nem todo cinema \u00e9 Cinema-Puro, nem toda can\u00e7\u00e3o \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1522\" target=\"_blank\">Can\u00e7\u00e3o-Pura<\/a><\/strong><strong>. A Rumpilezz talvez fa\u00e7a Can\u00e7\u00e3o-Impura.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exatamente. Quando se escuta uma m\u00fasica nossa, como Floresta Azul &#8211; e elas sugerem imagens sempre &#8211; aconteceu uma coincid\u00eancia de pessoas de lugares diferentes atribuirem a ela o mesmo tipo de imagem. Eu pergunto: &#8220;na m\u00fasica toda?&#8221;. Respondem: &#8220;n\u00e3o, nesse trecho mel\u00f3dico&#8221;. E \u00e9 sempre o mesmo trecho. Virou can\u00e7\u00e3o! Em Alafia, h\u00e1 um momento em que muda o padr\u00e3o r\u00edtmico, que criamos intencionalmente, e ainda assim s\u00f3 depois que tocamos a primeira vez \u00e9 que percebemos que esta quebra r\u00edtmica transmite uma imagem narrativa: o momento em que os ibis (b\u00fazios) caem no cestinho do or\u00e1culo de If\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse trecho me lembra especificamente o cinema de Jean Renoir e do primeiro Glauber Rocha: cinema feito de partes do corpo. Neste trecho eu sempre enxergo apenas as m\u00e3os da Yalorix\u00e1 (M\u00e3e de Santo) e depois s\u00f3 os b\u00fazios caindo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retrofoguetes faz isso de um modo muito expl\u00edcito! \u00c9 totalmente cinematogr\u00e1fico. Eu ou\u00e7o a m\u00fasica deles, \u00e9 como se tivesse uma televis\u00e3o na minha frente com um bot\u00e3o imenso e eu vou mudando de canal e de imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pensando nisso, das entrevistas deste Cartel, a que estaria mais pr\u00f3ximo da Can\u00e7\u00e3o-Pura &#8211; e eu chego a colocar isso no t\u00edtulo da entrevista &#8211; foi a com Damm da Formid\u00e1vel Fam\u00edlia Musical; e a do Retrofoguetes \u00e9 onde a Can\u00e7\u00e3o \u00e9 mais Impura: por pouco ela n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea concorda?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordo plenamente! Inclusive na Rumpilezz voc\u00ea n\u00e3o vai encontrar sequer can\u00e7\u00e3o-impura, e sim apenas fragmentos de can\u00e7\u00e3o. Mas isso voc\u00ea encontra at\u00e9 em Mozart. Pense na Pequena M\u00fasica Noturna: \u00e9 uma sonata, mas tem trechos cant\u00e1veis &#8211; ali\u00e1s, d\u00e1 pra fazer at\u00e9 samba enredo com isso [come\u00e7a a batucar na mesa e a cantarolar a entrada da Pequena M\u00fasica Noturna].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 at\u00e9 pra colocar um breque!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e1, claro que d\u00e1! Se duvidar, vira frevo&#8230; ou um samba-reggae.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"425\" height=\"344\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/7qZkGK7XFWs&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"425\" height=\"344\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/7qZkGK7XFWs&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu Sou Um Oper\u00e1rio da M\u00fasica&#8221; Ele lidera uma das mais importantes big-bands de jazz do mundo, hoje. 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