{"id":2045,"date":"2009-11-27T07:47:05","date_gmt":"2009-11-27T10:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2045"},"modified":"2025-12-24T13:03:36","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:36","slug":"a-cancao-samba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=2045","title":{"rendered":"A Can\u00e7\u00e3o-Samba"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: arial, sans-serif; line-height: normal; border-collapse: collapse;\"> <\/span><\/p>\n<h1><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2047\" title=\"kalu\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/kalu.jpg\" alt=\"kalu\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/kalu.jpg 800w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/kalu-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/h1>\n<h1><span style=\"font-size: small;\">O Clube da Can\u00e7\u00e3o &#8211; sem Malandragem&#8230; <\/span><\/h1>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"font-weight: normal;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Thiago Kalu foi a entrevista mais relaxada, divertida, e racionalista. Cheia de refer\u00eancias te\u00f3ricas, met\u00f3dica at\u00e9 &#8211; e ainda assim permeada de can\u00e7\u00f5es improvisadas e novas mostradas no viol\u00e3o. Mais discreto do que Damm e Pond\u00e9, o l\u00edder da banda de samba-rock bahiana Clube da Malandragem vem de uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com a can\u00e7\u00e3o desde adolescente, quando tocava na noite. E, por outro lado, al\u00e9m de ex\u00edmio sambista, um cr\u00edtico &#8211; dado a reflex\u00f5es est\u00e9ticas e formais.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<blockquote style=\"text-align: justify;\">\n<div>Minha vontade, quando ou\u00e7o Chico Buarque de Holanda dizendo que a can\u00e7\u00e3o acabou, \u00e9 mandar ele fazer can\u00e7\u00e3o. Eu nem consigo entender de onde \u00e9 que isso parte. Fica claro que \u00e9 uma for\u00e7a\u00e7\u00e3o de barra.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>LUCAS JERZY PORTELA: Nem toda m\u00fasica brasileira \u00e9 can\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><\/div>\n<div>THIAGO KALU: Pra mim, a distin\u00e7\u00e3o do que \u00e9 e do que n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa que ningu\u00e9m conseguiu deixar claro.\u00a0Falam da\u00a0coisa da letra, da rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre letra e melodia. Mas a m\u00fasica instrumental tamb\u00e9m pode ser can\u00e7\u00e3o&#8230;<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Concordo. A can\u00e7\u00e3o nunca ficou bem estabelecida pelos te\u00f3ricos. E os cancionistas velhos ficam dizendo que a can\u00e7\u00e3o morreu. Da\u00ed eu querer ouvir cancionistas j\u00f3vens.<\/strong><\/div>\n<div>Muito pelo contr\u00e1rio. Se pensarmos na ind\u00fastria, o pr\u00f3prio mercado imp\u00f4e a can\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea pegar as caracter\u00edsticas da can\u00e7\u00e3o, por exemplo o refr\u00e3o, o pegajoso, s\u00e3o exig\u00eancias pra m\u00fasica ser vend\u00e1vel. Na Bahia, por exemplo, o ax\u00e9-music \u00e9 quem mais faz can\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Mas nem todo ax\u00e9 \u00e9 can\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/div>\n<div>Eu n\u00e3o me lembro de nenhuma que n\u00e3o seja.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong><em>Dalila<\/em> n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o, e muita coisa da Timbalada n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/div>\n<div>Rapaz, a Timbalada tem muita coisa que \u00e9 can\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea pega aquele disco,\u00a0<em>Cada Cabe\u00e7a Um Mundo<\/em>.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Mas Timbalada n\u00e3o \u00e9 ax\u00e9.<\/strong><\/div>\n<div>Eu t\u00f4 falando mais do mercado do ax\u00e9, do que da est\u00e9tica. O ax\u00e9, que representa o mercado na Bahia. Quando eu paro na frente do papel, com o viol\u00e3o na m\u00e3o, tem uma s\u00e9rie de implica\u00e7\u00f5es al\u00ed que me levam a pensar em can\u00e7\u00e3o. Sempre componho pensando no formato can\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea deu um exemplo engra\u00e7ado:\u00a0<em>Dalila<\/em>. Por que n\u00e3o seria can\u00e7\u00e3o?<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Can\u00e7\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o mais com o cantar junto, o assoviar, do que com o dan\u00e7ar, e tem a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre letra e melodia. <\/strong><\/div>\n<div>Pra pular e dan\u00e7ar tem muita coisa. A trilha da paquera da juventude, que tocam em locais dan\u00e7antes, tipo Trio Mocot\u00f3, Clube do Balan\u00e7o, coisas do samba-rock. Coisas que n\u00e3o s\u00e3o influ\u00eancia minha originalmente, mas se tornaram por causa do Clube da Malandragem. S\u00e3o m\u00fasicas dan\u00e7antes, feitas para dan\u00e7ar, e s\u00e3o can\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Perguntei isso a Damm (<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.myspace.com\/formidavelfamiliamusical\" target=\"_blank\">Formid\u00e1vel\u00a0Fam\u00edlia Musical<\/a>) e a Pedro Pond\u00e9 (<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.myspace.com\/ocirculo\" target=\"_blank\">O C\u00edrculo<\/a>): se duas m\u00fasicas do Cheiro de Amor s\u00e3o can\u00e7\u00e3o: &#8220;<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5a6yy6DIs7g\" target=\"_blank\">Amor amor amor \/ tem cheiro de amor pelo pa\u00eds<\/a>&#8221; e &#8220;<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=oZjvuOtggmQ\" target=\"_blank\">Sim, \u00e9 um jardim, mui delirante \/ cheiro de amor<\/a>&#8220;. Que s\u00e3o frevos de rua, e s\u00e3o can\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/div>\n<div>Tenho conversado com um amigo meu que h\u00e1 uma tend\u00eancia atual muito grande nas coisas que surgem de 2000 pra c\u00e1, Dalila tem um pouco disso, que \u00e9 a tecnologia em favor da sonoridade: a m\u00fasica de timbres. Poucas s\u00e3o as coisas que surgem hoje em timbres madeira. Quase tudo tende ao sintetizador eletr\u00f4nico: teclado, sampler. Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea mais a can\u00e7\u00e3o m\u00ednima, que \u00e9 a coisa com o viol\u00e3o, Jo\u00e3o Gilberto, Caimmy, Donga. Voc\u00ea n\u00e3o encontra mais hoje can\u00e7\u00e3o com essa caracter\u00edstica: viol\u00e3o e voz, apenas. At\u00e9 tem isso, mas com a aparelhagem eletr\u00f4nica presente por tr\u00e1s.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>De fato,\u00a0<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.myspace.com\/pirigulinobabilake\" target=\"_blank\">Pirigulino Babilake<\/a>, que parece o Clube da Malandragem, usa muito de sintetiza\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica mesmo ao vivo. E tamb\u00e9m o\u00a0<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.myspace.com\/ps05\" target=\"_blank\">Preto S\u00e1bio<\/a>, do bairro de Cosme de Farias, que fica sintetizando a voz, ao vivo &#8211; o que \u00e9 excelente. <\/strong><\/div>\n<div>Tem essa coisa do cantar junto e do assoviar, mas pra mim n\u00e3o \u00e9 o principal na can\u00e7\u00e3o. O que eu vejo como can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa de coes\u00e3o: a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o exatamente se encerra, mas se resolve, se basta, se sustenta por si. E dentro disso, tem algumas coisas de formato, de m\u00e9trica, nem entro na seara de arranjo ou dire\u00e7\u00e3o musical. Estas caracter\u00edsticas que observo, da consequ\u00eancia no mercado e do refr\u00e3o, talvez n\u00e3o sejam necess\u00e1rias para configurar a can\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>O refr\u00e3o talvez n\u00e3o, mas a resposta sim.\u00a0<em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FewtaErM-g0\" target=\"_blank\">Depois de Ver<\/a><\/em> (de O C\u00edrculo), n\u00e3o tem refr\u00e3o, mas uma frase mel\u00f3dica responde \u00a0e d\u00e1 sequ\u00eancia a anterior. Ou como o\u00a0<em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ja9GerVooAg\" target=\"_blank\">Bela Mocidade<\/a><\/em> (do\u00a0<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sxZfI72wD1U&amp;feature=related\" target=\"_blank\">Bumba-Boi de Axix\u00e1<\/a> &#8211; Maranh\u00e3o): &#8220;<em>Quando eu me lembro<\/em>&#8220;, e a frase seguinte responde &#8220;<em>Da minha bela mocidade<\/em>&#8220;. <\/strong><\/div>\n<div>Pra mim isso \u00e9 uma leitura apenas. Isso n\u00e3o vai definir o fim da can\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil falar da morte de uma coisa que a gente sabe que t\u00e1 aqui ou ali, mas a gente n\u00e3o sabe definir direito.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Voc\u00ea me falou que n\u00e3o consegue definir de vez a can\u00e7\u00e3o, mas por outro lado voc\u00ea diz que ela est\u00e1 viva e que \u00e9 a via principal, sen\u00e3o \u00fanica, para seu trabalho. <\/strong><\/div>\n<div>A coisa do transcender da m\u00fasica erudita, a can\u00e7\u00e3o quebra isso porque tem a presen\u00e7a do cantor. Se voc\u00ea pensar a can\u00e7\u00e3o com letra, o que \u00e9 a voz? \u00c9 algu\u00e9m cantando. Voc\u00ea, humano, normal, poder se colocar naquilo ali. Todo mundo acha que sabe cantar. \u00c9 a coisa da proximidade com o outro, com quem recebe aquilo ali, e essa \u00e9 tamb\u00e9m uma caracter\u00edstica forte da can\u00e7\u00e3o. Que n\u00e3o acontece com a can\u00e7\u00e3o instrumental. Um admirador de m\u00fasica brasileira, que tem a caracter\u00edstica forte da letra, quando ouve m\u00fasica instrumental a princ\u00edpio n\u00e3o vai entender como can\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o participa daquilo al\u00ed. Muita gente fala que m\u00fasica instrumental \u00e9 ego\u00edsta, \u00e9 m\u00fasica pra m\u00fasicos. Eu n\u00e3o concordo: a comunica\u00e7\u00e3o da m\u00fasica instrumental \u00e9 fort\u00edssima, em mil exemplos. Mas o ouvinte n\u00e3o se sente parte daquilo al\u00ed, porque ele n\u00e3o sabe fazer nada, sem subestimar quem a est\u00e1 recebendo.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Mas existe can\u00e7\u00e3o instrumental cant\u00e1vel.\u00a0<em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=F68Q-sgd6Gg\" target=\"_blank\">Chovendo na Roseira<\/a><\/em>, de Tom Jobim, originalmente n\u00e3o tinha letra. E\u00a0<em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=csTN_c5AhO4&amp;feature=related\" target=\"_blank\">Maldito Mambo<\/a><\/em> do\u00a0<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.myspace.com\/retrofoguetes\" target=\"_blank\">Retrofoguetes<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel cant\u00e1-la. A Formid\u00e1vel Fam\u00edlia Musical tem can\u00e7\u00f5es inteiras s\u00f3 de onomatop\u00e9ias, e no limite Chico Buarque com\u00a0<em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=irt0YA4jSAI\" target=\"_blank\">Partido Alto<\/a><\/em>. <\/strong><\/div>\n<div>Como voc\u00ea falou: o lance de sair assoviando a melodia. Onde \u00e9 que t\u00e1 a diferen\u00e7a entre a m\u00fasica instrumental da fase mais complexa, de Hermeto Pascoal, que tem can\u00e7\u00e3o mas \u00e9 t\u00e3o dissonante que voc\u00ea n\u00e3o consegue assoviar; e um Kenny G, brega e aquele sax nojento dele, mas todo mundo sabe assoviar e \u00e9 can\u00e7\u00e3o. H\u00e1 casos na m\u00fasica instrumental em que voce pode\u00a0<em>cantarolar<\/em>.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Existe can\u00e7\u00e3o dissonante? Afinal, a can\u00e7\u00e3o prima pela simplicidade, ela tem de ser harm\u00f4nica e mel\u00f3dica, e pelo atalho.\u00a0<em>Chovendo na Roseira<\/em>, apesar de dissonante, ela soa quase como uma brisa, de t\u00e3o suave.<\/strong><\/div>\n<div>A disson\u00e2ncia faz parte da can\u00e7\u00e3o. Mas a can\u00e7\u00e3o acaba buscando as solu\u00e7\u00f5es mais previs\u00edveis historicamente, que soem com mais facilidade. A can\u00e7\u00e3o pode ter um pano de fundo complexo, mas aquilo que est\u00e1 no pedestal, o instrumento solo, pode ser simples demais e buscar justamente naquele universo de disson\u00e2ncia o caminho menos tenso. \u00c9 disso que muitos m\u00fasicos buscam fugir: da previsibilidade.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>A can\u00e7\u00e3o tem, pelo atalho, uma maior penetrabilidade subjetiva e social?<\/strong><\/div>\n<div>Concordo. Mas tem gente que consegue fazer can\u00e7\u00e3o fugindo da trilha, se jogando no mato, seguindo caminhos mais pedregosos. Minha maior refer\u00eancia mesmo \u00e9 o sacana do Caetano. Tom Z\u00e9 \u00e9 uma refer\u00eancia, mas eu n\u00e3o sei o que \u00e9 can\u00e7\u00e3o nele e o que n\u00e3o \u00e9.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Eu queria pegar a refer\u00eancia de Tom Z\u00e9 porque foi ele quem primeiro colocou a quest\u00e3o da morte da can\u00e7\u00e3o, sendo o mais te\u00f3ricos dos compositores populares da Tropic\u00e1lia pra c\u00e1, tendo tido forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica com Smetak, Widmer, etc. No entanto uma parte de Tom Z\u00e9 \u00e9 radicalmente anti-can\u00e7\u00e3o, experimentalista e quase n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica; e outra que \u00e9 can\u00e7\u00e3o pura, que geralmente ele comp\u00f5e para outras pessoas cantarem. <\/strong><\/div>\n<div>Isso dentro de um mesmo disco. Eu n\u00e3o acho que a can\u00e7\u00e3o morreu. Tom Z\u00e9 t\u00e1 ficando \u00e9 doido. Esse \u00faltimo disco dele \u00e9 pura can\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>Estudando a Bossa<\/em>. Ele usa a tecnologia, a qual me referi, contra a can\u00e7\u00e3o &#8211; desconstruindo a can\u00e7\u00e3o. Ele rompe com a coisa do &#8220;vamos cantar juntos&#8221; da can\u00e7\u00e3o. O mais certinho e previs\u00edvel de Tom Z\u00e9, quando ele \u00e9 mais bonzinho, bom-mo\u00e7o, \u00e9 a can\u00e7\u00e3o. Me veio um cara na cabe\u00e7a sobre essa coisa da can\u00e7\u00e3o que \u00e9 Ed Motta. Ele lan\u00e7ou um disco chamado\u00a0<em>Dwitza<\/em>, que n\u00e3o tem letra e ele fica fazendo aqueles vocalizes dele o disco todo. Ele \u00e9 complexo demais, mas fez\u00a0<em>Colombina<\/em>, e\u00a0<em>Fora da Lei<\/em>, que s\u00e3o can\u00e7\u00f5es pra dan\u00e7ar. Ele usa a boca como um instrumento mesmo. Fiz uma experi\u00eancia desse disco com um amigo meu. Perguntei a esse amigo: &#8220;rapaz, essa m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 grudenta n\u00e3o?&#8221;. E ele disse: &#8220;p\u00f4, demais. N\u00e3o saiu de minha cabe\u00e7a a noite inteira&#8221;. Isso \u00e9 quebrado, n\u00e3o tem atalho e n\u00e3o d\u00e1 pra cantar junto. Mas o que \u00e9 que \u00e9 f\u00e1cil? \u00c9 gostoso o que ele faz com a voz. E isso n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o! Ele repete os vocalizes como se fosse um refr\u00e3o. Ele mant\u00e9m a estrutura de momentos t\u00edpica do samba e do chorinho, e da m\u00fasica popular em geral &#8211; ainda sem ser can\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o sei, mas eu n\u00e3o considero can\u00e7\u00e3o: n\u00e3o consegue me dar essa id\u00e9ia de resolu\u00e7\u00e3o, da m\u00fasica se bastar, que \u00e9 da can\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>A can\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter de fotografar um momento hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico. Damm (Formid\u00e1vel) diz que essa hist\u00f3ria da morte da can\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da mitologia neoliberal. O que me leva a pensar que a can\u00e7\u00e3o surge na m\u00fasica popular do modernismo na costa das Am\u00e9ricas: o jazz e o rock, a m\u00fasica caribenha, o tango, o bolero, o samba e o frevo em suas variantes. <\/strong><\/div>\n<div>Eu acho que isso ainda \u00e9 ir no raso. Se voc\u00ea pensar nos c\u00e2nticos de trabalho ou da religiosidade popular, isso j\u00e1 est\u00e1 a muito tempo atr\u00e1s.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Mas a can\u00e7\u00e3o come\u00e7a com o r\u00e1dio, n\u00e3o? A can\u00e7\u00e3o voa nas ondas do r\u00e1dio. O auge da can\u00e7\u00e3o americana e brasileira foi o auge da era do r\u00e1dio: d\u00e9cada de 40. <\/strong><\/div>\n<div>A\u00ed a gente vai cair na l\u00f3gica de mercado que falei antes. Acho que pode existir can\u00e7\u00e3o sem r\u00e1dio e anterior ao r\u00e1dio. Me interessa mais a discuss\u00e3o da can\u00e7\u00e3o como m\u00fasica pura: o c\u00e2ntico. Trabalhadores rurais trabalhando e cantando. Pra mim isso j\u00e1 \u00e9 can\u00e7\u00e3o, ainda que sejam s\u00f3 vozes, sem instrumento.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>\u00c9 algo que n\u00e3o me tinha ocorrido, mas de fato a can\u00e7\u00e3o vem dos c\u00e2nticos de trabalho. As can\u00e7\u00f5es praianas de Caimmy vem dos pescadores, e nos Estados Unidos os presidi\u00e1rios quebrando pedra d\u00e3o origem ao blues. <\/strong><\/div>\n<div>Exato. O r\u00e1dio formatou, deu lugar pra coisa acontecer, voar pelas ondas, mas n\u00e3o \u00e9 pra mim o ponto principal da coisa. Mas se a gente pensar na m\u00fasica brasileira de hoje, na \u00faltima d\u00e9cada, o que tem de bacana que \u00e9 can\u00e7\u00e3o. Los Hermanos seria can\u00e7\u00e3o? Pra mim, sempre! &#8211; porque, eu n\u00e3o sei. Paulinho Moska, n\u00e3o vejo porque n\u00e3o seja can\u00e7\u00e3o. Chico C\u00e9sar \u00e9 um mestre da can\u00e7\u00e3o &#8211; um mestre! Ele lan\u00e7ou a uns anos atr\u00e1s um disco erudito,\u00a0<em>De Uns Tempos Pra C\u00e1<\/em>, com o<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=iIVkLovFkDc\" target=\"_blank\">Quinteto da Para\u00edba<\/a>. \u00c9 um disco que eu questionaria se \u00e9 can\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o &#8211; acho que n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o, embora algumas coisas nele seja, mas n\u00e3o sei dizer porque seria ou n\u00e3o. Cordel do Fogo Encantado \u00e9 um som que eu gosto muito, mas \u00e9 muito declamado, n\u00e3o sei se \u00e9 can\u00e7\u00e3o &#8211; e \u00e9 muito &#8220;ao vivo&#8221;, de ver, e muito pouco mel\u00f3dico pra ser can\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Nem toda m\u00fasica popular \u00e9 can\u00e7\u00e3o: Maracatu de Na\u00e7\u00e3o, mesmo os mais cantados, n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o; os Bumba-Bois de Matraca, de S\u00e3o Lu\u00eds, tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o can\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o tem a leveza que os Bumba-Boi de Orquestra tem. Existem diversas variantes do frevo, entre as quais frevo-can\u00e7\u00e3o; e dentro do samba, o samba-can\u00e7\u00e3o. Existe uma variante espec\u00edfica no samba e no frevo pra receber o adjetivo de &#8220;-can\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/strong><\/div>\n<div>A can\u00e7\u00e3o se desprende da condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, incialmente, da prateleira da loja. O termo samba-can\u00e7\u00e3o \u00e9 achar que o lado do samba mais mel\u00f3dico seria mais can\u00e7\u00e3o: uma coisa saudosista. Eu acho samba-de-roda t\u00e3o can\u00e7\u00e3o quanto o samba-can\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma coisa da m\u00fasica no samba-can\u00e7\u00e3o que o faz ser samba-can\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o mais samba. O termo -can\u00e7\u00e3o pra determinar essa deriva\u00e7\u00e3o n\u00e3o se justifica: poderia ser qualquer outro termo.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Nem toda can\u00e7\u00e3o no samba \u00e9 samba-can\u00e7\u00e3o, mas todo samba-can\u00e7\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o, n\u00e3o?<\/strong><\/div>\n<div>\u00c9, talvez.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>O Clube da Malandragem faz can\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/div>\n<div>Sim. N\u00e3o vejo nada do Clube que n\u00e3o seja can\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong><em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/vagalume.uol.com.br\/clube-da-malandragem\/blasfemia.html\" target=\"_blank\">Blasfemia<\/a><\/em> n\u00e3o \u00e9 um atalho&#8230;<\/strong><\/div>\n<div><em>Blasfemia<\/em> tem muito Tom Z\u00e9. Talvez seja a anti-can\u00e7\u00e3o do Clube. Mas as pessoas cantam errado, inclusive o refr\u00e3o que \u00e9 uma onomatop\u00e9ia: &#8220;Blablablablablablablabla&#8221; &#8211; s\u00f3 que n\u00e3o fazem a melodia, que \u00e9 muito dissonante. Voc\u00ea foi na pedra a\u00ed. Por outro lado,\u00a0<em>Monogamia<\/em> chega a ser \u00f3bvia. \u00c9 complicado pra mim pensar em samba sem ser can\u00e7\u00e3o. Samba-can\u00e7\u00e3o \u00e9 redund\u00e2cia: at\u00e9 samba-duro \u00e9 can\u00e7\u00e3o. O que eu enquadro ou n\u00e3o como can\u00e7\u00e3o \u00e9 muito subjetivo &#8211; embora eu tenha estudado, n\u00e3o me apoio tanto em teorias.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>No atual processo de Retomada e p\u00f3s-axezismo, ocorre principalmente uma reaproxima\u00e7\u00e3o e um di\u00e1logo. Antes era a galera anti-ax\u00e9 de um lado, principalmente rockeiros, e do outro os axezeiros. Hoje voc\u00ea tem o Retrofoguetes tocando frevo el\u00e9trico, e Letieres\u00a0Leite, um cara que vem de Ivete Sangalo, fazendo great-jazz. E o que eu penso \u00e9 que a can\u00e7\u00e3o, como vem sendo feita em Salvador na atual Abertura, permitiu esse di\u00e1logo.<\/strong><\/div>\n<div>Acho que tem uma partilha, algo que algumas pessoas que s\u00e3o formadores de opini\u00e3o t\u00eam chamado de\u00a0<em>Movimento Musicultural<\/em>. Mas n\u00e3o \u00e9 nem movimento, nem musical &#8211; \u00e9 algo maior, de comportamento, de mudan\u00e7a da geografia da cidade: passa a ter rock na Barra, samba no Rio Vermelho &#8211; coisa que n\u00e3o tinha antes. A gente, que faz samba, frequentar o palco do\u00a0<em>Bahia de Todos os Sons<\/em>, do C\u00edrculo que \u00e9 rock. \u00c9 o que se chamaria de &#8220;cen\u00e1rio alternativo&#8221;.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Eu n\u00e3o gosto do termo &#8220;alternativo&#8221;. Acho que era v\u00e1lido quando havia uma oposi\u00e7\u00e3o e uma resist\u00eancia. Hoje, com di\u00e1logo e avan\u00e7os, o termo \u00e9 obsoleto.<\/strong><\/div>\n<div>Mas \u00e9 uma coisa de comportamento, de partilha de id\u00e9ias, uma coisa de pessoas que mais ou menos partilham algo da esquerda &#8211; embora n\u00e3o se declarem assim ou mesmo que se declarem de direita, como Kiko Lisboa (de\u00a0<a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.myspace.com\/avolantedosargentobezerra\" target=\"_blank\">A Volante do Sargento Bezerra<\/a>). A can\u00e7\u00e3o tem uma fun\u00e7\u00e3o especial nisso pela penetra\u00e7\u00e3o social que tem, causa um reflexo comportamental, uma partilha: as pessoas que gosta do C\u00edrculo v\u00e3o encontrar manifesta\u00e7\u00f5es de comportamentos e id\u00e9ias similares que eles encontram no C\u00edrculo onde? No Clube que faz samba, na Volante que faz forr\u00f3, no Preto S\u00e1bio.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Isso j\u00e1 existia antes, mas dentro de um gueto. Voc\u00ea acha que isso saiu do gueto?<\/strong><\/div>\n<div>N\u00e3o sei. Isso \u00e9 papo pra outra conversa&#8230; bem longa&#8230;<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Eu costumo dizer que tivemos dois hinos do p\u00f3s-axezismo:\u00a0<em>Depois de Ver<\/em> e\u00a0<em><a style=\"color: #0000cc;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fE7kB8AkkSE\" target=\"_blank\">A Janela<\/a><\/em>, de O C\u00edrculo. E de voc\u00eas do Clube da Malandragem, um hino do anti-axezismo, que \u00e9\u00a0<em>NuCuTurismo<\/em>: me parece uma cr\u00edtica \u00e0 Era Paulo Gaudenzi, aquelas deformidades que se causava na cidade e no estado em nome de um pseudo-turismo e de uma pseudo-cultura. <\/strong><\/div>\n<div>\u00c9 exatamente isso! Nada al\u00e9m disso. Ali\u00e1s, pode ser al\u00e9m, mas eu senti isso quando escrevi.<\/div>\n<div>.<\/div>\n<div><strong>Esse verso,\u00a0<em>Chiclete com Banana n\u00e3o existe mais<\/em>, me parece amb\u00edguo. As pessoas cantam em \u00eaxtase porque o Chiclete &#8220;vai acabar&#8221;. Por outro lado, voc\u00ea lista o suposto fim do Chiclete entre as coisas que voc\u00ea n\u00e3o gostaria que acabasse: a lagoa do Abaet\u00e9, as pedras do Pelourinho. <\/strong><\/div>\n<div>\u00c9 um lamento por ter acabado: por o Chiclete n\u00e3o fazer mais frevos e galopes, bel\u00edssimos, de dez ou vinte anos atr\u00e1s. Quando o Chiclete chamava Traz Os Montes era um band\u00e3o! Uma coisa de uma qualidade que n\u00e3o existe mais na Bahia. Assim como na letra de NuCuTurismo falo de como seria se Timbalada e Olodum tocassem forr\u00f3: o que teria se perdido!? Olodum e Timbalada, o samba-reggae, consegue ser produto e aut\u00eantico ao mesmo tempo &#8211; se eles n\u00e3o existissem com a m\u00fasica que fazem, a Bahia n\u00e3o existiria. Essas coisas, quem n\u00e3o conhece n\u00e3o percebe na minha letra; mas quem conhece deve ter mesmo a sensa\u00e7\u00e3o de hino.<\/div>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"425\" height=\"344\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/07LT1qFE30A&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"425\" height=\"344\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/07LT1qFE30A&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Clube da Can\u00e7\u00e3o &#8211; sem Malandragem&#8230; . Thiago Kalu foi a entrevista mais relaxada, divertida, e racionalista. Cheia de refer\u00eancias te\u00f3ricas, met\u00f3dica at\u00e9 &#8211; e ainda assim permeada de can\u00e7\u00f5es improvisadas e novas mostradas no viol\u00e3o. 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