{"id":1934,"date":"2009-10-23T00:14:11","date_gmt":"2009-10-23T03:14:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1934"},"modified":"2025-12-24T13:03:36","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:36","slug":"a-cancao-em-estado-de-hino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1934","title":{"rendered":"A Can\u00e7\u00e3o em estado de Hino"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1937\" title=\"pond\u00e9\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/pond\u00e9.jpg\" alt=\"pond\u00e9\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/pond\u00e9.jpg 500w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/pond\u00e9-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O ex-centro d&#8217;O C\u00edrculo<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da s\u00e9rie de entrevistas e artigos que tenho publicado, sobre a perenidade da can\u00e7\u00e3o, esta foi de sa\u00edda a mais dif\u00edcil para ambos &#8211; e creio que a mais prazerosa. Pedro\u00a0Pond\u00e9\u00a0talvez tenha sido quem primeiro percebeu os primeiros laivos da abertura cultura que Salvador retomou, como fica claro nas linhas abaixo, e primeiro se engajou nela. Confiram.<\/p>\n<blockquote style=\"text-align: justify;\"><p>Eu n\u00e3o penso o p\u00f3s-axezismo como um movimento. Sei que Miguel Hoisel (do Clube da Malandragem) chama de Movimento Musicultural. Mas ele n\u00e3o \u00e9 um movimento. Movimento \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o, e o que estamos vivendo \u00e9 espont\u00e2neo. (&#8230;)\u00a0Na elei\u00e7\u00e3o de Jaques Wagner, todo mundo escutava O C\u00edrculo. Junto com esse novo movimento, o p\u00f3s-axezismo, est\u00e1 nascendo uma nova cr\u00edtica cultural tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>LUCAS JERZY PORTELA: De fato, diferente de Recife, a Bahia n\u00e3o \u00e9 dada a formalizar movimentos. Glauber Rocha, por exemplo, foi do Cinema Novo sem nunca aderir ao Cinema Novo. Mas vamos entrar propriamente na quest\u00e3o da can\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n<\/strong> PEDRO\u00a0POND\u00c9: O que \u00e9 que caracteriza a can\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea entende por\u00a0can\u00e7\u00e3o, Pedro?<\/strong><br \/>\nUma m\u00fasica, cuja melodia \u00e9 mais trabalhada, e de alguma forma conta uma hist\u00f3ria. Eu n\u00e3o sei bem, porque minha vis\u00e3o da m\u00fasica \u00e9 muito intuitiva, j\u00e1 que eu vim do teatro&#8230; Eu at\u00e9 estranho minha rela\u00e7\u00e3o com outros m\u00fasicos do meio, me sinto um patinho feio. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria. Diferente do Rap. O Rap n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o. Por outro lado eu gosto do Rap por ter inserido mais teatro na m\u00fasica. Tipo, Racionais MCs te enquadra com a voz [faz gesto de quem segura um rifle], te coloca dentro da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem uma proximidade com o Rap.<\/strong><br \/>\nAlgumas m\u00fasicas de\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/ocirculo\" target=\"_blank\">O C\u00edrculo<\/a><\/em> lembram Rap (por exemplo, <em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=b5i2oNzVgEY\" target=\"_blank\">Quem?<\/a><\/em>) ou t\u00eam momentos de Rap. Talvez seja esta tentativa de inserir mais teatro, e a\u00ed soa como Rap.<\/p>\n<p><strong>Chico Buarque diz que a can\u00e7\u00e3o morreu. A can\u00e7\u00e3o morreu?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o muda, talvez ela tenha mudado. Nada que \u00e9 bom morre. Pode se transformar, mas morrer acho que n\u00e3o. Voc\u00ea at\u00e9 falou: tem v\u00e1rias bandas a\u00ed que est\u00e3o fazendo can\u00e7\u00e3o. Talvez ele precise se informar mais.<\/p>\n<p><strong>E como voc\u00ea entende que gente como um Bruno Tolentino, de extrema direita, at\u00e9 um Chico Buarque, a esquerda, dizerem no\u00a0metier\u00a0cr\u00edtico e liter\u00e1rio do sudeste &#8220;A can\u00e7\u00e3o morreu&#8221;? Inclusive Tom Z\u00e9 diz isso.<\/strong><br \/>\nTalvez at\u00e9 porque o Rap t\u00e1 forte pacaralho na m\u00eddia. O Rap e o rock.<\/p>\n<p><strong>Mas o rock tem can\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><br \/>\nMas acho que o Rap conseguiu um destaque agora, j\u00e1 tem um temp\u00e3o que o pessoal t\u00e1 trabalhando, e por ter sido reprimido por muito tempo, t\u00e1 vindo com uma for\u00e7a assustadora pra quem \u00e9 mais velho e tem dificuldade de se adaptar ao novo. O Rap assusta! Por ter ficado muito tempo escondido. Eu mesmo me assusto com o Emo.<\/p>\n<p><strong>Eu acho que o Emo \u00e9 a can\u00e7\u00e3o empobrecida, moribunda&#8230;<\/strong><br \/>\nDisseram que Emo \u00e9 m\u00fasica sertaneja com guitarra &#8211; acho que foi Lul\u00fa Santos.<\/p>\n<p><strong>Mas Sertanejo \u00e9 can\u00e7\u00e3o, e existe muito preconceito com o Sertanejo em estados litor\u00e2neos. Quando eu cheguei em Goi\u00e2nia eu me apaixonei pelo Sertanejo, que \u00e9 can\u00e7\u00e3o aut\u00eantica de l\u00e1. N\u00e3o o sertanejo Bruno&amp;Marrone. Mas o tradicional, tipo: &#8220;<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Fc7vx2ArURU\" target=\"_blank\">e a\u00ed \/ o que era alegre ficou t\u00e3o triste \/ um pedacinho dela que existe \/ um fio de cabelo no meu palet\u00f3<\/a><\/strong><strong>&#8220;. Que \u00e9 can\u00e7\u00e3o, e \u00e9 muito bonito!<\/strong><br \/>\nLeandro&amp;Leonardo tem algumas lindas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea gosta de Tom Z\u00e9, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nGosto. Eu respeito muito, mas n\u00e3o ou\u00e7o muito. Respeito porque ele nunca se vendeu.<\/p>\n<p><strong>Mas repare: Tom Z\u00e9 diz que a can\u00e7\u00e3o morreu. Se morreu, ningu\u00e9m contribuiu tanto quanto ele para que morresse, j\u00e1 que ele nega a can\u00e7\u00e3o sistematicamente. Da Tropic\u00e1lia, foi quem mais negou; e por outro lado ele \u00e9 muito mais bem-sucedido quando ele faz can\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><br \/>\nA can\u00e7\u00e3o \u00e9 o que atinge mais a popula\u00e7\u00e3o. At\u00e9 quando vou sugerir algum solo eu pergunto: &#8220;a pessoa que vai escutar vai poder assoviar isso na rua?&#8221;. A can\u00e7\u00e3o voc\u00ea consegue carregar por a\u00ed. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 port\u00e1til. Eu brinco que existe a &#8220;R\u00e1dio Pedro\u00a0Pond\u00e9&#8221;: sempre uma m\u00fasica rolando l\u00e1 no fundo, dentro da minha cabe\u00e7a &#8211; geralmente \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o.\u00a0Uma coisa que eu sempre fiz quest\u00e3o \u00e9 de manter a melodia vocal pra todo mundo poder cantar junto, quando eu fa\u00e7o uma vers\u00e3o; se eu mudasse a voz ningu\u00e9m ia poder cantar junto, que nem alguns cantores de barzinho que muda o ritmo e a melodia pra ningu\u00e9m poder cantar junto.<\/p>\n<p><strong>A can\u00e7\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica que \u00e9 mais de cantar junto do que de ouvir ou de dan\u00e7ar.<\/strong><br \/>\nAh, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/formidavelfamiliamusical\" target=\"_blank\"><em>Formid\u00e1vel Fam\u00edlia Musical<\/em><\/a> \u00e9 minha trilha-sonora do fim de semana. \u00c9 tipo um clipe.\u00a0Eu e minha esposa, a gente bota Formid\u00e1vel dia de domingo, fica cantarolando e arrumando a casa.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que a can\u00e7\u00e3o e a m\u00fasica popular s\u00e3o sin\u00f4nimos?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. No RAP, por exemplo, eu gosto do Racionais MCs, mas n\u00e3o saberia cantar uma m\u00fasica deles &#8211; porque eu n\u00e3o lembraria da letra toda, s\u00e3o imensas.<\/p>\n<p><strong>Os bumba-bois do Maranh\u00e3o tem me levado a questionar isso. Os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=t_eG817zJiQ&amp;feature=related\" target=\"_blank\">Bois de Matraca<\/a><\/strong><strong>, de S\u00e3o Lu\u00eds, s\u00e3o fortes e d\u00e1 vontade de cantar &#8211; mas n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GJhMrBdu4DQ\" target=\"_blank\">Boi de Zabumba<\/a><\/strong><strong> parece pagod\u00e3o, d\u00e1 vontade de sambar, mas n\u00e3o \u00e9 can\u00e7\u00e3o. Mas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sxZfI72wD1U&amp;feature=related\" target=\"_blank\">Boi de Orquestra<\/a><\/strong><strong> \u00e9 can\u00e7\u00e3o! Eu saio \u00e0s vezes cantarolando pela rua: &#8220;<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ja9GerVooAg\" target=\"_blank\">Quando eu me lembro \/ da minha bela mocidade \/ eu tinha tudo a vontade \/ brincando no Boi de Axix\u00e1<\/a><\/strong><strong>&#8220;.<\/strong><br \/>\nUma coisa que eu adoro na m\u00fasica popular, especialmente na can\u00e7\u00e3o, \u00e9 a resposta. Uma frase musical diz: &#8220;Quando eu me lembro&#8221; e a outra responde: &#8220;da minha bela mocidade&#8221;.<\/p>\n<p><strong>De fato, e tem o breque tamb\u00e9m. Ainda nessa toada do Axix\u00e1, tem uma hora que na vers\u00e3o original, mas n\u00e3o na de Maria Beth\u00e2nia (em\u00a0<em>\u00c2mbar<\/em>), o cantor diz: &#8220;Morena vem ver a beleza \/ que eu trouxe pra te mostrar&#8230;&#8221;. Isso n\u00e3o est\u00e1 na letra, \u00e9 improviso e fora do ritmo. Mas voc\u00ea acaba cantando junto&#8230;<\/strong><br \/>\nA can\u00e7\u00e3o pega o atalho.<\/p>\n<p><strong>A can\u00e7\u00e3o faz companhia?<\/strong><br \/>\nO nome desse viol\u00e3o a\u00ed \u00e9 amigo. Foi quando eu fui pra S\u00e3o Paulo&#8230; apesar de estar sem corda, t\u00e1 mudo. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 voc\u00ea ter milh\u00f5es de salas a disposi\u00e7\u00e3o: cada m\u00fasica \u00e9 uma sala, que voc\u00ea pode entrar, e curtir um outro afeto, sempre diferente. A can\u00e7\u00e3o me transporta para outros pontos de vista, o que acaba ampliando meus conceitos &#8211; especialmente pela letra. Eu nunca cantei em ingl\u00eas porque me sentiria uma fraude fazendo isso &#8211; eu preciso sentir a letra.<\/p>\n<p><strong>A\u00a0<em>Formid\u00e1vel<\/em> canta em ingl\u00eas.<\/strong><br \/>\nDamm falou uma coisa importante pra mim: que o mais importante \u00e9 a melodia. Tem uma m\u00fasica no CD deles que \u00e9 um reggae embromation total, de sacanagem, mas fica muito engra\u00e7ado, e \u00e9 uma m\u00fasica muito boa, e de repente voc\u00ea t\u00e1 cantando junto numa l\u00edngua que n\u00e3o existe&#8230;<\/p>\n<p><strong>A\u00a0<em>Formid\u00e1vel<\/em> consegue fazer can\u00e7\u00f5es inteiras de onomatop\u00e9ia&#8230; e as pessoas cantam junto!<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 uma coisa muito do popular. Voc\u00ea pegar num refr\u00e3o e colocar um &#8220;Laialaia&#8221;. A melodia \u00e9 o sentimento em estado bruto.<\/p>\n<p><strong>Chico Buarque radicaliza isso em\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=irt0YA4jSAI\" target=\"_blank\">Partido Alto<\/a><\/em><\/strong><strong>, pega uma onomatop\u00e9ia e vira frase sint\u00e1tica: &#8220;Disque deu \/ disque d\u00e1&#8221;. E em Bumba-Boi de Orquestra \u00e9 muito comum as pessoas imitarem o som da corneta e trombone de vara com onomatop\u00e9ia.<\/strong><br \/>\nEm Olinda, as pessoas imitando\u00a0Vassourinhas\u00a0com onomatop\u00e9ia. Mas as palavras s\u00e3o limitadas para falar dos sentimentos, e o som tem essa vantagem: ele n\u00e3o explica nada. \u00c9 como o cinema de Glauber Rocha: n\u00e3o existe para ser explicado ou entendido.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou da letra: letra e m\u00fasica s\u00e3o indissoci\u00e1veis na can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAcho que n\u00e3o. S\u00e3o duas linguagens diferentes. Embora se voc\u00ea for fazer um poema sem a m\u00fasica, um poema escrito, voc\u00ea precise ser mais detalhado, espec\u00edfico, claro. Na can\u00e7\u00e3o voc\u00ea pode pegar poucas palavras desse poema, e a m\u00fasica j\u00e1 t\u00e1 dizendo muita coisa do que voc\u00ea queria passar &#8211; a m\u00fasica provoca os sentimentos nas pessoas, e a palavra que cair ali vai se juntar com esse sentimento. Tem uma can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento que \u00e9 muito bacana: ele fez uma melodia extremamente meiga, e a melodia variava bastante, e a letra era uma palavra s\u00f3, &#8220;Cora\u00e7\u00e3o&#8221;. E isso levava as pessoas a um n\u00edvel de emo\u00e7\u00e3o absurdo. Ele se comunicou al\u00ed com a letra sim, mas a letra foi a ponta da agulha al\u00ed pra m\u00fasica entrar.<\/p>\n<p><strong>Eu perguntei isso a Damm (<em>Formid\u00e1vel<\/em><\/strong><strong>). Seu p\u00fablico e o dele \u00e9 a primeira gera\u00e7\u00e3o que adolesceu no p\u00f3s-axezismo, em que rock e ax\u00e9 n\u00e3o se op\u00f5em mais, momento de abertura inclusive pol\u00edtica. Por exemplo, voc\u00ea olha seus f\u00e3s no Orkut embora gostem de rock eles t\u00eam fotos com abad\u00e1 do Cheio de Amor. N\u00e3o \u00e9 do Chiclete nem do Asa, mas do Cheiro: uma banda que n\u00e3o caiu no axe-sistem, embora seja ax\u00e9-music. Voc\u00ea falou de amor e o Cheiro tem duas m\u00fasicas que me agradam muito: &#8220;<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5a6yy6DIs7g\" target=\"_blank\">Amor amor amor \/ tem cheiro de amor pelo pa\u00eds<\/a><\/strong><strong>&#8220;, e outra que lembra as coisas da Formid\u00e1vel: &#8220;<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=oZjvuOtggmQ\" target=\"_blank\">Sim, \u00e9 um jardim, mui delirante \/ com mil e um lances de brilho e de cor<\/a><\/strong><strong>&#8220;. O Cheiro de Amor fazia can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida! Voc\u00ea pode at\u00e9 n\u00e3o gostar, mas acaba cantando junto, fica na cabe\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa de uma\u00a0Dan\u00e7a da Tartaruga\u00a0(Asa de \u00c1guia). Mas o Asa \u00e9 honesto: Durval L\u00e9lis j\u00e1 disse no\u00a0Doming\u00e3o do Faust\u00e3o\u00a0que ele n\u00e3o faz m\u00fasica, e sim anima festas. Tem de ter uma parceria entre letra e melodia. O Chiclete por exemplo na maioria das vezes faz can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dPCUkve-xRc\" target=\"_blank\">Chiclete com Banana j\u00e1 fez m\u00fasica com letra de Manuel Bandeira<\/a><\/strong><strong>, que \u00e9 o poema <em><a href=\"http:\/\/cortenaaldeia.blogspot.com\/2006\/12\/no-leito-estreito-da-redondilha.html?zx=de09eaf068a595cd\" target=\"_blank\">Redondilha<\/a><\/em><\/strong><strong>. \u00c9 can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei&#8230; N\u00e3o sei falar direito sobre m\u00fasica, como j\u00e1 disse sou mais intuitivo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fazia can\u00e7\u00e3o n&#8217; <em>O C\u00edrculo<\/em>?<\/strong><br \/>\nFazia tamb\u00e9m can\u00e7\u00e3o. Mas fazia antes m\u00fasica. A gente n\u00e3o tinha um programa pr\u00e9vio de respeitar as normas da can\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque a cria\u00e7\u00e3o era coletiva. Nem todas as letras eram minhas, e nem todas as melodias.\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jK4uJuWdpNA&amp;feature=related\" target=\"_blank\">A Janela<\/a><\/em>, a letra \u00e9 de Daniel Ragoni (bateria) e minha.<\/p>\n<p><strong>Ah, \u00e9?! Mas \u00e9 muito parecido com\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FewtaErM-g0\" target=\"_blank\">Depois de Ver<\/a><\/em>.<\/strong><br \/>\nTaciano (guitarra) escreve bem pacaramba e n\u00e3o mostra. Daniel tem muitas m\u00fasicas legais, que ele n\u00e3o acha boas o suficiente. A\u00ed ele mostrou o come\u00e7o de\u00a0A Janela, e depois disse: n\u00e3o isso n\u00e3o serve pro C\u00edrculo n\u00e3o, a letra \u00e9 muito triste. E a\u00ed eu disse: mas por que n\u00e3o serve? \u00c9 s\u00f3 dar uma roupagem alegre na m\u00fasica, at\u00e9 pra letra comunicar mais f\u00e1cil isso que ela quer comunicar que \u00e9 dif\u00edcil e doloroso.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea diz que seu p\u00fablico rejeitaria se voc\u00ea cantasse por exemplo com Daniela Mercury. No entanto, voc\u00ea reconhece que seu p\u00fablico sai no Cheiro de Amor. Voc\u00ea acha ent\u00e3o que o di\u00e1logo entre o ax\u00e9-music e o rock n\u00e3o existe?<\/strong><br \/>\nExiste di\u00e1logo porque O C\u00edrculo, por exemplo, consegue se comunicar bem com qualquer classe social, e o ax\u00e9 se comunica bem com a massa. E deixo claro que n\u00e3o tenho nada contra o ax\u00e9-music, tenho contra seu sistema, contra a forma de se trabalhar com a arte: uma coisa \u00e9 se comercializar a arte, outra \u00e9 modificar a arte pra se comercializar. E geralmente se faz isso da forma mais f\u00e1cil, que \u00e9 a imita\u00e7\u00e3o. O p\u00fablico do que chamam de &#8220;alternativo&#8221; \u00e9 uma minoria que sabe deste sistema, e que sabe da parte boa do ax\u00e9, e \u00e9 formadora de opini\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Eu n\u00e3o gosto do termo &#8220;Alternativo&#8221; porque impede o di\u00e1logo. Acho que o termo valia no auge do ax\u00e9-sistem; na atual abertura pol\u00edtica e est\u00e9tica o termo n\u00e3o vale mais.<\/strong><br \/>\nTem uma m\u00fasica do C\u00edrculo que fala &#8220;Pare e veja \/ estamos em guerra \/ todo mundo quer chegar na frente&#8221;. O ax\u00e9-music come\u00e7ou como uma coisa coperativista, antes de virar um sistema, h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s; e depois virou um &#8220;estou cuidando de mim, e se algu\u00e9m aparecer tamb\u00e9m no mercado eu passo por cima&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Ivete Sangalo \u00e9 muito generosa: ela apoia o Neojib\u00e1, produz a Orkestra Rumpilezz&#8230; Ali\u00e1s \u00e9 uma marca da atual abertura: a generosidade, de todos os lados.<\/strong><br \/>\nIvete \u00e9 muito generosa. Mas talvez ela fa\u00e7a ax\u00e9 por op\u00e7\u00e3o, porque gosta, e n\u00e3o como uma conhecida imita\u00e7\u00e3o dela, uma coisa mais mercadol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou da penetra\u00e7\u00e3o de O C\u00edrculo nas camadas populares. CH, do Retrofoguetes, fala disso com elogio, mas de um modo esculhambado. No show deles no TCA ele dizia: &#8220;Cajazeiras vai descer!&#8221;. Essa penetra\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por ser can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Pelo fato de ser can\u00e7\u00e3o, e das letras serem simples sem serem vulgares, voc\u00ea acaba atingindo o p\u00fablico. E no caso de O C\u00edrculo, a guitarra de Taciano consegue ser rock sem ser agressiva. A gente conseguia um equil\u00edbrio entre o teclado e a guitarra mais suaves, balanceada com a bateria mais agressiva e com a voz variando bruscamente entre a suavidade e a intensidade. E a letra do rock \u00e9 muito espec\u00edfica do rock; e a letra rom\u00e2ntica \u00e9 muito melosa. Mas pode ter rock na can\u00e7\u00e3o de amor, e amor nas can\u00e7\u00f5es de rock.<\/p>\n<p><strong>Os Beatles, que s\u00e3o rock, sempre fizeram can\u00e7\u00e3o. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/vanguart\" target=\"_blank\">Vanguardt<\/a><\/strong><strong> (do Mato Grosso), toca Beatles e faz vers\u00f5es pra rock de modas de viola.<\/strong><br \/>\nLembrei de Joe, baixista do Inkoma (de Pitty). E pensei: o que \u00e9 que esse cara escuta. Em S\u00e3o Paulo fiquei ouvindo a cole\u00e7\u00e3o dele, ele me mostrando. E ele me mostrou coisas que ele ouvia e que eu jamais imaginaria, tipo: lambada. Eu n\u00e3o via conex\u00e3o entre isso e o trabalho dele com Pitty. Mas \u00e9 aquela hist\u00f3ria: a can\u00e7\u00e3o entra na sua cabe\u00e7a, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o goste, porque revelam uma \u00e9poca e uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>No\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=384\" target=\"_blank\">Baile Esquema Novo<\/a><\/strong><strong> se considera lambadas em franc\u00eas m\u00fasica brasileira, porque fazem parte da nossa cultura e n\u00e3o da Guiana por exemplo. O Baile Esquema Novo \u00e9 uma festa de can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 sim, com certeza. O Baile tem o DJ al\u00ed, mas as pessoas s\u00e3o o show. Todos que est\u00e3o na pista s\u00e3o os vocais. Voc\u00ea pode desligar o som \u00e0s vezes, e a m\u00fasica continua. Antes de ir tocar l\u00e1 (como DJ) eu me informei com Renata Bastos (da\u00a0Muvida) do que se tratava: ela disse que era M\u00fasica Brasileira. Mas cheguei l\u00e1 e ouvi m\u00fasicas que eu jamais imagin\u00e1ria que veria um lugar lotado com gente cantando e dan\u00e7ando elas em alto e bom som, desde Jingles de campanha pol\u00edtica (Hilton 50,\u00a0ACM meu amor) at\u00e9 Chico Buarque de Holanda.<\/p>\n<p><strong>A can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de generosidade?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Eu abdico de milh\u00f5es de coisa pela can\u00e7\u00e3o. Me alimento principalmente de m\u00fasica, e dentro disso especialmente da can\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o tem a coisa mais simples e mais sofisticada do mundo, que \u00e9 pegar-o-atalho: ela prescinde de explica\u00e7\u00e3o. Um dia estava muito mal em casa, e o vizinho colocou uma can\u00e7\u00e3o pra tocar, n\u00e3o lembro qual era, mas era de C\u00e1ssia Eller, e de repente n\u00e3o me senti mais sozinho. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de n\u00e3o estar sozinho.<\/p>\n<p><strong>Existe can\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 rom\u00e2ntica?<\/strong><br \/>\nClaro.\u00a0<em>C\u00e1lice<\/em>, de Chico Buarque, por exemplo.\u00a0<em>Canto de Ossanha<\/em>, de Vin\u00edcius de Moraes. Sabe o que \u00e9 rom\u00e2ntico pra mim? Um dia disse pra minha m\u00e3e: voc\u00ea t\u00e1 escolhendo os melhores produtos pra fazer a comida que a gente vai vender &#8211; voc\u00ea n\u00e3o vai ter lucro nenhum com isso. E ela me respondeu: &#8220;Porque \u00e9 a minha arte. Eu j\u00e1 te pedi pra fazer m\u00fasica comercial algum dia, pra ganhar dinheiro?&#8221;. \u00a0Rom\u00e2ntico pra mim \u00e9 isso: n\u00e3o interessa se voc\u00ea vai ganhar dinheiro com isso ou se vai ser ruim &#8211; ser rom\u00e2ntico \u00e9 ser fiel a si mesmo. Eu entendo romantismo como Castro Alves: algo libert\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>O patamar m\u00e1ximo da can\u00e7\u00e3o \u00e9 quando ela ganha a dimens\u00e3o de Hino.\u00a0Chame-gente\u00a0\u00e9 um hino: ela \u00e9 um frev\u00e3o (e portanto uma n\u00e3o-can\u00e7\u00e3o), uma can\u00e7\u00e3o e um hino, c\u00edvico at\u00e9. Eu considero\u00a0Depois de Ver\u00a0e\u00a0A Janela\u00a0hinos, porque mostram que a Salvador do axezismo podia ser muito maior, que havia um outro mundo l\u00e1 fora, e Salvador era &#8220;s\u00f3 um lado do mundo \/ era s\u00f3 esse que eu via&#8221;. Num artigo in\u00e9dito meu eu digo que voc\u00ea, faminto de abertura, deu esta fome como alimento para as gera\u00e7\u00f5es mais novas que a podem viver.\u00a0Depois de Ver\u00a0\u00e9 um hino?<\/strong><br \/>\nPra mim, \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea se sente sobrevalorizado com isso com a id\u00e9ia de ter feito o hino\u00a0involunt\u00e1rio\u00a0da elei\u00e7\u00e3o de Jaques Wagner ao governo do estado?<\/strong><br \/>\nSe a gente tivesse feito um hino para todos, sim. Mas a gente fez como um hino pessoal. O hino \u00e9 acidental, e talvez com isso\u00a0n\u00f3s estiv\u00e9ssemos no mesmo ponto cego que Chico Buarque. E amanh\u00e3 ou depois de amanh\u00e3 pode deixar de ser um hino. Porque o hino n\u00e3o morre; e se o hino morrer? Eu n\u00e3o posso falar pra uma gera\u00e7\u00e3o inteira&#8230;<\/p>\n<p><strong>Mas O C\u00edrculo fala pra uma gera\u00e7\u00e3o inteira&#8230;<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o acredito nisso n\u00e3o. Existe uma vontade muito grande em mim disso, mas ainda me sinto um adolescente que t\u00e1 chegando pra fazer, e na verdade uma banda fez isso por mim antes. Eu conheci essa banda e falei: \u00e9 poss\u00edvel. Essa banda era a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/bandadiamba\" target=\"_blank\">Diamba<\/a>. Que na \u00e9poca de total fechamento da cidade, h\u00e1 10 anos atr\u00e1s, fazia j\u00e1 um trabalho duradouro e de excelente qualidade. E antes deles, Edson Gomes abriu caminho pra Diamba. Tem uma galera que vai abrindo caminho. Ent\u00e3o de repente hoje a gente est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de abrir caminho, mas ainda n\u00e3o nos demos conta disso.<\/p>\n<p><strong>Os seus f\u00e3s s\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o mais nova do que voc\u00ea. S\u00e3o colegiais, geralmente. Voc\u00ea se sente respons\u00e1vel por eles?<\/strong><br \/>\nEu me preocupo com isso. Temo como eu posso influenciar eles. Eu sei da capacidade que tenho de influenci\u00e1-los, mesmo que indiretamente.<\/p>\n<p><strong>Do que voc\u00ea depende pra compor?<\/strong><br \/>\nSentimentos. Do amor ao \u00f3dio. E de caf\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"425\" height=\"344\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/LJpMBwYoG2o&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"425\" height=\"344\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/LJpMBwYoG2o&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p><strong>Como Nietzsche &#8211; ele fala do valor do \u00f3dio. Eu acho sua obra muito Nietzscheana.<\/strong><br \/>\nEu aprendi com o teatro a direcionar o \u00f3dio. Eu fiz\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=x56_4YpqxR8\" target=\"_blank\">Machado<\/a><\/em>, que \u00e9 muito nietzscheana, eu primeiro criei a m\u00fasica e s\u00f3 depois eu li Nietzsche. Eu n\u00e3o sei parar e escrever. Ela acontece.<\/p>\n<p><strong><em>Depois de Ver<\/em> tamb\u00e9m. Parece\u00a0Demian, de Herman Hesse.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea ficou sabendo disso?! Eu fiz depois de ler\u00a0Demian&#8230;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o, isso s\u00f3 me ocorreu agora.<\/strong><br \/>\nPois foi. Fiz em S\u00e3o Paulo, depois de ler\u00a0Demian\u00a0e assistir o filme sobre Ray Charles.<\/p>\n<p><strong>A can\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter de legado \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/strong><br \/>\nDeixa eu perguntar uma coisa nada a ver: Michael Jackson \u00e9 can\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>\u00c0s vezes.\u00a0<em>Heal the World<\/em> \u00e9 can\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>ABC<\/em> \u00e9 can\u00e7\u00e3o. Voltando, se a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai acabar no mesmo sentido que o r\u00e1dio n\u00e3o vai acabar, por que Chico Buarque diz que a can\u00e7\u00e3o acabou?<\/strong><br \/>\nVem c\u00e1, esses caras t\u00e3o vivos, por que n\u00e3o continuam a fazer can\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que isso n\u00e3o \u00e9 medo de se extinguir &#8211; e a\u00ed pra se proteger ele projeta isso na can\u00e7\u00e3o? \u00c9 que nem quando voc\u00ea termina um CD: voc\u00ea passou um temp\u00e3o criando e p\u00f5e todas as m\u00fasicas al\u00ed. E voc\u00ea pensa: e agora? vai haver um pr\u00f3ximo? Seu Jorge faz can\u00e7\u00e3o. Ana Carolina faz can\u00e7\u00e3o &#8211; eu n\u00e3o gosto dela porque acho que todas as m\u00fasicas parecem que s\u00e3o a mesma.<\/p>\n<p><strong>Fora que ela destr\u00f3i a met\u00e1fora: ela faz a met\u00e1fora num verso, e desfaz no seguinte. De modo que a can\u00e7\u00e3o se esvazia. N\u00e3o sei se ela faz can\u00e7\u00e3o porque ela elimina a met\u00e1fora, e a can\u00e7\u00e3o se sustenta na met\u00e1fora: \u00e9 a met\u00e1fora que voa.<\/strong><br \/>\nVelho, eu detesto explicar letra&#8230;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea disse que a id\u00e9ia de morte da can\u00e7\u00e3o em Chico Buarque \u00e9 um medo instintivo de se extinguir. Mas a can\u00e7\u00e3o pereniza. Voc\u00ea acha que a can\u00e7\u00e3o vence o autor?<\/strong><br \/>\nPor exemplo,\u00a0<em>Muito Rom\u00e2ntico<\/em>, de Caetano. O p\u00fablico do <em>C\u00edrculo<\/em> n\u00e3o conhecia. V\u00e1rias pessoas cairam no erro &#8211; ali\u00e1s, no acerto &#8211; de dizer: &#8220;essa m\u00fasica de voc\u00eas \u00e9 linda!&#8221;. E eu ter de dizer: &#8220;velho, essa m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 nossa, \u00e9 de Caetano!&#8221;. Vou chegar no ponto chave da quest\u00e3o da can\u00e7\u00e3o: eu mantenho a melodia vocal, s\u00f3 o instrumental \u00e9 diferente. A melodia vocal tem muito a ver com o lance da can\u00e7\u00e3o, da m\u00fasica popular e com o fato de n\u00e3o morrer. Eu posso fazer milh\u00f5es de arranjos diferentes em cima da mesma melodia vocal. E se voc\u00ea chegar s\u00f3 com a voz e cantar, a m\u00fasica pode ser registrada: voc\u00ea tem a melodia al\u00ed e a letra &#8211; que \u00e9 o b\u00e1sico para uma m\u00fasica ser registrada. E esse lance da melodia vocal se mantem com muito mais vigor do que o instrumental. O instrumental se modifica e se moderniza, tem muita tecnologia. Mas a melodia vocal \u00e9 humana, \u00e9 feita por uma pessoa, e da\u00ed uma coisa mais antiga chega at\u00e9 hoje pela voz. Veja por exemplo a tradi\u00e7\u00e3o do candombl\u00e9&#8230; Eu sou muito f\u00e3 do Chico Science: ele amou o mundo todo e amou a terra dele e conseguiu mostrar quem ele era, sintetizando uma gera\u00e7\u00e3o inteira. Chico Science conseguiu juntar o tecnol\u00f3gico com o regional, a divis\u00e3o quadrada dos tambores de maracatu com o sincopado do psicod\u00e9lico, o erudito com o popular. Eu admiro muito o regional, mas eu jamais faria um trabalho puramente regional. Eu faria Mangue Beat apenas se eu fosse recifense. Em Salvador o grande ritmo t\u00e3o forte quanto o maracatu \u00e9 o ijex\u00e1. Se um adolescente amanh\u00e3 for cantarolar no \u00f4nibus Muito Rom\u00e2ntico, um cor\u00f4a pode chegar junto e perguntar &#8220;Essa m\u00fasica \u00e9 do Caetano?&#8221;, e o guri responder &#8220;N\u00e3o, \u00e9 do C\u00edrculo&#8221;. Mas vai ser a mesma can\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>A can\u00e7\u00e3o mata o autor?<\/strong><br \/>\nAo contr\u00e1rio: eterniza.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou do palco, mas o palco n\u00e3o \u00e9 o lugar da can\u00e7\u00e3o: o r\u00e1dio, o disco, s\u00e3o mais apr\u00f3priados para a can\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nConcordo. \u00c9 como a a\u00e7\u00e3o interna, no teatro. O ator n\u00e3o precisa fazer gestos largos para se mostrar ansioso, por exemplo, se houver a\u00e7\u00e3o interna. E a can\u00e7\u00e3o \u00e9 como a a\u00e7\u00e3o interna. Quando voc\u00ea vai pra rua, a letra perde import\u00e2ncia: voc\u00ea quer se movimentar. Da\u00ed o pagode e o ax\u00e9-music t\u00eam seu espa\u00e7o. A can\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, d\u00e1 o contato interno &#8211; que talvez n\u00e3o se sinta tanto nas festas de rua.<\/p>\n<p><strong>A can\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter visual: descreve, conta hist\u00f3rias. Especialmente as suas can\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea entende isso?<\/strong><br \/>\nA vis\u00e3o \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o mais imediata. Tanto quanto a can\u00e7\u00e3o. \u00c9 o lance de misturar a palavra com a vis\u00e3o. Voc\u00ea cria paisagens imediatas. Antes de Daniel criar\u00a0A Janela\u00a0eu dizia: \u00e9 muito bom olhar, mas \u00e9 melhor olhar andando. E a can\u00e7\u00e3o \u00e9 muito de andar na rua. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 um video-clip. Por exemplo, em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TUFp6vxrkSE&amp;feature=related\" target=\"_blank\"><em>Amor de Gra\u00e7a<\/em><\/a>: &#8220;Fila na sombra do poste no ponto&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Sobre essa id\u00e9ia de que Chico Buarque diz que a can\u00e7\u00e3o morreu como uma proje\u00e7\u00e3o para se preteger de sua pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o pessoal.<\/strong><br \/>\nQue eu acho uma besteira. Se eu pudesse tomaria a liberdade de dizer: &#8220;Deixe de besteira, Chico&#8221;. Talvez ele n\u00e3o reconhe\u00e7a a grandiosidade dele e o quanto ele lega pras pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Minha id\u00e9ia \u00e9 a seguinte: a can\u00e7\u00e3o nasceu com e no Modernismo. Damm (da\u00a0Formid\u00e1vel) concorda comigo, tanto que diz que a morte da can\u00e7\u00e3o \u00e9 um correlato do fim-da-hist\u00f3ria, de Fukuyama. Hoje vivemos um momento de neo-modernismo, de retorno da import\u00e2ncia do Estado e dos projetos de longo prazo, o fim da p\u00f3s-modernidade e do neo-liberalismo. Da\u00ed a retomada da can\u00e7\u00e3o. Fran\u00e7ois Miterrand foi o \u00faltimo dos grandes estadistas modernistas, e como \u00faltimo golpe contra o neo-liberalismo ele deixa um vatic\u00ednio eg\u00f3latra que na verdade acelera e acirra o neoliberalismo que ele tentava evitar: &#8220;Depois de mim, n\u00e3o haver\u00e1 estadistas &#8211; s\u00f3 administradores&#8221;. Voc\u00ea acha que quando Chico Buarque diz que a can\u00e7\u00e3o morreu, ele t\u00e1 dando uma de Miterrand?<\/strong><br \/>\n[suspiro] Sim. [suspiro]\u00a0A can\u00e7\u00e3o vai continuar por outras gera\u00e7\u00f5es, mas quantas? \u00c9 como o Sol: ele vai brilhar amanh\u00e3 e depois e depois, mas at\u00e9 quando? Acho que a can\u00e7\u00e3o vai continuar com a mesma certeza que tenho de que meus genes continuam em minha filha. Um cara um dia na Concha Ac\u00fastica disse: &#8220;velho, eu preciso te agradecer. A m\u00fasica \u00e9 minha vida, e foram voc\u00eas que me fizeram descobrir isso&#8221;. Outro epis\u00f3dio foi um gurizinho que morava no meu pr\u00e9dio e eu ensinei ele os primeiros acordes de viol\u00e3o. Anos depois eu encontrei ele num ensaio, e ele fazia pagod\u00e3o &#8211; mas nesse cara ficou o est\u00edmulo de fazer a m\u00fasica. A\u00ed ele me abra\u00e7ou e me agradeceu muito. A can\u00e7\u00e3o n\u00e3o ficou talvez, mas a vontade de faz\u00ea-la sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de pagode e uma coisa que eu gosto muito em voc\u00ea \u00e9 o seu sotaque bahiano. Por exemplo, &#8220;<a href=\"http:\/\/goog_1249733238810\/\" target=\"_blank\">Pare com isso,\u00a0v\u00e1!<\/a><\/strong><strong>&#8220;. \u00c9 muito bahiano de um modo n\u00e3o \u00f3bvio.<\/strong><br \/>\n\u00c9 bem Itapo\u00e3, n\u00e9? Mas eu n\u00e3o tinha essa preocupa\u00e7\u00e3o com o sotaque. Eu\u00a0tinha perdido\u00a0meu sotaque, por que fiz teatro e tal. As pessoas pediam pra eu tirar o sotaque. Ao mesmo tempo, havia trabalhos que me pediam pra eu carregar no sotaque. Eu fazia teatro de rua, popular, bem puxado. Acho que ningu\u00e9m em Salvador fez teatro de rua como esse grupo, que era do SESI Rio Vermelho antes de aquele casar\u00e3o ser teatro. Tem mais de dez anos. Quando fui pra S\u00e3o Paulo, me senti mais bahiano do que aqui, e minha saudade acabou resgatando meu orgulho\u00a0retado,\u00a0da porra, de ser bahiano &#8211; inclusive meu sotaque.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"425\" height=\"344\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/vtbfAHR4DGc&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"425\" height=\"344\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/vtbfAHR4DGc&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ex-centro d&#8217;O C\u00edrculo Da s\u00e9rie de entrevistas e artigos que tenho publicado, sobre a perenidade da can\u00e7\u00e3o, esta foi de sa\u00edda a mais dif\u00edcil para ambos &#8211; e creio que a mais prazerosa. 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