{"id":1905,"date":"2009-10-15T13:15:46","date_gmt":"2009-10-15T16:15:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1905"},"modified":"2025-12-24T13:03:37","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:37","slug":"por-uma-politica-de-cinema-com-dende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1905","title":{"rendered":"Por uma pol\u00edtica de cinema, com dend\u00ea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1907\" title=\"glauber\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/glauber.jpg\" alt=\"glauber\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/glauber.jpg 720w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/glauber-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a revista Bravo! pertencia a D&#8217;\u00c1villa editora, era altamente plural (tinha como ensa\u00edstas desde Olavo de Carvalho, na ponta direita, a Ariano Suassuna, na ponta esquerda), e assim se configurava como a melhor publica\u00e7\u00e3o mensal regular em lusa l\u00edngua &#8211; isto \u00e9: antes de a editora (1\u00ba de) Abril (de 1964) comprar a Bravo! e transform\u00e1-la na &#8220;Revista Cl\u00e1udia&#8221; das artes, que \u00e9 o que ela \u00e9 hoje &#8211; S\u00e9rgio Augusto de Andrade escreveu nela o mais seminal e enxuto texto sobre cinema brasileiro que j\u00e1 li desde a morte de Glauber Rocha. No subt\u00edtulo, ele j\u00e1 vaticinava:<\/p>\n<blockquote style=\"text-align: justify;\"><p>&#8220;O cinema brasileiro \u00e9 pior do que ruim: n\u00e3o existe!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O leitor deve achar estranho: como?! nunca produzimos tantos e t\u00e3o bons filmes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato: para uma classe m\u00e9dia que torce o nariz para eles (para os bons, pelo menos, enquanto aplaude coisas como <em>Se Eu Fosse Voc\u00ea<\/em>, da Globo Filmes), que mora em grandes cidades, e que n\u00e3o sabe que Nelson Pereira dos Santos est\u00e1 vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter cinema nada tem a ver com fazer filmes, como demonstra <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=l24JpciC1vk\" target=\"_blank\">Jean-Luc Godard no excelso Cap\u00edtulo IV de Historia(s) Do Cinema<\/a>, sobre o Realismo Social Italiano (que alguns chamam, erradamente, de neo-realismo). Diz ele: durante a 2\u00aa Guerra, houve paises que fizeram filmes sem fazer cinema (Inglaterra &#8211; \u00e9 justo os anos que Hitchcock se muda pra Hollywood e vira Hitchcock de verdade); outros, faziam cinema durante a resist\u00eancia, sem ser na resist\u00eancia (Hollywood); outros, fizeram cinema na resist\u00eancia (a Fran\u00e7a, tendo o mais her\u00f3ico exemplo no sublime d\u00edptico de Marcel Carn\u00e9: <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CAL4byDSFnU\" target=\"_blank\"><em>Boulevard do Crime \/ As Crian\u00e7as do Para\u00edso<\/em><\/a>); e a It\u00e1lia, que sem fazer um filme sequer, fez n\u00e3o apenas cinema <strong>na<\/strong> resist\u00eancia, <strong>durante<\/strong> a resist\u00eancia, mas sobretudo <strong>de<\/strong> resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Cinema no in\u00edcio dos anos 1940 na it\u00e1lia foi a grande arma de desconstru\u00e7\u00e3o mental do facismo. Indo de cidade em cidade como mascates circenses, Vitorio de Sica, Roberto Rosselini, e outros, exibiam filmes. Qualquer filme. De Hollywood, da Path\u00e9, da It\u00e1lia pr\u00e9-guerra, do expressionismo alem\u00e3o e de propaganda nazi-facista. N\u00e3o importa. O importante era, como diria mais tarde o patrono esquecido do Cinema Novo, Dr. Walter da Silveira, ver filmes em pel\u00edcula &#8211; e discut\u00ed-los sem preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim que a mentalidade &#8220;de esquerda&#8221; foi gestada e que levaria, no final dos anos 50, a ascen\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Italiano. O m\u00e9todo caixeiro-viajante n\u00e3o se extinguiu quando a produ\u00e7\u00e3o filmica retornou, no fim dos 40. Ele s\u00f3 se arrefeceu na segunda gera\u00e7\u00e3o do Realismo, com Visconti, Antonioni, Felinni e Bertolucci. Mas a\u00ed porque o h\u00e1bito na popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 existia. E mais importante: salas de cinema, aos montes, pelo interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Glauber Rocha viveu e morreu dizendo que o problema do cinema brasileiro era um problema de financiamento. N\u00e3o tanto de financiamento de obras, mas do ingresso. Glauber lembrava que, diferente das outras artes, o cinema \u00e9 antes industria, e como tal seu primeiro foco \u00e9 dar lucro. Lucro atrav\u00e9s do patroc\u00ednio e da venda de bilhetes. E que assim o cinema era um paradoxo: arte cara de ser produzida, mas reprodut\u00edvel ad infinitum torna-se barata de ser consumida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, Glauber tentou baratear a produ\u00e7\u00e3o. E criou, no Governo Geisel, talvez o melhor modelo de financiamento de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica que o mundo j\u00e1 viu: a Embrafilmes. Glauber partia do seguinte princ\u00edpio: o cinema puramente privado, como Hollywood, gerava lixo demais para produzir obras-primas; o cinema estatal, modelo europeu, produz praticamente apenas bons filmes, quase sem fazer lixo, mas sob tutela ideol\u00f3gica, e com linguagem elitista e excludente do povo (embora o pr\u00f3prio cinema de Glauber seja herm\u00e9tico, ele admirava as chanchadas da Atl\u00e2ntida por sua capacidade de penetra\u00e7\u00e3o popular). O cinema independente americano era muito irregular e n\u00e3o profissionalizava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Embrafilmes se configurou como uma empresa estatal de capital misto. O estado garantiria prejuizos eventuais, minimizando a produ\u00e7\u00e3o de filmes irrelevantes; por outro lado, os acionistas privados impulsionariam o lucro. Tal como \u00e9 a Petrobr\u00e1s de Lula, a CEMIG de A\u00e9cio Neves, e como deveria ter sido a Vale se Fernando Henrique n\u00e3o se apequenasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por acaso, \u00e9 com Ernesto Geisel que a Embrafilmes emplaca: foi o \u00faltimo governante que tivemos com vis\u00e3o estrat\u00e9gica ampla da na\u00e7\u00e3o. E o \u00fanico assim entre os militares. Desde entao, a Embrafilmes foi desconstru\u00edda e virou a ANCINE: uma ag\u00eancia reguladora (ruim como s\u00f3 ag\u00eancias reguladoras sabem ser) que \u00e9 capaz de indicar <em>Salve Geral<\/em>, um filme superficial e mal-feito, pra concorrer ao Oscar &#8211; num ano que temos <em><a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1650\" target=\"_blank\">\u00c0 Deriva<\/a><\/em>. Isso sim mereceria o nome de esquerdopatologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, a outra ponta nunca foi resolvida: como dar acesso \u00e0s salas de exibi\u00e7\u00e3o a milh\u00f5es de brasileiros? O Brasil tem atualmente tr\u00eas modelos de sala: os multiplexes (holdings), as salas de arte de iniciativa privada (que se configuram como micro e pequenas empresas), e as salas estatais (como a Walter da Silveira, em Salvador). Em algumas cidades, as salas de arte conseguem fazer frente aos multiplexes, e as salas estatais servem como boas reguladoras. Salvador \u00e9 historicamente exemplar nisso, mesmo no derris\u00f3rio (des)Governo C\u00e9sar Borges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que mesmo aqui a iniciativa \u00e9 t\u00edmida. A Walter vive, e vivia, \u00e0s moscas. Durante alguns anos encheu, mas justamente os anos de pareceria com a SalaDeArte e o Multiplex Iguatemi, e com a Casa D&#8217;It\u00e1lia \/ Instituto Dante Alighieri. Ou seja: quando esteve numa parceria p\u00fablico-privada n\u00e3o-oficial. E o Grupo SalaDeArte n\u00e3o recebe mais do que incentivos de praxe do governo de plant\u00e3o (qualquer que seja ele: mais no atual, menos no anterior). N\u00e3o toma-se esta empresa como parceiro preferencial, e agente de mudan\u00e7a psicossocial importante que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro dos multiplexes, \u00e9 preciso diferenciar os chamados ArtPlex. Do ponto de vista financeiro, a l\u00f3gica \u00e9 a mesma: grandes empresas dominadoras de mercado, ligadas a banco. Mas na pr\u00e1tica, \u00e9 diferente: os clientes do banco pagam meia (e no caso do Espa\u00e7o Unibanco, o mesmo vale para Clientes Hipercard, talvez o cart\u00e3o de cr\u00e9dito mais &#8220;de pobre&#8221; do pa\u00eds, com uma estrondosa penetra\u00e7\u00e3o no Nordeste, especialmente nas pequenas cidades do interior e nos sub\u00farbios de capitais); e sua programa\u00e7\u00e3o \u00e9 menos plutocr\u00e1tica, mais autoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria l\u00f3gica de salas de exibi\u00e7\u00e3o estatais \u00e9 question\u00e1vel. A id\u00e9ia vem das salas de teatro estatais. Ora, teatro \u00e9 uma atividade artesanal (mesmo se tem dimens\u00f5es de \u00f3pera), de baixa reprodutibilidade, e de or\u00e7amento naturalmente deficit\u00e1rio. Isso o Secret\u00e1rio de Cultura do Estado da Bahia faz quest\u00e3o de lembrar sempre, homem de teatro que \u00e9. O cinema n\u00e3o: ao contr\u00e1rio, \u00e9 industrial e lucrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pra n\u00e3o ficar s\u00f3 em divaga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, o que eu proponho? Duas coisas:<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Privatize-se a Sala Walter. N\u00e3o digo vender. Digo ceder em concess\u00e3o ou comodato para o Grupo SalaDeArte (sem licita\u00e7\u00e3o, por atribui\u00e7\u00e3o de Not\u00f3rio Saber), que pode administr\u00e1-la e divulg\u00e1-la melhor. A concess\u00e3o incluiria o Estado subsidiar parte dos ingressos, para manter o pre\u00e7o mais baixo do que nas outras salas (e que, sendo do Circuito SalaDeArte, ampliaria o acesso tamb\u00e9m a estas salas, j\u00e1 que o canhoto de uma inteira vale, no Circuito, meia-entrada). Na pr\u00e1tica, o Estado j\u00e1 subsidia, desde que a Walter vive vazia mas tem custos. Este subsidio poderia vir burocraticamente de forma simples: na pr\u00e1tica, as contas de \u00e1gua, luz e telefone continuariam vindo em nome da Biblioteca Dos Barris, onde fica a sala;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Incentivo a interioriza\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Unibanco. Talvez com algum est\u00edmulo fiscal. Nas grandes cidades do interior, como Artplex; nas pequenas, como salas individuais. \u00c9 absurdo que cidades como Cachoeira e Santo Amaro da Purifica\u00e7\u00e3o, que tinham cinema, n\u00e3o tenham mais.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Bahia, por sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com o cinema, e pela infraestrutura deste enquanto exibi\u00e7\u00e3o que herdou (benditamente) do carlismo e do anti-carlismo, est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de, mais uma vez, propor uma mudan\u00e7a radical na produ\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o f\u00edlmica no pa\u00eds. Basta ter coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveito para lembrar que <a href=\"http:\/\/setarosblog.blogspot.com\/2009\/08\/os-sem-cinema-sao-agora-maioria.html\" target=\"_blank\">a extin\u00e7\u00e3o das salas de bairro foi a pior desgra\u00e7a que j\u00e1 ocorreu ao cinema no Brasil<\/a>, e ocorreu justamente nos anos da dita Retomada F\u00edlmica (retomada como, se foi quando se extinguiu a Embrafilmes?). E que interiorizar e aumentar a frequ\u00eancia ao cinema \u00e9 a melhor forma de combater a m\u00eddia televisiva, melhor do que a internet at\u00e9. Assistir a filmes em sala de exibi\u00e7\u00e3o (multiplexes parcialmente exclu\u00eddos) requer um isolamento f\u00edsico que propicia um estado mental mais dado a reflex\u00e3o e a cr\u00edtica, com uma linguagem t\u00e3o acess\u00edvel quanto a da TV, s\u00f3 que mais rica e sofisticada. Cinema para todos \u00e9 sobretudo uma pratica de pedagogia pol\u00edtica &#8211; de novo, como a paup\u00e9rrima It\u00e1lia da Resist\u00eancia mostrou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a revista Bravo! pertencia a D&#8217;\u00c1villa editora, era altamente plural (tinha como ensa\u00edstas desde Olavo de Carvalho, na ponta direita, a Ariano Suassuna, na ponta esquerda), e assim se configurava como a melhor publica\u00e7\u00e3o mensal regular em lusa l\u00edngua &#8211; isto \u00e9: antes de a editora (1\u00ba de) Abril [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[919,12],"tags":[285,26,411,408,152,1111,979,129,213,1109,1110,15,114,1108],"class_list":["post-1905","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-01flanar","category-01ver","tag-brasil","tag-cinema","tag-cinema-de-bairro","tag-glauber-rocha","tag-marcio-meirelles","tag-midia","tag-pig","tag-politicas-publicas","tag-sala-walter-da-silveira","tag-saladearte","tag-salas-de-exibicao","tag-salvador","tag-secretaria-de-cultura-do-estado-da-bahia","tag-sergio-augusto-de-andrade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1905","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1905"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1905\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4321,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1905\/revisions\/4321"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}