{"id":1871,"date":"2009-10-07T06:10:39","date_gmt":"2009-10-07T09:10:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1871"},"modified":"2025-12-24T13:03:37","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:37","slug":"o-anti-cinema-de-lars-von-trier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1871","title":{"rendered":"O Anti-Cinema de Lars von Trier"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1872\" title=\"Anticristo_Poster\" src=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/Anticristo_Poster.jpg\" alt=\"Anticristo_Poster\" width=\"272\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/Anticristo_Poster.jpg 272w, https:\/\/www.ultimobaile.com\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/Anticristo_Poster-204x300.jpg 204w\" sizes=\"auto, (max-width: 272px) 100vw, 272px\" \/>Anticristo<\/strong> \u00e9 o filme que marca a entrada de Lars von Trier na Opus Dei. Se <em>Dogville<\/em> j\u00e1 era uma apologia da misoginia, e <em>Manderlay<\/em> ultra-racista e tutelar, <strong><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Tm2A15GCs14\" target=\"_blank\">Anticristo<\/a><\/strong> consegue ser um filme de tese.<\/p>\n<p>Tese: &#8220;Mantenha o celibato mesmo durante o casamento &#8211; sen\u00e3o seus filhos podem morrer&#8221;.<\/p>\n<p>Corol\u00e1rio: &#8220;O feminic\u00eddio da Santa Inquisi\u00e7\u00e3o foi o auge da civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, do ponto de vista formal (que \u00e9 onde ele se saia bem mesmo em <em>Dogville<\/em> e <em>Manderlay<\/em>. Isto \u00e9: a problematiza\u00e7\u00e3o brechtiana do cinema como ilus\u00e3o e como realidade), n\u00e3o passa de uma longu\u00edssima pe\u00e7a publicit\u00e1ria de desodorante masculino, para a televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que Lars von Trier sempre foi um cineasta cat\u00f3lico, e que desde sua obra-prima <em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ik3qg3k7oPs\" target=\"_blank\">Europa<\/a><\/em> tem se tornado ainda mais, n\u00e3o \u00e9 um problema. <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=J1VteiLfePw&amp;feature=fvsr\" target=\"_blank\">Carl Theodor Dreyer<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NSeIlQHthJI\" target=\"_blank\">Robert Bresson<\/a>, dois de seus referidos mestres, tamb\u00e9m o s\u00e3o. E abordar a m\u00edstica masoquista feminina do catolicismo n\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, em si um problema. Trier tem duas vertentes de trabalho: a formalista (que chega ao auge em <em>Europa<\/em>) e a, digamos, de camera livre, onde prevalece o roteiro e a emotividade, e tem seu auge em <em>Ondas do Destino<\/em>. <em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=b_3Nio8P5gQ&amp;feature=PlayList&amp;p=FFB0F18D1EE92D9B&amp;playnext=1&amp;playnext_from=PL&amp;index=14\" target=\"_blank\">Ondas<\/a><\/em> \u00e9 exatamente um filme sobre a m\u00edstica de Santa Teresa de \u00c1vila: uma mulher que, para tornar-se santa, faz-se de prostituta para diversos homens por amor ao marido parapl\u00e9gico que assim o pede; ela sustenta esta posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 enlouquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde Jean-Luc Godard o mundo n\u00e3o via algu\u00e9m t\u00e3o capaz de articular teoria e pr\u00e1tica f\u00edlmica. Godard afirmava que o cinema pornogr\u00e1fico precisa ser entendido como parte do cinema, e do cinema puro; Trier fez isso acontecer, ao fundar a <a href=\"http:\/\/www.zentropa.dk\/\" target=\"_blank\">Zentropa<\/a> (que suspeito ter for\u00e7ado o salto de qualidade na industria pornogr\u00e1fica europ\u00e9ia como um todo, inclusive a comercial). Godard apontava para, se o diretor como autor foi um ganho da Nouvelle Vague, essa posi\u00e7\u00e3o se exagerou ao limite do hermetismo; Trier foi l\u00e1 e fundou o Dogma 95, que pregava a des-autoralidade (embora no Dogma ele s\u00f3 tenha filmado o mediano <em>Os Idiotas<\/em>. Os grandes filmes do Dogma seguem sendo <em>Festa de Fam\u00edlia<\/em>, de Thomas Vinterberg, e <em>Lovers<\/em>, de Jean-Marc Baar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 que o discurso de Trier abriu m\u00e3o da densa reflex\u00e3o filos\u00f3fica de que s\u00f3 o catolicismo \u00e9 capaz (e que engendrou de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz a Soren Kiekergaard, de L\u00facio Cardoso a J. R. R. Tolkien), para enveredar pela prega\u00e7\u00e3o quase evang\u00e9lica (que, mesmo quando travestida de boa literatura, gerou apenas curiosidades m\u00f3rbidas como C. S. Lewis e suas p\u00e9ssimas <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>), algo entre a Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica e a Can\u00e7\u00e3o Nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, mesmo nos seus filmes recentes, apelativos e fracos em termos de f\u00e1bula (conte\u00fado), mantinha-se na estrutura a dicotomia de Bretold Brecht: a rela\u00e7\u00e3o entre emo\u00e7\u00e3o (ilus\u00f3ria) e artif\u00edcios expostos em esqueleto de linguagem &#8211; esta ocila\u00e7\u00e3o marcou o melhor da obra de Lars von Trier em conjunto. Em <strong>Anticristo<\/strong>, o que em <em>Europa<\/em> era uma renova\u00e7\u00e3o de rigor visual com uso de tecnologia, sobreposi\u00e7\u00e3o de cores e \u00e2ngulos incomuns de c\u00e2mera, virou um fetiche mercadol\u00f3gico: gotas de \u00e1gua caindo lentamente, ao som de Bach, enquanto um casal fode no chuveiro, em preto-e-branco. Pra quem j\u00e1 viu Europa, \u00e9 de um simplismo muito grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coroando esta obra-prima da porcaria, ao fim ele dedica o filme a Andrei Tarkovisky. Sinceramente: Tarkovisky, grande autor sovi\u00e9tico de Sol\u00e1ris, merece mais respeito&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anticristo<\/strong> acaba assim por ser uma mistureba de filmes de Stephen King com baixo or\u00e7amento, refugo de rascunhos de Walt Disney, e um programa matinal da Igreja Universal. E Trier entra assim para minha restrita lista de cineastas que jamais assistirei de novo. Ele que foi, de longe, o mais consistente diretor de cinema em muitas d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anticristo \u00e9 o filme que marca a entrada de Lars von Trier na Opus Dei. Se Dogville j\u00e1 era uma apologia da misoginia, e Manderlay ultra-racista e tutelar, Anticristo consegue ser um filme de tese. 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