{"id":1327,"date":"2009-07-19T19:13:31","date_gmt":"2009-07-19T22:13:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1327"},"modified":"2025-12-24T13:03:39","modified_gmt":"2025-12-24T16:03:39","slug":"recife-o-anti-axezismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=1327","title":{"rendered":"Recife &#038; o anti-axezismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um problema que passou a se colocar com o fim do carlismo e o advento do p\u00f3s-axezismo \u00e9 a ambivalente rela\u00e7\u00e3o da Bahia com Pernambuco. N\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de mera oposi\u00e7\u00e3o (ao contr\u00e1rio do que se diz, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o Rio de Janeiro X S\u00e3o Paulo), nem de simples parceria. E vai nisso motivos hist\u00f3ricos e geogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pernambuco \u00e9 um estado do que poderiamos chamar &#8220;Nordeste franco&#8221; (no sentido que em psiquiatria fala-se de mania franca, para diferenciar a mania cl\u00ednica e a hipomania). Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, num poema de <strong>Agrestes<\/strong> chamado <em>Conversas em Londres 1952<\/em> diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;E o Nordeste onde est\u00e1 no esquema?&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Vejamos: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 col\u00f4nia;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00e9 uma col\u00f4nia com o especial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que \u00e0 col\u00f4nia d\u00e1 ter hist\u00f3ria;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>#<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00e9 a col\u00f4nia condecorada,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que se deve dizer &#8216;da Coroa&#8217;,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>principalmente Pernambuco,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>onde, pelo que me diz, toda<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>#<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>coisa come\u00e7ou: e que voc\u00ea<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>n\u00e3o separa do que \u00e9 Nordeste<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>(ali\u00e1s, por que estados t\u00e3o grandes?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>por que s\u00f3 dividiram estes?)<\/strong>&#8220;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Bahia faz, nesta l\u00f3gica, parte dos &#8220;estados t\u00e3o grandes&#8221;, e n\u00e3o dos retalhados: Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Para\u00edba, Rio Grande do Norte, Cear\u00e1 &#8211; que formam o &#8220;Nordeste franco&#8221;, porque o Maranh\u00e3o j\u00e1 \u00e9 regi\u00e3o amaz\u00f4nica, al\u00e9m de ser o segundo maior estado da Regi\u00e3o, menor apenas que a Bahia. Bahia ali\u00e1s compunha, at\u00e9 a reforma de 1967 (dentro do Golpe), a regi\u00e3o Leste, junto com Minas, Rio e Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem a Bahia faz parte dos &#8220;da Coroa&#8221; por isolamento. Primeiro, por ter sediado a capital do pa\u00eds por uma vez, e quase por duas. Depois, porque como Minas, Rio, Sampa, participou de todos os ciclos econ\u00f4micos &#8211; e n\u00e3o apenas do canavieiro. Inclusive h\u00e1 ciclos quase exclusivamente bahianos: o do cacau, o do fumo e algod\u00e3o (partilhado com o Maranh\u00e3o). Em consequ\u00eancia, por nunca ter tomado parte de revoltas separatistas. Ao contr\u00e1rio, como Minas, suas revoltas sempre tiveram car\u00e1ter de unifica\u00e7\u00e3o nacional: as duas Inconfid\u00eancias s\u00e3o aqui e nas Gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a Bahia tem a maior quantidade de nordeste (semi\u00e1rido) entre todos os estados brasileiros. Os outros estados de transi\u00e7\u00e3o (Maranh\u00e3o e Minas) t\u00eam partes irris\u00f3rias de sert\u00e3o. A Bahia \u00e9, fora o litoral, quase toda sert\u00e3o: em propor\u00e7\u00f5es pernambucanas, multiplicadas por dez.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recife foi, por mais de uma d\u00e9cada, a \u00fanica capital a resistir bravamente ao ax\u00e9-sistem &#8211; inclusive publicando leis que cerceassem a penetra\u00e7\u00e3o da ax\u00e9-music no Carnaval de l\u00e1, que toca de rock e rap e frevo e maracat\u00fa, mas ax\u00e9 n\u00e3o. E, assim que o p\u00f3s-ax\u00e9 come\u00e7ou em Salvador, e mesmo antes, suas cabe\u00e7as mais produtivas nos estenderam a m\u00e3o: o Cordel do Fogo Encantado, a Orquestra Popular da Bomba do Hemet\u00e9rio, e outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Mauric\u00e9ia Desvairada, pela proximidade e facilidade de chegar l\u00e1 (\u00e9 praticamente ponte a\u00e9rea Salvador-Recife), foi a v\u00e1lvula de escape para os que n\u00e3o toleravam a Salvador mediocrizada dos anos 90. Isso teve um efeito colateral: de tanto ir a Recife, Salvador criou massa cr\u00edtica para elaborar um modus-operandi contra o ax\u00e9-sistem. Essa massa cr\u00edtica hoje est\u00e1 em boa parte dos que fazem o p\u00f3s-ax\u00e9 no \u00e2mbito privado, mas tamb\u00e9m na Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, o pernambucano m\u00e9dio n\u00e3o consegue entender a Bahia. N\u00e3o identifica Armandinho Macedo como frevo; n\u00e3o compreende que a guitarra el\u00e9trica aqui n\u00e3o \u00e9 importa\u00e7\u00e3o cultural, nem mesmo antropofagia. E acha que ax\u00e9-music e samba-reggae \u00e9 a mesma coisa! E a massa pernambucana, que segue de modo simplificat\u00f3rio a intelectualidade de l\u00e1 e fala mal da Bahia, \u00e9 a mesma que consome com avidez acr\u00edtica o Chiclete com Banana e as Ivetes Sangalo &#8211; e se assustam quando os bahianos que v\u00e3o a Pernambuco declaram detestar estas figuras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, se o discurso pernambucano \u00e9 de que quer ver a Bahia plural e fortalecida como antes, h\u00e1 um temor de que isso signifique hegemonia imperialista regional, como foi durante a <em>Avant-Gard<\/em> (d\u00e9cadas de 50 a 70) e nos anos do carlismo durante a ditadura. Portanto, na pr\u00e1tica interessaria a Pernambuco deixar a Bahia chafurdar no axezismo &#8211; enquanto ao norte eles chorariam por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta resist\u00eancia de Pernambuco \u00e0 Bahia tem raz\u00e3o de ser. O axe-sistem poderia ter sido (e nada impede que o p\u00f3s-ax\u00e9 viesse a ser tamb\u00e9m) a repeti\u00e7\u00e3o de uma trag\u00e9dia desse alijamento cultural, que teve seu auge quando ACM deu um golpe e tomou de Pernambuco sua maior cole\u00e7\u00e3o de arte sacra: a <a href=\"http:\/\/www.ipac.ba.gov.br\/site\/conteudo\/museus\/museuDetalhes.php?codMuseu=106#content\" target=\"_blank\">Abelardo Rodrigues<\/a>. Resultado: o Estado da Bahia tem dois museus de arte sacra p\u00fablicos invej\u00e1veis &#8211; Pernambuco tem meio, o de Olinda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se por um lado a retomada, acelerada pelo Governo Wagner, necessitaria da ajuda providencial dos mamelucos da Amsterd\u00e3 dos tr\u00f3picos, por outro para isso seria preciso uma disten\u00e7\u00e3o e uma ida em socorro a eles tamb\u00e9m. A Bahia precisaria aumentar sua presen\u00e7a na regi\u00e3o sem com isso ser ou parecer hegem\u00f4nica &#8211; algo como o Brasil tem feito nos paises do eixo-sul e especialmente na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 uma jogada diplom\u00e1tica delicada, e que requer atos concretos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles j\u00e1 vinham sendo feitos na \u00e1rea da cultura (a <a href=\"http:\/\/revistaraiz.uol.com.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=943&amp;Itemid=181\" target=\"_blank\">Passarela da Alegria Pernambuco Bahia<\/a>, o <a href=\"https:\/\/www.ultimobaile.com\/?p=566\" target=\"_blank\">M\u00fasica em Todos os Ouvidos<\/a>) e de infra-estrutura. Agora, um passo grande foi dado: <a href=\"http:\/\/www.comunicacao.ba.gov.br\/noticias\/2009\/07\/15\/hospital-regional-de-juazeiro-vai-beneficiar-2-milhoes-de-pessoas\" target=\"_blank\">abre-se o primeiro hospital bi-estadual em Juazeiro<\/a>, dentro do primeiro sistema de sa\u00fade bi-estadual do pa\u00eds, na rabada da primeira Univesidade Federal tri-estadual, a do Vale do S\u00e3o Francisco (UNIVASF).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil pra imprensa bahiana compreender a assertividade, cuidado, precis\u00e3o e vis\u00e3o de longo prazo que o Governador com isso demonstra. \u00c9 uma desconstru\u00e7\u00e3o do carlismo em seus efeitos externos, sobre outros estados, que tem consequ\u00eancias indiretas para dentro do estado. A m\u00eddia da SanFrancisco Nag\u00f4 fica t\u00e3o perdida quanto a Globo interpretando a pol\u00edtica externa de Lula h\u00e1 dois ou tr\u00eas anos. Hoje, a V\u00eanus Platinada desistiu de faz\u00ea-lo para evitar o r\u00eddiculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um problema que passou a se colocar com o fim do carlismo e o advento do p\u00f3s-axezismo \u00e9 a ambivalente rela\u00e7\u00e3o da Bahia com Pernambuco. 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